quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dilma Deveria Parar de Dar Entrevistas Exclusivas

A presidenta Dilma Rousseff conseguiu, na véspera, escapar de uma série de ‘pegadinhas’ preparadas contra ela por entrevistadores de um conglomerado de mídia ligado ao capital internacional. Mas não saiu ilesa. Segundo a doutora em Economia pela Sourbone e correspondente do Correio do Brasil, em Paris, Marilza de Melo Foucher, embora a presidenta Dilma tenha conferido “uma aula de economia” aos jornalistas presente, “os argumentos por eles fornecidos foram muitos fracos e distorcidos da realidade”.
Se esta entrevista tivesse, além de jornalistas da mídia conservadora, alguns jornalistas da imprensa alternativa e independente, “certamente o resultado teria sido outro”, afirma a economista.
Leia, a seguir, o texto de Marilza de Melo Foucher (que, para meu orgulho, faz parte do nosso grupo de amigos. Franklin):
“Depois de ter lido a matéria escrita da Folha de São Paulo tomei meu tempo pra escutar a entrevista gravada em vídeo no UOL. Vocês podem fazer o mesmo para cruzar as informações entre o que a Folha chama sabatina no vídeo e a síntese do que escrevem. Verifiquem que a síntese escrita e as afirmações nas entrelinhas, de forma em geral, são feitas para desacreditar o discurso ou gerar dupla interpretação. A presidenta Dilma Rousseff, nesta entrevista deu aula de economia aos jornalistas da Folha (o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo) e seus associados. Eles fizeram varias tentativas para desestabiliza-la, todavia, os argumentos por eles fornecidos foram muitos fracos e destorcidos da realidade. Se esta entrevista tivesse sido realizada com jornalistas da Folha e com alguns jornalistas da imprensa alternativa, certamente o resultado teria sido outro.
“Ela teria sido mais profícua para os leitores brasileiros que poderiam ter tido mais elementos para analise da realidade atual e na certa disporiam de dados para comparar com a administração de Fernando Henrique e, principalmente, teriam melhores condições para ver como diferentes governos agiram face à crise da economia mundial. A presidenta Dilma não é dotada de carisma e não tem uma oratória politiqueira, daquele discurso bem rodado para dar prazer para a platéia. Ela não sabe fazer isto, ela é muito pragmática e por vezes um pouco tecnocrática nas explicações, todavia, isto não pode ser considerado somente como um defeito político. Ela tem um costume, não sei se é mineiro ou gaúcho, de chamar todos de “querido”, como o paulista diz “meu bem”, talvez isto seja incômodo numa relação com jornalistas que estão lhe preparando armadilhas e só esperam lhe fazer atropelar nos verbos. De todo modo, isto faz parte do jornalismo.
“Agora, faço aqui uma observação. A Presidência da República e sua assessoria já estão caducas de saber que os especialistas em manipulação de fatos e reinterpretação de falsas análises são sempre os mesmos. Estes jornalistas trabalham para os mesmos grupos que são adversários políticos declarados do governo, além disso, têm ódio do PT. Isto impede que eles usem da objetividade. Daí, o ideal seria a presidenta parar de dar entrevistas exclusivas para eles, o que não quer dizer boicotá-los. Todavia, sua assessoria de Comunicação Social deveria convidar outros jornalistas da imprensa alternativa que entendam mais de economia internacional e saibam fazer analises comparativas. Além disso, ter como interlocutores jornalistas dotados de senso mais crítico e de maior imparcialidade, isto pode contribuir para ajudar a elevar o nível do debate que a oposição quer que se seja de mais baixo nível possível.
“Somente teríamos todos a ganhar com a pluralidade dos meios de comunicação, ou seja com a presença de outros jornais que não sejam apenas aqueles da grande midia. Na certa os questionamentos seriam mais pertinentes e as contradições poderiam ser mais bem impostas para melhorar a qualidade das intervenções. O que me chamou atenção e me leva a escrever essas linhas foi a leitura da analise do jornalista carioca, editor-chefe do CdB, Gilberto de Souza. Ele faz certos questionamentos que eu penso, alguns, serem pertinentes”.
Aeroporto sai da mídia
