quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Processar ou Não Processar Bicudo?

Por Paulo Nogueira

Final de vida patético
De repente o Brasil foi tomado por absurdos.
Marta Suplicy, por exemplo, entra no PMDB para combater a corrupção.
Alckmin ganha um prêmio por gestão hídrica e diz que, modéstia à parte, mereceu.
O STF proíbe financiamento privado de campanha e, mesmo assim, Cunha e Renan tramam para derrubar a proibição.
E então chegamos a Helio Bicudo, um absurdo em si.
O que fazer com um homem de 93 anos que se comporta como um adolescente irresponsável?
Imagino que Lula, o alvo maior de Bicudo, esteja se fazendo a pergunta acima.
Acertadamente, ainda que com atraso, Lula passou a buscar justiça quando se sentiu injustiçado, e já é respeitável o número de processos que ele pôs na praça.
Pelas barbaridades que vem falando, Bicudo tinha que ser acionado. Mas ele já se aproxima dos 100 anos.
Como processar um velhinho centenário sem parecer um monstro?
Suspeito, apenas suspeito, que ele saiba que a idade lhe dá liberdade de dizer o que quer sem consequências.
Não vejo outra explicação.
No Roda Viva, ele disse que conheceu Lula quando este morava numa casa de 40 metros quadrados.
E daí?
Isso pertence a um passado ancestral.
Como era a casa de Bicudo quando ele se iniciou na vida? A não ser que fosse rico, não devia ter muito mais de 40 metros quadrados.
Lula ascendeu. Foi duas vezes presidente. Saiu e se transformou num dos palestrantes mais bem pagos do mundo, coisa na casa de 100 mil dólares a hora, ou mais.
Ou Bicudo acha que Lula permaneceu com a mesma renda que tinha quando, há décadas, se conheceram?
Bicudo é um embaraço nacional, a esta altura da vida.
Ele conseguiu promover desunião até em sua família.
Os leitores do DCM se lembram do depoimento constrangido que um de seus filhos deu, há poucos dias, sobre as peripécias golpistas do pai.  O retrato que emergiu do filho foi o de um homem frívolo, vaidoso, rancoroso — além de um pai daqueles que, francamente, ninguém quer ter.
Pois hoje, este mesmo filho deve ter dormido mal depois do Roda Viva com o pai. Ele curtiu um texto sobre o programa, escrito por Kiko Nogueira, que foi postado em nossa página no Facebook às 5 da manhã.
Volto a Lula: como agir com um ancião que calunia você?
Não sei, francamente.
Se ele tem lucidez para despejar injúrias, deveria estar preparado para enfrentar a Justiça.
Mas não é uma decisão fácil. Bicudo provavelmente entraria no Guiness como o processado mais velho do mundo.
Suspeito que Lula não o processará, embora ele merecesse.
E encerro com uma reflexão.
Para chegar aos 93 como Bicudo prefiro ir antes.

Boicotam CPI da Petrobras

Moro, Cardozo e PF agora boicotam CPI da Petrobras

POR FERNANDO BRITO

Estranha inversão de papéis: criada para ser um centro de desgaste do Governo, a CPI da Petrobras na Câmara passou a ser boicotada pelos “adversários” informais de Dilma Roussef: o juiz Sérgio Moro, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e a Polícia Federal.

Hoje, segundo nota publicada no site do PT, o relator da Comissão, o deputado petista Luiz Sérgio, reclamou publicamente dos três.

Cardozo não enviou à Comissão, como solicitado, o resultado da sindicância que apura os responsáveis pelo grampo colocado na cela do doleiro Alberto Youssef sem autorização judicial.

Moro recusou-se a enviar os dados do inquérito que corre em Curitiba, dizendo que estes “não vem ao caso”:  “Como bem registrado pelo Ministério Público Federal, os fatos objetos de investigação neste inquérito policial diferem daqueles que estão sendo apurados pela CPI da Petrobras na Câmara dos Deputados”, escreveu o juiz a quem Gilmar Mendes, um dia, chamou de “juiz absolutista, acima da própria Justiça”.

E a Polícia Federal “justificou” o não comparecimento do delegado Renato Herrera e da agente Maria Inês Slussarek  da seguinte e pitoresca maneira descrita pelo deputado: “A polícia informou que soube informalmente que eles vão entrar com licença médica. Eu nunca vi um órgão público justificar a outro órgão público que soube, informalmente, que o funcionário vai apresentar licença médica.”

Que beleza!

Alguém precisa avisar à Câmara dos Deputados que ela só serve para “impichar” a Dilma e que o Juiz Moro e a Polícia Federal devem cooperação a uma investigação que, embora tenha surgido por vontade política, é legal, constitucional e tem poderes inclusive de conduzir testemunhas.

Luiz Sérgio chamou de “brincadeira” o que está acontecendo.

Eu prefiro chamar de deboche.

Não apenas dos deputados ou da instituição Câmara dos Deputados.  Deboche feito à apuração da verdade, que não é propriedade de Moro, de Cardozo ou dos delegados de polícia.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Shell Desiste de Poços no Ártico

Talvez até tenha petróleo, mas eles não têm capacidade técnica para extraí-lo. Enquanto isso, os canalhas entreguistas querem entregar essa nossa riqueza para seus patrões estrangeiros, a troco de nada.  Tarcílio

Shell desiste de poços no Ártico, rival do pré-sal. Não é ecologia, é falta de petróleo

POR FERNANDO BRITO

Para os  que não se dão conta da importância estratégica do pré-sal brasileiro, uma notícia para fazer pensar.

A gigante Shell anunciou o abandono de seu programa exploratório no Ártico, depois de ter investido US$ 7 bilhões na perfuração de poços.

Embora a tentativa de explorar petróleo nos mares gelados da região tenha causado muitas dores de cabeça à companhia pelos protestos de ambientalistas,  não foi esta a razão da decisão.

O motivo foi que o petróleo e o gás natural eram em quantidade muito pequena e, portanto, antieconômica a sua exploração.

Em um comunicado divulgado hoje, Marvin Odum, diretor da Upstream Americas da Shell, disse, segundo o jornal inglês The Guardian: “A Shell continua a ver importante potencial de exploração na bacia, e  é provável que a área seja, em última análise, de importância estratégica para o Alasca e os EUA. No entanto, os resultados foram claramente decepcionantes na exploração esta parte da bacia. ”

Esta parte da bacia refere-se aos mares de Chukchi e  Beaufort, onde a empresa fazia perfurações, marcado ali no mapa.

Imagine o leitor se um diretor da Petrobras viesse anunciar que se gastou US$ 7 bilhões (R$ 28 bilhões) num programa de exploração “decepcionante” no pré-sal?

Porque as duas áreas – um pouco menos o Ártico – quase se equivaliam como perspectiva de reservas petrolíferas: lá esperava-se até 30 bilhões de barris, segundo o The Washington Post; aqui, em torno de 35 a 40 bilhões de barris.

Os anglo-holandeses, competentíssimos, branquinhos, sabidões, honestíssimos (só quem não leu um livrinho de História acha isso, porque não sou dos corsários da Rainha) furaram mal.

Os brasileirinhos, moreninhos, “funcionários públicos”, acomodados, incompetentes (e, para muitos, ladrões, embora estes ratos metidos ali fossem uns poucos) não fracassaram e já chegaram, em oito anos, à marca de um milhão de barris por dia. E a uma taxa de sucesso de quase 100%: onde se fura, acha-se petróleo, sem falha.

É isso o que a canalha entreguista quer entregar para as multinacionais: um tesouro igual ou maior que aquele que eles tão tiveram capacidade ou condições geológicas para explorar com sucesso.

É isso que querem fazer você crer que é competência, honradez, eficiência e investimento rentável.

Mas Deus é grande e fez a Shell dar com os burros n’água (geladíssima) no Ártico para que a gente dê valor ao que tem e não entregue o nosso petróleo, apesar da podre aliança entre vendilhões da pátria e otários-pato.

Prisão Conforme o Freguês

Tudo sob as barbas doTRF, do STJ, do STF...Martinho

Prisão conforme o freguês, juiz só sob encomenda?

POR FERNANDO BRITO

Há duas “reportagens”, hoje, que são de estarrecer.

A primeira, na Folha, é quase um “pé no pescoço” do novo ministro do Superior Tribunal de Justiça, Marcelo Navarro, que, diz o jornal,  é visto “com reservas por investigadores da Lava Jato”.

A razão das reservas é que o relator do STJ hoje com os casos sob sua relatoria, o desembargador convocado – provisório, portanto – Newton Trisotto sempre acompanha as decisões de Sérgio Moro.

Passa-se, daí, automaticamente, a colocar sob suspeita o novo ministro, por supostas preferências políticas.

“O magistrado soube se aproximar de pessoas próximas à presidente. Ele ganhou pontos com Dilma por uma decisão favorável ao acesso de alunos sem-terra a uma universidade de Sergipe.”

A matéria cita que Navarro teve apoio de senadores de oposição como José Agripino, do DEM.

Mas não diz que Navarro foi um nome praticamente incontestado pelos senadores: 65 votos a dois por sua indicação. E não se diga que isso foi em outra época,antes da Lava-Jato. Foi há um mês, apenas.

O ministro (aliás, originário do Ministério Público Federal) , portanto, fica na situação de decidir entre se vai, simplesmente, decidir com um carimbo de “aprovado” tudo o que lhe vier das decisões de Moro ou, se entender diferente, ser apontado como “cúmplice” de corruptos e corruptores, sejam supostos ou comprovados, tanto faz.

A outra, no Estadão,  é a “comemoração” pelos 100 dias de cadeia do empreiteiro Marcelo Odebrecht.

É inacreditável que se mantenha uma pessoa presa por tanto tempo sem condenação ou risco plausível à sociedade ou à investigação.

