quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Trambique à Vista

TRAMBIQUE DO RETROCESSO AMEAÇA SE CONSOLIDAR
... uma turma de milionários resolveu fabricar candidatos para 2018. Montou um "Fundo Cívico para a Renovação da Política", de quantia e depositantes ignorados até aqui, embora tenha circulado no noticiário o nome de alguns mecenas, casos do empresário Abílio Diniz, do banqueiro Armínio Fraga e do publicitário Nizan Guanaes.
O apresentador de tevê e aspirante à Presidência Luciano Huck, tucano, figura na lista. Será ele o postulante "cívico" ao Palácio do Planalto? Ou será o prefeito e empresário João Dória Júnior, recém-acusado dentro do PSDB de fraudar licitações e abandonar São Paulo? Ou o banqueiro João Dionísio Amoedo, conselheiro do Itaú e fundador do Partido Novo, leganda que recentemente abriu as portas a outro economista financista, Gustavo Franco [o homem das contas CC-5 que serviram à prática da lavagem de dinheiro conhecida como o megaescândalo do Banestado], ex-tucano?
O certo é que o fundo nasce sob suspeita de ser uma tentativa disfarçada de burlar a proibição de doações empresariais. Foi o que fez o Ministério Público Federal ser cobrado a investigar. O pedido é de 3 de outubro, três dias antes do lançamento do fundo, e até a conclusão desta reportagem na quarta-feira 11 não havia providência a respeito. O documento quer que sejam averiguados os "reais objetivos do fundo, apontado como fonte de cooptação ilícita de cidadãos, uma "ditadura do dinheiro, com a formação de um exército do poder econômico".
Quer da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a suspensão de qualquer operação "cívica" e a requisição da papelada sobre a iniciativa, como protocolos de intenções, atas de reuniões e contrato social, para instauração de um inquérito civil que o enterre definitivamente.
São dois os alvos da solicitação de suspensão do fundo e de requisição de material: o empresário Eduardo Mufarrej, face pública da iniciativa até o momento, e Abílio Diniz.
(...)
Foi ele [Mufarrej] quem comandou a festa de lançamento do fundo em 6 de outubro, em São Paulo. Na plateia, a atriz global Maitê Proença, a elogia Huck como presidenciável, reclamar que brasileiro não sabe votar e pregar "renovação" na política. Brasileiro não sabe votar? Maitê foi por anos apologista do senador mineiro Aécio Neves, o presidenciável tucano de 2014 pego em 2017 no escândalo Friboi, afastado do mandato e colocado de castigo em casa à noite pelo Supremo Tribunal Federal.
Os usos e costumes da política precisam de "renovação"? A atriz de 59 anos, crítica do Bolsa Família, é solteira aos 59 anos para continuar embolsando uma bolada de pensão vitalícia por seu falecido pai ter sido juiz e procurador. Se casasse, adeus mamata, ôps!, "direito adquirido", diz ela.

O pessoal do fundo sonha em fabricar 150 candidatos, prioritariamente a deputado federal [na prática, uma força-tarefa mercenária, no Congresso]. É a meta de gente a ser selecionada entre as inscrições iniciadas dia 7. Os interessados precisam ter 21 anos ou mais, ficha limpa e nenhum mandato no currículo. Cada escolhido recebe bolsa de 5 mil a 8 mil reais por mês a partir de janeiro e cursos de inteligência política e de como se portar perante a imprensa... a preparação vai de janeiro a junho de 2018.
(...)
Eugênio Aragão sente cheiro de trambique, um drible no veto a doações empresariais... Para ele, o MPF precisa investigar. O pedido de apuração deu entrada na Bahia e foi remetido a São Paulo, onde o fundo foi apresentado... "O lançamento deu-se na certeza de que não haverá punição. É uma aberração grave que a PGR e a Justiça Eleitoral ainda não tenham se pronunciado", diz.
O autor político do pedido é o deputado Jorge Solla, do PT da Bahia.
(...)
Os bolsistas a ser financiados pelo "fundo cívico" terão de estar afinados com a visão financista, certas credenciais ideológicas serão exigidas, daí que os partidos Novo e Rede e os movimentos conservadores MBL e Vem pra Rua são vistos como celeiro natural de candidatos a ser fabricados. Afinal, os ricos não iam botar grana em defensor de trabalhador e da taxação de grandes fortunas.
Entre os "princípios inegociáveis" dos mecenas do fundo estão "gestão fiscal responsável", eufemismo para boicote a uma política econômica desenvolvimentista, "priorização do cidadão em detrimento da máquina pública", truque linguístico para redução do Estado, "respeito às liberdades individuais", expressão que a direita adora, e "combate irrestrito à corrupção", disfarçada declaração de amor à Lava Jato... [negritos nossos - Trechos da reportagem denominada Nebuloso e suspeito, autoria de André Barrocal, CartaCapital de 18/10/2017, págs. 30/3]. Martinho Nunes

