domingo, 31 de agosto de 2014

Marina Não É “Lula de Saias”, Mas Jânio e Collor

Ricardo Kotscho
  

Advertência necessária: quero deixar bem claro, antes de começar a escrever este texto, no qual venho pensando desde que Marina Silva explodiu como candidata favorita a presidente da República, após a tragédia aérea que matou Eduardo Campos, para que ninguém entenda errado o título: não se trata de uma comparação entre pessoas e suas trajetórias de vida, mas entre fenômenos políticos.

Nos últimos dias, apareceram muitos comentários na mídia comparando Marina a Lula, ambos com origens bem humildes e histórias de vida comoventes, que acabaram construindo seus próprios caminhos, os dois fundadores do PT e vitoriosos em suas caminhadas. Por diferentes caminhos, eles agora se encontram frente a frente em mais uma disputa pela Presidência da República do Brasil, e há quem chame Marina de "Lula de saias", a mulher que desafia Dilma Rousseff, candidata de Lula.
A única vantagem de ficar velho, trabalhando no mesmo ofício, é ser testemunha de tantas histórias acontecidas ao longo deste enredo político dos últimos 50 anos. Conheci e convivi com os quatro personagens citados no título deste artigo e tenho condições de escrever sobre as coincidências e as diferenças entre eles.
Chamar Marina de "Lula de saias" é um grande equívoco. O professor mato-grossense Jânio Quadros, o playboy alagoano Fernando Collor, o metalúrgico pernambucano Lula, criado no ABC paulista, e a ambientalista acreana Marina da Silva chegaram onde chegaram por caminhos muito diferentes.
Embora os quatro sejam um retrato da diversidade social brasileira, com algumas semelhanças no surgimento do fenômeno político, há enormes abismos entre as motivações e os apoiadores das suas candidaturas. Jânio, Collor e Marina têm um ponto em comum: lançaram-se candidatos com discursos contra a "velha política", à margem dos grandes partidos, prometendo nas campanhas criar um "novo Brasil" e uma "nova política", baseados unicamente em suas vontades e carismas, como se isso fosse possível. Pelos exemplos do passado, sabemos que isso não dá muito certo.
Os três lançaram candidaturas mais simbólicas do que reais: Jânio era o "homem da vassoura" e Collor o "caçador de marajás", ambos tendo como bandeira o combate à corrupção, a bordo do velho mantra udenista, moralista e hipócrita.  Na mesma linha, Marina também aparece como a candidata "contra tudo isto que está aí", a bordo das manifestações de protesto de junho de 2013, candidata provisoriamente abrigada no PSB, partido do falecido Eduardo Campos que, até meados do ano passado, estava na base aliada do governo petista.
Ao contrário destes três fenômenos eleitorais anteriores, bancados todos pela grana gorda do empresariado paulista, sempre  em busca de um candidato viável que atenda aos seus interesses,  Lula só foi eleito presidente da República em 2002, depois de três campanhas presidenciais fracassadas, e da longa construção de um amplo apoio na sociedade civil, que começou pelos sindicatos, passou pelos meios acadêmicos e culturais, e conquistou a juventude, combatendo justamente estes grandes barões paulistas aboletados na Fiesp e na Febraban, que financiaram Jânio, Collor e, agora, Marina, para evitar que seus inimigos de classe chegassem ao poder central.
Não tenhamos ilusões neste momento: é exatamente isto que está em jogo, não as personalidades de Marina e Dilma, os seus defeitos e virtudes pessoais, que são subjetivos. O mais importante é saber quem está de que lado, quais os interesses de classe que estão em disputa, quem apoia quem e por qual motivo.
Eu nunca escondi de que lado estou: diante deste quadro, apoio Dilma Rousseff, com certeza.

Reviravolta Neoliberal

VALDEMAR MENEZES (Jornal OPovo)

A pesquisa DataFolha dando empate técnico entre Marina Silva e Dilma Rousseff impacta com grande força a campanha eleitoral brasileira. Repete de certa forma a posição entre Serra e Dilma nas eleições de 2010, no mesmo período, quando o tucano botou dez pontos à frente para o segundo turno e depois recuou (http://goo.gl/iEoOhy). Contudo, desta vez, os petistas estão cônscios de enfrentar a maior investida conservadora de toda sua trajetória e não duvidam de que uma eventual vitória de Marina provocaria uma reviravolta neoliberal no Brasil, dando ensejo à retomada da influência de Washington sobre toda a América Latina, desta vez sem precisar recorrer a ditaduras militares. O programa dá ênfase à Aliança do Pacífico, pondo em segundo plano Mercosul e Brics, e se alinha com os EUA. Bastaria ler o programa de governo da Marina, está tudo lá, inclusive a decisão de entregar a Petrobras aos interesses privados. O despiste é a promessa de democracia participativa e mais investimento social (duas contradições flagrantes: uma, por colidir com a ojeriza dos seus grandes apoiadores a tudo que lembre “controle popular”; a outra, devido à exigência de cortes nos gastos do governo pelo tripé econômico neoliberal - com o qual Marina se comprometeu.

AJUSTE
Passar do atual modelo de inclusão social para o modelo neoliberal exigiria “ajuste” na economia, à custa de recessão induzida (não a tópica alardeada no Brasil esta semana) e desemprego, sob o pretexto de que o governo estaria gastando muito com programas sociais e isso provocaria inflação. Na Europa, essa receita ainda não surtiu efeito positivo: o desemprego massivo continua. Haveria corte de funcionários públicos, suspensão dos concursos públicos e terceirização. Não só: freio no aumento real e contínuo do salário mínimo e “flexibilização” das leis trabalhistas.

DESCARTE
Outro ponto é o descarte do atual modelo inclusivo. Não importa se este impediu que o Brasil sofresse as consequências dramáticas da maior crise do sistema econômico mundial, desde o crash de 1929. A candidata preferiria optar pela receita aplicada na Europa, que resultou em recessão econômica induzida, desemprego em massa e redução dos direitos dos trabalhadores. No mesmo período, o Brasil criou milhões de empregos, 40 milhões de pessoas saíram da miséria, houve aumento real e contínuo do salário mínimo e articulou um sistema de transferência de rendas que se tornou referência.

BANCO CENTRAL
Por que a independência do BC? Porque este tem o poder de “enquadrar” a economia. Há quem diga que quem controla o BC tem o País nas mãos. Na Europa, por exemplo, tanto faz eleger um partido socialista ou um liberal, nada muda, pois com o BC nas mãos do mercado financeiro, o governo só pode mexer em coisas secundárias. Estaria aí a razão da crise da representação, resultante da frustração dos eleitores com a democracia representativa, pois, seu voto não teria qualquer influência na gestão da economia, dominada pelos banqueiros.

IMPARCIALIDADE?
Os defensores do BC “independente” alegam que isso garantiria a “imparcialidade” das decisões, pois a instituição ficaria a salvo do jogo de interesses políticos. E quanto aos jogos do poder econômico? Sabe-se que o BC se guia por índices fornecidos pelos agentes financeiros privados (agências de classificação de risco, bancos, bolsas de valores, etc.), ou seja, a partir da ótica de interesse do mercado financeiro. Onde ficaria a “imparcialidade”? - indagam os críticos. Entendem que o governo eleito pelo povo não poderia nem mesmo executar o programa aprovado nas urnas, se este viesse a bater de frente com as determinações desse comitê (BC) representativo dos interesses dos banqueiros e afins.