O “perigo” que Odebrecht oferece só poderia ter um nome e este não está preso: o dinheiro. Nada o impede de, por ordens aos advogados, usar esta “periculosidade”.

Igualmente não tem apoio algum na facilidade da  investigação: ele foi ouvido apenas uma vez ao longo deste tempo.

Se você quer avaliar bem o significado disso, imagine, por exemplo, o que aconteceria se a Odebrecht estivesse sendo acusada de propinagem em um dos inúmeros negócios de privatização que realizou no Governo Fernando Henrique.

Aí, claro, não faltaria quem dissesse que a prisão era arbitrária e “ideológica”. Coisa de “comunista”.

Não faltaria mesmo um Gilmar Mendes para dar-lhe um “habeas-corpus canguru” e os 100 dias de cadeia seriam apenas um, como para Daniel Dantas.

A razão da prisão é uma só, simples e clara: fazê-lo acusar a quem se quer acusar, o que funcionou com a maioria dos empreiteiros presos e, ao menos até agora, não funcionou com Marcelo Odebrecht.

Na melhor “jurisprudência” não do Judiciário Federal, mas daqueles delegadozinhos  “do coronel” de algum rincão sertanejo perdido no passado: “deixa em cana aí até abrir o bico”.

O Paradoxo e a Insensatez

O Estado brasileiro é Grande? Pergunta à minha empregada!

Fiori sobre o despudor Golpista e seu neolibelismo
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A partir do site Vermelho, e de sugestão de amigo navegante de bom gosto, o Conversa Afiada tem o prazer de reproduzir artigo impecável do professor José Luís Fiori, originalmente publicado no PiG cheiroso:

José Luís Fiori: O paradoxo e a insensatez

Duas coisas ficaram mais claras nas últimas semanas, com relação à tal da “crise brasileira”. De um lado, o despudor golpista, e de outro, a natureza ultraliberal do seu projeto para o Brasil.

Do ponto de vista político, ficou claro que dá absolutamente no mesmo o motivo dos que propõem um impeachment, o fundamental é sua decisão prévia de derrubar uma presidente da República eleita por 54,5 milhões de brasileiros, há menos de um ano, o que caracteriza um projeto claramente golpista e antidemocrático, e o que é pior, conduzido por lideranças medíocres e de discutível estatura moral.

“Uma vez me perguntaram se o Estado brasileiro é muito grande. Respondi assim: Eu vou lhe dar o telefone da minha empregada, porque você está perguntando isto para mim, um cara que fez pós-doutorado, trabalha num lugar com ar-condicionado, com vista para o Cristo Redentor. Eu não dependo em nada do Estado, com exceção de segurança. Nesse condomínio social, eu moro na cobertura. Você tem que perguntar a quem precisa do Estado.” Luiz G. Schymura, “Não foi por decisão de Dilma que o gasto cresceu”, Valor, 7/8/2015

É difícil para os economistas liberais aceitar que a economia envolve relações sociais de poder

Talvez, por isto mesmo, nas últimas semanas, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens. Todos consideram que é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e uma vez “resolvida” a crise política, todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos Estado e menos política”.

Não interessa muito o detalhamento aqui das suas sugestões técnicas. O que importa é que suas premissas e conclusões são as mesmas que a utopia liberal repete desde o século 18, sem jamais alcançá-las ou comprová-las, como é o caso de sua crença econômica no “individualismo eficiente”, na superioridade dos “mercados desregulados”, na existência de mercados “competitivos globais”, e na sua fé cega na necessidade e possibilidade de despolitizar e reduzir ao mínimo a intervenção do Estado na vida econômica.

É muito difícil para estes ideólogos que sonham com o “limbo” entender que não existe vida econômica sem política e sem Estado. É muito difícil para eles compreender ou aceitar que as duas “crises brasileiras” são duas faces de um conjunto de conflitos e disputas econômicas cruzadas cuja solução tem que passar inevitavelmente pela política e pelo Estado.

Não se trata de uma disputa que possa ser resolvida através de uma fórmula técnica de validez universal. Por isto, é uma falácia dizer que existe uma luta e uma incompatibilidade entre a “aritmética econômica” e o “voluntarismo político”. Existem várias “aritméticas econômicas” para explicar um mesmo deficit fiscal, por exemplo, todas só parcialmente verdadeiras. Parece muito difícil para os economistas em geral, e em particular para os economistas liberais, aceitarem que a economia envolve relações sociais de poder, que a economia é também uma estratégia de luta pelo poder do Estado, que pode estar mais voltado para o “pessoal da cobertura”, mas também pode ser inclinado na direção dos menos favorecidos pelas alturas.

Agora bem, na conjuntura atual, como entender o encontro e a colaboração destes economistas liberais com os políticos golpistas?

O francês Pierre Rosanvallon (1), dá uma pista, ao fazer uma anátomopatologia lógica do liberalismo da “escola fisiocrática” francesa, liderada por François Quesnay. Ela parte da proposta fisiocrático-liberal de redução radical da política à economia e da transformação de todos os governos em máquinas puramente administrativas e despolitizadas, fiéis à ordem natural dos mercados. E mostra como e por que este projeto de despolitização radical da economia e do Estado leva à necessidade implacável de um “tirano” ou “déspota esclarecido” que entenda a natureza nefasta da política e do Estado, se mantenha “neutro”, e promova a supressão despótica da política, criando as condições indispensáveis para a realização da “grande utopia liberal”, dos mercados livres e desregulados.

Foi o que Rosanvallon chamou de “paradoxo fisiocrata”, ou seja: a defesa da necessidade de um “tirano liberal”, que “adormecesse” as paixões e os interesses políticos, e se possível, os eliminasse.

No século 20, a experiência mais conhecida deste projeto ultraliberal foi a da ditadura do Sr. Augusto Pinochet, no Chile, que foi chamada pelo economista americano Paul Samuelson de “fascismo de mercado”. Pinochet foi – por excelência – a figura do “tirano” sonhado pelos fisiocratas: primitivo, quase troglodita, dedicou-se quase inteiramente à eliminação dos seus adversários e de toda a atividade política dissidente, e entregou o governo de fato a um grupo de economistas ultraliberais que puderam fazer o que quiseram durante quase duas décadas.

No Brasil não faltam – neste momento – os candidatos com as mesmas características e os economistas sempre rápidos em propor e dispostos a levar até as últimas consequências o seu projeto de “redução radical do Estado”, e se for possível, de toda atividade política capaz de perturbar a tranquilidade de sua “aritmética econômica”.

Neste sentido, não está errado dizer que os dois lados deste mesmo projeto são cúmplices e compartem a mesma e gigantesca insensatez, ao supor que seu projeto golpista e ultraliberal não encontrará resistência, e no limite, não provocará uma rebelião ou enfrentamento civil, de grandes proporções, como nunca houve antes no Brasil.

Porque não é necessário dizer que tanto os líderes golpistas quanto seus economistas de plantão olham para o mundo como se ele fosse uma “enorme cobertura”, segundo a tipologia sugerida na epígrafe, pelo Sr. Luiz Schymura. Um raro economista liberal, em entender a natureza contraditória dos mercados, e natureza democrática do atual deficit público brasileiro.

(1) P. Rosanvallon, Le liberalisme économique. Histoire de l'idée de marché, Editions Seuil, Paris, 1988

*José Luís Fiori é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Colunista do jornal Valor Econômico.

O Motivo Real do Chororô Com a Decisão do STF

Faz-se necessário, por sua importância, destacar a conclusão de Pepe Damasco em seu artigo abaixo.  Tarcílio

"No entanto, tudo isso é um tipo ralo de cortina de fumaça, insuficiente para esconder o que qualquer cidadão que não integre o universo dos analfabetos políticos já percebeu : a indignação da direita e da mídia contra a corrupção é falsa, cínica, hipócrita, demagógica e seletiva. Foi assim com Vargas e Jango. É assim com Lula e Dilma."

BEPE DAMASCO
Jornalista, editor do Blog do Bepe

O motivo real do chororô com a decisão do STF

Depois que o STF decidiu pôr fim à deformação das eleições brasileiras através do dinheiro, proibindo doações de empresas a candidatos e partidos, representantes da direita e seus porta-vozes no monopólio da mídia reagiram de forma furiosa.

Direto ao ponto: a verdadeira causa do esperneio é a mudança geral do panorama das próximas eleições, nas quais os partidos de esquerda, especialmente o Partido dos Trabalhadores, por contarem com militância não paga, projeto coletivo e ideologia, podem sair em vantagem.

A reação colérica de Gilmar Mendes durante o julgamento deve ser creditada a essa constatação. Consciente dos potenciais prejuízos eleitorais que a decisão pode trazer ao seu partido, o PSDB, Gilmar protagonizou uma cena patética e constrangedora no STF, sobre a qual recomendo fortemente o discurso do deputado Wadhi Damous, disponível em vídeo que circula pela internet.

Está criado um problema daqueles para os partidos do campo conservador, do centro à direita. O desafio do PSDB, DEM, PPS, PMDB, PSD, PP, PTB, PROS, Solidariedade, bem como das legendas de aluguel que infestam o nosso sistema partidário, é conseguir um único militante voluntário para desfraldar suas bandeiras nas ruas, simplesmente porque em suas fileiras não existem militantes, mas apenas cabos eleitorais pagos.

A chiadeira dos magnatas do cartel da mídia não passa, portanto, de um mal disfarçado esforço retórico para encobrir o essencial, que é  temor de que a militância do PT faça a diferença nas eleições. Está bem vivo na memória nacional o mutirão, a corrente ou a "vaquinha", como queiram, dos militantes e simpatizantes do partido para pagar as multas milionárias impostas pela justiça aos condenados na Ação Penal 470.

E o que tira o sono da Globo, Abril e Folha (o Estadão foi o ponto fora dessa curva, já que aplaudiu a decisão do Supremo) é uma pergunta simples: que outro partido seria capaz de tal proeza ? Aturdidos, sobram sandices e bravatas em suas críticas.