A Migração Tucana Para Bozonaro

Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Não são as aves de grande plumagem.

Mas a migração das cambaxirras que saltitavam em volta do PSDB – primeiro de Aécio, depois de Dória – começam a ir ciscar próximo a Jair Bolsonaro.

Taís Bilenky, hoje, na Folha, registra que:

Nas últimas duas semanas, o MBL, importante impulsionador de Doria nas redes sociais, tem dedicado espaço a Bolsonaro em tom elogioso.

Há poucos dias, publicou foto do deputado com a palavra “Golaço!” em letras garrafais. Enumerou bandeiras do pré-candidato como “solução para a questão indígena que não afete o agronegócio”.

Segundo o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM), um dos líderes do grupo, “é um reconhecimento e mesmo uma tentativa de incentivar os candidatos à Presidência a exporem mais suas ideias liberais”.

Para o vereador, “Bolsonaro tem dado declarações que convergem com o que defendemos”, ao mesmo tempo que Doria “tem se afastado”.

Holiday mencionou falas do tucano que ele considerou “decepcionantes” como quando disse que Che Guevara “foi ícone de uma geração”. “É uma liderança que repudiamos, um grande assassino”, rebateu Holiday.

O líder do MBL disse que o prefeito parece tentar se deslocar ao centro como forma de se viabilizar para 2018.
“É uma estratégia errada, se for isso, porque o Brasil tem demonstrado que quer dar uma guinada à direita.”
Não entendo porque há ainda gente achando que Bolsonaro é uma brincadeira pré-eleitoral.

Não é, salvo surja algum episódio destes que fazem ruir até a Muralha da China.

A virulência e a estupidez que as classes dominantes no Brasil e seu aparelho de mídia utilizaram para desestabilizar e derrubar o governo eleito são a perfeita transcrição da frase de Joseph Pulitzer: “com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

Esta torpeza, tantas vezes, usa como manto a “moralidade”, a “eficiência”, “a modernidade” e, até, a pobreza, como se ela fosse produto do governo que anseiam por demolir, por contrário ao seu projeto de monopólio do controle de um país que, por ser de massas, não se pode permitir que pertença a estas massas.

Há duas semanas escrevi aqui que, talvez, este processo tenha saído de seu controle.

Acreditaram que a internet, por permitir ao pensamento de esquerda de escaparem aos guetos e nichos que a mídia convencional lhes concedia – vejam como há anos combatiam os “blogs sujos” – inclusive com impensáveis acusações de vida nababesca a quem mal e mal sobrevive com austeridade – e não acharam que as mídias sociais tangidas por fanáticos obtusos ganhariam vida própria e formariam legiões de microcéfalos ferozes, capazes capazes de querer uma “guinada à direita” que leva ao próprio fascínio.

Pariram Bolsonaro e não tenho dúvida de que ele depende pouco da mídia convencional para andar por volta dos 20% de ódio que transtorna o Brasil.

Como Lula, por mais que insistam em criminalizar a esquerda, não tem menos de 40%, sobram apenas 40% para serem distribuídos às diversas pretensões eleitorais das quais não podem abrir mão, porque parte delas (Marina, Ciro, PSOL) pode se somar ao “inimigo Lula”, como mostram as simulações de segundo turno.

E não adianta ir imolando os personagens que criaram para este plano: Cunha, Temer, Aécio , qual será o próximo defunto?

Os aprendizes de feiticeiro invocaram um feitiço que não sabem mais como controlar.