A manipulação da opinião pública por parte das empresas que, num passado recente, apoiaram a ditadura militar no país e para a qual a presidenta Dilma mantém total prestígio e suporte financeiro pesado, segue a marcha de uma bem montada operação na tentativa de desaparecer com o aeroporto dos Neves do noticiário. Pretendem, assim, proteger o candidato do PSDB, da mídia e dos conservadores, ao Planalto, senador Aécio Neves (PSDB/MG). Basta observar a cobertura no final de semana sobre o aeroporto construído pelo então governador de Minas, Aécio (2003-2010), com dinheiro público do Estado, no município de Cláudio (MG).
Estudos junto à opinião pública mostram que Aécio teme o crescimento da rejeição (em média, em 17%, de acordo com as últimas pesquisas) após a divulgação do Aeroporto dos Neves. A revista IstoÉ desta semana, vejam só, uma revista semanal, só publicou uma frase, a do próprio Aécio Neves: “Está tudo explicado já”. Que aliás virou bordão dele. A revista semanal de ultradireita Veja não sonegou a informação a seus leitores, deu uma matéria de quatro páginas, mas, o foco é mostrar que Aécio é vítima. Para a revista, ele é uma vítima do PT, da campanha do partido contra o tucano, principalmente, pelas acusações que circulam nas redes e na blogosfera independente.
“Já o jornalão da família Marinho, O Globo, que nunca deu o caso com destaque, pôs uma pedra em cima no final de semana: nenhuma palavra a respeito. O diário conservador paulistano O Estado de S. Paulo, por sua vez, nos dois dias do fim de semana saiu com meia página em cada um de entrevistas com personalidades que costumam aparecer no noticiário do jornal, como o tio-avô de Aécio, Múcio Tolentino, dono da fazenda em, que o agora candidato a presidente construiu o aeroporto à 6 km da sua própria Fazenda da Mata; e o presidente de uma entidade de classe de Cláudio (MG). Ambos defendendo a construção do aeroporto dos Neves. Claro”, mostra o site Vermelho.org.
Silêncio de FHC
Já o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, embora tenha concedido entrevista à IstoÉ na semana passada, um dia depois da Folha denunciar o aeroporto, em sete páginas a ele destinadas pela revista, simplesmente não tocou no caso. Fez o mesmo neste domingo, na página inteira dada a ele pelo Estadão. Pode ser que FHC, ou os veículos de comunicação, ou ambos, consideram dar de presente um aeroporto à família, um mimo de R$ 14 milhões, pago com dinheiro público de Minas, é um negócio de menor importância. Assim, praticamente só a Folha continua no caso. Neste domingo, inclusive, apontou que o QG da campanha Aécio teme o crescimento da rejeição ao tucano (em média, em 17%, de acordo com as últimas pesquisas) depois da divulgação do Aeroporto dos Neves.
O temor, aponta a matéria, levou o QG e assessores tucanos a optarem por operar os desmentidos nas redes sociais, (dai eles chegam aos outros veículos), para que o candidato tucano não se exponha falando a respeito. Nas redes, 80% desaprovaram a atitude de Aécio, de construir o aeroporto da família.
Redes sociais
A estratégia de usar as redes sociais, aponta a Folha, foi idealizada, montada e operada por Andréa Neves, irmã do candidato e que comandou por oito anos a área de Comunicação do governo de Minas, quando ele foi governador. A opção prioritária desta vez pelas redes é porque a mídia em geral já está com Aécio e cumprirá o papel que sempre cumpriu: o fazer de conta que noticia, mas defendendo o tucano; e, no limite, atribuindo ao PT a denúncia com fins eleitorais ou por pura perseguição dado ao “caráter autoritário” que atribuem ao PT.
Enquanto a imprensa some com o aeroporto da família Neves dos noticiários, Aécio come pastel de feira, ao lado do governador tucano paulista e também candidato à reeleição Geraldo Alckmin. Quer e tenta continuar governador, agora pela 4ª vez. No Rio, em campanha na 6ª feira, e em São Paulo, na companhia de Alckmin, o tucano candidato ao Planalto repetiu o bordão de sua campanha: “a reeleição da presidenta Dilma não gera boas expectativas” para o mercado, o mundo econômico. Coincidência, é a mesma toada de FHC em suas entrevistas!
É, também, a mesma campanha do comunicado do Santander encaminhado a seus 40 mil clientes-Select, os mais ricos. É o que disseram a seus clientes as quatro consultorias arroladas pela Folha no sábado (duas do Brasil, uma dos Estados Unidos, outra do Japão), que fazem relatórios a seus clientes espalhando terrorismo em relação à reeleição da presidenta. É a campanha do caos e aquilo que o presidente do PT, Rui Falcão, classificou de “terrorismo eleitoral”.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O Santander, a Especulação e Eu