São Eduardo e Santa Marina

Fernando Brito, Tijolaço
O jornal O Globo [28/8] publica que as “explicações” de Marina Silva sobre a situação do jato que caiu com Eduardo Campos se contradizem com as dadas pelo PSB, em nota oficial.
Não há nenhuma contradição: tudo, inclusive a escolha das palavras, é tortuosamente construído para não dizer a verdade: o avião foi comprado, através de depósitos fraudulentos, feitos através de empresas fantasmas, por um grupo de empresários encabeçado pelo senhor Apolo Santana Vieira, um homem acusado de contrabando.
Nua e crua é esta a verdade e as tais “explicações” vão ser aqui desmontadas de forma muito clara.
1. O “empréstimo”
Em primeiro lugar, você empresta o que é seu. Se não é seu, não pode emprestar. O avião não era dos empresários, para que pudesse ser emprestado. Estava sendo adquirido não para o uso daqueles empresários ou de suas empresas, mas especificamente para Eduardo Campos fazer sua campanha presidencial. Tanto é que foi levado à sua aprovação, num voo de teste, em 8 de maio, de Congonhas a Uberaba.
2. O “empréstimo” ia ser “ressarcido”
Empréstimo não é “ressarcido” nem pago. Se é pago, é aluguel, não empréstimo. O seu senhorio não “empresta” o apartamento onde você mora nem você o “ressarce” todo mês. Ele o aluga e você paga o aluguel.
3. Mas poderia haver “aluguel” do avião a Campos e ao PSB?
Poderia, se a AF Andrade ou a Bandeirantes Companhia de Pneus fossem empresas de táxi aéreo, o que não são, Neste caso estariam exercendo uma atividade ilegal, para a qual não habilitadas. Empresas de táxi aéreo poderiam até doar horas de voo ao candidato, desde que as declarassem assim, contabilizando pelo valor que têm. Mas uma empresa só pode doar serviço se este for um serviço que presta nas suas próprias funções. Se for serviço de outra empresa, estará pagando e, então, não pode fazer, tem de doar o dinheiro ao candidato e ele que pague.
4. Quem pagou três meses de despesas do avião?
Um jato não voa centenas de horas sem custos significativos. São milhares de litros de querosene de aviação, salários, alimentação e diárias de hotel de dois pilotos, hangar, taxas aeroportuárias. Fazer cada uma destas despesas significa assumir o controle operacional do avião e, até agora, ninguém sequer dignou-se a perguntar quem os pagou.
Vejam que não entrei na questão das irregularidades da compra do avião, feita de maneira ardilosa e ilegal. Essa é a questão de legislação fiscal e penal.
Trato apenas da questão sob o ponto de vista da lei eleitoral, que está sendo esbofeteada publicamente pelo PSB e por sua candidata.
Se o Ministério Público e a Justiça Eleitoral permitirem que isso siga sem uma responsabilização, por medo “do que a mídia dirá”, porque boa parte “marinista”, será melhor revogar toda a legislação que trata de doações e de uso do poder econômico a candidatos. Qualquer um pode dar-lhes o que quiser, como quiser e deixar para passar recibo ou assinar contratos lá no final, muito depois de dados os votos do povo.
Eu não estou sugerindo que a candidatura Marina seja cassada, que isso fique claro. Ela – e já se disse isso aqui – não tinha a obrigação de saber dos detalhes do avião conseguido por Campos e seria natural que aceitasse a sua versão. Marina é, e só depois que encampou esta farsa, cúmplice na ocultação de um crime eleitoral.
É isso o que precisa ficar claro: que há um crime eleitoral. E quem o encobre, acoberta e deixa de agir diante dele torna-se cúmplice deste embrulho que a fatalidade expôs ao Brasil.

Retoque na Maquiagem

Maurício Dias

Ao condenar a “velha política”, Bláblárina não hesita em militar nela.

Conversa Afiada reproduz artigo de Mauricio Dias, extraído da Carta Capital:
Marina, ex-calvinista, mostra as artes sutis das raposas experientes. Ao condenar a “velha política”, não hesita em militar nela
Acontecimentos inesperados, como o que se vê agora com a presidenciável Marina Silva, não são um fenômeno decorrente do acaso ou provocado pela força do destino. A surpreendente ascensão eleitoral dela se dá por razões explicáveis, palpáveis, criadas antes e imediatamente após o acidente fatal com Eduardo Campos.

Não há fenômenos na política como há fenômenos na natureza.

Resgatada do ostracismo, por cálculo político da mídia conservadora, em duas semanas ela deixou de ser a sombra de Campos e desarrumou uma eleição que parecia arrumada. Atropelou a candidatura do tucano Aécio Neves e ameaça ultrapassar a petista Dilma Rousseff, com quem poderá disputar o segundo turno.

Uma parte do sucesso de agora foi plantada após a chegada dela em Brasília, em 1995, já eleita senadora pelo PT do Acre. Foi reeleita em 2003. Sustentou um discurso ambientalista rigoroso. Provocou confrontos internos e externos. Finalmente, rompeu com o governo Lula e com o PT ao se demitir do Ministério do Meio Ambiente.

Marina sempre foi contra a comercialização da soja modificada geneticamente. E reagiu à proposta de transposição das águas do São Francisco. A permissão para a realização das obras só foi dada após ela ter deixado o governo. São apenas dois exemplos.

Ao se despedir do ministério, em 2008, já tinha planos políticos e o olho na disputa da eleição presidencial de 2010. Concorreu pelo PV e perdeu. Recusou-se a apoiar, no segundo turno, a petista Dilma ou o tucano Serra.

Foi uma fuga clara e transparente do processo político-eleitoral.

Marina é, teoricamente, a expressão de uma política que não existe. Prega um comportamento quase calvinista. Nesse ponto ela é um retrocesso social.

A mídia conservadora, antigovernista, fez dela um ícone. E, para sacudir a base de administrações petistas, passou a fazer marcação a aliados de Lula e Dilma.

Além da sucessão de denúncias contra políticos, às vezes com razão e outras vezes sem sustentação, a mídia agia com sinais indiretos de que o Brasil seria melhor se não houvesse o Congresso. Quiçá também os políticos.

O caldo disso foi a fantástica mobilização popular nos meses de junho e julho de 2013. Se o turbilhão de manifestantes formasse um clube, haveria na porta de entrada a divisa: “Político não entra”. Talvez alguém acrescentasse: “Exceto Marina”.

Embalada por essas jornadas, ela passou a pregar uma indefinida “nova política” e, para isso, mobilizou militantes fiéis para criar um partido novo. Fracassou. Juntou-se ao PSB e tornou-se vice na chapa do partido.

A morte de Eduardo Campos promoveu a ascensão dela.

Após isso, ela mudou. Amenizou o discurso político mais agressivo e negou o que chamou de “lendas” sobre posições políticas ambientais.

Nos debates, farejando uma possível vitória, acentua que “em todos os partidos há quadros de qualidade”. Nesse momento é mais ardilosa do que Eduardo Campos, que satanizava nomes já satanizados como os de José Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor, entre outros.

A nova Marina age como uma velha raposa. Não dá nome aos bois.

Assim agiam os políticos matreiros nos tempos da “velha política”.


Clique aqui para ler “Dilma: Marina sobre pré-sal é ‘obscurantista’”.

Aqui para ler “Bláblá tira a máscara. Vai fechar o pré-sal !”.

Bláblárina, a Bispa do Brasil

Depois do Padim Pade Cerra …

Conversa Afiada reproduz artigo de Marcelo Carneiro da Cunha, extraído do Terra:

Estimadíssimos leitores, existe algo mais assustador para esse zagueiro do que o futebol brasileiro entre o céu e a Terra, e esse algo se chama Marina Silva, a Bispa do Brasil.