Falácias Livraram a Pele de Aébrio e Livrarão a Cara de Temerda

Carlos Melo em 17/10/2017

Michel Temer e Aécio Neves vivem semana de calvário. Na berlinda: um, na Câmara; outro, no Senado. Ambos, na sociedade. Dada a blindagem corporativa e fisiológica que possuem, será pequena chance de que sejam afastados. Aécio, aliás, já conseguiu livrar a pele. Foi resgatado por seus colegas, tendo discursado a seu favor personagens como Jáder Barbalho (PMDB/PA) e Romero Jucá (PMDB/RR).

Mas, o fato é que, mesmo protegidos não estão livres: ficarão, irremediavelmente, condenados à perda da credibilidade. Que futuro terão para além da cerca de proteção que hoje lhes abriga? Vão-se os mandatos, ficam os processos. Restarão votos para que se protejam indefinidamente?

O curioso é que há pouco mais de um ano, na proa do barco do impeachment, seus nomes surgiam como opções reais para a eleição presidencial, de 2018. Aécio, afinal, tivera mais de 50 milhões de votos na eleição anterior. Temer, pelas perspectivas de reorganização do sistema e recuperação da economia, sob seu governo. Hoje são quase pó.

A política é de fato uma atividade extraordinária. Tudo muda e as circunstâncias são mesmo mais importantes que os atores. Personagens como Temer e Aécio semearam ventos que ajudaram a despertar o redemoinho que hoje os traga. Pelo menos nesse sentido, possuem mais semelhanças do que diferenças com Eduardo Cunha.

***

Mas, Temer e Aécio são grãos que se perderão na história. A questão mais relevante diz respeito ao sistema político que os resguarda. Esta, sim, será a crônica, futura, a respeito destes dias. Incapaz de representar, incapaz de expressar credibilidade e contar com a confiança geral da sociedade, o sistema entrou em colapso. Trata-se de velhote moribundo, cujo espírito recusa a abandonar o corpo.

Sintomas disto: quando se assevera que o Senado somente votaria em favor de Aécio em virtude do medo de que seus pares sejam os próximos no cadafalso das denúncias, afastamentos e cassações de mandatos é porque se perdeu o sentido maior de um sistema político. Quando o sistema se volta exclusivamente à sua lógica e à defesa de um de seus pares pela defesa de todos, é porque, de fato, perdeu a finalidade.

Afinal, Aécio está sendo investigado em função do que mesmo? Por mais que procure se vitimizar e seja vitimizado por aliados, o fato é que o tucano não foi questionado por ideias, votos ou pela expressão de opinião. O argumento de que sua salvação compreende a preservação da democracia e a autonomia de um Poder é falacioso: o problema de Aécio não é com a tribuna, mas com os tribunais.

Simples assim. E não há teoria política que possa se sobrepor à singeleza destes fatos.

O que se deveria discutir são os motivos e porquês de algumas dezenas de senadores se sentirem acuados, temerosos de serem postos, amanhã, na hipotética situação de Aécio. Ora, se puderem figurar no mesmo enredo que o senador mineiro será apenas porque são presas dos mesmos erros.

***

Comprometido, o sistema precisa de mudança. Mas, girar em torno de sua abstração, o “sistema”, tampouco é solução. Tanto quanto o falseamento de argumentos republicanos e democráticos, pode, antes, se tratar do mais puro diversionismo: a manjada estratégia de fugir do assunto, escapando do essencial; propondo soluções e desfechos para o dia de São Nunca. O sistema… Quem é o sistema? Aqueles que o compõem.

O mesmo a dizer a respeito dos apuros do presidente Michel Temer. Não se trata de golpe ou conspiração. Eis aí outra falácia de mãos dadas com o diversionismo. A questão é: como um presidente da República pode ter o dedo tão ruim para escolher auxiliares, amigos e pessoas de confiança comprometidos por malas, embrulhos, esquemas, contratos e reuniões pouco transparentes, suspeitas e antirrepublicanas? É um fenômeno.

Os argumentos a favor de Aécio Neves ou de Michel Temer não fazem lógica. Ainda mais quando já foram usados, no passado recente, pelo avesso, no objetivo de julgar, afastar e condenar adversários. Erraram lá ou erram aqui?

Eis o silogismo: “É necessário defender e preservar os Poderes da República; Aécio e Temer representam esses poderes; logo, é fundamental defender Aécio e Temer”. Errado: Aécio e Temer não são os Poderes. “É necessário considerar a presunção de inocência”. Claro. Mas, isto não implica em que suspeitos não possam ser investigados.