A Folha fez um malabarismo incompreensível quando, ao manifestar seu temor de que sindicatos, igrejas e ONGs interfiram no resultado das eleições, disse que essas instituições não necessariamente pertencem ao "povo". Como ??!!

Veja adotou a linha de se solidarizar com Gilmar, aliado para o que der e vier do PIG, considerando a decisão "uma estupidez", pois as campanhas doravante abrirão espaços para a lavagem de dinheiro, como se toda lei não carecesse de fiscalização e punição em casos de violação.

Já o Globo alertou em editorial que o principal efeito colateral do fim do financiamento empresarial será a "institucionalização do caixa dois", como se em todas as atividades privadas e públicas meliantes não estivessem à espreita, prontos para dar o bote. Cabe ao Estado reprimi-los através de mecanismos e instrumentos eficazes.

No entanto, tudo isso é um tipo ralo de cortina de fumaça, insuficiente para esconder o que qualquer cidadão que não integre o universo dos analfabetos políticos já percebeu : a indignação da direita e da mídia contra a corrupção é falsa, cínica, hipócrita, demagógica e seletiva. Foi assim com Vargas e Jango. É assim com Lula e Dilma.

Sérgio Moro e a Gula de Seu Complexo de Herói

O juiz Moro, no uso do seu poder divino, fez de Youssef um delator profissional.  Esse juiz forçou a recriação daquela sentença que define o pensamento dos juízes e desembaregadores sobre a própria divindade:  os juízes pensam que são deuses;  Sergio Moro tem certeza que é. Martinho

POR FERNANDO BRITO

Hoje, na coluna Painel, da Folha, de novo Sérgio Moro se compara a Giovani Falcone, um dos juízes da Operação Mãos Limpas.

No debate com empresários do Lide (Grupo de Líderes Empresariais), nesta quinta, o juiz Sergio Moro foi questionado por João Doria Jr, que dirige o grupo:
–Com tantas pressões, o senhor está preparado para resistir até o fim das investigações da Lava Jato?
–Quando estou em um momento de grande dificuldade, lembro do juiz Giovanni Falcone.
O juiz italiano que conduziu os processos contra a máfia acabou sendo assassinado em 1992.
–O buraco em que ele se encontrava era muito mais fundo do que o meu. Então, sigo em frente –concluiu Moro, para aplausos dos convidados.

É a enésima vez, e já há muitos anos segue ele neste caminho, que Moro  se encarna nos juízes italianos que provocaram um terremoto naquele país, do qual emergiu, como produto da “moralidade”, a figura triunfal de Sílvio Berlusconi, seu autoritarismo, suas orgias e seu poder “afacistado”.

Deixo de lado a óbvia prudência que mandaria um juiz equilibrado, nas circunstâncias em que está Moro, de abster-se de um convescote numa platéia de grandes empresários – onde talvez estivessem os que ele prendeu em Curitiba, não o tivesse feito – regidos por um candidato declarado e lançado à prefeitura da maior cidade brasileira. Moro se atrai pelas luzes feéricas, alimento essencial para os que sofrem desta “mania heroica” que acomete o juiz do Paraná.

Porque o desejo de ser admirado como um ser único, especial, uma rara emanação divina faz isso com as pessoas. É ruim para qualquer ambiente. É tentador quando se é juiz. É perigosíssimo quando se é um juiz em casos de notórios e imensos interesses políticos e econômicos que dependem de suas decisões.

Desde o início desta operação – e a presença “casual” de um réu e delator sob seu poder há quase duas décadas, Alberto Youssef, faz com que se tenha o direito de situar este início em marco muito, muito distante – Moro age de forma a ser o único a controlar as investigações, as informações e os destinos dos acusados (ou daqueles que, claro, adiante conseguirá acusar).

A tal ponto que o mais feroz rottweiller da matilha conservadora, Reinaldo Azevedo, o repreende: “Mais de uma vez, vimos o juiz Sergio Moro parar um depoimento para que a pessoa ouvida não citasse um político com mandato, o que o obrigaria a mandar o caso para o STF. Para manter a investigação sob sua jurisdição, orientava o depoente a não citar nomes de políticos.”

Como não hesitou em praticar todo o tipo de exagero, para colher do simbolismo de sua dureza o reconhecimento geral de que era “um juiz diferente”, não destes que são prudentes e interpretam a lei com cautela para que de sua própria interpretação não lhe venham violações e injustiças eventuais. E não apenas o prazer, mas o alimento essencial do herói: a vaidade.

Não resisto a transcrever o texto – certamente não escrito pensando em seu caso – de Inês Bastos, voltado para questões psicanalíticas:

O herói extrai alegria da tristeza do outro, ele se sente bem se provar que o outro é mau. O herói, deste modo, peca por excesso, sente-se o único responsável pelo que está ocorrendo à sua volta e, por isso, assume mais do que pode cumprir. Ele se insurge contra a realidade e vai além do que lhe é possível. Se na postura de vítima nos negamos, na postura de herói nós negamos o outro, sentimo-nos o único sujeito da relação humana e consideramos as outras pessoas como objetos.

O herói se coloca em nível superior ao das outras pessoas, escondendo um profundo sentimento de inferioridade. É o todo poderoso, o que sabe tudo, o que sempre tem razão, o imbatível, o melhor. É aquele que perdeu a simplicidade de estar no mundo, é o que não sabe e não sabe que não sabe; daí, a sua dificuldade em aprender. Supõe saber tudo e perde com isso a capacidade de perguntar, a capacidade espontânea de fazer perguntas, de perguntar o que não sabe.

Em contrapartida, seu comportamento é sempre o de ensinar, de julgar, de analisar e de orientar os outros. É o dono da verdade. Por isso, nunca diz: “Eu não sei”. Nunca pede ajuda. Ele se julga como padrão dos outros e se relaciona com o mundo através de uma avassaladora programação de dogmas, de verdades feitas, porque as pessoas serão boas, honestas, verdadeiras, inteligentes,[somente] se coincidirem com o seu modo de pensar, de sentir e de agir.

O Dr. Moro está diante de um dilema.

Ouviu-se, de maneira muito clara, a voz do Supremo Tribunal Federal, por maioria muito ampla e, certamente, ciente o que seu pronunciamento representou e representa, inclusive da repercussão em frustrações e gemidos da República do Paraná.

Pode reavaliar se quer participar, como um dos protagonistas, de um processo de estabelecimento de novas situações de moralidade pública de que o Brasil precisa, mas dentro de um quadro de normalidade, sem  qual a moral é uma fúria insana.

Ou pode ceder à fúria da vaidade ofendida, da divindade falha, da obsessão frustrada, do herói contestado Do homem que perde uma guerra por não aceitar a derrota em uma batalha na qual se portou de forma insana.

Se o Dr. Moro soubesse olhar, veria que, na história judicial brasileira, há um recentíssimo exemplo do esquecimento que se reserva aos que aspiraram ser heróis assim.

Joaquim Barbosa, reduzido a jurista de Twitter, tão apagado agora quanto brilhante quando tinha serventia aos deuses.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Agora Escancarou

Acordo entre Moro e Youssef pode permitir que o doleiro receba até R$ 20 milhões em “comissões”
“Taxa de sucesso que pode chegar a R$ 20 milhões a delator da Lava Jato só reforça convicção de que Sérgio Moro quer condenações a qualquer preço”, 

Jornalista Paulo Moreira Leite

“Estamos no mundo dos caçadores de recompensa,” afirma o professor Claudio Lagroiva, apontando para um crescimento da influência da escola utilitaria da Justiça norte-amerciana no interior do Judiciário brasileiro
A negociação, que faz parte do acordo delação premiada do doleiro, causou surpresa no mundo jurídico; “Agora escancarou”, diz Antonio Claudio Mariz de Oliveira, um dos principais criminalistas do País; “É repulsivo,” reforça Nelio Machado, outro advogado do primeiro time; “Estamos no mundo dos caçadores de recompensa,” afirma Claudio Lagroiva, professor de direito processual da PUC

Poucas notícias sobre a Operação Lava Jato causaram tanta indignação nos meios jurídicos como a revelação de que delator Alberto Yousseff pode voltar para casa com um prêmio de 2% sobre cada centavo que ajudar a localizar em contas secretas no exterior. Isso quer dizer que, se trabalhar direito, Yousseff pode embolsar até R$ 20 milhões, quantia espantosa para um cidadão que, pela letra fria da lei, poderia acumular penas de até 200 anos.

“Agora escancarou”, reage Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defende Eduardo Leite, executivo de uma empreiteira.

“É repulsivo,” afirma Nelio Machado, advogado do acusado Fernando Santana.

Para Claudio José Lagroiva Pereira, professor de Direito Processual Penal na PUC paulista, instituição da qual foi vice-reitor, a decisão envolve uma medida absurda: “como é que o Estado brasileiro vai tirar uma porcentagem de um dinheiro que deve ser devolvido ao povo brasileiro, pois é fruto da corrupção, para entregar a um bandido?”

Num país onde esse tipo de recompensa não é previsto pela legislação — não consta sequer das regras que definem a delação premiada –, o acordo reforça a visão de que o juiz Sérgio Moro está empenhado em obter condenações fortes a qualquer preço — literalmente.

A tradição jurídica brasileira admite várias concessões a um acusado capaz de auxiliar no andamento de um processo. Mas são acordos que envolvem redução de pena, suspensão de acusações consideradas pouco consistentes e assim por diante. Nem advogados nem autoridades ligadas ao mundo da Justiça já tinham ouvido falar de um caso semelhante.

Para um delegado ouvido pelo 247, e que já participou de várias investigações semelhantes, “pode ser aceitável permitir que um condenando fique de posse de bens que ele pode demonstrar que adquiriu honestamente. E só.”