Por :  

Há duas semanas, recebi uma ligação da sala de ações do Santander. O corretor insistia para que eu vendesse uma aplicação que tenho em ações da Petrobras. Com os papéis em alta, ele argumentava que era hora de vender. Como tenho também ações da Vale, igualmente em alta, argumentei que, por essa lógica, era melhor vender também estas.
Aí ele disse que era diferente. A Petrobras, segundo relatório a que ele disse ter tido acesso, estaria em dificuldades e a perspectiva para os próximos meses seria de queda na produção de petróleo.
Achei estranho e decidi que era melhor continuar com as ações da Petrobras e também da Vale. Minhas aplicações são bem modestas (é a minha poupança), e imagino que, para se lembrar de mim, o corretor deve antes ter feito o mesmo com clientes de maior expressão. Quando recebi o telefonema do funcionário do Santander, a ação estava em torno de R$ 19,00. Hoje, passa de R$ 20,00.
Imagino que outros aplicadores devem ter tomado a mesma decisão que a minha porque, se tivesse havido um grande movimento de venda dos papéis da Petrobras, como sugeria o corretor, o preço teria despencado. Escrevo este artigo porque penso que a orientação de venda de ações da Petrobras por parte do corretor está alinhada à carta que o Santander mandou aos clientes alertando para o risco de deterioração econômica no caso da reeleição de Dilma Rousseff.
Tanto no caso da carta quanto no da Petrobras, houve uma tentativa de manipulação de mercado, com repercussões políticas. Como repórter, não tenho interesse de defender nenhum governo. Meu trabalho é contar o que se passa. Também não é usual que eu me inclua nessas histórias. Mas, neste caso, o depoimento pessoal se torna imprescindível para entender um período relevante da história do nosso país.

Israel Perdeu de 29 a 1

Mauro Santayana

Palestinos deveriam se vestir como se estivessem em Treblinka.

Conversa Afiada reproduz artigo de Mauro Santayana
A TRAGÉDIA PALESTINA E A VITÓRIA DOS “ANÕES DIPLOMÁTICOS” SOBRE OS ISRAELENSES NA ONU
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, deve estar achando o máximo ter sido repentinamente elevado, pela rançosa e entreguista direita latino-americana – como o Sr. Andrés Oppenheimer – à condição de “superstar”, depois de ter chamado o Brasil de “anão diplomático” e de ter nos lembrado, com a autoridade moral de um lagarto, que “desproporcional é perder de 7 x 1”, referindo-se à Copa do Mundo, e não, matar e ferir mais de 3.000 pessoas e desalojar quase 200.000, para “vingar” um número de vítimas civis que não chegam a cinco.

Com acesso a drones e a sofisticados satélites de vigilância norte-americanos, e a compra de espiões em território “controlado” pelo Hamas – traidores e mercenários existem em todos os lugares – Israel poderia, se quisesse, capturar ou eliminar, com facilidade, em poucos meses, os responsáveis pelo lançamento de foguetes contra seu território, assim como alega contar com eficaz escudo que o protege da maioria deles.

O governo de Telaviv – e o Mossad – não o faz porque não quer. Prefere transformar sua resposta em expedições punitivas não contra os responsáveis pelos projéteis, mas contra todo o povo palestino, matando e mutilando – como fizeram os nazistas com os próprios judeus na Segunda Guerra Mundial - milhares de pessoas, apenas pelo fato de serem palestinos. 

Essa atitude, no entanto, não impediria que surgissem novos militantes dispostos a encarar a morte, para continuar afirmando – pelo único meio que bélico lhes restou – que a resistência palestina continua viva.

