sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Momo Já Era, Na Folia Manda a Globeleza

Por Alberto Dines

Fofo, inofensivo, adorado por todos, o Rei da Folia está sendo destronado: de mansinho, à vista de todos. Quem assume o lugar de Momo é a criatura eletrônica, divina, esguia, inefável, inebriante, indizível, absolutamente pelada, algo assexuada, poderosa e etérea. 

Globeleza, descendente das cabrochas, é símbolo da apropriação do carnaval pela Rede Globo. Justiça seja feita – não faltam ao grupo empresarial competência, imaginação, recursos e audácia. Mas ao obter a exclusividade da cobertura dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro – ponto alto do carnaval brasileiro –, a maior rede televisiva do país integrou-a à sua grade de programas tal como fez com as transmissões de futebol em dias úteis que só começam quando acaba o capítulo da novela das 9.

Nosso Carnaval agora é plim-plim, platinado – mesmo padrão de qualidade (e mesmos delays), mesmo esmero e mesmíssima aposta na infantilização da distinta audiência. 

No domingo de Carnaval (15/2), o desfile das escolas só começou depois do Fantástico. Dia seguinte, segunda-feira, os telespectadores de todo o Brasil que pretendiam assistir ao desfile integral, ao vivo, tiveram que se contentar com as escolas que desfilaram depois da exibição da novela e do abominável reality show. Significa que as escolas que desfilaram antes foram exibidas depois, de madrugada e na manhã seguinte, gravadas. Ou, quem sabe, editadas. 

Alguma coisa está errada quando a maior festa popular do país é manhosamente privatizada, convertida em ativo de um portentoso grupo empresarial e a sua cobertura sujeita a interesses alheios ao jornalismo. É possível que dentro do organograma da rede a cobertura do carnaval esteja fora do âmbito da Central Globo de Jornalismo. Problema do organograma, ou da maneira com que foi concebido. 

Problema doméstico

A cobertura de um evento público, oficial e patrocinado pelo erário, deve seguir obrigatoriamente os paradigmas jornalísticos e não a lógica dos departamentos comercial e de marketing. 

Se as autoridades que concederam à Rede Globo a exclusividade para cobrir o desfile carioca não parecem ter a necessária disposição cívica para reclamar, problema delas – são parceiros de uma concessão que deveria ser acompanhada e zelada como patrimônio nacional. E se os veículos concorrentes – na mídia impressa, audiovisual ou digital – engolem a sutil trambicagem, convém lembrar que a inconsequente Maria Antonieta só se deu conta das mudanças que ocorriam à sua volta momentos antes de perder a cabeça.

A submissão e o servilismo com que o grosso da mídia pega carona na popularidade das atrações da Globo atende pelo nome de oligopólio. É nome feio, não condiz com as normas republicanas e uma imprensa adulta. Sugere algo assemelhado a impeachment, pena que o especialista no assunto esteja olhando em outra direção.

Os desfiles no sambódromo do Rio pareciam ambientados num colossal Projac (os estúdios globais em Jacarepaguá): as beldades e rainhas das diferentes baterias, alas e escolas são “da casa” – começaram estrelando comerciais consagrados nas telinhas da Globo, hoje brilham nos elencos das intermináveis telenovelas e, nesta condição, obrigadas a participar de, no mínimo, uma escola de samba (alguns pularam em várias). Chegou-se à suprema combinação do real com o surreal ao sobrepor a trama da novela das 9 ao clima carnavalesco reinante no país: o desfile da escola de samba que homenageava o protagonista de Império, por casualidade, aconteceu na noite da Quarta-Feira de Cinzas. 

Personagens que na véspera estavam na Sapucaí, 24 horas depois estavam no estúdio que fingia Sapucaí, com adereços e figurinos diferentes, a mesma trilha sonora e cenas do desfile real enfiadas no desfile falsificado. Simplesmente genial: faltou pouco para que a justaposição do mundo da fantasia com o mundo de mentirinha se transformasse em pastiche. Chegaremos lá.

Parênteses além da fenomenologia: a ideia de resgatar Fátima Bernardes para o jornalismo merece aplausos. Trata-se de uma profissional qualificada, ótima entrevistadora, capaz de narrar acontecimentos sem depender do texto que corre no teleprompter. Mas se hoje a ex-apresentadora do Jornal Nacional está estrelando comerciais, não pode participar de qualquer cobertura jornalística. Mesmo da forma discreta e elegante escolhida para comentar os desfiles do sambódromo carioca.

Não importa que o seu programa matinal esteja fora da Central Globo de Jornalismo. De novo, isso é problema organizacional doméstico. Jornalismo, em qualquer departamento ou editoria, é jornalismo – tem regras, princípios, deveres. O que importa – e muito! – é que ao admitir a participação de um profissional em comerciais de TV e anúncios, fica interditada automaticamente sua participação em qualquer missão jornalística. É livre o caminho da volta, inadmissível a duplicidade.

Sem compostura

A transfiguração de Momo em Globeleza faz parte do processo de mediatização e simplificação que, ao correr solto e livre, sem reparos ou contrapesos, desanda e termina mal. O empenho em ressuscitar a todo custo o Carnaval de rua e esticar o antigo tríduo para uma e até duas semanas segue a mesma lógica do pé-na-jaca e do vai-levando que jornalistas e comunicadores com as melhores intenções entendem como alegria, descontração e inocência sem perceber seus efeitos colaterais e deletérios.

O que é verdadeiramente novo nem sempre é novidade. E o que é apresentado como atualidade muitas vezes são velharias recicladas. Desta confusão e do despreparo das chefias para encarar problemas menos óbvios nasce a atual obsessão pelos modismos. 

Este foi o Carnaval do Selfie, nunca se apelou tanto para obter algum retorno. O narcisismo nunca foi tão descaradamente explorado. Dona da fama, mesmo de 15 minutos, a mídia sabe seduzir os anônimos. Jornais, portais, emissoras de TV abertas ou pagas, rádios em horário nobre ou plebeu, perderam completamente a compostura suplicando qualquer participação do público. Mensagens, tuítes, torpedos, whatsapps, autofotos, vídeos – desde que tratassem de carnaval, folia, euforia. Este tipo de alegria tem algo de funesto. Rima com anestesia.