Para reformar o Brasil é preciso superar as falácias e não cair nesses diversionismos. O fundamental será remover entulhos; um a um, pragmaticamente. Se mais não for, que seja para que, pelo menos, se possa ver o que há por baixo deles. O que está na berlinda são esses entulhos. Não são os únicos; nem os primeiros. Mas, precisariam ser removidos. E, sim, sempre haverá o dia de amanhã.

Carlos Melo é cientista político.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Carta de Temerda aos Deputados Mostra seu Desespero

Tereza Cruvinel em 16/10/2017

A carta de Michel Temer aos deputados é uma confissão de desespero, um sinal de que a situação na Câmara realmente piorou muito para ele com a delação de Lúcio Funaro. Ao dirigir-se apenas aos parlamentares, que votarão contra ou a favor da aceitação da segunda denúncia de Rodrigo Janot, Temer revela mais uma vez seu profundo desprezo pelo povo brasileiro, que não mereceu qualquer palavra sua sobre os crimes de que é acusado – obstrução da Justiça e formação de organização criminosa. Os cidadãos não participarão da votação na Câmara, mas em nome deles é que os deputados vão votar. Entretanto, ele se dirige apenas ao “prezado parlamentar”.

Temer se lamuria, denuncia uma conspiração para derrubá-lo da Presidência, ataca Janot, Marcello Miller e Lucio Funaro e apoia-se em Eduardo Cunha, destacando ter ele dito em entrevista que não teve o silêncio comprado por Joesley Batista. Chega a solidarizar-se com Cunha, dizendo que ele teve a delação recusada porque se recusou a falar contra ele, Temer. Como diria Joesley, Temer e Cunha “estão de bem”. Mas sobre organização criminosa, nenhuma palavra. Nada sobre as propinas que Funaro o acusou de ter recebido, em negócios que envolveram outros caciques do PMDB, na área de portos, na CEF, na Ministério da Agricultura.

Simulando otimismo, apesar do esperneio desesperado, Temer afirma que “as urdiduras conspiratórias estão sendo expostas. A armação está sendo desmontada”. E parte para a glorificação de seu governo, dizendo que foi seu esforço, com apoio do Congresso, que permitiu a retomada do crescimento. Que crescimento? O mercado subiu hoje sua previsão para este ano de 0,70 para 0,072%, e o ano está acabando.

E tome lorota. “Fomos capazes de liberar as contas inativas do FGTS e agora de antecipar as idades para percepção do PIS/Pasep. Tudo isso tem um significado: impedir o aumento de preços, valorizar o salário e melhorar a vida das pessoas!” Mas para liberar contas inativas, cujos saldos pertencem ao trabalhador, não é preciso ser capaz, basta ter poder e uma caneta. Já a redução da idade para saque do PIS-Pasep é uma grande empulhação que já denunciei, mas ninguém foi conferir. O que Temer fez foi trancar os recursos dos aposentados, que antes de sua MP de agosto podiam sacá-los livremente, e agora só poderão fazê-lo a partir de 17 de novembro. Os que poderão sacar antes dos 70 anos (65 anos/homem e 62/mulher) só farão isso no finalzinho de dezembro.

Na lorotagem, ele recorda o aumento que deu ao Bolsa Família quando tomou posse, mas não fala dos mais de 1,5 milhão de famílias que foram excluídas. Mente, dizendo que zerou a fila dos que queriam ingressar no programa. Mente ao dizer que nenhum programa social foi eliminado ou reduzido. E a redução dos convênios do Farmácia Popular? E o encolhimento do Fies, do Ciência sem Fronteiras e do Minha Casa/Minha Vida? E as restrições ao combate ao trabalho escravo?

Temer termina a carta professando crença na pacificação dos brasileiros, no diálogo, na solidariedade. Palavras vazias, que não têm a menor base na prática de seu governo perseguidor.

Mas ela teve sua utilidade, se não para garantir votos, pelo menos para mostrar seu desespero e sua capacidade de mistificar.