O mundo sempre foi um lugar complicado, mas ele sempre foi mais complicado quando religião ocupou o lugar sagrado das coisas realmente importantes para as pessoas – o futebol, por exemplo. A ideia de religião como um grande e real problema começa com a invenção da cristandade. Ali surgiu uma igreja que se acreditava católica, ou seja, dona do mundo. Os pagãos eram apenas cristãos esperando para serem salvos, e quem pagou o pato dessa ânsia evangelizadora foram, bom, todos – dos povos da Europa e das estepes até os indígenas americanos, quando os portugueses, espanhóis e toda a sua carolice aportaram por aqui.

A coisa ficou feia para valer quando inventaram o islamismo, a outra religião tão absolutista quanto a cristã. A partir do momento em que o Islã cresceu o suficiente para fazer fronteira com a cristandade, nunca, mas nunca mesmo, o mundo conheceu a paz. Lembram das Cruzadas?  Até hoje os árabes lembram, o que dá uma ideia do quão espiritual a coisa foi. Com o tempo, o mundo islâmico se viu amarrado pelos nós de sua religião anti-tudo, e ali começou a perder a guerra para o Ocidente, o que se mantém até agora. Na Batalha de Lepanto, em 1571, os turcos perderam a sua última luta pelo que interessava, o Mediterrâneo, e a partir dali, recuaram na direção do seu mundo cheio de areia.

Na mesma época, e para suprir a falta que uma outra religião inimiga fazia, a Igreja Católica conseguiu se autodestruir, com o surgimento do Protestantismo. Dali em diante, católicos e protestantes deixaram de lado os islâmicos e passaram a massacrar uns aos outros, na maior e mais longa guerra civil que o mundo já conheceu. Para não ficar pra trás, os islâmicos também se dividiram em sunitas e shiitas, e a luta fratricida continua até hoje.

Marina Silva acha que as religiões contribuem muito para com o mundo, sinal de que ela leu muita bíblia e nenhuma História. Não consigo imaginar em uma só contribuição que as religiões tenham trazido para a gente, a não ser, talvez, a preservação da cultura da cerveja nos mosteiros cristãos da Idade Média. Nenhuma. Nenhuminha. As religiões permitiram ou incentivaram a escravidão e todas as discriminações, incluindo a opressão aos gays que elas ainda praticam hoje.

O mundo apanhou tanto com esses conflitos que finalmente inventou a separação entre Estado e igrejas, mais uma contribuição da Revolução Francesa, junto com o sistema métrico decimal. Ali, o Ocidente inventou a maior invenção já inventada – a república laica. Nela, todo mundo pode ter a religião que bem entender, desde que respeite a do outro, e inclusive a opção de quem não quer ter alguma. Além disso, o governante governa para todos e de acordo com as leis humanas, e não as leis religiosas. Foi assim, e somente assim, que começamos a ser felizes, ou livres, a partir do século 19. No Brasil, a República já surgiu laica, pra nossa sorte, embora sigam por aí os crucifixos em salas de tribunais, por exemplo, o que fere completamente a ideia da coisa.

Marina é um perigo para o país porque ela é uma fundamentalista evangélica. Ninguém sabe no que o Sarney acredita, a não ser na própria imortalidade e que o Maranhão é dele por direito divino. Ninguém sabe do Collor, a não ser que paga pau pra um esquisito como o Frei Damião. Ninguém sabe o que acha o FHC, a não ser que ele não acredita em Deus e já fumou maconha. Lula é um típico católico soft brasileiro, que é sem ser, pratica sem dar bola. Dilma é tão religiosa quanto o cargo exige, na ideia de que Paris vale uma missa. E é assim que tem que ser.

Marina é uma fundamentalista radical, que acredita que Deus faz todas as coisas, inclusive a República, que é dele, não nossa. Ela acredita em maluquices absolutas como o criacionismo, uma das teses mais estapafúrdias já inventadas, mesmo levando em conta o nível de estapafurdismo dos humanos. Ela é contra a ciência, a única coisa entre nós e o abismo. Ela é contra a pesquisa das células-tronco, uma das maiores promessas de cura para o incurável.

Eu não sinto simpatia alguma pelo modelo do PSDB simplesmente porque vivo em São Paulo e o acho conservador demais e nacional de menos. Mas em um segundo turno hipotético, com Aécio e sua fachada de playboy e Marina, meu voto seria pelo mundo são do lado de cá, e jamais pela loucura movida a divindades aplicadas. Se alguém duvida no que acontece quando deixam a religião entrar no vestiário, lembrem do horror que era a Seleção evangélica do Dunga, a de 2010.

Não funciona, nunca funcionou, e nos leva de volta à barbárie. Por isso, caros leitores, brinquem, gritem, protestem, digam que são contra tudo que está aí, mas na hora de votar, melhor fazê-lo em favor do mundo que funciona e que começa com o século 20. Se ele tem problemas, e tem, pelo menos ele é nosso, e não de uma suposta divindade qualquer, que se importa tanto com a gente que de nós só quer o dízimo.

Se vocês acham ruim com a república laica, nem queiram saber como é sem ela. Ou melhor, se informem como era, antes de fazer qualquer coisa que estrague a única coisa que a gente criou e que realmente nos salva. Façam isso, e tudo vai acabar bem, porque o Brasil precisa de presidente, e não de salvador.


Clique aqui para ler “Professor desmonta conteúdo do site ‘Marina de Verdade’.”

aqui para ler “Dias e o retoque na maquiagem da Bláblárina”.