O curioso é que há uma década o mesmo Sergio Moro acertou com o mesmo Yousseff um acordo de delação premiada, que permitiu ao doleiro safar-se das principais acusações, entregando pouco mais de 60 concorrentes no comercio ilegal divisas — inclusive Toninho da Barcelona, o maior doleiro paulista na época — e cumprir uma pena relativamente leve.

Uma das cláusulas dos acordos de delação é óbvio: os beneficiados assumem o compromisso de não retornar às atividades ilegais. Embora não tenha cumprido sua parte do pacto, o que deveria ser um agravante em seu caso, dificultando até um novo acordo acordo de delação, em 2014 Yousseff conseguiu um segundo pacto, tão generoso que lhe permite até cobrar comissão por serviços prestados.

“Estamos no mundo dos caçadores de recompensa,” afirma o professor Claudio Lagroiva, apontando para um crescimento da influência da escola utilitaria da Justiça norte-amerciana no interior do Judiciário brasileiro. Não é uma novidade que caiu do céu, já que, através de acordos bilaterais de cooperação, mantidos pelo Departamento de Estado, muitas idéias jurídicas dos EUA ganharam curso no país em anos recentes, competindo com as escolas europeias que formaram boa parte de nossos juristas.

Doze Frases Sobre o Jornalismo Brasileiro

“O pior analfabeto é o que lê a Veja” e mais 11 frases sobre o jornalismo brasileiro. Por Paulo Nogueira

Acredite se quiser

1)  O pior analfabeto é o que lê a Veja.

2) A Globo não resolve nem o problema da novela das 9 e acha que tem a fórmula para resolver o problema do país.

3)  O surdo irremediável é o que ouve a Jovem Pan.

4)  Não dá para confiar mais nem na exatidão do dia que aparece na Folha.

5)  Fé obtusa é acreditar não nos pastores evangélicos, mas nos editores do Jornal Nacional.

6) Os barões da imprensa merecerão respeito no dia em que aprenderem a fazer uma legenda.

7)  Numa redação, você tem inteira liberdade para dizer sim, sim ou mesmo sim.

8)   Jornais e revistas exigem toda sorte de corte de gastos do governo, excetuada a publicidade que é colocada neles.

9) O mundo fica subitamente melhor quando você não abre um jornal.

10)  Não há uma pastilha na sede das Organizações Globo que não tenha sido fruto de  dinheiro público.

11) Um macaco teria feito a Globo ser o que é, tantas as mamatas que Roberto Marinho recebeu dos governos.

12)  Nenhum dono de jornal  passaria num bafômetro que medisse a parcialidade.

Judiciário e a Farra das Mordomias

Judiciário gasta quase R$ 4 bi com a farra das mordomias

O caro leitor teria conhecimento de alguém em sua família que já recebeu auxílio funeral? Não? Então, certamente, não tem nenhum parente magistrado,

desses que são chamados de  meritíssimos.

Pois esta é apenas uma das várias mordomias dos ilustres togados, em benefícios que vão muito além do respeitável teto constitucional de R$ 33,7 mil de salário mensal, estabelecido para o funcionalismo público dos três poderes.

Auxílio educação, auxílio funeral, auxílio transporte, auxílio moradia, verbas para passagens e diárias, entre outras despesas extras pagas com dinheiro público, virou uma farra. O custo destes chamados "penduricalhos" é de R$ 3,8 bilhões por ano, elevando os gastos anuais do Poder Judiciário para um total de R$ 61,2 bilhões.

Para se ter uma ideia de grandeza, este valor corresponde a duas vezes o deficit fiscal (R$ 30,5 bilhões) apresentado pelo governo na proposta orçamentária para 2016, que levou o governo a anunciar um novo pacote econômico na semana passada.

Entre outras medidas, o pacote prevê um corte das emendas parlamentares igual ao valor das mordomias dos magistrados, segundo dados do relatório "Justiça em Números", divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça e revelado nesta segunda-feira pelos repórteres Italo Nogueira e Marco Antônio Martins.

Em tempos de ajuste fiscal e intermináveis discussões sobre o corte de despesas no orçamento federal, curiosamente o Judiciário, e também o Legislativo, não param de aumentar seus gastos, como se fossem poderes de um outro país que nada em dinheiro.

Ainda esta semana, o Congresso vai votar os vetos da presidente Dilma Rousseff a projetos que aumentam os gastos públicos _ entre eles, o que concede um reajuste médio de 59,9% aos servidores do Judiciário, nos próximos quatro anos, o que representa mais R$ 25,7 bilhões.

É claro que os nobres parlamentares, magistrados e respectivos servidores precisam de recursos para bem exercer suas funções, mas cabe uma singela pergunta: será que precisam mesmo de tanto, não dá para cortar um pouco em vez de aumentar os gastos?

Se o Executivo não para de anunciar que está cortando na própria carne para poder aprovar o pacote fiscal com criação e aumento de impostos, por que os outros poderes, sustentados com os mesmos recursos do Tesouro Nacional, não podem também contribuir com a sua parte? E ninguém fala nisso.

Os Mistérios da Operação Zelotes

Por André Pereira, no site Sul-21

Daqui a 50 anos, os livros de História descreverão 2015 como um dos anos mais conturbados da história republicana brasileira, mas vamos torcer para não ter que esperar pela arqueologia histórica para desencavar alguns dos mistérios mais intrigantes da Operação Zelotes. Alguns, aliás, já começam a ser esquecidos, tais são o ritmo e a quantidade de fatos. Ei-los, para refrescar a memória.
1. Afonso Motta. O nome apareceu na imprensa e foi noticiado por veículos do próprio grupo RBS mas o título da matéria foi: “Investigação cita deputado “ Só que Motta não é suspeito de suposta falcatrua como parlamentar federal do PDT e sim como dirigente da RBS. Fazendeiro da fronteira oeste, ele foi vice-presidente do grupo afiliado da Rede Globo até 2009. Há, claro, a atitude corporativa conhecida mas, acima de tudo, impõe-se a criminalização da política, dos políticos, do homem público, e não do executivo da iniciativa privada
2. R$ 565 bilhões. Porque uma operação que envolve suspeição sobre a cifra estratosférica de mais de meio trilhão de reais sonegados não tem uma só centelha da repercussão explosiva de outros escândalos de desvios de dinheiro público? Simples: envolve grandes empresários e empresa da mídia. Ou seja, patrocinadores dos conglomerados de comunicação. Isto é, a elite da iniciativa privada.
3. Augusto Nardes. Também é nome que surgiu entre os suspeitos do esquema de corrupção. Nardes é gaúcho, ex-deputado do PP e tem posição política partidária, portanto. Como Motta, ele tem foro especial já que é ministro do Tribunal de Contas da União e será investigado pelo Supremo Tribunal Federal. E é ele que está com o processo da contas da presidenta Dilma sobre sua mesa de relator.
4. Santo Ângelo. Foi uma das cidades gaúchas visitadas pela Policia Federal mas, ao contrário de outras operações fartamente televisionados com suspeitos levando algemados por policiais encapuzados, esta padeceu de estranho silêncio visual midiático. Neste município, segundo escassos informes, teriam sido aprendidos computadores de um parente de Nardes de quem ele foi sócio. Até o deputado federal Paulo Pimenta, relator da subcomissão de Fiscalização da Câmara dos Deputados, estranhou a inclusão de Santo Ângelo do interior do RS ao lado de capitais como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro que são centros políticos e econômicos do país.
5. Jornalistas investigativos. Eles se auto intitulam assim e têm até clube com sócios cativos bem remunerados e melhor empregados. Mas até agora nenhum se dignou a escarafunchar as entranhas do escândalo da Zelotes. Sobre os crime da sonegação, silencia-se e, assim, sonegam-se informação aos leitores. É este o papel de jornalistas investigativos verdadeiros? Ou só mexem em conformidade com o que pensam e determinam os patrões?
6. Sonegação criminosa. Se fosse evitada tão criminosa sonegação talvez o país não precisasse fazer o ajuste fiscal, com medidas tão amargas como as que estão sendo apresentadas. Se os empresários fossem honestos e pagassem o que devem é bem possível que o Brasil já tivesse avançado ainda mais em políticas públicas para os mais pobres. Ao promoverem tamanha sonegação os ricos e poderosos prejudicam a maioria da nação e o próprio Brasil.
7. Valores altos. Entre as 74 empresas investigadas, estão o Grupo Gerdau, com R$ 1,2 bilhão de crédito, a RBS com R$ 672 milhões e a Marcopolo com R$ 260 milhões.
8. Irregularidades variadas. A propina aos conselheiros do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) para os empresários apagarem dívidas tributárias envolvia, também, venda de sentença, negociação para indicar conselheiros, redução de valores de multa e até mesmo singelo pedido de vista do processo que prolonga indeterminadamente o julgamento.

Nardes Confessa Casuísmo

Ministro do TCU confessa casuísmo no julgamento das contas de Dilma Rousseff
O relator do processo de Dilma no TCU segue sendo um direitista convicto adepto das viradas de mesa. Ainda mais depois que seu nome apareceu na Operação Zelotes

Nardes e escritórios ligados a ele no RS, foram identificados na Operação Zelotes

Por Antonio Lassance*  na Carta Maior

O ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, tem confessado reiteradas vezes seu casuísmo no julgamento das contas de Dilma Rousseff. Seu esforço nessa linha parece ter sido redobrado desde que seu nome apareceu interceptado pela Operação Zelotes, que apura o tráfico de influência que acobertou a sonegação fiscal de grandes empresas – um escândalo muito maior que o da Lava Jato.

Em sua mais recente entrevista, dada a um jornal de economia (Valor, 24/9/2015), o ministro, todo faceiro, fala em “fazer história” e, nitidamente, se coloca como alguém ávido por ser condecorado pela oposição.