A campeã

Não é a primeira vez que enredos de uma escola de samba são financiados por empresas (públicas ou privadas), lobbies (ostensivos ou disfarçados), governos, caudilhos, ditaduras ou repúblicas. Neste Carnaval de 2015, dois países patrocinaram enredos: a Suíça – primeira república federativa do mundo – pagou uma soma não revelada à Unidos da Tijuca para louvar seus chocolates, relógios, neve, neutralidade etc., etc. A Guiné Equatorial, ditadura de 35 anos, deu 10 milhões de reais à Beija-Flor para cantar a pujança da africanidade. No dia em que desfilou (domingo à noite), jornais, portais e a TV Globeleza não deram muita atenção ao polêmico subsídio manchado de sangue, corrupção e miséria. Só lembraram de discuti-lo quando foi anunciado o cobiçado primeiro lugar à estranha ave predadora fantasiada de beija-flor.

Doping é isso: privação do senso moral.

O Meteoro Eduardo Cunha

Por Alberto Dines
 
Bastaram duas semanas de atuação para que o novo presidente da Câmara dos Deputados exibisse o seu arsenal de atributos como caudilho, oligarca e cacique. Junto, mostrou como funciona uma blitzkrieg política em ambientes dominados pela inércia. Exemplo perfeito das virtudes do voluntarismo onde campeia a apatia. A supremacia da onipotência sobre a impotência, do mandonismo escancarado sobre desmandos sussurrados. 

Führer típico, determinado, ídolo dos medíocres, aliado predileto dos pusilânimes. No mostruário de lideranças fornecido pela Revolução Francesa, situa-se entre Georges Danton, o demagogo audacioso e Joseph Fouché, o conspirador-manipulador, eterno sobrevivente, sacerdote capaz de fingir-se ateu para ganhar mais poder. Comparado com antigos parceiros como Collor e Garotinho, é um profissional padrão “intocável”, tal como Daniel Dantas e outros ex-associados.

Eduardo Cunha é, neste exato momento, o político mais poderoso do país. Muito mais eficaz do que o partido que elegeu e reelegeu os dois últimos presidentes, mais safo e esperto do que o presidente honorário da sua agremiação e vice-presidente da República – com uma só cartada converteu Michel Temer em volume-morto e a presidente reeleita, a durona Dilma Rousseff, em figura decorativa. 

Mão na boca

Quando operava na esfera estadual metia-se em constantes trapalhadas, chegou a sofrer um atentado e foi acusado de fazer negócios com famoso narcotraficante. Carioca que joga pesado, não brinca em serviço, foi quem descobriu um erro na documentação eleitoral do animador Sílvio Santos e assim tirou-o da corrida presidencial. 

Ao ingressar na esfera federal (2003), percebeu o alcance dos novos holofotes, mudou o estilo, guardou a metralhadora, passou a servir-se de fuzis de precisão – não errou um tiro. Em apenas 12 anos, foi alçado ao Olimpo. O ex-presidente Lula não ousa desafiá-lo: recomendou publicamente à sucessora uma reconciliação.

Forte candidato a converter-se no primeiro déspota parlamentar, símbolo das deformadas democracias representativas do século 21 que fundiram o corporativismo de Mussolini com um bolchevismo de direita, messiânico. Preside a Casa do Povo, mas não consegue esconder a forte vocação autoritária e o gosto pelo exercício do poder absoluto. Já passou por três partidos – PRN, PPB-PP e PMDB, este o mais “progressista”. Na verdade é um espécime legítimo da era pós-ideológica, conservador, populista que poderá até proclamar-se parlamentarista para mais rapidamente tomar o poder.

Sua adesão ao ideário evangélico e a obsessão em implementá-lo a qualquer preço faz dele um exemplar calvinista. Como operador, porém, prefere a lógica do capitalismo.

A promessa de impedir qualquer tentativa de regulação da mídia (como deseja parte do PT) nada tem de devoção à liberdade de imprensa. Qualquer projeto que corrija distorções no sistema midiático, por mais leve que seja, passaria obrigatoriamente pela anulação de concessões de rádio e TV a parlamentares e pela proibição de cultos religiosos nas emissoras de TV aberta – largamente utilizados por confissões religiosas, especialmente evangélicas. Na última semana criou um comissariado para unificar a orientação dos diversos veículos da Câmara dos Deputados (jornal diário, rádio, portal e TV).

Além das obsessões e preparo físico, ostenta um desembaraço verbal de radialista, suficiente para não cometer gafes grosseiras. Engravatado, certinho, sem barba nem bigode, óculos leves, passa a imagem de confiável, protetor, bom vizinho, bom burguês, capaz de sonhar com rupturas, mas não com o caos. Numa coleção de dez fotos tomadas já na presidência da Câmara, cinco delas mostravam-no com a mão na boca, truque que até jogar de futebol apreendeu para não ser surpreendido por experts em linguagem labial. 

Meteoro fascinante para acompanhar, preocupante como dono do poder.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Dr. Moro, o Senhor Está Dizendo Que o STF Pode Ser Corrompido?