Alerta Geral

Enildo Bernardes

Quem me conhece sabe que nunca escrevo nesse tom, mas a ameaça real sobre os pobres e nós os trabalhadores assalariados é gravíssima.
Tudo porque lutamos corre sério risco de sofrer graves retrocessos mesmo antes de termos chegado ao mínimo necessário. O agravamento da crise mundial, cujos efeitos são potencializados por um Jornalismo cego que usa o ódio e o medo como ferramenta para impor sua agenda, pavimenta a estrada perfeita para o retorno das idéias neoliberais ortodoxas.
Essa agenda de medidas leoninas e anti-populares será adotada tão logo assumam o poder seus Cavalos de Tróia, com o detalhe de que com a ajuda da Mídia poderão dizer de que é tudo herança maldita do Governo anterior. A cadeia de eventos é completamente visível já com as definições dos homens fortes da Economia tanto de Marina quanto de Aécio.
Bastante parecidos, Arminio Fraga, e Eduardo Gianneti, ladeados por banqueiros, sonegadores e especuladores já tem prontos todo seu Modus Operandi.
1 - Diante do tão propagado discurso de ameaça inflacionaria, vão de pronto elevar mais ainda os juros e cortar gastos sociais incluindo Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Prouni, Reuni, etc. Obras de alto custo e de infraestrutura serão paralisadas.
2 - Suas ações nos preços administrados causarão de imediato aumento dos preços da Gasolina e da Energia Elétrica. Investimentos de longo prazo da Petrobras e demais estatais serão reduzidos ou congelados e o Pré-sal entregue as multinacionais.
3 - Tudo será feito sob o manto sagrado da Mídia, que é a avalista principal do Projeto. A consequência prática imediata será uma freada brusca beirando a paralisação da Economia e Depressão profunda, com consequências graves para o Emprego e a renda. Vão se seguir ondas de demissões e a inadimplencia atingirá os médios e pequenos empresários que sequer terão a alternativa de voltarem a ser empregados.
4 - Nesse ambiente de caos econômico já vivido por Espanha, Grécia e Portugal, ocorrerá uma redução drástica da arrecadação e o peso dos compromissos da dívida fará o governo apresentar a cereja do bolo: aumentos violentos sobre a carga tributária e a seguir a sempre milagrosa solução de reduzir ou eliminar direitos trabalhistas para tentar diminuir o desemprego que já estará em níveis cavalares. Os danos ao tecido social serão imensuráveis, idosos, mulheres, jovens e crianças, vão pagar um alto preço.
5 - A criminalidade aumentará e com ela a matança e o encarceramento de negros e pobres se intensificará.
6 - Sonhos de vida, decisões de consumo e de progresso individual serão dizimados e as gerações futuras estarão comprometidas por décadas e mais décadas.
Por isso a hora para agir é agora, não há mais tempo a perder. O debate na Internet terá que ser incisivo e preciso sem prejuízo da militância tradicional. Adesivos, botons, panfletos e bandeiras tem que estar sempre à mão e se não chegarem cada um deverá buscar alternativas.
Chega de brincadeira, é a final do campeonato e perder de goleada é perder de qualquer jeito. Sobretudo o povo mais pobre deverá ser alertado dos riscos. Eles não entendem o discurso técnico mas foram seduzidos pela demagogia de políticos embusteiros profissionais e estão caindo no canto da Sereia dos Igarapés.
Para quem acha isso alarmismo ou pensa que as feridas de tanta crueldade vão cicatrizar, ainda tem mais, pois na esteira desse "saco de maldades" estará sempre a espreita o pior fantasma não exorcizado do nosso passado, a alternativa ditatorial.
Diferentemente do que pensam alguns tolos, a Crise une muito mais a Direita do que a Esquerda. Discursos reacionários e proto-fascistas navegam com facilidade na massa inculta e cansada, ávida por "soluções finais", por isso não é à toa que todos se juntaram no voto útil, cada um e cada qual com seu motivo. O inimigo dessa gente é a
Democracia e o Humanismo, seu combustível é o ódio que cada dia aumenta mais.
Ao final, cada abutre e cada hiena ficará com seu naco de carne podre a diferença é que o corpo estendido e dilacerado no chão será o nosso.
Vamos à luta e avante

Marina de "Verdade"

De: Tarcílio Mesquita


É o que diz o Professor Gustavo Castañon, filiado ao PSB, partido pelo qual a Marina concorre à Presidência da República. Para os que tenham dúvidas sobre o que afirma o Professor Castañon, sugiro clicar nos links por ele indicados, onde encontrarão as comprovações de tudo que é dito por ele. Marina, sem dúvidas, é a própria falsidade em pessoa. Confiram.  

Professor desmonta conteúdo do site “Marina de Verdade”

Gustavo Castañon, filiado ao PSB, contesta informações sobre a Bláblárina.
Ilustração originária do Marineitor
Conversa Afiada reproduz artigo do professor Gustavo Castañon, extraído do Viomundo:
por Gustavo Castañon

Candidata Marina Silva, meu nome é Gustavo Castañon. Sou, entre outras coisas, filiado há mais de dez anos ao PSB, partido que hoje a senhora usa para se candidatar, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e um cristão convicto, como acredito que a Senhora também seja, do seu jeito.

Investida de seu eterno papel de vítima, sua campanha lançou um site na internet chamado “Marina de Verdade” (com V maiúsculo mesmo) para combater supostas “mentiras” espalhadas contra a senhora na internet. Vou aqui responder uma a uma as afirmações de seus marqueteiros no site citado, oferecendo os links de fontes das minhas afirmações.


1 – Não Marina, você não sofre preconceito por ser evangélica.
Você é que acredita que todos aqueles que não compartilham de suas crenças queimarão eternamente no fogo do inferno. É o que está claramente descrito no credo (credo 14) de sua agremiação religiosa. Que nome podemos dar a isso? Certamente é um nome mais assustador do que intolerância ou preconceito. Talvez essa seja a origem de seu maniqueísmo, já que separa o mundo entre os bons, que apoiarão seu possível governo, e os maus, que lhe fariam oposição, como eu. O seu problema não é ser protestante. É ser da Assembleia de Deus, associação pentecostal de vários ramos que interpreta literalmente o Antigo Testamento, e que tem entre seus pastores Marcos Feliciano, que vende curas a paraplégicos, e Silas Malafaia, este homem que hoje defende da “cura gay” à teologia da prosperidade e vende bênçãos de Deus. Eu me pergunto: o que alguém que faz parte de uma organização que faz comércio com a palavra de Cristo é capaz de fazer na vida política? Qual o nível de inteligência que pode possuir alguém que faz interpretações tão rasteiras do significado da Bíblia? Essas são perguntas legítimas que as pessoas se fazem, e não por preconceito, mas por conceito.


2 – Não Marina, o Estado Laico deve intervir nas práticas religiosas quando são fora da lei.
Se uma religião resolve reinstituir o sacrifício de virgens dos Astecas ou a amputação de clitóris comum em alguns países muçulmanos hoje, o estado tem que observar inerte essas práticas em nome da liberdade religiosa e do laicismo? Não, candidata. Nenhuma organização está acima da lei num Estado Laico.

3 – Não Marina, você não é moderna, você é uma fundamentalista mesmo.
O fundamentalismo religioso não é a negação do Estado Laico, essa é só uma espécie de fundamentalismo, o teocrático. O fundamentalismo se caracteriza pela crença de que algum texto ou preceito religioso seja infalível, e deva ser interpretado literalmente, tanto em suas afirmações históricas como comportamentais ou doutrinárias. E o ataque ao Estado Laico pode vir também pela incorporação de leis, que desrespeitem as minorias religiosas ou não religiosas, impondo um valor comportamental de determinada religião a todos os cidadãos. Isso faz da senhora uma fundamentalista (Assembleista) que compartilha das crenças de Feliciano e Malafaia, e uma adversária, se não do Estado Laico, do laicismo que deveria orientar todas as nossas leis, pois defende plebiscitos sobre esses temas para impor a vontade das maiorias religiosas sobre as minorias em questões comportamentais.

4 – Não Marina, você é, sim, contra o casamento gay.
Você agora diz que está sofrendo ataques mentirosos na internet sobre o tema, mas sempre se colocou abertamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, defendendo somente a união civil nesse caso. E não adianta simular que o que o movimento gay está reivindicando casamento religioso. O casamento é também uma instituição civil. Você só defende união de bens, sem todos os outros direitos que o casamento confere às pessoas. O vídeo acima e mais esse vídeo aqui provam esse fato de conhecimento público.

PS: Hoje, dia 29/08/2014, ao lançar seu programa de governo, a candidata mudou uma posição defendida por toda vida, faltando um mês para a eleição. Por que?



5 – Realmente Marina, você não é petista.
Você abandonou o partido que ajudou inestimavelmente a construir sua vida política, ao qual você deve todos os mandatos e o único cargo que ocupou até hoje, porque não tinha espaço para sua candidatura à presidência. Hoje, você busca se associar, sem qualquer pudor ou remorso, a inimigos ideológicos históricos do partido, repetindo as práticas que supostamente condena no PT e chama de “velha política”. Só que faz isso somente para chegar ao poder e construindo um projeto oposto àquilo a que defendeu toda a vida.