Em meio às suas incontinências, e sempre falando em nome de todo o TCU, diz que o Tribunal proporá uma “mudança de postura” e que “o país tem que aproveitar este momento para dar uma virada”. A expressão “dar uma virada”, como se sabe, tem origem no velho e pavoroso hábito de se virar a mesa do carteado quando se está perdendo.

Se a metáfora usada por Nardes estiver mais para o futebol que para o pôquer, o interesse em “dar uma virada” tem cara de torcedor de um time que está atrás no placar ou perdeu a última partida – aquela de 2014. A expressão expõe que o voto do ministro está sendo feito sob medida para uma determinada torcida.

É bom aproveitar que o próprio Nardes levantou essa bola de “fazer história”, “dar uma virada”, e outras coisas mais, para lembrar qual foi sua trajetória. Vale esclarecer para que time ele torce, até porque o atual membro do TCU se comporta como se ainda fosse o candidato a vereador que iniciou a carreira política pelo partido da ditadura, a Arena, em 1973, um dos períodos mais duros do regime golpista instaurado em 1964.

De apoiador juramentado do regime da ditadura, Nardes depois ingressou, muito coerentemente, no PDS, o sucessor da Arena. Nos anos 1990, ainda seguindo uma trajetória retilínea, foi, pelas mãos de Paulo Maluf, para o Partido Progressista Renovador, sigla que depois virou PPB e, finalmente, PP, o partido com o maior número de enrolados na Lava Jato.

Foram os laços de Nardes com o PP de Maluf e de Severino Cavalcanti que o “qualificaram”, com o perdão da má palavra, para ocupar vaga no TCU e cumprir o papel que hoje desempenha. Ele acabou eleito para o TCU por obra e graça da “Severinada” do Congresso – a rebelião que juntou o PP, do então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, com a oposição. É uma composição nada estranha ao gaúcho Nardes, pois, no Rio Grande do Sul, PT e PP são inimigos figadais.

O relator do processo de Dilma no TCU segue sendo o que sempre foi: um direitista convicto, adepto das viradas de mesa. Está pronto e satisfeito com a chance de condenar alguém que, desde os “áureos” tempos de sua querida ditadura, estava em campo oposto, fadada a ser sua eterna inimiga. Dilma é um prato frio que o ministro saboreia e refestela-se com êxtase.

Os demais ministros do TCU estão diante de um dilema entre corporativismo e história; ou, dito de outra maneira, do dilema de pensar que estão entre as quatro paredes do TCU ou de reconhecerem que Nardes os colocou na armadilha de uma encruzilhada. Ou eles enxergam Nardes apenas como um de seus pares, em que fica feio se contrapor ao voto de um colega, ou se diferenciam e se esquivam de ter em seu currículo algo que os ligue a essa tentativa de virada de mesa ou, para usar uma expressão infame, de “golpe constitucional”.

O Problema da Foto de Sérgio Moro com João Dória

Por Paulo Nogueira

Mais sorridente que Dória
O problema da foto de Sérgio Moro com João Dória é a absoluta falta de noção demonstrada por Moro.
Dória é político e homem de negócios, e então se entende que ele se faça de papagaio de pirata.
Mas Moro é um juiz.
E um juiz que detém um enorme poder em suas mãos neste momento.
Juízes devem transmitir uma imagem de imparcialidade, ou viram políticos de toga como é o triste caso de Gilmar Mendes.
E a foto é a completa negação disso.
No plano do simbolismo, ela aparece como uma aliança entre Moro e as forças que Dória representa, num primeiro nível, o seu partido, o PSDB, e num nível mais profundo, a plutocracia.
Joseph Pulitzer, o grande nome por trás do jornalismo moderno, tinha uma frase que se aplica a jornalistas e a juízes igualmente.
“Jornalista não tem amigo”, dizia ele.
Amizades interferem no trabalho do jornalístico. Os amigos são, sempre, protegidos.
Eu tinha esta frase, impressa e destacada, no mural de minha sala, nos anos de diretor da Exame e outras revistas da Abril.
E repetia-a constantemente aos jornalistas que trabalhavam comigo.
Relações cordiais e profissionais com fontes, sim, claro. Mas jamais amizade, ou se cria um conflito de interesse do qual a principal vítima é o leitor e, por extensão, a sociedade.
A grande lição de Pulitzer, lamentavelmente, é pouco seguida no jornalismo brasileiro.
Neste final de semana, por exemplo, Marta Suplicy postou no Twitter uma foto de suas “grandes amigas” jornalistas, entre elas Renata Lo Prete, da Globonews, e Vera Magalhães, que acaba de deixar a Folha rumo à seção Radar da Veja. (Casada com um assessor de Aécio, Vera, neste momento de transição, é um conflito de interesses em movimento.)
Todas as “grandes amigas” de Marta estavam sorridentes como Moro e Dória.
Marta e as “grandes amigas”
A máxima impecável de Pulitzer vale para juízes. O único real amigo de um juiz é a Justiça.
Mas não parece ser este o entendimento de Moro, a julgar pela foto infame.
Mais de uma vez escrevi, no DCM, sobre a indecência que eram as imagens de jornalistas como Merval e Reinaldo Azevedo confraternizando com juízes como Gilmar Mendes.
Como esperar qualquer tipo de isenção dos juízes amigos em casos que digam respeito a estes jornalistas e suas empresas?
Da mesma forma, como os jornalistas podem tratar com honestidade juízes dos quais são íntimos?
A foto de Moro com Dória é um triste retrato destes tempos no Brasil. Não exatamente por Dória, um político em campanha.
Mas por Sérgio Moro.

A Operação Lava Jato Tem Lado

Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

Há um grande mérito na Lava Jato e uma grande interrogação.
O mérito foi o de ter, pela primeira vez, investigado uma das fontes centrais históricas do poder político brasileiro: as grandes empreiteiras de obras públicas.
A dúvida é o filtro político que impôs às investigações.
Para tentar entender:
1. A Lava Jato pretendia manter sob suas asas todos os inquéritos resultantes das delações negociadas até agora.

2. Há personagens centrais na Lava Jato: do lado dos beneficiários, gerentes e diretores da Petrobras e operadores do PT e do PMDB. Do lado dos pagadores, as empreiteiras.
3. A Lava Jato derivou para o setor elétrico, apurando os desvios da Eletronuclear.
4. Ora, o que Petrobras e Eletrobras têm em comum, para permitir à Lava Jato avançar sobre o setor elétrico? As mesmas empreiteiras.
O ponto em comum que unifica tudo, portanto, são as empreiteiras, seu modo de operar, seus subornos e financiamentos de campanha.
Sendo assim, qual a razão da Lava Jato ter deixado de fora governos tucanos?
A maior contribuição da UTC foi para a campanha de Aécio Neves. A grande obra da UTC em Minas foi o Centro Administrativo. Em São Paulo, as mesmas empreiteiras participaram de obras do Rodoanel e das parcerias para administrar as estradas paulistas.
No entanto, nenhum dos bravos delegados e procuradores, o imbatível juiz Sergio Moro tiveram a curiosidade de perguntar aos delatores sobre o financiamento à campanha de Aécio e para políticos paulistas.
Não há álibi técnico ou jurídico que possa justificar a desatenção do grupo em relação aos malfeitos dos réus com governos tucanos.
Na fase das investigações, especialmente ao colher os depoimentos dos réus e delatores, todos os temas relacionados às suspeitas de suborno por parte das empreiteiras são relevantes. Se surgirem indícios de cometimento de crimes em outras esferas, encaminha-se a denúncia para o STF (Supremo Tribunal Federal) (se for de réu com prerrogativa de foro) que decidirá se cabe um novo inquérito ou se a investigação será no bojo do mesmo.
Se a intenção é passar o país a limpo, tendo ao seu dispor pessoas dispostas a delatar, qual a razão da Lava Jato não ter aberto o leque para todos os partidos? A desculpa de não perder o foco não bate. Se não surgir outra Lava Jato, os segredos dos doleiros e delatores morrerão com eles, debaixo do nariz da tropa de 360 procuradores e técnicos que o MPF colocou à disposição.
Por tudo isso, pelo fato do Procurador Geral da República Rodrigo Janot ter poupado Aécio Neves das denúncias do doleiro Alberto Yousseff sobre Furnas, de jamais ter tirado da gaveta o inquérito sobre a conta no paraíso fiscal de Liechtenstein, pelo fato de procuradores e delegados jamais terem se preocupado com a questão óbvia de investigar outros partidos políticos, não há a menor dúvida de que a Lava Jato tem lado. O mesmo lado de Gilmar Mendes.
Os bravos procuradores sequer se preocupam em justificar essa seletividade, como se o assunto não existisse.
Mas há um cadáver no meio da sala de jantar. E não haverá como escondê-lo para sempre.