Autor: Fernando Brito

Registrou-se alguma tentativa de interferência do Ministro da Justiça sobre o Sr. Dr. Juiz Sérgio Moro?
Acaso José Eduardo Cardozo telefonou-lhe pedindo para “aliviar” alguém?
Seu trabalho – que não é o de acusar, mas o de julgar – foi obstaculizado por alguma ação do Ministério da Justiça?
Não.
Então, Dr. Moro, o senhor está cometendo os maiores pecados que pode praticar um Juiz.
O de falar sobre o que está fora do processo judicial aos seus cuidados.
Referir-se aos advogados dos réus como “emissários dos presos” é fazer uma redução criminosa do papel da advocacia.
Pretender que eles não possam discutir o procedimento do juízo e, até, suas decisões – desde que as cumpram – é manifestar uma visão autoritária da Justiça, própria dos absolutistas, que consideram o exercente do poder algo próximo de Deus, sobre quem não se permite dúvida ou discordância.
Coisa de tiranos, não de homens da Justiça.
O senhor, por acaso, tem a seu lado o acocoramento do espírito da liberdade que, um dia, já ficou de pé neste país.
Dizer que é necessária a manutenção de uma prisão preventiva para “preservar a integridade da Justiça contra a interferência do poder econômico” é o mesmo que dizer que as instâncias judiciais acima da sua – porque, certamente, só o que erode sua independência é  o arreganho autoritário que lhe acompanha o narcisismo – são corruptíveis.
No caso, o Supremo Tribunal Federal.
É a ele que o senhor acusa de estar sujeito à “interferência do poder econômico”.
Mais especificamente,  chama de corruptível ao Ministro Teori Zavaski, a quem cabe apreciar, em segunda instância, suas decisões?
Porque é essa a exegese de suas palavras desabridas.
O senhor acha que o Ministro da Justiça, que não tomou sequer a providência de mudar a equipe de delegados que se refestelaram no facebook em politicagem eleitoral, vai ser portador de pressões econômicas sobre os ministros do Supremo?
Porque é o Supremo, e  só ele, quem pode revogar suas decisões.
Se em relação a Cardozo é um delírio, em relação aos integrantes do STF é uma ofensa.
O senhor está fazendo, na prática, uma acusação à honra dos ministros do STF que, se tiverem brio, hão de lhe chamar às falas mediante simples representação.
Infelizmente, brio parece estar mais escasso no Brasil do que as chuvas.
Mas, apesar do avassalamento dos caráteres, haverá pessoas do povo, simples como eu, a perguntar-lhe: afinal, Dr. Moro, a quem o senhor está chamando de corruptor e de corrupto, além dos réus a quem o senhor, generosamente  – depois de te-los chamado de “bandidos profissionais” já perdoou.
A quem o senhor diz que haveria a malsinada “interferência do poder financeiro”?

Quem Nomeou JB Para Falar em Nome dos Honestos?

KOTSCHO
247 – Quem nomeou Joaquim Barbosa para falar em nome de "brasileiros honestos", questiona Ricardo Kotscho, em seu blog, ao rebater a mensagem do ex-presidente do STF em que pede a demissão do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O jornalista pergunta, ainda, qual foi a real intenção de JB ao fazer tais críticas. "Se foi para derrubar o ministro da Justiça, perdeu. Com sua 'exigência', apenas reforçou a permanência de Cardozo no cargo, pois sabemos que a presidente Dilma não é de ceder a pressões", avalia. Leia a íntegra de seu texto:
No vazio político, ressurge Joaquim, pedindo passagem
Com a presidente Dilma Rousseff descansando numa praia da Bahia e o Congresso Nacional em recesso carnavalesco de 12 dias, o vazio político destes dias de sassaricos tinha que ser ocupado por alguém, como costuma acontecer.
Do nada, ressurgiu Joaquim Barbosa, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, que deixou o conforto da sua aposentadoria precoce e do belo apartamento de Miami para aparecer como convidado especial, entre outras celebridades, no camarote montado pelo jornal O Globo no sambódromo da Marques de Sapucaí.
Depois de viver seus dias de glória e rapapés na mídia nativa durante o julgamento do mensalão, Joaquim andava sumido do noticiário. Para voltar aos holofotes, aproveitou o Carnaval, e começou a disparar mensagens no twitter, tendo como alvo o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, aquele que só pensa em ocupar a sua vaga ainda aberta no STF.
"Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a presidente Dilma Rousseff demita imediatamente o ministro da Justiça", disparou, em meio à folia, referindo-se aos encontros que Cardoso manteve com advogados dos envolvidos na Operação Lava Jato.
Nós quem, cara pálida? Quem o nomeou para falar em nome dos "brasileiros honestos" e se dirigir desta forma à presidente da República?
Empolgado com a repercussão, Joaquim voltou a atacar na madrugada de terça: "Se você é advogado num processo criminal e entende que a polícia cometeu excessos/deslizes, você recorre ao juiz. Nunca a políticos! Os que recorrem à política para resolver problemas na esfera judicial não buscam a Justiça. Buscam corrompe-la. É tão simples assim".
Nem tanto. Como era de se esperar, alguns dos mais renomados advogados e juristas brasileiros reagiram indignados à lição de moral dada pelo ex-presidente do STF, sem ninguém lhe pedir, e a OAB divulgou uma nota de repúdio, assinada pelo seu presidente, Marcus Vinícius Furtado Coelho:
"O advogado possui o direito de ser recebido por autoridades de quaisquer dos poderes para tratar de assuntos relativos à defesa do interesse dos seus clientes. Essa prerrogativa do advogado é essencial para o exercício do amplo direito de defesa. Não é possível criminalizar o exercício da profissão".
Nesta quarta-feira, o ministro Cardoso também resolveu reagir aos ataques de Barbosa. Em entrevista à Folha, chamou o ministro aposentado de autoritário:
"O ministro Joaquim Barbosa tem o direito de falar o que bem entende. Não vou polemizar. O que vou dizer é que as pessoas que têm mentalidade autoritária de criminalizar o exercício da advocacia não percebem que vivem num Estado de direito (...) Talvez para alguns nem devessem existir contraditório, ampla defesa e advogados no mundo. Talvez preferissem o linchamento".
Também defendo, claro, todo o direito de Barbosa se manifestar sobre qualquer assunto, quando e como bem entender. Recomenda-se, porém, a um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, pelo simbolismo do cargo, que mantenha um mínimo de recato, respeito e responsabilidade ao se dirigir à presidente eleita, a um ministro de Estado ou ao conjunto de uma categoria profissional que exerce papel fundamental nas democracias.
O que quer, afinal, Joaquim Barbosa?
Se foi para derrubar o ministro da Justiça, perdeu. Com sua "exigência", apenas reforçou a permanência de Cardoso no cargo, pois sabemos que a presidente Dilma não é de ceder a pressões, ao contrário, ainda mais vindas de alguém que hoje não tem procuração para falar em nome de nenhum setor representativo da sociedade.
Para consegui-lo, Joaquim teria que entrar num partido político, candidatar-se a algum cargo público e submeter-se ao voto, como parece ser seu objetivo, ao não se conformar com o esquecimento pós-aposentadoria. Fora disso, só se estiver disposto a pedir passagem para vestir a fantasia do "salvador da pátria", acima dos partidos e da legislação vigente, que muitos andam procurando como atalho para voltar ao poder.
E viva a Vai-Vai!