6 – Realmente Marina, você não é tucana. Mas sua equipe econômica é.
Sua equipe econômica conta com André Lara Resende e Eduardo Giannetti, ex-integrantes da equipe econômica do governo FHC, além de seu coordenador Walter Feldman, que fez toda sua história no PSDB. Suas propostas econômicas são as mesmas do PSDB. Agora, de fato, o que nem o PSDB jamais teve coragem de ter é uma banqueira como porta voz de sua política econômica… Você não quer alianças com governos atuais de nenhuma agremiação, como o de Alckmin, exatamente para manter sua imagem de anti-tudo-o-que-está-aí. Mas não se sente constrangida em ter o vice de Alckmin na coordenação financeira de sua campanha, nem de convidar o “bom” representante de sua “nova política” José Serra para seu governo…

7 – Não Marina. Você defendeu, sim, Marcos Feliciano.
Você afirmou que ele era perseguido na CDH não por causa de suas posições políticas, mas por ser evangélico. Disse que isso era insuflar o preconceito religioso. Não, candidata. Você está falando de seu companheiro de Assembleia de Deus, um homem processado por estelionato, que pede senha de cartão de crédito de seus fiéis, que defende que os gays são doentes e os descendentes de africanos amaldiçoados. Recentemente, esse homem que você afirma ser vítima do mesmo preconceito que você sofreria, afirmou à revista Veja: “Eu não disse que os africanos são todos amaldiçoados. Até porque o continente africano é grande demais. Não tem só negros. A África do Sul tem brancos”. Ao usar essa estratégia de defesa pra ele e para você, você reforça os preconceitos da sociedade e o comportamento de grande parte dos pentecostais de blindar qualquer satanás que clame “Senhor, Senhor” em suas Igrejas.

8 – Não Marina. Você não é só financiada por banqueiros. Eles coordenam seu programa!
Neca Setúbal, herdeira do Itaú, não é só sua doadora como pessoa física. Ela é a coordenadora de seu programa de governo e sua porta-voz, e já declarou que você se comprometeu a dar “independência” (do povo e do governo) ao Banco Central, que fixa os juros que remuneram os rendimentos dela. Da mesma forma, o banqueiro André Lara Resende, um dos responsáveis pelo confisco da poupança na era Collor e assessor especial de FHC, é o formulador de sua política econômica.

9 – Não Marina, você é desagregadora e vilipendia a classe política. Seu governo será o caos.
Você é divisionista e maniqueísta e implodiu meu partido em uma semana de candidatura. Vai deixar seus escombros para trás quando chegar ao poder, como sabemos e já anunciou, para delírio daqueles que criminalizam a política. Seu partido é nanico, e se não o criar com distribuição de cargos, continuará nanico. Com a oposição certa do PT, terá que governar com a mídia e os bancos, que cobrarão o apoio com juros. Precisará do PMDB, que você acusa de fisiologismo, e do PSDB e o DEM, que lhe exigirão não só cargos, empresas públicas e ministérios, mas também a volta das privatizações. A única base congressual que lhe será fiel é a bancada evangélica, que cobrará seu preço com sua pauta de controle dos costumes e seu fisiologismo extremo. Resultado, você vai entregar a alguém o trabalho sujo do fisiologismo ou mergulhará o país no caos.

10 – Não Marina, seu marido foi sim acusado de contrabando de madeira.
E não só isso, foi acusado pelo TCU de doação de madeira clandestina. A senhora usou sua força política de Ministra para impedir que o caso fosse investigado, como sempre fazem na “velha política”. Mais tarde o MP arquivou, como fazem com todas as denúncias contra membros da oposição. Mais uma vez, fato bem comum na “velha política”. Nada é investigado.

11 – Não Marina, Chico Mendes não era da elite. A elite é que o matou.
Em mais uma tergiversação semântica demagógica, num vilipêndio à memória de seu companheiro, a senhora tomou o termo “elite” pelo sentido de elite moral, para acusar de “divisionismo” os que lutam contra a elite econômica brasileira. Essa mesma elite que mantém o Brasil como um dos dez países mais desiguais do mundo e que hoje está acastelada no seu programa de governo e campanha. Seu discurso despolitizante busca mascarar a terrível e perversa divisão de classes no Brasil e é um insulto aos seus ex companheiros de luta. Seu uso demonstra bem à qual elite você serve hoje, e nós dois sabemos que não é à elite moral. A elite moral desse país está lutando contra a elite econômica para diminuir nossa terrível e cruel desigualdade social. E você, Marina, não é mais parte dela.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Desigualdade Foi Colocada no Centro do Debate Eleitoral

Finalmente 

Finalmente a desigualdade foi colocada no centro do debate eleitoral.
O maior desafio do próximo presidente é tirar o Brasil da abjeta condição de um dos campeões mundiais em iniquidade social.
Gosto de citar Rousseau: a sociedade ideal é aquela em que não há extremos de opulência e miséria.
Houve avanços nisso nestes anos de PT no poder. Mas, por conta de tantos compromissos pela governabilidade, tais avanços ficaram aquém do que a situação pede.
Melhor, exige.
A ênfase na inclusão veio – finalmente – de Dilma. Marina tem dito que vai chamar as “pessoas boas” para governar com ela.
Ela citou até Serra.
Bons são aqueles com compromisso com inclusão social, respondeu Dilma.
Descontado o fato de que a própria Dilma se cercou de muitas pessoas sem qualquer compromisso com inclusão, a colocação é perfeita.
“Inflação alta e crescimento baixo” é uma expressão idiota, cínica e oca que vem sendo repetida oportunisticamente por muitos candidatos.
Ora, ainda que isso fosse verdade, controlar uma inflação que não chega a 7% ao ano – tivemos já uma de 80% ao mês – e fazer crescer mais uma economia que se beneficiará da mitigação da crise econômica mundial são coisas simples diante da dificuldade histórica do país em desconcentrar renda.
A mídia contribui poderosamente para isso: quantas vezes, ao longo da história da imprensa nacional, se viu uma campanha contra a miséria vergonhosa de tantos brasileiros?
Nenhuma. Nenhuma vez. Claro: a distorção social brasileira tem sido brutalmente benéfica para as famílias que são proprietárias das empresas jornalísticas.
Os Marinhos, no caso mais conspícuo, estão no topo da lista de bilionários brasileiros. Nada menos que isso.
A verdade é que não adianta nada a economia crescer 10%, 20%, 30% ao ano e a inflação ficar em 0% se a riqueza continuar a ir para aquele grupo restrito e privilegiado de sempre.
Delfim Netto, na ditadura militar, consagrou a máxima – que hoje ele renega depois de tê-la dito tanto e tanto – de que o bolo tem que crescer para ser distribuído depois.
O problema é que, nesta lógica, o bolo nunca é grande o bastante para ser distribuído.
Coisas básicas para melhorar o quadro são simplesmente ignoradas pelos candidatos.
Taxar grandes fortunas, por exemplo.
Marina falou nisso? A presença da banqueira Neca Setúbal a seu lado deve ser um inibidor e tanto para tocar em tais assuntos. Melhor falar platitudes como “nova política” e romper a polarização entre PT e PSDB.
A própria Dilma falou nisso?
Coube a Luciana Genro, do PSOL, tocar no assunto em cadeia nacional, no debate da Band.
Dada a baixíssima intenção de votos de Luciana, é um grão de areia ela ter falado na taxação das grandes fortunas.
Mas é um começo.
O que a gente ouve e lê em revistas, jornais e telejornais é a mistificação em torno das “altas taxas” de imposto do Brasil, uma pregação que no fim tenta legitimar a sonegação serial do chamado 1%.
Fiquemos com o básico, para voltar ao tema deste texto: bom é quem se compromete com a inclusão social.
O resto é silêncio, para usar a monumental frase de Shakespeare.

Ex-Marina Defende Interromper Exploração do Pré-Sal.