domingo, 27 de setembro de 2015

Deixa o Gilmar Falando Sozinho

http://www.blogdacidadania.com.br/2015/09/deixa-o-gilmar-falando-sozinho-diz-professor-de-lewandoswki-e-rosa-weber/
“Deixa o Gilmar falando sozinho”, diz professor de Lewandowski e Rosa Weber
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A melhor parte da entrevista que a TV dos Bancários de São Paulo levou ao ar – ao vivo – na noite da última segunda-feira (21/9) em seu programa Contraponto não apareceu na telinha dos internautas, mas nas viagens que este que escreve fez à residência do entrevistado para ir buscá-lo e levá-lo de volta.
Como muitos leitores desta página devem saber – até porque, assistiram a entrevista ao vivo –, o entrevistado foi Dalmo de Abreu Dallari, o jurista serrano (gentílico dos naturais de Serra Negra – SP) nascido em 1931, e que, aos 83 anos, deu inveja a este cinquentão pela clareza de ideias, pela objetividade, pela serenidade e até pelo vigor físico.
Conhecer Dallari e poder ouvi-lo num bate-papo – e esse papo fica melhor se ele monologar – é reconfortante porque faz o interlocutor acreditar que envelhecer pode ser bônus, e não ônus. Conheço-o desde 2013, mas nunca deixo de me espantar.
Se ainda pudesse escolher ser alguém quando crescesse, escolheria ser esse jurista octogenário, ex-professor da Universidade de Paris e ex-membro da Unesco que teve entre seus alunos ninguém mais, ninguém menos do que os ministros do Supremo, Ricardo Lewandowski, e Rosa Weber – sendo o primeiro, aluno dedicado e altamente influenciado pelo professor, e a segunda, uma aluna “eventual”, como Dallari descreveu sua relação com ela.
O que estimula alguém a querer envelhecer “bem” é constatar que certas pessoas não envelhecem, apenas amadurecem, mas no melhor sentido, no sentido de transformar o acúmulo da experiência de vida em um fator muito mais importante que a mera questão biológica da idade física.
A ciência vem divulgando há muito que a prática intensa da atividade intelectual é fator preponderante para se chegar bem à velhice, muitas vezes permitindo ao idoso ter condições mentais e até – pasme – físicas muito melhores do que as de muitos jovens.
É por tudo isso que o otimismo do professor Dallari me estimulou. Por ele ser o fenômeno de preponderância do desenvolvimento mental sobre o processo inerente aos seres vivos, o processo de envelhecimento biológico oriundo da degeneração celular que ocorre a qualquer vivente ao longo dos anos.
Claro que quem não conhece pessoalmente esse octogenário não tem como saber, por exemplo, de sua intimidade com a internet e de sua perfeita interação com a atualidade ao mostrar-se informado até sobre amenidades que dizem muito mais respeito à juventude do que a pessoas mais maduras como eu.
É por isso que fiquei realmente em dúvida sobre a afirmação serena de Dallari de que não tem “a menor preocupação” com o golpe e, até, com “Gilmar Mendes”, quem o jurista diz que já fez todo mal que poderia fazer – e que ele previu que faria em seu artigo profético publicado na página A3 da Folha de São Paulo em 2002, no estertor do governo FHC – e que esse mal não tem como avançar muito mais do que isso (?!).
Ao ser perguntado sobre Gilmar, Dallari mal ouve a pergunta e já dispara:
Vocês dão muita importância a esse homem. Deixa ele falando sozinho lá no Supremo, os outros ministros nem lhe dão bola. Deixam ele lá porque ninguém quer perder tempo em começar uma guerra”.
Pergunto ao professor se não é mal suficiente Gilmar ter segurado o processo de proibição de doação eleitoral por empresas durante um ano e meio. Dallari dá de ombros:
Foi até bom, a sociedade precisava discutir. As denúncias de que ele segurava o processo chamaram atenção. E o que aconteceu? Ele teve que devolver o processo. E depois? Ele foi derrotado. Esperneou, esperneou e foi derrotado. Depois foi à tevê vociferar, todo suado, e, ao fim, vai ter que engolir, porque oito é mais do que três; ele está em minoria”.
Argumento de que em julgamentos decisivos ele pode fazer a diferença não sensibilizaram Dallari. Ele voltou a minimizar a importância de Gilmar:
Isso já era sabido, já faz parte do mal que foi indicá-lo para o cargo. Mas, se for assim, até um ministro melhor pode, naquela votação, votar mal… Além disso, as teses dele são tão toscas que atraem reprovação automaticamente, sobretudo em um STF que melhorou muito em termos de composição”.
Uau! Qualifico a experiência de conversar informalmente com Dallari a um sopro de ar fresco, de juventude, de esperança. E não perder a esperança e o otimismo aos OITENTA E TRÊS ANOS não é para qualquer um, meus caros.
Mas, então, pergunto ao nobre professor sobre o golpe. Ele ri; eu me espanto:
Mas, meu filho, eu já lhe disse: isso é uma fantasia política
Nesse momento – que foi na ida aos estúdios da tevê dos Bancários –, Dallari me passa um pito:
Esse caminho que você está fazendo é muito ruim. Você deu a maior volta. Era só contornar o Fórum Criminal da Praça João Mendes e você pararia a poucos metros do sindicato, e não a duas quadras”.
Eu fora pela 23 de Maio, pegara a Xavier de Toledo e deixara o carro próximo ao Largo São Francisco, para depois irmos andando pela rua São Bento até o Edifício Martinelli, próximo ao Largo São Bento.
Bem, concluí que Dallari estava certo.
Mas, enfim, o professor da Universidade de Paris volta ao tema do golpe:
Isso não existe porque não há uma grande força política, social e econômica desejando derrubar Dilma, como em 1964. São pequenos grupos – de dezenas de milhares de pessoas, mas pequenos em um país como este. E, também, porque o STF não iria deixar
Fico preocupado com o que ouvi, porque Dallari me falava do mesmo Supremo que condenou réus do mensalão pelo “domínio do fato”, ou seja, sem provas, porque, afinal, “a lei permite”. Porém, logo o professor me fez entender a matéria:
O STF mudou. A nova maioria é atenta à Constituição. Aliás, todos deveriam ter um exemplar da Constituição e lê-lo atentamente. É um livrinho fino, curto, objetivo. E, para quem não sabe, a comunidade internacional julga que a Constituição brasileira é uma das melhores do mundo. Precisa apenas ser cumprida
Era inevitável, portanto, que a pergunta seguinte fosse sobre se o Supremo barraria uma iniciativa da Câmara de abrir o processo e afastar Dilma. Dallari diz que não tem dúvida, que não haveria como a maioria que ele bem estudou votar a favor de tal “absurdo”:
Não há provas, não há nada. A Constituição diz que precisa haver crime de responsabilidade da presidente, uma acusação de que ela praticou atos ilegais, que, além disso, teria que ser provada, o que levaria o processo a durar anos. Talvez até o fim do mandato dela”.
Você não acredita no professor de Ricardo Lewandowski, Rosa Weber, Dias Toffoli? Tudo bem. O noticiário é avassalador. A mídia – veja bem, leitor, a mídia – diz que é “inevitável”, que “falta pouco tempo”, apresenta a “agonia de Dilma” diuturnamente, condena por crime quem quiser, quantas vezes quiser… Mas, ainda assim, fiquei tocado pela tese de Dallari.
A certeza com que ele fala sobre mandar Gilmar às favas e não ficar gastando neurônios com o golpe, para, em vez disso, travar o debate político e esclarecer a sociedade sobre as teses lesivas a ela que a ascensão do conservadorismo extremado está fortalecendo, de repente me parece uma alternativa puramente racional.
Já passou da hora de nos espantarmos com o ponto a que pode chegar aquilo que já faz tempo deixou de ser direita para se converter em uma força político-econômico-ideológica literalmente fascista. Dallari me fez ver que a hora é de batalha de convencimento de corações e mentes sobre o mal que essa ideologia pode promover.
Parafraseando Dalmo de Abreu Dallari, pois:
Deixa o Gilmar falando sozinho

Sobre Ousadias: dos Patifes e dos Decentes

Por Alberto Dines em 21/08/2015 na edição 864

No mesmo dia em que se confirmava a denúncia do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, contra Eduardo Cunha, o presidente da Câmara Federal, a ministra do STF Cármen Lúcia, declarou que o povo brasileiro sabe o que NÃO quer, porém “as pessoas boas” precisam expressar o que querem — com “a ousadia dos canalhas”.

Mineira legítima, a vice-presidente da nossa suprema corte, consegue ser veemente e arrasadora com a naturalidade de quem dá um bom-dia. Impedida de manifestar-se sobre um processo que ainda não examinou, tem sido capaz de oferecer aos vacilantes conceitos certeiros e opiniões inequívocas.

A verdade é que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é dono de um potencial de ousadias suficiente para transformar a grave crise de governança que atravessamos em impasse institucional. O rol de malfeitorias e as penas solicitadas pelo Ministério Público eram suficientemente fortes para que na denúncia constasse a necessidade de afastar de imediato o acusado da função que exerce.

O procurador Rodrigo Janot preferiu não confrontar o STF antecipando-se ao seu julgamento e, com isso — a contragosto, certamente — garantiu ao denunciado o cenário e a audiência para uma performance de, pelo menos, seis meses num gênero de farsa que o presidente da Câmara de Deputados domina como poucos.

Eduardo Cunha é ousado porque não lhe sobram alternativas. Joga perigosamente porque não conhece outro jogo. Arrisca-se porque não tem o que perder, tal é o seu nível de desapreço por si mesmo. Suas apostas raramente são as mais recomendáveis e os predicados, que o ajudaram a se projetar de forma tão surpreendente, são geralmente mencionados com discrição e/ou eufemismos. Para evitar incômodos e incompreensões.

Impróprio qualificá-lo como kamikaze (do japonês, “vento divino”,) porque aqueles pilotos suicidas nipônicos, celebrizados durante a 2ª Guerra Mundial, se imolavam com pretextos espirituais e místicos. Já o personagem que domina as manchetes nos últimos dias, picado pela ambição e fanatismo só pensa em si mesmo.

Como qualquer cidadão, Eduardo Cunha tem o direito de se defender bem como servir-se dos instrumentos do Estado de Direito para provar a sua inocência. Mas em seu benefício não pode usar o poder que a sociedade lhe conferiu para preservar apenas o interesse público.

Ao garantir que permanecerá na presidência da Câmara, Eduardo Cunha não percebe que está oferecendo prova cabal da sua onipotência e periculosidade. Quem é acusado de abusar do poder durante tanto tempo e através de tantos ilícitos não tem credibilidade para garantir doravante um comportamento isento, insuspeito e imparcial.

Eduardo Cunha não pode continuar no cargo. O país não pode ser submetido à vergonhosa situação de manter no primeiro escalão alguém tão comprometido com a delinquência.