Joaquim Barbosa, Vítima da Síndrome do Esquecimento!

Ricardo Noblat

Flor do recesso é o não fato político tratado como se fosse fato político. Costuma brotar durante os recessos de meio e de fim de ano do Congresso.
É quando escasseiam as notícias. Os jornalistas ficam sem assunto e se desesperam. E os políticos mais espertos se aproveitam do vazio para se promover.
Com menos frequência, a flor do recesso também pode brotar em períodos mais curtos de recesso do Congresso. Como o do carnaval. Uma vez terminado o recesso, a flor murcha. Muda-se de assunto.
Dificilmente será diferente desta vez.
O ex-ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), postou no twitter críticas ao ministro José Eduardo Cardoso, da Justiça, por ele ter se reunido em seu gabinete com advogados de empreiteiros presos pela Operação Lava-Jato, que investiga a corrupção na Petrobras.
Barbosa escreveu:
- Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a presidente Dilma Rousseff demita imediatamente o ministro da Justiça. Reflita: você defende alguém num processo judicial. Ao invés de usar argumentos e métodos jurídicos perante o juiz, você vai recorrer à Política?
Cardoso encontrou-se no dia 5 de fevereiro com representantes da empreiteira Odebrecht - um vice-presidente e dois advogados. O encontro constou da agenda oficial do ministério.
Deles recebeu representações denunciando supostas irregularidades em determinados procedimentos da Lava-Jato.
O ministro alegou “sigilo” para não dar detalhes das acusações feitas pelos representantes da Odebrecht.
O leigo pode enxergar comportamento suspeito onde ele não existe. Mas Barbosa, não.
Um ministro de Estado é um servidor público. A porta do seu gabinete deve estar sempre aberta para receber quem lhe pedir audiência. O assunto a ser tratado poderá ser sigiloso ou não.
O encontro poderá se tornar público ou não. É simples assim. É o que está em leis e regulamentos. É também o que dita o bom senso.
O ex-ministro Barbosa desconhece as leis? Não. Carece de bom senso? Isso fica a critério de cada um.
No STF, ele não recebia advogados das partes. Os demais ministros recebiam e recebem. Nem por isso se tornam automaticamente suspeitos de favorecer acusação ou defesa.
A oposição pegou carona com gosto na crítica do ex-ministro Barbosa e promete levar o ministro da Justiça a se explicar no Congresso.
Flor do recesso! Nada mais do que isso.
Oportunismo politico da parte do ex-ministro Barbosa, empenhado em não se deixar esquecer.
Sossegue! Não será esquecido.

A Surra de Haddad em Villa e Sheherazade

Por : Paulo Nogueira

Só ouviria a Jovem Pan sob a mira de um revólver. Não seria a presença de Haddad na rádio que me levaria a sintonizá-la.

Não dou a minha audiência às mídias que entendo fazerem mal ao Brasil. Aproveito melhor meu tempo.

Acho quase patético que críticos da Globo, por exemplo, não saiam da emissora. Você frequentemente encontra nas redes sociais alguém que ataca o JN, e depois o jornal da noite, e depois a Globonews – e entre tudo isso a CBN.

Você contribui com o inimigo.

Mas razões jornalísticas me fizeram ouvir a gravação da entrevista com Haddad. A repercussão foi grande.

De resto, minha amiga Priscila Sérvulo me mandou o link do programa, com uma recomendação para que visse e comentasse.

Pensei comigo: vou experimentar.

Acabei vendo a entrevista toda.

Duas coisas opostas me chamaram a atenção: o preparo calmo e sereno de Haddad e o despreparo bufão dos entrevistadores Villa e Sheherazade.

De uma forma geral, foi uma coisa parecida com o Roda Viva em que Piketty passeou diante de uma bancada hostil e inepta comandada pelo economista André Lara Resende.

As más intenções da Jovem Pan apareceram antes mesmo da entrevista.

Sherezade disse que demorara duas horas para ir de casa para o trabalho. Culpa de Haddad, naturalmente.

Logo aí Haddad também mostrou suas armas. Ele quis saber de onde ela vinha, e se era assim sempre.

Pressionada, ela admitiu que em geral leva uma hora. E disse a Haddad que mora no Barueri. Fora da cidade, portanto. Se morasse em São Paulo, lembrou Haddad, ela perderia menos tempo no trânsito.

Villa foi logo abatido também.

Ele falou na taxa de reprovação de Haddad no meio do mandato como se fosse um fato novo na história dos prefeitos de São Paulo.

Haddad disse a ele que, como historiador, ele deveria consultar o passado. Marta e Kassab passaram por situações semelhantes, e logo depois de aumentar a tarifa dos ônibus, como ele próprio.

Haddad mostrou a relação entre aumento de tarifa e popularidade do prefeito.

Pego de surpresa, tudo que Villa conseguiu dizer é que iria pesquisar o assunto.

Isso quer dizer o seguinte: ele não fez a lição de casa.

Segundo algumas versões, Patrícia Poeta foi afastada do JN por supostamente não ter se preparado convenientemente para a entrevista com Marina Silva.

Um editor rigoroso afastaria Villa, mas imagino que isso não vá acontecer por uma razão: espera-se dele, apenas, que fale mal continuamente do PT, e não que se prepare para entrevistas. E ele entrega – em sua maneira caricatural, confusa e frequentemente imbecil — o que esperam dele.

Numa de suas grandes frases, Euclides da Cunha, ao tratar de Floriano Peixoto, disse que ele chegara à presidência não porque se elevara, mas porque se operara uma depressão em torno dele.