Sabe o que significa?

Por Renato Rovai
O Globo de hoje anuncia em primeira página que a candidata do PSB, Marina Silva, planeja reduzir a importância do pré-sal na produção de combustíveis. Num encontro com produtores de etanol, na Feira Internacional de Teconologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho, Marina, foi ovacionada quando disse: “temos que sair da idade do petróleo”. E também quando prometeu disse vai revigorar o álcool, dando incentivo para os produtores do setor.
O governo estima que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo.
Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.
É isso que está em jogo e que incomoda profundamente os falcões americanos. Eles não querem o desenvolvimento do Brasil e muito menos o nosso fortalecimento internacional.
Um Brasil forte não interessa aos EUA. Desde sempre.
E por isso, sempre houve pressão para que a extração nas camadas de pré-sal fosse entregue a grandes empresas privadas, se possível americanas. E não fosse realizada pela Petrobras.
Os gringos querem o pré-sal para eles.
Mas como a campanha de Marina vai lidar com o assunto, segundo o Globo. Ela vai criar um grupo de especialistas para avaliar os riscos envolvidos na exploração do pré-sal e vai apresentá-los à sociedade.
Que especialistas, cara-pálida? A turma do Eduardo Gianetti da Fonseca, que defende a cobrança de mensalidade para “estudantes que podem pagar” nas universidades públicas.
O Globo procurou um especialista que pelo jeito não é da turma do Gianetti e a resposta à consulta foi óbvia. Nivaldo de Castro, coordenador do setor Elétrico da UFRJ disse que “seria uma decisão estratégica que alteraria substancialmente a capacidade de investimentos do país em duas áreas fundamentais para o Brasil entrar numa rota de desenvolvimento social, a Educação e a Saúde”.
Castro ainda acrescenta que diminuir investimento não seria uma boa estratégia porque o país perderia a liderança tecnológica na exploração da camada do pré-sal.
Mas aí vem a pergunta. Não seria uma boa estratégia para quem interromper os investimentos da Petrobras no pré-sal para o Brasil perder a liderança tecnológica neste setor?
Só não seria uma boa estratégia para o Brasil, os brasileiros e a Petrobras. Para os EUA e para suas empresas de exploração, como a Exxon isso seria lindo e maravilhoso.
Mesmo que depois de interromper a exploração por um determinado tempo o Brasil decidisse voltar a explorar o pré-sal, já estaríamos defasados tecnologicamente. E superados. E aí teríamos de terceirizar a exploração.
É um jogo absolutamente bruto que está por trás dessa decisão. Em nome de uma causa em tese ecológica, vamos entregar nossas reservas e abrir mão do nosso futuro.
Ao mesmo tempo que promete interromper o pré-sal para discutir as consequências da exploração, Marina diz que nunca foi contra os transgênicos.
E ainda está se comprometendo a priorizar acordos bilaterais em detrimento do Mercosul.
Marina está virando ex-Marina. É muita mudança em pouquíssimo tempo.
PS: A defesa do Banco Central independente e da interrupção da exploração do pré-sal vão ajudar muito a campanha do PSB a arrecadar. Por isso o tesoureiro Márcio França já disse que não tem essa de não aceitar recursos de empresas de armas ou qualquer outra área. Vale tudo, desde que seja legal, segundo ele. Vai chover dinheiro na hortinha do PSB com esses novos compromissos que passam a a ser assumidos agora. Não vai ser necessário nem usar semente transgênica para multiplicar os recursos.

Eleição: Devagar Com o Andor

Reflexões do site do João Paulo Cunha 

Medite amigo navegante sobre o papel devastador do julgamento de exceção em que se transformou o julgamento do mensalão (o do PT).

Clique aqui para ler sobre o papel do MP, a anatomia do mensalão e o que significou “Ali Babá e os 40 ladrões”.

Ele teve o efeito de retirar da luta politica, por determinado tempo, alguns dos melhores quadros políticos do PT: dois ex-presidentes do Partido, José Dirceu e Genoíno, e um Presidente da Câmara, João Paulo Cunha.

Dirceu e Genoíno fundaram o PT com Lula e falavam com ele com uma autoridade que nenhum membro do PT hoje, reproduz.

Os três ficaram de fora.  Por enquanto.

Por esse artigo se tem uma ideia de como poderiam ajudar a tirar o PT da cova em que se protege do jatinho sem dono.

Leia também “Mais Lula e mais politica“.

DEVAGAR COM O ANDOR
Em 30 de julho de 2002 o então candidato Ciro Gomes (PPS) alcançou, segundo o Datafolha, 28% de intenção de voto estimulada, contra 33% de Lula (PT).  Antes, em fevereiro, segundo o mesmo instituto, Roseana Sarney (PFL) havia alcançado 24% contra 27% de Lula. A história registrou que foram ao 2º turno daquela eleição Lula (46,4%) e Serra (23,1%). Ganhou Lula no 2º turno, com 61,2% contra Serra (PSDB) 38,7%.

Esse extrato da história eleitoral brasileira recente serve para registrar a ocorrência de um espasmo político circunstancial, havido naquele momento e que destoava do confronto eleitoral que a sociedade brasileira já vivenciava (1994/1998) e que posteriormente ficaria ainda mais forte. Ou seja: o Brasil estava polarizado entre duas forças políticas, PT e PSDB e ficaria, assim, por mais três eleições.

Evidente que vivemos em um momento diferente. Aliás, muito diferente. Na bancada do primeiro debate presidencial de 2014, na TV Bandeirantes, em 26.08, o PT esteve representado pela presidenta Dilma. Outros três candidatos saíram da costela petista: Marina, Eduardo Jorge e Luciana Genro.  É uma amostra da importante contribuição política que o PT deu ao Brasil. Aécio Neves, representou o PSDB, enquanto Pastor Everaldo e Levy Fidelix fizeram o papel de coadjuvantes.

A marca específica do momento atual estaria localizada na ascensão e afirmação de uma terceira via política e eleitoral, representada por Marina, sua Rede Sustentabilidade e o PSB, partido onde está filiada apenas para disputar as eleições. Anabolizada pela trágica morte de Eduardo Campos, Marina entra na disputa já ocupando o segundo lugar nas intenções de voto e deslocando o PSDB e seu candidato Aécio Neves para o terceiro lugar.

Como ainda estamos há trinta e sete dias do primeiro turno, um olhar mais detalhado na história dessa e de outras eleições presidenciais no Brasil mostra que devemos ter cautela para afirmar categoricamente que a disputa eleitoral, nesta primeira fase, já estaria resolvida com a definição de um segundo turno entre Dilma e Marina Silva. Esta cautela passou a ser mais exigida depois de assistirmos ao primeiro debate, com o enfrentamento direto entre os candidatos.

Como o debate começou mais de 22 hs e terminou depois da uma da manhã é evidente que foram poucos os brasileiros que assistiram ao confronto, ainda mais por ser na Bandeirantes, que já tem normalmente uma audiência baixa. Os que resistiram até o fim, apesar das regras que engessaram o debate de ideias e propostas, puderam retirar importantes conclusões políticas.

Dilma é de fato a mais preparada.  Mostra profundo conhecimento da administração do governo federal, apresentando e defendendo bem as muitas e importantes obras e programas, apresenta também as melhores propostas para avançar as mudanças no Brasil. Com uma postura sempre séria é incisiva, firme e clara nas suas respostas, aparentando algumas vezes irritação com críticas levianas levantadas, sobretudo, por Aécio Neves.