É indecorosa e quase obscena, a ambiguidade da oposição oferecendo um suporte ao denunciado pela facilidade de que dispõe para acionar um processo de impeachment da presidente da República. O que se espera da oposição e especialmente do PSDB é outra espécie de ousadia: a da “gente boa”, os decentes e honrados.

E qual das ousadias preferirá a mídia ?

A ousadia dos pirómanos, apocalípticos, belicistas ou, ao contrário, optará pela prudência e responsabilidade? A mídia terá a audácia de apoiar os delinquentes, aferrados ao projeto de interromper o mandato da presidente Rousseff a qualquer preço ou vai se atrever a apoiar os deputados que pretendem libertar a Casa do Povo do caudilho ensandecido?

A Rede Globo e Sua Campanha Anual Espanta-Turista

A que se presta a gROUBO. Sempre trabalhando contra o Brasil e os brasileiros.  Tarcílio

A Rede Globo iniciou no domingo, dia 20/9, no Fantástico, sua minissérie anual “espanta-turista estrangeiro do Brasil”.
Rogerio Guimarães Oliveira em 21/9/2015
Todo ano, no mês de setembro, a Rede Globo produz e coloca no ar uma grande quantidade de reportagens sobre a violência urbana nos destinos turísticos mais cobiçados do Brasil, especialmente o Rio de Janeiro.
São matérias de teor jornalístico que documentam e mostram “flagrantes de violência” nestes lugares, notadamente na Capital fluminense.
Todavia, o público-alvo destes materiais não são, exatamente, os brasileiros – apesar de causarem prejuízo ao turismo interno. A estratégia real que determina a produção e veiculação destes materiais as coloca como casuais reportagens jornalísticas. Assim, tudo passa completamente despercebido para os nacionais, com a Rede Globo protegendo-se sob o manto do “dever de informar o público”.
Porém, nunca houve uma explicação para estas grandes matérias serem veiculadas sempre no mês de setembro, quando se sabe que o índice de violência urbana no Rio e em outras capitais não apresenta alterações significativas em comparação aos demais meses.
Adianto em esclarecer que não se defende aqui, em absoluto, que matérias jornalísticas sobre violência urbana não sejam divulgadas para preservar o turismo, muito embora isto ocorra em diversos locais do mundo, como se sabe. O que gera perplexidade é que em todo mês de setembro o tema emerge na Rede Globo na forma de uma grande campanha informativa. Ao par disso, qualquer brasileiro que conhece os locais turísticos mais frequentados do mundo sabe que neles há muita violência urbana também (Paris, Nova Iorque, Miami, Londres, Los Angeles, Caribe etc.). Por que então a violência no Rio de Janeiro e em outros locais turísticos do Brasil vira sempre um destaque na Rede Globo em setembro?
A explicação começa a surgir quando se constata que estes materiais pretensamente jornalísticos da Rede Globo, como já se confirmou, são logo depois reproduzidos à exaustão nas redes de tevê dos EUA e da Europa, atingindo milhões de pessoas que estão começando a planejar e a decidir o destino de suas viagens de fim de ano, emendando com as férias de inverno (janeiro). Desta forma, é neste momento (em setembro) que ocorre o maior esforço da indústria internacional de turismo para fazer com que europeus desistam de vir para o Brasil e decidam gastar seu dinheiro nos EUA e que turistas estadunidenses desistam do Brasil em troca de destinos na Europa.
A conclusão, pela escancarada coincidência das veiculações nacionais da Rede Globo, sempre em setembro, sobre a violência no Rio é de que a megacorporação midiática dos Marinhos se presta a fazer o “jogo sujo” das operadoras de turismo internacional, lesando o Brasil, o nosso turismo e a nossa economia interna, ao produzir materiais sob medida aos interesses da indústria internacional do turismo. Os valores anuais em jogo giram na casa das dezenas ou de centenas de bilhões de dólares.
Na noite de domingo, dia 20/9, como já era aguardado, a Rede Globo colocou no ar sua campanha anual espanta-turista: uma suposta reportagem do Fantástico, com duração de um intervalo comercial ao outro, tratou de assaltos, roubos de bicicleta e de arrastões nas praias cariocas. Foi exibida até imagens de uma turista inglesa que havia sido assaltada, aos prantos, no meio da rua. Foi coletado o depoimento de supostos populares dizendo frases de efeito, do tipo: “não aguentamos mais toda esta violência” etc.
Este material do Fantástico exibido, seguirá a lógica anual: será exibido repetidamente durante as próximas semanas em vários canais televisivos europeus e estadunidenses, atingindo milhões de turistas estrangeiros que viajarão pelo mundo em dezembro e janeiro próximos. A Rede Globo ajuda, desta forma, a convencer todos de que não vale a pena fazer turismo no Brasil. Afinal, se em lugares turisticamente “míticos” como o Rio de Janeiro há “tanta violência, tantos assaltos e tantos arrastões “, no resto do país a situação deve estar ainda pior. Esta é a indução psicológica, a mensagem subliminar passada, para que estes turistas todos cheguem à conclusão evidente de que “é melhor escolher um destino mais seguro para viajar, com menos violência”.
A pergunta que espero um dia ver respondida é: por qual razão a Rede Globo escolhe sempre o mês de setembro, a cada ano, para deflagrar sua grande sequência de reportagens sobre a violência no Rio de Janeiro e em outros destinos turísticos nacionais? Uma das respostas que mais se encaixam a esta pergunta é esta: a Rede Globo participa do esforço anual da indústria internacional do turismo para espantar daqui os potenciais milhões de turistas que viriam da Europa e dos EUA nas férias de inverno deles, os quais aportariam no Brasil milhões (senão bilhões) de dólares e de euros.
Não por acaso, o Estado da Florida (EUA), em alguns pouco dias, costuma receber a mesma quantidade de turistas estrangeiros que viajam para o Brasil durante todo um ano, em média.
Nota de Cynara Menezes no Facebook: “Impressiona como tem gente incomodada com os arrastões no Rio de Janeiro, mas não tá nem aí para as chacinas em São Paulo. Será que é a classe social das vítimas?”

E Eis Que Surge o Coveiro do Impeachment.

Por Paulo Nogueira

E eis que irrompe, para desespero dos golpistas, o coveiro do impeachment.

Trata-se de Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara.

Picciani demonstrou, na prática, que Eduardo Cunha já não controla o PMDB – e, a rigor, nem si próprio.

Numa entrevista ao jornalista Paulo Moreira Leite, Picciani disse: “O impeachment não vai caminhar por falta de fatos e de votos.”

Poderia ser este o epitáfio da abjeta tentativa de remover Dilma do cargo e, na prática, cassar 54 milhões de votos.

Picciani foi vital na boa semana de Dilma ao ajudar em vetos essenciais a projetos destinados a inviabilizar o governo – e a República — pelos gastos irresponsáveis.

Claro que ele terá a sua cota de retribuição em cargos, mas política é assim mesmo.

Dilma, que jamais foi propriamente política, demorou mais de um mandato para perceber isso, algo em que seu antecessor era e é um mestre.

Mas percebeu, e a tempo de salvar seu mandato.

A importância maior de Picciani é expor a fraqueza de Cunha, ele que até há pouco tempo agia como dono do Congresso e, de certa forma, do Brasil.

Quis muito, tomado pela ganância, e deve acabar com uma tornozeleira eletrônica, tais e tantas as evidências de corrupção desenfreada que se acumulam contra ele.

Cunha ascendeu ao ajudar a eleger um número expressivo de deputados, graça ao dinheiro copioso que arrecadou via achaques, como mostram os depoimentos de delatores.

Esse dinheiro, do qual o primeiro beneficiário foi ele próprio, irrigou várias campanhas, e sabem todos como os recursos dão vantagem a quem os tem em disputas eleitorais caras como as brasileiras.

Mas não existe nada mais morto do que um chefe em vias de ser preso, e esta é a realidade, já faz algum tempo, de Eduardo Cunha.

Hoje, ele é pouco mais que uma perna à espera de uma tornozeleira.

Na política, como em tudo, você tem períodos cíclicos de destruição criativa. Algo se desfaz e outra coisa emerge.

Cunha é o que se desfez, e Picciani é o que emergiu.

Com essa troca de força no PMDB, o impeachment deixa de ser uma possibilidade. (Não que tenha sido, efetivamente, em algum momento: o que havia era mais barulho que substância.)

Caminha assim para seus últimos anos, sem o trauma de um golpe, o casamento de conveniência entre PT e PMDB.

Será uma benção para a sociedade, tais os atrasos representados pelo PMDB.

Em 2018, o PMDB terá seu candidato próprio, que não será Cunha e, até por razões etárias, nem Temer.

Picciani talvez sonhe com essa candidatura.

Mas é cedo para especulações.

O que há de relevante é que Picciani enterrou o impeachment, e é bom que isso tenha ocorrido.

O Brasil provou que não é a Republiqueta de Banana que os golpistas imaginavam que fosse.

Ofensa a Jato, Desculpas a Lesma

Imaginem o que esse facínora teria dito mais, caso assinasse um acordo de colaboração premiada com o MP.  Tarcílio

MP arquiva última acusação a Lula no “Mensalão”. Ofensa a jato, desculpas a lesma

POR FERNANDO BRITO

Da Folha, hoje, lições do passado para os tempos atuais:

“A Procuradoria da República no Distrito Federal pediu o arquivamento de um inquérito instaurado para investigar um suposto repasse de US$ 7 milhões da Portugal Telecom para o PT.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci eram suspeitos de terem participado diretamente da negociação do repasse.

Essa era a última investigação em curso sobre eventual envolvimento de Lula em crimes correlatos ao mensalão.

A apuração foi aberta em 2013, a partir de um depoimento do publicitário Marcos Valério, preso desde novembro daquele ano por ter sido o operador do esquema.