Haddad se destacou, em parte, pela depressão a seu redor na entrevista na Jovem Pan.

Imagine alguém que, em pleno 2015, consegue atacar ciclovias numa metrópole como São Paulo.

É Villa.

Suas observações, se fossem feitas em cidades como Londres ou Paris, o levariam ao ridículo e ao ostracismo imediatamente.

Mas no Brasil isso lhe dá microfones como o da Jovem Pan.

Haddad contou suas conversas com prefeitos de fora do Brasil a respeito das ciclovias.

Disse que é consenso que elas vem antes dos ciclistas. Sem as ciclovias, as pessoas não vão se arriscar em ruas perigosas.

Nem Sheherazade e nem Villa tinham a menor ideia sobre o assunto. Sobre nada, aliás – de semáforos quebrados ao preço do metro quadrado de uma ciclovia.

Ali estava, diante de Haddad, a ignorância enciclopédica personificada em dois entrevistadores sem a menor condição jornalística de sabatinar alguém.

Villa, a certa altura, jogou o Petrolão para cima de Haddad. Chegou a citar Gilmar Mendes, como se a opinião do meritíssimo valesse alguma coisa.

Haddad desarmou-o imediatamente. Afirmou que, como todo mundo, quer a punição de quem quer que tenha desviado dinheiro público na Petrobras.

E devolveu a Villa: “Você não quer que os corruptos do Tremsalão sejam presos? Você não quer que o conselheiro do TCU de São Paulo indicado pelo Covas sofra consequências pela conta na Suíça com dinheiro da corrupção?”

Villas balbuciou apenas, a voz mortiça: “Sim.”

Maluf também foi posto na conversa. Haddad disse que faz aliança não com pessoas, mas com partidos, e à luz do dia. Lembrou que Serra foi buscar o apoio do mesmo Maluf na calada da noite. “E você não disse nada”, completou.

Fora do campo objetivo, Haddad também enquadrou Villa com bom humor.

Ao responder a uma colocação, ele foi interrompido abruptamente. E então disse: “Puxa, Villa, vocês me atacam todos os dias. Deixa  hoje pelo menos eu me defender.”

Haddad fez o que se espera de um político que sabe o que quer.

Villa e Sheherazade fizeram aquilo que é inevitável em entrevistadores que não sabem entrevistar.

Deu no que deu: nocaute.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

fhc é Humilhado em Horário Nobre na BBC de Londres

No programa de maior audiência da BBC transmitido por mais de 144 países, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi humilhado em entrevista durante o horário nobre
Por redação (Portal Metrópole)
No maior canal de televisão da Inglaterra e do Mundo, a BBC de Londres, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi humilhado em horário nobre do Canal.
Para vergonha maior, o programa ainda é transmitido por mais de 144 países pela BBC World e a BBC News Chanel.
O tucano foi entrevistado por Stephen Sackur no programa BBC Hard Talk, o programa de maior audiência da emissora.
O fato gerou grande repercussão pela Inglaterra, no qual cidadãos destacam como "massacre televisionado", mas garantem que o programa é poucos que saem fortalecidos.
O ex-presidente Lula também foi entrevistado pelo programa e foi fortemente elogiado pelo apresentador.
Vale lembrar que a BBC é inimiga número 1 da Rede Globo na qual é um convênio de manipulação. 
Na entrevista FHC queria falar sobre corrupção, mas teve que escutar poucas e boas do apresentador e ainda concordar. O apresentador diz que FHC foi frustante no comando do país e que mesmo tendo dois mandatos como presidente ele não foi capaz de mudar nem uma parcela do país. Logo em seguida, o apresentador deixa claro que mesmo FHC querendo falar sobre a educação e se gabar por isso, ele não foi tão bom assim nessa área e diz que após o mandato dele o ensino nas escolas é um desastre.  
Na área econômica em que o ex-presidente diz ter revolucionado o apresentador diz que a unica economia que ele mudou foi a de auxiliar os mais ricos, pois a pobreza não foi extinta como deveria ter sido feito. Fernando Henrique rebate dizendo que na época (2003) teria começado a extinção da pobreza graças ao seu governo, porém Stephen diz que esse feito é do governo Lula bem depois dele ter deixado a presidência e elogia o Bolsa Família. 
Stephen também critica as privatizações ilimitadas aplicadas por FHC e as caracteriza como "inadmissíveis" 
Finalizando, o apresentador fala sobre a corrupção no seu governo iniciando pelo engavetador geral da república que recebeu mais de 600 processos e arquivou a maioria, cerca de 99%. "O senhor quer me falar que nunca houve nada de errado no seu governo? Ele simplesmente sentou nos processos, um barbárie", FHC se defende dizendo que ele era independente em suas decisões, mas o apresentador deixa claro aos telespectadores que quem o nomeou foi o presidente Fernando Henrique.
Para terminar a entrevista, FHC se vê sem saída e ainda mente dizendo que ninguém foi corrupto nem foi acusado durante seu governo.
Certamente essa foi uma batalha dura entre o tucano e o apresentador, mas que de certa forma envergonha o Brasil.

Caso HSBC: Quanto Há de Independência na ‘Mídia Independente’?

Por : 