A Demissão no BRICS

A demissão de Paulo Nogueira do Banco dos Brics, por ele mesmo

POR FERNANDO BRITO · 17/10/2017

Abstive-me de comentar a demissão de Paulo Nogueira Batista Jr do cargo de diretor brasileiro do Banco dos Brics antes que ele próprio o fizesse. Não acho ético falar sobre o rompimento de um contrato de trabalho se o personagem ainda não disse como e porque ela aconteceu, ainda que, desde o golpe, se tivesse a certeza de que o governo ilegítimo brasileiro não o queria lá.

E não o queria porque Batista é um desenvolvimentista, um homem que alimenta a crença num crescimento harmônico e distributivista de nosso país e que tem coragem de dizer que a “turma da bufunfa” – expressão genial que criou para os donos do dinheiro que, ao contrário, pensam em políticas predatórias e de ganho rápido.

No fundo, afinal, é este o sumo do embate político-econômico do Brasil: crescimento estrutural e com justiça social progressiva (e não apenas prometida) ou predação colonial, financeira inclusive.

Por suas convicções, Batista vai acumulando “saídas” dos lugares onde foi parar pela capacidade como economista e pela sinceridade como cronistas: a Folha, o FMI e agora o Banco dos Brics.

Hoje, na Folha, ele conta a história de sua saída, obra de homens que querem um Brasil miúdo, atrasado, capacho. Registro, abaixo, na esperança que , agora, livre das peias que o cargo impunha, ele possa dividir mais conosco suas ideias políticas e econômicas.

Minha demissão do banco dos Brics foi
politicagem, diz Paulo Nogueira
Demitido na semana passada do NBD (Novo Banco de Desenvolvimento), o banco dos Brics, Paulo Nogueira Batista Jr., 62, se diz vítima de “politicagem”.

Em entrevista por e-mail à Folha, como solicitado pelo entrevistado, o economista afirma que limitou-se “a comentar o processo de impeachment”, sem fazer críticas ou elogios à ex-presidente Dilma Rousseff (que foi quem o indicou ao cargo) ou ao sucessor, Michel Temer.

Batista Jr. foi desligado da vice-presidência do banco após um processo interno concluir que ele quebrou as normas ao escrever artigos críticos à política interna do Brasil. Além disso, ele foi acusado de assédio moral por um funcionário brasileiro.

Em artigo de abril do ano passado, o economista escreveu que “impeachment sem configuração de crime de responsabilidade ou de crime comum é golpe”.

“Os defensores do impeachment não estão invocando crime comum. É preciso verificar, então, se têm base as alegações de crime de responsabilidade”, afirmou.

Em julho deste ano criticou a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo juiz Sérgio Moro. “O juiz bateu recordes de desfaçatez”, escreveu.

Segundo Batista Jr., as investigações foram “enviesadas e viciadas, atropelando procedimentos”.

“Por trás de toda história, estava a tentativa de encontrar meios de me acusar de quebra do código de conduta para permitir meu afastamento. Politicagem.”

Procurado, o Ministério da Fazenda informou que não iria comentar. Já o Banco Central afirmou, em nota, que se “trata de assunto interno” do banco dos Brics.

“A demissão foi aprovada pela diretoria da instituição, que é autônoma, e referendada por unanimidade pelos membros do conselho.”

Folha – Acha que foi injustiçado?

Paulo Nogueira Batista Jr – A demissão foi injusta e irregular. Por motivos não inteiramente claros —não quero fazer conjeturas—, alguns integrantes do governo brasileiro, especificamente o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, e um assessor do ministro [Henrique] Meirelles, Marcello Estevão, decidiram encontrar formas de me afastar e pressionaram o presidente do NBD, KV Kamath, que não se destaca pela firmeza ou coragem, a iniciar investigações contra mim. Eu tinha mandato e contrato. Só poderia ser afastado, se rompesse o meu contrato.

Como não havia base ou motivo para argumentar que eu havia desrespeitado o contrato ou o código de conduta, o banco acabou dando um mergulho na arbitrariedade. As investigações foram conduzidas de forma enviesada e viciada, atropelando procedimentos e desrespeitando o vice-presidente brasileiro.

O argumento do NBD é que o sr. desrespeitou normas de conduta do banco ao fazer críticas à política do Brasil.