Do meu ponto de vista, nesse contexto de cruel surrealismo e interminável violência do confronto, para chamar a atenção do mundo, os palestinos, principalmente os que não estão ligados a grupos de inspiração islâmica, deveriam não comprar mais pólvora, mas tecido.

Milhares e milhares de metros de pano listrado, como aqueles que eram fabricados por ordem do Konzentrationslager Inspetorate, e das SS, na Alemanha Nazista, para vestir entre outros, os prisioneiros judeus dos campos de extermínio.

Os milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza poderiam – como fez Ghandi na Índia – adotar a não violência, raspar as suas cabeças, as de suas mulheres e filhos, como raspadas foram as cabeças dos milhões de judeus que pereceram na Segunda Guerra Mundial, tatuar em seus braços, com números e caracteres hebraicos, a sua condição de prisioneiros do Estado de Israel, costurar, no peito de seus uniformes, o triângulo vermelho e as três faixas da bandeira palestina, para ser bombardeados ou morrer envoltos na mesma indumentária das milhões de vítimas que pereceram em lugares como Auschwitz, Treblinka e Birkenau.

Quem sabe, assim, eles poderiam assumir sua real condição de prisioneiros, que vivem cercados dentro de campos e de guetos, por tropas de um governo que não é o seu, e que, em última instância, controla totalmente o seu destino.

Quem sabe, despindo-se de suas vestimentas árabes, das barbas e bigodes de seus homens, dos véus e longos cabelos de  suas mulheres, despersonalizando-se, como os nazistas faziam com seus prisioneiros, anulando os últimos resquícios de sua individualidade, os palestinos não poderiam se aproximar mais dos judeus, mostrando-lhes, aos que estão do outro lado do muro e aos povos  do resto do mundo – com imagens semelhantes às do holocausto – que pertencem à mesma humanidade, que são, da mesma forma,  tão vulneráveis à doença, aos cassetetes, às balas, ao desespero, à tristeza e à fome, quanto aqueles que agora os estão bombardeando.

As razões da repentina e grosseira resposta israelense contra o Brasil – que ressaltou, desde o início, o direito de Israel a defender-se – devem ser buscadas não no “nanismo” diplomático brasileiro, mas no do próprio governo sionista.

É óbvio, como disse Yigal Palmor, que no esporte bretão 7 a 1 é um número desproporcional e acachapante.

Já no seu campo de trabalho – a diplomacia – como mostrou o resultado da votação do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aprovou, há três dias, a investigação das ações israelenses em Gaza, os “anões” diplomáticos – entre eles o Brasil, que também votou contra a posição israelense – ganharam por 29 a 1, com maioria de países do BRICS e latino-americanos. Só houve um voto a favor de Telaviv, justamente o dos EUA.

Concluindo, se Palmor – que parece falar em nome do governo israelense, já que até agora sequer foi admoestado – quiser exemplo matemático ainda mais contundente, bastaria  lembrar-lhe que, no covarde “esporte” de matar seres humanos indefesos – entre eles velhos, mulheres e crianças –  disputado pelo Hamas e a direita sionista israelense, seu governo está ganhando de goleada, desde o início da crise, pelo brutal – e desproporcional placar – de quase 300 vítimas palestinas para cada civil israelense.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Santander Deveria Ser Punido Pelo BC e TSE

Jornal do Brasil

O Banco Santander enviou um informe aos seus clientes milhardários dizendo que, caso Dilma se estabilize ou volte a subir nas sondagens para as eleições de outubro, o cenário macroeconômico poderia se deteriorar, com câmbio desvalorizado, juros mais elevados e o índice Ibovespa em baixa. Logo depois, o banco espanhol pediu desculpas ao governo brasileiro. 


O cinismo que envolve a declaração do Banco Santander a seus clientes milhardários claramente ameaça a pobreza brasileira. Esses delinquentes jamais teriam coragem de fazer isso na Espanha, país onde conseguiram criar essa instituição, com o governo democrático quebrando ou ameaçando os bancos da época de Franco.