Aécio, uma mistura do Conselheiro Acácio com Pedro Bó, roda em torno de platitudes, aparentando ser um candidato genérico e vazio. Orienta apenas para o ataque ao PT e ao governo federal, sem conseguir apresentar propostas consistentes para melhorar o país. Como Aécio dependia deste primeiro debate para se afirmar frente a ameaça real de ficar fora do segundo turno, se deu mal com um desempenho fraco, marcado por uma postura rancorosa, estudada e maquinada para se impor pela arrogância.

Marina se saiu bem, até porque já tinha experiência deste tipo de debate nas eleições de 2010. Sabe falar olhando para a câmera e as mudanças em seu rosto apontam as variações de tonalidade e ênfase no que diz, ao contrário de Aécio que mantêm a fisionomia congelada, não importando o que esteja falando. Apesar desta postura televisiva favorável, Marina apresenta também uma postura de fragilidade ideológica, muita aparência e pouca consistência em suas análises políticas e propostas.

Sem responsabilidade, Marina aparenta ser corajosa, quando na prática está apenas flertando com o incerto e o perigo de uma postura política oca de conteúdo. Acena dar a condução econômica para o PSDB, numa tentativa de acalmar o mercado, em particular o agronegócio, e por outro lado, a parte social para o PT, na lógica de tentar conquistar eleitores simpatizantes do partido. Com isso, promete fazer uma catação (mistura heterogênea de sólidos) para administrar, o que pode gerar um desgoverno monstruoso e sem rumo, que acabará por devorar o que a população mais pobre conquistou em 12 anos de governos petistas. Enquanto a elite rica e endinheirada estará protegida pelo Itaú, que não terá mais intermediário e conduzirá diretamente o Banco Central.

Neste contexto, devemos esperar as próximas semanas para ver se Marina conseguirá manter-se em segundo lugar e consolidar uma terceira via eleitoral, rompendo a polarização entre PT e PSDB que marca a política brasileira nos últimos 20 anos. É um tempo necessário também para observar se suas intenções de voto estão apenas momentaneamente anabolizadas pela morte de Eduardo Campos ou se aquele trágico evento a catapultou em definitivo para a condição de protagonista da disputa presidencial.

Será um tempo necessário também para a consolidação da influência dos programas e comerciais de TV e rádio nas intenções de voto dos eleitores. Novos debates, sabatinas, entrevistas e eventos de campanha, onde veremos se Marina está mesmo preparada para encarnar a figura de uma nova liderança política, capaz de se afirmar como uma real alternativa de poder, apesar das gritantes contradições e divisões internas entre o PSB e sua Rede Sustentabilidade.

Os próximos dias, portanto, serão de muitas emoções, articulações e ações políticas, que poderão confluir para quatro possíveis cenários. Um deles apenas com a definição no primeiro turno e os outros três prevendo a realização do segundo turno, que agora é mais do que uma forte tendência.

Segundo turno entre Dilma e Marina

Com a exibição do horário eleitoral, a tendência é ocorrer uma melhora na avaliação do governo, o que naturalmente pode levar a uma melhora no desempenho eleitoral de Dilma. Nesse cenário, Dilma poderá chegar e até superar os 40% de intenção de voto, ficando, talvez, um pouco abaixo do desempenho petista nas últimas três eleições presidenciais, em primeiro turno, (46, 48, 46% em 2002,2006 e 2010 respectivamente). Neste cenário, Dilma iria para o 2º turno em 1º lugar.

Segundo turno entre Marina e Dilma

Neste cenário, que é uma variação do primeiro, temos a inversão nas colocações do primeiro turno, com a candidatura de Marina incorporando definitivamente quem quer qualquer mudança (pouca, média ou muita mudança), avançando sobre uma parte do eleitorado tradicional da oposição (PSDB) e sobre os ainda indecisos e ultrapassando Dilma, indo para o 2º turno, contra o PT, em 1º lugar.

Segundo turno entre Dilma e Aécio

Neste cenário, Dilma fica em torno de 40%, Marina recuaria para a casa dos 20% e Aécio recuperaria o eleitorado que perdeu com a entrada de Marina na disputa, retomando o segundo lugar com algo acima de 20% dos votos. Para ocorrer este segundo turno entre Dilma e Aécio, será necessário que o candidato tucano, contando com a ajuda de setores da grande mídia, consiga desconstruir parte do discurso e propostas de Marina. Não bastará à candidatura de Aécio ficar batendo em Dilma, no PT e no Governo. Se desconhecer Marina e mantiver o ataque focado em Dilma, a candidata do PSB pode crescer e fortalecer o segundo cenário descrito. O PSDB sabe disso e não foi à toa que a primeira pergunta que Aécio fez no debate foi dirigida a Marina, questionando sua coerência política.

Vitória de Dilma no primeiro turno
Neste cenário, uma parte do eleitorado que estaria pensando em votar na oposição, vendo a desidratação eleitoral de Aécio e diante da insegurança política e econômica representada pelas contradições da candidatura de Marina, com medo do desarranjo institucional que pode vir, opta por votar no projeto atual de desenvolvimento do país, capitaneado pelo PT, já conhecido e mais seguro para o Brasil seguir melhorando.

Nesta hipótese, a candidatura de Dilma seria beneficiada por um voto útil enrustido, que viria de setores da elite econômica e da oposição em geral, que tem criticas a sua conduta, mas temem, sobretudo, as incertezas que Marina Silva representa para a economia e para e estabilidade política. Este movimento atrairia um percentual de eleitores suficiente para dar a vitória no 1º turno a Dilma, impedindo o 2º turno entre ela e Marina, que seria uma derrota humilhante para Aécio e seu PSDB.


Clique aqui para ler “Dilma: não existe governar com os melhores”

E aqui para “Eduardo usou e gostou. E ficou com ele”

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Marina, a Salvadora da Pátria