Não fiz críticas à política interna do Brasil. Nos artigos que publiquei jamais fiz qualquer crítica ao governo Temer ou ao governo Dilma, tampouco fiz elogios. Isso porque uma das obrigações estabelecidas pelo código de conduta do NBD é manter a neutralidade política.

Escrevi poucos artigos sobre a situação política e econômica do Brasil nesses dois anos em que estive na China.

Em um dos artigos que foram considerados impróprios comentei o processo de impeachment então em curso, limitando-me a discorrer sobre os requisitos constitucionais para o impeachment.

O sr. foi indicado pelo Brasil ao NBD. Mesmo sem a missão de ser o representante brasileiro no banco, não excedeu seu mandato ao criticar o chefe do Estado que representa?

Desafiei o advogado que havia sido contratado pelo NBD para investigar os meus artigos —e que me acusava de parcialidade política— a mostrar um exemplo de crítica ao governo Temer ou elogio ao governo anterior. Ele ficou sem resposta.

Cogitou entregar o cargo após o impeachment?

Não. Eu estava muito empenhado no projeto do banco, trabalhando de 9h às 21h todo os dias.

O NBD é uma instituição potencialmente muito importante, pois poderá ser em quatro ou cinco anos um dos maiores bancos multilaterais do mundo, com capital que pode chegar a US$ 13 bilhões se entrarem novos
membros. O Banco Mundial tem US$ 16 bilhões em capital.

Não se deve perder de vista que o NBD é a primeira instituição financeira multilateral, de alcance global, desde Bretton Woods, quando foram criados o FMI e o Banco Mundial. As que foram criadas depois são de âmbito regional ou sub-regional.

Meu envolvimento com o projeto é anterior à criação da instituição, já na fase de negociação do banco e do fundo monetário dos Brics. Participei do processo de cooperação dos Brics desde o início, em 2008. Era um investimento pessoal grande, não tinha por que renunciar.

Quando esteve no FMI, sua opinião provocou controvérsia quando criticou o pacote de austeridade grego.

Eu não tenho receio de ficar isolado. Em certos momentos, eu fui o único dos 24 diretores-executivos do FMI que discordou do programa de austeridade grego —que era um massacre para a Grécia. Acredito que o tempo deu razão aos que, como eu, criticaram desde o começo.

Chegou a tecer opiniões críticas aos demais membros do NBD? A política econômica chinesa desagrada o setor produtivo brasileiro.

Não fiz críticas a outros países-membros. Nos meus dois anos e pouco na China, a minha admiração pelo país só fez crescer. É um país que tem coesão e rumo —coisas que fazem falta ao Brasil. A China é a grande âncora do NBD. Se o banco fracassar, não será por falta de apoio do país hospedeiro.

O sr. é acusado de assédio moral por funcionários.

Eu recomendei a demissão de um funcionário brasileiro que tinha desempenho muito fraco. Ele foi instado a prestar uma queixa de assédio moral e retaliação. A queixa não tinha base, mas serviu para sustar a demissão dele.

A acusação decorre de divergências na indicação de um funcionário. A equipe técnica discordou de seu parecer.

Havia um painel de entrevista para selecionar um profissional para a área de estratégia. O funcionário brasileiro cuja demissão recomendei discordou da minha preferência para a escolha.

Passaram a alegar que eu havia recomendado a sua demissão por mera retaliação. Mas o problema real era o desempenho pífio daquele funcionário.

Por trás de toda essa história, estava a tentativa de encontrar meios de me acusar de quebra do código de conduta para permitir o meu afastamento. Politicagem, em resumo.

O sr. também acusa o presidente do NBD de assédio, poderia relatar o que ocorreu?

Não foi acusação por assédio, foi por quebra da neutralidade política. Estavam me acusando de quebrar a neutralidade política em alguns artigos. Ao me defender dessa acusação, eu mostrei que o presidente do banco, que é indiano, tinha claramente quebrado o código de conduta em entrevistas à imprensa da Índia. Chegou a declarar-se um devoto seguidor do primeiro-ministro. Eu perguntei, com ironia, isso é manter neutralidade política?

Vai tentar algum tipo de recurso para receber uma indenização do banco devido ao seu desligamento antecipado?

Não sei se tenho essa possibilidade. Voltarei ao Brasil

Volte, Paulo. A partir de 2018 precisaremos de gente como você para reerguer este gigante ajoelhado.