Nem Lincoln Gordon, embaixador do governo dos EUA e comprovado colaborador do golpe de 1964 em nome do governo americano, conforme consta em livros do jornalista Élio Gaspari, nem ele ousou interferir no mercado financeiro brasileiro. É inaceitável que um banqueiro estrangeiro use funcionários como cabos de espadas para sangrar a economia brasileira, incitando a seus milhares de clientes a coagirem seus empregados a votarem em candidatos que, se eleitos, continuarão promovendo lucros para seus acionistas espanhóis, que criaram esse banco, que é sucessor dos bancos franquistas. 
O Tribunal Superior Eleitoral não precisa ser chamado num crime tão escandaloso como esse para poder atuar. O Banco Central, além de suas obrigações, como responsável pela política monetária do país, tem também compromissos políticos com  o povo para que não permita que um atravessador dessa categoria, que se intitula banco, possa fazer do Brasil o que pensa em fazer.

​Como Evitar o Golpe das Pesquisas

Contemple o copo cheio

O Conversa Afiada reproduz artigo do professor João Feres Júnior  no novo e valioso site Brasil Debate :
Ao contrário do que as manchetes da grande mídia afirmam, os números das intenções de voto, considerando as seis pesquisas feitas pelo Datafolha esse ano, é impressionantemente estático. Isso apesar do ataque sistemático sofrido pelo governo Dilma, acusado de má gestão, desmando e corrupção

A campanha eleitoral mal começou, mas as análises “meio copo vazio” de Dilma já frequentam a grande mídia há muito tempo. A publicação de pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha no último dia 18 foi razão para mais uma enxurrada de leituras desse tipo. Se a comunicação social deve ter uma função pedagógica, é mister mostrar que os números exibidos dão base também a outras interpretações, pelo menos para que o leitor/eleitor possa comparar, pesar e julgar.

Comecemos pelos números das intenções de voto. O quadro geral que transparece, ao tomarmos como um todo as seis pesquisas eleitorais feitas pelo citado instituto, desde meados de fevereiro deste ano, é impressionantemente estático, ao contrário do que as manchetes dão a entender. Não houve mudanças significativas da última pesquisa, coletada nos dias 1 e 2 de julho, para a atual, coletada nos dias 15 e 16 de julho.

Tampouco da penúltima, ou da antepenúltima. Todos os candidatos mantiveram-se dentro da margem de erro, ainda que, há de se notar, o cálculo das margens de erro feito pelos institutos, de 2% a 4%, seja incerto, pois a pesquisa utiliza metodologia de cotas e não puramente probabilística.

Na verdade, ao tomarmos as seis pesquisas em conjunto, notamos que Dilma somente caiu nas intenções de voto, de 44% para 38%, da primeira pesquisa, 19 e 20 de fevereiro, para a segunda, 2 e 3 de abril. Desde então, a candidata tem se mantido em torno dessa marca.

Por seu turno, Aécio Neves somente subiu, de 16% para 20%, da segunda para a terceira pesquisas, feitas nos meses de abril e maio, respectivamente.  Desde então tem se mantido estático nos 20%, pesquisa após pesquisa. Eduardo Campos parece, à primeira vista, o que mais variou, pois a curva de seu gráfico pelo menos se mexe, mas sempre dentro da margem de erro.
Começa a série com 9%, em fevereiro, e acaba com 8%, na última pesquisa.

O que esses dados querem dizer? Entre outras coisas, que as preferências dos eleitores não estão mudando rapidamente. Há certa expectativa ou paralisia do eleitorado, o que é compreensível, dado que, no primeiro semestre desse ano, a Copa do Mundo da FIFA ocupou grande parte do noticiário. Esses dados também revelam o tão comentado impacto da Copa do Mundo nas percepções políticas do eleitorado. Na verdade, mais correto seria falar em falta de impacto, pois o que se constata é que o evento não alterou as preferências dos eleitores frente aos candidatos.

Mas isso não se deu em um contexto neutro. Pelo contrário, a grande mídia moveu uma forte campanha contra a organização do evento, culpando o governo federal, quando não Dilma diretamente, por supostas falhas, atrasos, corrupção, promessas não cumpridas e má administração. Tal campanha negativa ecoou fortemente nas mídias internacionais, que também passaram a projetar expectativas de catástrofe para a Copa do Brasil. Esperava-se o fracasso e que esse fracasso fosse cobrado de Dilma.