Um anunciante influente
Quanto há de independência real na imprensa que os suspeitos de sempre gostam de chamar, peitos estufados, de “independente”?
O episódio da estrepitosa demissão de um colunista do jornal britânico Daily Telegraph joga luzes sobre este assunto.
Peter Oborne disse que saía porque a cobertura do jornal do caso HSBC é uma “fraude contra os leitores”.
O que o jornal não quer arriscar, segundo ele, é a publicidade milionária que o banco lhe garante.
Na Era Digital, anúncios são cada vez mais escassos para a mídia impressa – e o preço a pagar por isso é o que se está vendo no Telegraph.
A independência da mídia “independente” termina na necessidade de agradar seus anunciantes.
Nos dias de ouro da mídia impressa, o quadro era outro, e era possível alguma altivez – pelo menos em sociedades com mídia mais avançada que a brasileira.
Pertence à antologia do jornalismo o embate travado, algumas décadas atrás, entre a General Motors, então a maior montadora do mundo, e a revista de negócios Fortune.
Desgostosa com uma reportagem da Fortune, a GM decidiu suspender por seis meses a publicidade na revista, da qual era o maior anunciante.
Ao saber disso, a Fortune imediatamente publicou sua resposta. Propaganda da GM não mais seria aceita na revista.
Foi um momento de glória, talvez o último, na divisão entre Igreja (conteúdo) e Estado (publicidade) que foi a essência durante muitos anos da imprensa americana.
No caso do Telegraph, pelo relato de Oborne, a Igreja foi estuprada pelo Estado.
Não será fácil administrar os danos à imagem num país como a Inglaterra, em que a opinião pública tem o poder de fechar um jornal transgressor, como foi o caso do tabloide News of the World.
No Brasil, jornalistas que estiveram ou estão em postos de comando nas grandes empresas jornalísticas conhecem muito a dura realidade da “independência” da imprensa.
Tente encontrar alguma reportagem crítica na Folha – ou no Globo, ou na Veja, ou no Estadão – sobre um grande anunciante.
Há, aqui, um complicador adicional.
Como as empresas frequentemente estiveram à beira de quebrar, por decisões de investimento catastróficas tomadas por famílias pouco capacitadas, os credores também sempre falaram alto.
Vivi uma situação dessas.
Em 1997, quando eu dirigia a Exame, fizemos uma reportagem de capa sobre o banco Safra.
Eu já tinha lido e aprovado o texto quando Roberto Civita pediu para vê-la, o que jamais acontecera.
Imprimimos o artigo e mandamos para ele. Jamais recebemos de volta. Tivemos que improvisar uma capa na última hora.
Um dos irmãos Safras ligou para Roberto Civita para conhecer detalhes da capa. E ela acabou reprovada fora da redação.
Como Safra conseguiu isso?
Porque era um dos maiores credores da Abril.
Acabou ali minha ilusão sobre a força da Igreja diante do Estado na Abril.
Interesses poderosos estão por trás das grandes decisões editoriais nas empresas jornalísticas — ou de anunciantes, ou de credores, ou simplesmente dos próprios donos.
Infelizmente, aqueles interesses quase nunca coincidem com os do leitor.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Golpismo Entra na Fase de Mentiras e Boatos, Com Ajuda do Governo

É impossível não concordar com Miguel do Rosário.  Tarcílio

Mais uma vez Miguel do Rosário fala tudo, com todas as letras. É irretorquível. Martinho

Autor: Miguel do Rosário

Aproveitando-se da tolice do governo de ter desmontado praticamente todo esquema de comunicação que havia sido organizado durante a campanha eleitoral, a oposição continua espalhando boatos e mentiras, como esse, mais recente, de que Dilma irá promover um confisco da poupança.
É a mesma fonte que, às vésperas da votação no segundo turno, espalhou boatos, via whatsapp e facebook, e redes sociais em geral, sobre a morte do doleiro Alberto Youssef, acusando Dilma Rousseff.
Se alguém tinha dúvida de onde veio a mentira: ela foi publicada, com ares de verdade absoluta, no site do PSDB.
Naquele momento, porém, o governo ainda se beneficiava de uma estrutura de campanha, e havia uma postura pró-ativa de todo o governo e seu eleitorado para desmentir boatos.
Esses boatos, mesmo desmentidos, geram mal estar e desconfiança, na população, em relação ao governo, sobretudo quando este permanece em silêncio.
Quer dizer, houve uma novidade. O blog do Planalto respondeu, pela primeira vez, uma mentira da Globo, sobre uma modificação em verbete do Wikipédia.
Bom sinal, mas ainda extremamente tímido, e ineficaz, porque é preciso antes construir uma audiência para o blog do Planalto.
De que adianta publicar um desmentido que ninguém lê? De que adianta, se o blog do Planalto não entrevista a própria presidenta, e se esta não faz propaganda dele em seus discursos?
Dilma não poderia, em seus pronunciamentos na TV aberta, pedir aos brasileiros para acessarem o seu blog? Com isso, pavimentaria uma comunicação mais direta entre ela e o público, reduzindo o poder da mídia como intermediária.
Por que essa dependência voluntária da TV aberta, um meio em declínio, e onde o governo sofre uma profunda desvantagem política?
A mídia, conforme o blog da Cidadania já denunciou, publica os desmentidos de boatos de um jeito tão dúbio que o resultado é o leitor continuar desconfiado. Parece até que a intenção não é esclarecer.
Por enquanto, a resposta do Blog do Planalto à matéria mentirosa do Globo, sobre a alteração no Wikipédia, é como um cachorrinho pequeno latindo para um imenso pitbull.
Não adianta mostrar coragem se não há força.
A produção de imagens, por exemplo: charges, memes, etc, por parte da oposição e da direita, culpando o governo e o PT por todos os males, continua com força total. E isso é um processo cumulativo, porque se cria um gigantesco banco de imagens na internet.
Suponho que o PT ache que está produzindo um material de comunicação espetacular. Não está. Seus responsáveis por comunicação contam número de visitas, como se todos os visitantes lhes fossem simpáticos. Não são.
O PT nunca esteve tão por baixo, em décadas. Sua comunicação é um completo fiasco.
PT e governo acham que comunicação política é falar bem de si mesmo, é repetir, ad infinitum, que tirou tantos milhões da miséria, etc.
Comunicação política não é isso, mas dialogar, ouvir críticas, trocar ideias sobre o futuro, estar disposto a mudar, falar sobre os problemas do país.
Mesmo com centenas de parlamentares, todos com verbas altas de gabinete, ninguém pensou em reunir uma estratégia unificada para produzir uma comunicação de alta qualidade, eficaz, não partidarizada, crítica.
Quer dizer, alguém pensou sim: Lula, ao lembrar que um gabinete de deputado tem mais verba que um diretório partidário.
O mundo universitário e científico está repleto de cérebros simpáticos à esquerda, que não são contatados ou usados pelo PT. Dá-se a impressão que o PT não tem quadros, que o partido é dominado pela mais absoluta mediocridade intelectual.
Onde estão os contrapontos e os contra-ataques na forma de mensagens simples, apartidárias, bem humoradas, com produção de vídeos, charges, histórias em quadrinho, músicas?
No passado, o partido comunista, com muito menos verba, patrocinava cinema e literatura. Jorge Amado recebeu, em toda a sua vida, ajuda do partido para escrever, e se tornou o escritor brasileiro mais conhecido no mundo inteiro.
É preciso produzir material para fora do PT, para outros partidos, para a sociedade, para que esta leia conteúdo num espaço minimamente imparcial, sem estrelas vermelhas enormes por trás.
O governo tem ministros com grande capacidade oratória, coragem e experiência para enfrentar a mídia, como Jacques Wagner, Berzoini, Miguel Rosseto e Mercadante.
Ao que parece, porém, a presidenta não os deixa fazerem a batalha da comunicação.
A presidenta não transfere poder para o responsável pela Secom, Thomas Traumann, que permanece amarrado a uma situação constrangedora, quase decorativa.
Sem liderança política na comunicação do governo, esta acaba, automaticamente, em mãos de agências privadas de publicidade, que fazem um serviço apenas protocolar, até porque, possivelmente, elas tem mais afinidade com a Globo e com a oposição do que com o governo.
Enquanto isso, o golpismo midiático abandona todos os escrúpulos.
Cúmplice dessas campanhas de mentira, oriundas de fontes apócrifas (mas notoriamente ligadas à oposição), o golpismo midiático pode causar estragos devastadores na popularidade da presidenta e de seu partido (como já causou), desestabilizar o governo (como já desestabilizou) e provocar danos à economia (já provocou).
Para piorar, o governo promove um combate às distorções fiscais e as chama de “ajuste fiscal”, num pacotão que mistura medidas saneadoras com outras quiçá desnecessárias, mas sobretudo sem promover uma campanha de esclarecimento.
E tudo para quê? Para posar de durão e malvado perante o mercado?
Sem comunicação inteligente, qualquer medida minimamente saneadora do governo será pintada facilmente como uma traição de classe ou estelionato eleitoral.
O governo conseguiu a proeza de jogar fora todo o prestígio que havia acumulado no segundo turno da campanha eleitoral.
Tenho uma suspeita crescente de que a maior parte da perda de popularidade de Dilma vem da cegueira do governo e da presidenta em relação à disposição progressista de grande parte da sociedade brasileira. Querem agradar uma minoria conservadora, e perdem a maior parte da sociedade, que esperava um governo mais combativo, mais criativo, mais valente na defesa de posições progressistas.
Mas sem comunicação, não há criatividade. O máximo que se consegue parir são nomes bizarros como “Pátria Educadora”.
A estratégia já está dada: desconstruir o PT e Dilma, durante o primeiro ano de governo, preparando o terreno para um impeachment no segundo ano.
Estão conseguindo, com ajuda do governo e do PT.