Paulo Moreira Leite
Depois de romper com Lula, com o PT, com o PV, e isolar-se no PSB, Marina Silva é uma salvadora da pátria que quer juntar Neca (Setubal) e Chico (Mendes). Pode?
Foi possível comprovar no debate da Bandeirantes que Marina Silva escolheu o caminho mais confortável para fazer campanha eleitoral.
Se você passar as ideias de Marina numa máquina de fazer suco, irá sobrar um ponto: a pregação da unidade. Marina diz que o Brasil está cansado da polarização. Diz que o tempo de conflito entre PT e PSDB acabou. Afirma que é preciso unir os bons, os capazes, os honestos, que estão em toda parte, em todos os partidos. Diz que o país está cansado de criticar uma “elite” onde se encontram Neca Setubal e Chico Mendes, e também lideranças indígenas e grandes empresários. Olha que bonito. Não há poder econômico, nem desigualdade, nem poder de classe. Não há, é claro, um sistema financeiro de um país que, tendo a sétima economia do mundo, possui bancos cujo rendimento encontra-se entre os primeiros do planeta.
É bom imaginar que o mundo é assim. Relaxa, conforta. Permite interromper o debate e tirar férias. Pena que seja uma utopia de conveniência.
Mais. É uma fantasia que não cabe na biografia de Marina Silva. Pelo contrário.
Poucas vezes se viu uma história de divisão e desagregação como método de ação política.
Veja só. Ela rompeu com o governo Lula, onde fora instalada no Ministério depois da campanha — de oposição — contra o governo Fernando Henrique Cardoso. Saiu do PT e foi para o PV. Saiu do PV e foi para a Rede. Incapaz de unificar os militantes e ativistas que queriam transformar a Rede num partido, bateu às portas do PSB depois de denunciar a decisão do TSE. Criou casos, brigas e divergências desde o primeiro dia. Brigada à esquerda e à direita do partido, era protegida por Eduardo Campos, a quem interessava contar com seu Ibope para evitar um desempenho pequeno demais no primeiro turno. Marina estava isolada dentro do PSB, afastada dos principais dirigentes, quando, por “força divina”, como ela diz, ocorreu a tragédia que permitiu que se tornasse candidata a presidente. Seguiu brigando: logo de cara o secretário-geral, homem de confiança de Miguel Arraes, patrono histórico do PSB, foi embora da campanha, dizendo que não iria submeter-se “àquela senhora.” Outras brigas ocorreram. Outras foram suspensas porque, pela legislação eleitoral, já venceu o prazo para candidatos a deputado, senador e governador trocarem de partido.
O discurso da unidade pode ser real. Depois da posse de Lula, o país buscou e construiu uma unidade política real, que nunca esteve isenta de conflitos, mas se destinava a atender a uma necessidade histórica reconhecida: ampliar os direitos da maioria, diminuir a desigualdade, desenvolver o mercado interno e definir um papel altivo do país no mundo. Melhorias que estão aí, à vista de todos.
Mas a “unidade” pode ser um recurso retórico para apagar as diferenças — reais e importantes — entre os candidatos a presidente. Permite fugir do debate real, desfavorável quando travado com lucidez e racionalidade. Ajuda a fingir que todos são equivalentes em virtudes e defeitos, e podem ser colocados no mesmo nível. Elimina-se a história, num esforço para apagar a memória.
Marina precisa minimizar os bons dados do emprego, do consumo, do salário mínimo, preparando o terreno para revogar essas mudanças.
Este comportamento ajuda a criar a ilusão de que todos — banqueiros e seringueiros para começar — têm as mesmas ambições e mesmos projetos. A mágica fica aqui: basta que surja uma liderança providencial — olha a força divina, de novo — para convencer todos a dar-se as mãos em nome do bem, sob liderança de Marina Silva. Não há projeto, não há o que fazer. Tudo pode ser o seu avesso.
A sugestão é que só faltava aparecer alguém com tanta capacidade permitir que isso ocorra em 2014. Felizmente, essa personagem apareceu. Sou totalmente favorável a liberdade de religião mas temo que, em breve, alguém possa sugerir que oremos olhando para cima para agradecer.
Essa linha de argumentos é uma tentativa de eliminar as conquistas e vitórias importantes dos últimos anos, passar uma borracha nos avanços obtidos e preparar a revanche dos derrotados de 2002.
Por isso Marina fala de uma unidade que esconde dados reais. Os economistas de seu círculo são tão conservadores que já reclamaram dessa “extravagância” brasileira que é comer um bife por dia, como já fez Eduardo Gianetti da Fonseca. Dizem que a humanidade andou consumindo demais e que o regime de contemplação típico da religião budista pode ser uma condição para o progresso, como já disse André Lara Rezende, que, coerentemente, já escreveu que a posição do país na divisão de riqueza mundial não lhe permite ambicionar um crescimento econômico em taxas mais do que medíocres.
Todos ali celebram o governo de FHC como patrono da moeda sem lembrar que em seus dois mandatos a inflação subiu mais do que nos anos Lula e também nos anos Dilma. Todos lamentam o Brasil de 2009 — justamente o momento em que Lula reagiu a crise mundial e impediu que o país afundasse como a Grécia, a Espanha, a Irlanda, quem sabe a França. Balanço para 2014: defender a independência do Banco Central em cima desses selvagens, entendeu? Como se atrevem a tentar — mesmo parcialmente — encarar o mercado?
O esclarecimento das opiniões e o conflito de ideias são elementos indispensáveis da democracia, como ensinou Hanna Arendt, autora essencial para se entender que as ditaduras e governos autoritários nascem pela negação da existência de classes sociais e interesses divergentes.
Foi este o aprendizado que, numa longa caminhada iniciada no ABC de Luiz Inácio Lula da Silva, nos estudantes que enfrentaram a ditadura, nos trabalhadores rurais do Acre de Wilson Pinheiro e Chico Mendes, foi possível construir uma aliança política nacional capaz de abrir brechas num sistema de poder eternizado pela força bruta dos cassetetes e por vários salvadores da pátria.
Este é o debate.

Marina e o Avião

 Autor: Fernando Brito

Marina não era responsável pelo jatinho. Mas passou a ser, agora, cúmplice do “ah, o papel sumiu”


Hoje, mestre Janio de Freitas diz, em seu artigo na Folha , que Marina não teve, ao que tudo indica,  responsabilidade pessoal no arranjo que deu a Eduardo Campos dois aviões ilegalmente mantidos pela Bandeirantes Companhia de Pneus: “a composição que a comprometeu com a campanha foi muito posterior à inclusão do jato nas atividades de Eduardo Campos e do PSB”.
Janio, além das informações que sustentam essa sua afirmação, tem razão. E, correto como é, aponta a desfaçatez de Aécio Neves em cobrar explicações, quando ele próprio as retardou e deu, de forma, insustentável, ao aeroporto que mandou fazer com dinheiro público para uso privado.
“há uma resposta simples, que não precisa de tempo algum: “eu não sabia de quem era o avião, Eduardo não me disse” ou “Eduardo me disse que pertencia a fulano”.Pronto, assunto encerrado: a senhora poderia não saber ou ter apenas a informação que o cabeça de chapa lhe deu sobre o avião. Ninguém esperaria que Marina  fosse pedir a nota fiscal a ele antes de embarcar.”
À medida em que não deu respostas simples assim e, pior, não as exigiu dos dirigentes da, agora, sua própria candidatura, passou a uma atitude de cumplicidade com o que há de imoral, além de ilegal, nesta história.
Porque ela, Marina Silva, é beneficiária política de uma tragédia e ela própria uma das artífices da entronização de Eduardo Campos como “mártir” da nova e moralizadora política.
O novo tesoureiro de sua campanha, Márcio França, acaba de debochar do país ao dizer que pode não haver documentos a provar de quem era o jatinho, porque “os papéis estavam no avião”.
França deveria ter amanhecido fora do cargo de homem de confiança do dinheiro de campanha, no mínimo.
Mas  se lê em O Globo  que, de fato, é com isso que se trabalha para dar “a devida base legal” ao que é ilegal:
“Dirigentes do partido dizem que há duas possibilidades para o comitê não ter prestado contas do avião na primeira parcial entregue à Justiça Eleitoral no dia 2: ou Campos teria feito um “acordo de boca” com os empresários que puseram a aeronave à sua disposição ou o contrato com os termos de uso estava dentro do avião no momento do acidente.” 
E encerraram o CNPJ do comitê financeiro, para que mais não haja, como se isso resolvesse a questão moral e, mesmo, a legal.
Ora, à parte a inequívoca responsabilidade solidária  legal – na lei eleitoral e  nas leis financeiras e tributárias – como vice de Eduardo Campos, poder-se-ia alegar, de fato, que politicamente Marina  estava fora do caso do avião.
Mas já não está, porque age – ao menos, até agora – com omissão e cumplicidade com o que já sabe ser a busca de artifícios – e sabe-se lá de que falsificações de documentos – para justificar uma ilegalidade e uma imoralidade.
E o faz em benefício próprio,  para obter vantagem.
E isso, infelizmente, acaba sendo a descrição mais eloquente de caráter de uma pessoa que busca amealhar o voto dos brasileiros apresentando-se como a personificação da ética e apta a dirigir um país de 203 milhões de habitantes.
Ética é para os outros, quando convém. Para si, basta um ar humilde e compungido?