A Copa foi, contudo, um sucesso, o que aparentemente cancelou os efeitos da campanha negativa da mídia sobre as intenções de voto em Dilma. Outro  dado importante a se notar é a rejeição dos candidatos. Aqui, os jornais chamaram bastante atenção para o fato de Dilma ter um índice de rejeição, 35%, que é praticamente o dobro do de Aécio, 17%, e três vezes o de Eduardo Campos, 12%.

Novamente, a informação só vem pela metade, pois o índice de rejeição tem que ser pesado juntamente com o índice de conhecimento que o eleitorado tem do candidato, e esse dado não foi apresentado, ainda que saibamos que o de Dilma, pelo simples fato de ser presidente, é quase 100%, enquanto Aécio e Campos têm índices muito menores.

As conclusões a serem tiradas desse quadro são nada óbvias. Se as coisas continuam mais ou menos da maneira como estão, Dilma teria atingido o teto de sua rejeição, pois o eleitorado já a conhece e já tem alguma opinião formada sobre ela. Já Aécio e Campos têm um caminho pela frente. Ao se tornarem mais conhecidos certamente verão seus índices de rejeição também aumentarem.

Mais uma vez, precisamos levar em consideração o contexto informacional. Até o momento, o governo Dilma e o partido da presidente, o PT, têm sofrido um ataque sistemático da grande mídia, acusados de má gestão, desmando e corrupção, enquanto os candidatos da oposição são tratados de maneira bem mais leniente, quando não francamente simpática. Ou seja, com raríssimas exceções, tudo o que o público de eleitores recebe são notícias ruins sobre o governo, acrescidas de uma cobertura que pinta o País em franca crise econômica e política, a despeito de todas as evidências em contrário.

Compondo a situação, o governo federal tem tido dificuldade em comunicar ao eleitorado notícias positivas de sua gestão e do País como um todo. A despeito do bloqueio midiático, o governo tem em suas mãos instrumentos de comunicação, ainda que limitados, mas essas informações parecem não chegar à população. Talvez embevecido por suas seguidas vitórias eleitorais, o PT também parece ter aberto mão, desde o primeiro governo Lula, de cultivar meios de comunicação que constituam alternativas reais para o grande público. Em suma, do ponto de vista informacional, estamos no pior momento possível para a candidatura da situação.

Isso não quer dizer que as coisas vão necessariamente melhorar para Dilma. Em breve, contudo, sua candidatura terá no horário eleitoral gratuito, no qual contará com muito mais tempo que qualquer oponente, uma chance real de informar os eleitores e assim resistir à avalanche de propaganda negativa da qual é objeto.

É claro que os candidatos da oposição aumentarão o tom das críticas. O mesmo devemos esperar da grande mídia, que tende a repetir o comportamento extremamente militante das eleições passadas. Enfim, entramos no período abertamente político do calendário eleitoral, no qual as máximas maquiavelianas da virtude e da fortuna imperam. O resultado do pleito de 2014 está longe de estar determinado. Vamos ao jogo!

João Feres Júnior
É cientista político, vice-diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) e do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA)

Que Venham as Escolas e Hospitais “Padrão Brasil”


Provamos que sabemos fazer Copa. 
Claro que foi duro ver a seleção tomar 7 gols da Alemanha, mas as tragédias fazem parte da mística do futebol. O importante é que a seleção perdeu, mas o Brasil ganhou: a Copa do Mundo 2014 foi um sucesso. A despeito das previsões catastróficas feitas pela oposição e pela mídia, que praticou apenas mau jornalismo no que diz respeito à Copa, fizemos um grande evento, digno de um grande país. Nem vou mencionar aqui o pedido de desculpas que deveria ser feito por todos ao ex-presidente Lula, que nunca duvidou do sucesso do Mundial de futebol no Brasil desde o princípio. Lula, a Copa foi um golaço.