Kotscho PSDB Só Pensa Em Tirar Dilma e Lula do Jogo

Segundo o colunista Ricardo Kotscho, partido faz de tudo por sua “obsessão” em derrubar Dilma e tirar Lula do jogo, mas não tem projeto de país: ‘Que fim levou Aécio Neves? Parece um vagalume, que vez ou outra acende em Brasília. Alckmin, outro nome apontado como possível candidato em 2018, dedica-se atualmente apenas a achar água em SP para evitar o racionamento. Serra só se movimenta nos bastidores. E FHC continua FHC’

247 – O COLUNISTA RICARDO KOTSCHO AFIRMA QUE PSDB NÃO TEM OUTRO PROJETO A NÃO SER SUA “OBSESSÃO” EM DERRUBAR DILMA E TIRAR LULA DO JOGO. LEIA:
Para refletirmos durante o Carnaval: o que move o PSDB, qual é o seu projeto de país, além da obsessão em derrubar Dilma e tirar Lula do jogo?
A julgar pelas manifestações dos seus representantes no Congresso Nacional e a guerra de extermínio desfechada nos últimos dias por seus robôs na internet, nada mais interessa.
Para alcançar estes objetivos, vale tudo, até se aliar a bolsonaros e caiados, e entregar o comando das oposições a um "aliado" do governo, o todo-poderoso presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
Ou alguém acredita que os tucanos estão realmente preocupados com os destinos da Petrobras, a vida da população e os rumos do país?
Outro dia perguntei no JRN ao deputado Carlos Sampaio, lider do PSDB na Câmara, quais eram os projetos do partido para 2015, além de pedir a criação de CPIs para investigar o governo. Sampaio deu uma resposta genérica e não consigo me lembrar de nenhum tema relevante.
Todas as iniciativas políticas, desde a reabertura dos trabalhos do Congresso há duas semanas, não partiram nem do governo nem da oposição, mas do suprapartidário Eduardo Cunha.
Por onde andam os caciques tucanos? Que fim levou Aécio Neves, o presidente do partido e candidato derrotado por pouco nas últimas eleições? Parece um vagalume, que vez ou outra acende em Brasília, solta uma nota ou faz um discurso, e some novamente. Alckmin, outro nome apontado como possível candidato em 2018, dedica-se atualmente apenas a achar água em São Paulo para evitar o racionamento. Serra só se movimenta nos bastidores. E FHC continua FHC.
O fato é que 2018 ainda está muito longe e o PSDB simplesmente não se conforma com a quarta derrota seguida para o PT. Desde o primeiro minuto após a reeleição de Dilma, o partido só pensa em encontrar atalhos para voltar ao poder, só pensa nisso.
Por isso, mesmo que não assumam esta bandeira abertamente agora, o impeachment tornou-se o caminho mais curto para a retomada do Palácio do Planalto, como fica claro nas convocações feitas pelas redes sociais para o protesto do "Fora Dilma" marcado para o dia 15 de março.
O dilema tucano é que não bastará tirar Dilma. É preciso, antes, tirar Lula do jogo. É o que leva o PSDB a jogar todas as suas fichas no Judiciário e na mídia, a bordo da Operação Lava-Jato, como se tivessem descoberto um novo Plano Real.
A quem pensam que enganam? E o país que se dane.