Interessado em obter benefício de redução de pena, Valério afirmou ao Ministério Público Federal, na reta final do julgamento do mensalão, que a transferência em questão foi acertada em uma reunião no Palácio do Planalto, na presença de Lula e Palocci.

Valério apontou as contas no exterior que teriam sido indicadas ao empresário Miguel Horta, diretor da Portugal Telecom, para realizar as transações com o PT”

As “provas” de Valério para obter os prêmios da delação eram, como muitas são agora, à base do “ele sabia”, do “houve uma reunião” ou do “ele esteve com…”.  Nas contas a que se teve acesso, nada se comprovou. Ou seja, nada havia contra Lula.

Ponha-se o amigo leitor ou a caríssima leitora no lugar de um destes empresários, funcionários e lobistas apanhados em falcatruas na Petrobras. Sem ofensa, por favor, apenas como exercício mental.

Vendo todo mundo se beneficiar das delações premiadas e você em cana há meses, a quem não “delataria”? Ao Papa,  até, se pudessem acreditar que ele tivesse ciência…

O papel do Ministério Público, claro, seria desconfiar das acusações e só prosseguir se apresentados fatos concretos a ratificá-las. Mas é isso o que faz o delegado que pediu para colocar Lula na condição de investigado, quando ele próprio escreve que não há tais dados concretos?

Há mais semelhanças, porém:

“A investigação ouviu cerca de 20 pessoas em mais de dois anos, entre elas Lula, que depôs em Brasília em dezembro de 2014, e Horta, ouvido no início deste ano. Ambos negaram os repasses. Também prestaram depoimento Palocci, Dirceu e o ex-deputado Roberto Jefferson, delator do mensalão.

Ao final do despacho de arquivamento, a Procuradoria conclui: “As investigações não conseguiram comprovar o desembolso de valores da empresa em favor do Partido dos Trabalhadores”.

Quer dizer, então, que não é novidade alguma Lula prestar depoimento? Houve escarcéu, manchetes, escândalos, pedidos de autorização ao Supremo, relatórios do MP para isso?

Apenas o exercício da obrigação que tem qualquer cidadão, Lula inclusive, de prestar ajuda a investigações policiais se estas são feitas de forma profissional e isenta, não espalhafatosa e publicitária.

Mas suas senhorias, procuradores e delegados, que compreendem perfeitamente o que isso causa em prejuízos às pessoas públicas, que verão seu nome ser arrastado às páginas de jornais, telas de TV e de computadores como “suspeitos”, sem que nada haja a dizer que são, senão a palavra de um criminoso interessado em se livrar da “cana”, podem ser cúmplices disso?

É certo que já ouviram falar da historia da honra ser como um travesseiro de penas, desmanchado ao vento, que não se pode mais recolher depois.

Na matéria, lá ao final, o advogado de Marcos Valério, Marcelo Caetano, diz que nunca mais interessou-se pelo assunto porque o “Ministério Público não revelou interesse de viabilizar para Marcos Valério uma delação premiada”.

É isso, assim mesmo, curto e grosso: a minha verdade depende do meu prêmio.

O Peregrino

MAIS UM MAJESTOSO TEXTO DO SANTAYANA. Franklin
Salve o Papa Chiquinho. Que Deus lhe dê uma eternidade de pontificado. O mundo necessita de líderes desse jaez. Tarcílio
O PEREGRINO

(Jornal do Brasil) - O Papa Francisco teve uma semana movimentada. Passou por Cuba, onde rezou em Havana, na Praça da Revolução, para dezenas de milhares de fiéis católicos, e visitou Holguin e Santiago, depois de se encontrar com Fidel Castro, a quem tratou com atenção e simpatia.
De lá, voou para os Estados Unidos, onde foi recebido por Barrack Obama, rezou em frente à Casa Branca, para uma multidão de fiéis, e discursou, durante uma hora, sendo várias vezes interrompido por aplausos, no Congresso norte-americano.
Falou também em Nova Iorque, no plenário das Nações Unidas, denunciando a "asfixia" imposta pelo sistema financeiro internacional, e no Marco Zero das Torres Gêmeas, reverenciando as vítimas do 11 de setembro, lembrando, no entanto, ao lado de sacerdotes católicos, judeus e muçulmanos, que "a vida está sempre destinada a triunfar sobre os profetas da destruição", que devemos ser forças da reconciliação, da paz e da justiça", e que é preciso se "livrar dos sentimentos de ódio, vingança e rancor" para alcançar a paz, neste mundo vasto que Deus nos deu como casa de todos e para todos."
Não foi apenas pela proximidade geográfica que o Papa fez questão de ir a Cuba e aos EUA, em um único périplo.
Ao escolher visitar, praticamente ao mesmo tempo, o país mais bem armado do mundo, e a pequena ilha do Caribe, que sobrevive, há décadas, em frente à costa dos Estados Unidos, com um projeto alternativo, que não segue a cartilha do "American Way of Life", o Papa quis mostrar que não existem países mais importantes que os outros, e que todas as nações têm direito a buscar seu próprio caminho para o desenvolvimento, que pode estar simbolizado tanto por grandes foguetes e naves espaciais, como pela eliminação do analfabetismo, uma medicina de qualidade, o aumento da expectativa de vida de seus habitantes, ou um dos mais baixos índices de mortalidade infantil do mundo.
É esse desejo, de paz na diversidade, tão presente na viagem do Papa, que fez com que Francisco tenha participado ativamente do processo de reaproximação diplomática entre os Estados Unidos e Cuba, concretizado com a recente reabertura da embaixada dos EUA, com a presença do Vice-presidente norte-americano, Joe Biden, em Havana.
O seu papel foi reconhecido em discurso, nos jardins da Casa Branca, pelo próprio presidente dos Estados Unidos, que agradeceu a contribuição do Papa nesses acordos, que representam um dos momentos mais marcantes da história recente.
O Papa Francisco também está por trás - por seu reiterado e decidido apoio - de outro episódio inédito, de grande importância para o continente, ocorrido em Havana, apenas um dia após a sua partida: o aperto de mão, na presença do Presidente cubano Raul Castro como mediador, entre o Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder guerrilheiro e comandante das FARC - Forças Armadas Revolucionárias, Rodrigo Londoño, também conhecido como Timoshenko, que sela a contagem regressiva para a conquista de uma paz definitiva, depois de mais de 50 anos de guerra civil, em um dos principais países latino-americanos.
É claro que os dois fatos - a reaproximação entre Cuba e os EUA e entre o governo colombiano e as FARC - não podem agradar aos babosos, ignorantes e hipócritas anticomunistas de sempre, que, movidos por outros interesses, como a permanente gigolagem de fantasmas da Guerra Fria, prefeririam ver os Estados Unidos tentando outra frustrada invasão da ilha, quem sabe armando grupelhos radicais de vetustos, obtusos e anacrônicos anticastristas de Miami, ou aumentando sua presença militar na Colômbia, transformando aquela nação em uma espécie de Vietnam sul-americano.
Daí, por isso, o ódio dos conservadores, fundamentalistas e tradicionalistas católicos contra Francisco, um latino-americano tão independente com relação aos EUA, que nunca tinha pisado o território norte-americano antes desta semana, e que, mesmo assim, teve a honra de ser primeiro pontífice a ser recebido e a falar diretamente, como líder estrangeiro de uma religião que não é a mais importante nos EUA, para dezenas de deputados e senadores, dentro do edifício do Capitólio.
Em um mundo em que países que alegam defender a democracia bombardeiam e destroem outras nações, metendo-se em seus assuntos internos, armando mercenários e terroristas para derrubar governos que consideram hostis, sem levar em conta o terrível balanço de suas ações, em mortes, torturas, estupros e na "produção" de milhões de refugiados; em que esses mesmos refugiados morrem sem ter para onde ir, em desertos, montanhas, fronteiras ou mares como o Mediterrâneo, e são recebidos, muitas vezes, a patadas por onde chegam, ou mantidos em cercados disputando no braço um naco de pão para seus filhos, que a polícia lhes atira, com luvas de borracha, como se fossem cães; em que o egoísmo, o fascismo, a arrogância, o ódio, a hipocrisia, a mentira, renascem com renovada força, e muitos não tem mais vergonha de pregar o individualismo, o consumismo, uma pseudo "meritocracia" como doutrina a justificar a exclusão, na busca de enriquecimento individual e material a qualquer preço - como se o destino de cada um dependesse apenas de si mesmo, e em nada do meio que o cerca ou das forças terrenas que o governam, explorando-o ou enganando-o, de forma permanente, e a humanidade não fosse uma construção coletiva, fruto de centenas de gerações que nos antecederam - Francisco, que une no lugar de dividir, que ri, em vez de fazer cara feia, que prega a paz e a solidariedade no lugar do ódio, da vingança e da cobiça, é um farol a iluminar o que resta de sensatez na espécie humana - uma bússola para indicar o caminho nestes tempos sombrios, em que as forças do ódio e do atraso insistem em tentar impedir que amanheça, neste novo século, um novo dia.
Que seu pontificado dure muitos e muitos anos, já que o mundo e a História poucas vezes precisaram tanto, diante de tanto preconceito e ignorância, de um Papa como ele à frente da Igreja Apostólica Romana.
O diabo, se existir, deve estar espumando pela boca, e esbravejando impropérios que só ele conhece, nos nove círculos do Inferno.
De nada adiantou que tenha, eventualmente, tentado cardeais, ou soprado segredos e sortilégios no ouvido daqueles que votaram no último Conclave.
Francisco está onde está - no lugar em que o Mal não queria ver, nunca, um homem como ele:
À frente do Vaticano, no trono de São Pedro, com a Estola, o Anel do Pescador e o Báculo que o sustenta quando se move, com a certeza de que Deus caminha a seu lado, Peregrino da Paz, contra a insanidade do mundo.