Por Que 8 Mil Contas de Brasileiros em Paraíso Fiscal Não São Notícia no ‘JN’?

Se jornalistas do PiG estão escondendo é porque a lista contém nomes de tucanos gordos e obesos e, quem sabe, de patrões deles.  Tarcílio

Não se pode dizer que a notícia é apenas de interesse estrangeiro, pois o volume de contas associadas ao Brasil configura a quarta maior clientela da lista do HSBC na Suíça
por Helena Sthephanowitz
Desde segunda-feira, os telejornais do mundo inteiro noticiaram o escândalo mundial do banco HSBC ter ajudado milionários e criminosos a sonegar impostos em seus países, usando sua filial na Suíça. Mas no Jornal Nacional da TV Globo, nenhuma palavra sobre o assunto.
Não se pode dizer que a notícia é apenas de interesse estrangeiro, pois 8.667 correntistas são associados ao Brasil, despontando como a quarta maior clientela.
O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco Filho, por exemplo, confessou em depoimento à Polícia Federal, ter mantido dinheiro de propinas neste HSBC Suíço durante um período.
No Brasil, não é só a TV Globo que parece desinteressada nesta notícia. O resto da imprensa tradicional brasileira também reluta em divulgar até nomes que já saíram na imprensa estrangeira.
Um portal de notícias de Angola noticiou a presença na lista da portuguesa residente no Brasil, Maria José de Freitas Jakurski, com US$ 115 milhões, e do empresário que detém concessões de ônibus urbanos no Rio de Janeiro, Jacob Barata, com US$ 95 milhões. A notícia traz dores de cabeça também para o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB-RJ), pois Barata é chamado o "rei dos ônibus" e desde junho de 2013 é alvo de protestos liderados pelo Movimento Passe Livre.
O dinheiro nas contas pode ser legítimo ou não. No caso de brasileiros, a lei exige que o saldo no exterior seja declarado no Brasil e, se a origem do dinheiro for tributável, que os impostos sejam devidamente pagos, inclusive no processo de remessa para o exterior. Porém é grande a possibilidade de esse tipo de conta ser usada justamente para sonegar impostos, esconder renda, patrimônio e dinheiro sujo vindo de atividades criminosas. O próprio HSBC afirma que mudou seus controles de 2007 para cá, e 70% das contas na Suíça foram fechadas.
A receita federal Inglaterra, onde fica a matriz do HSBC, identificou 7 mil clientes britânicos que não pagaram impostos. A francesa avaliou que 99,8% de seus cidadãos presentes na lista praticavam evasão fiscal. Na Argentina, a filial do HSBC foi denunciada em novembro de 2014, acusada de ajudar 4 mil cidadãos a evadir impostos. Segundo a agência de notícias Télam, o grupo de mídia Clarín (uma espécie de Organizações Globo de lá) tem mais de US$ 100 milhões sem declarar.
Os dados de mais de 100 mil clientes com contas entre 1988 e 2007 foram vazados pelo ex-funcionário do HSBC Herve Falciani. O jornal Le Monde teve acesso e compartilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), formado por mais de 140 jornalistas de 45 países para explorar as informações e produzir reportagens, compondo o projeto SwissLeaks.
No Brasil, o jornalista Fernando Rodrigues do portal UOL é quem detém a lista e deveria revelar o que encontrou. Porém sua postura tem sido mais de esconder do que de revelar o que sabe. Segundo ele, revelará nomes que tiverem "interesse público" (portanto, independentemente da licitude) ou nomes desconhecidos sobre os quais venham a ser provadas irregularidades.
Mas o próprio Rodrigues disse que há nomes conhecidos de empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais e, até agora, praticamente não publicou nenhum. Nem o de Jacob Barata, de claro interesse jornalístico. Só publicou dois nomes já divulgados no site internacional do SwissLeaks (contas do banqueiro falecido Edmond Safra e da família Steinbruch), o de Pedro Barusco, também já divulgado antes, e de outros envolvidos com a Operação Lava Jato, como Julio Faerman (ex-representante da empresa SBM), o doleiro Raul Henrique Srour, e donos da Construtora Queiroz Galvão.
Rodrigues não publicou nenhum nome de artista, esportista, intelectual, político ou ex-político, contradizendo sua política editorial de revelar tudo que seja de interesse público. Jornalistas do ICIJ de outros países divulgaram os nomes de celebridades, políticos, empresários. Há atores, pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol, o presidente do Paraguai etc.
A cautela no Brasil é contraditória com o jornalismo que vem sendo praticado pela imprensa tradicional de espalhar qualquer vazamento, sem conferir se tem fundamento, quando atinge alguém ligado ao governo da presidenta Dilma Roussef ou ao Partido dos Trabalhadores. Esta blindagem de não publicar o que sabe só costuma ser praticada quando há nomes ligados ao PSDB ou ligados aos patrões dos jornalistas e grandes anunciantes.
Um caso recente não noticiado pela mídia tradicional foi o discurso em 29 de abril de 2013 do ex-deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), no plenário da Câmara, em que disse sobre um dos donos da TV Globo: "(...) O Sr. João Roberto Marinho deveria explicar porque no ano de 2006 tinha uma conta em paraíso fiscal não declarada à Receita Federal com mais de R$ 100 milhões (...)". Tudo bem que o ônus da prova é de quem acusa, mas se fosse contra qualquer burocrata na hierarquia do governo Dilma, estaria nas primeiras páginas de todos os jornais e o acusado que se virasse para explicar, tendo culpa ou não.
O período que abrange o SwissLeaks, de 1988 a 2007, pega a era da privataria tucana e dos grandes engavetamentos na Procuradoria Geral da Republica, enterrando escândalos de grandes proporções sem investigações.
É só coincidência, mas o próprio processo de transferência do controle do antigo banco Bamerindus para o HSBC no Brasil se deu em 1997, durante o governo FHC. Reportagens da época apontaram que foi um "negócio da China" para o banco britânico.