Houve uma torcida contra feia não me refiro aqui aos que foram às ruas para defender, com justiça, as vítimas de remoções por conta das obras da Copa. Critico os que torceram contra o País. Gente na imprensa e na oposição que desejou até mesmo que um dos estádios ou aeroportos erguidos para o Mundial desmoronasse e causasse mortes. Esta é a verdade, que só escrevo agora até por superstição. Não é à toa que se tentou atribuir a queda de um viaduto em Belo Horizonte, de responsabilidade da prefeitura, ao governo federal. Só que se uma tragédia ocorresse na Copa, não atingiria apenas a imagem do governo, e sim a do Brasil. Sinal que essa gente não está preocupada com o País, só quer tomar o poder. Não está nem aí para o fato de que, aconteça o que acontecer, o Brasil é o mesmo. Os governos vão, o País fica.
Felizmente, a Copa transcorreu da melhor forma possível. Recebemos bem os visitantes estrangeiros, que ficaram impressionados com a simpatia e a alegria do nosso povo, nossa boa comida, nosso clima, nossa natureza exuberante e nem um pouco com a brutalidade de nossa polícia. Não aconteceu o caos aéreo também desejado por setores da oposição e da mídia, tudo funcionou direitinho e recebemos os maiores elogios dos turistas e da imprensa internacional. Nos divertimos a valer com os jogos, que bateram todos os recordes de gols inclusive nas redes da seleção brasileira… Foi um mês de farra, que deixará saudades. Já estamos com saudades.
Agora, devemos olhar para frente, para o futuro, para o Brasil que queremos. Em minha opinião, uma das reivindicações mais justas feitas pelos que protestaram nas manifestações de junho do ano passado e, este ano, contra a Copa do Mundo, foi a que pedia, em faixas e cartazes, equipamentos públicos “padrão FIFA”. Parece um pedido genérico, mas não é. Principalmente após vermos os estádios e aeroportos que construímos. Bonitos, modernos, funcionais. “Padrão FIFA”. Por que não escolas e hospitais com a mesma excelência? Não podemos deixar de almejar isso. Não podemos rebaixar nosso nível de exigência depois que vimos do que somos capazes.
O que muitas das pessoas que foram às ruas exigir “padrão FIFA” não sabem, porém, é que isso não depende somente do governo federal. Saúde e educação também são responsabilidade dos governos estaduais e municipais. Se aí, na sua cidade, um hospital municipal não funciona bem, não adianta cobrar quem preside o País, tem que cobrar o prefeito. Se uma escola estadual não funciona bem, não adianta reclamar com o governo federal, tem que reclamar com o governador. Já que aprendemos a ir às ruas protestar, é preciso direcionar os protestos para o alvo certo e não apenas ficar repetindo clichês.
Uma boa maneira de protestar por equipamentos públicos “padrão FIFA” é deixando de eleger maus políticos, que nunca fizeram nada pelo País, por seu Estado ou por sua cidade. Ir às ruas é bacana. Mas é importante também dedicar algum tempo para se informar sobre os vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, governadores e o prefeito que você elege. Porque infelizmente manifestações não bastam para mudar as coisas. Numa democracia, a única maneira eficiente de promover mudanças é votando. Em quem você votou na eleição passada? Verifique se seu candidato cumpriu tudo aquilo que prometeu. Se não cumpriu, não vote mais nele.
Outra coisa que as pessoas parecem não saber é que prefeitos, governadores e o presidente da República dependem dos órgãos legislativos para governar bem. Não adianta votar em nomes decentes para os cargos executivos e votar mal para as Câmaras de Vereadores, Assembléias e o Congresso Nacional. Muita gente vive reclamando que os políticos são ruins. Que são corruptos. Que não pensam no País. Mas quem os elege é você. Eu e muita gente que nunca votou num mau político pagamos pelos canalhas que você botou lá. E depois ainda vai à rua bradar, como se não tivesse nada a ver com isso: “Fora Fulano!”, “Fora Beltrano!”. Acho cara-de-pau.
Votando direito, fica mais fácil conquistar o que foi gritado nas ruas e exposto em cartazes. É, sim, uma reivindicação justíssima: está mais do que na hora de nosso País ter bons equipamentos públicos, boas escolas, bons hospitais. Não digo nem “padrão FIFA”, que afinal essa entidade não deve ser parâmetro para nada. Prefiro falar em “padrão Brasil”, porque a Copa mostrou como somos um país maravilhoso, receptivo, organizado e competente quando queremos. É assim que as coisas aqui devem ser, sempre, não só quando temos visitantes estrangeiros em casa. Que venha, portanto, o padrão Brasil. Nosso povo merece.

Por Cynara Menezes Em BLOG  

Humoristas de Israel: Anões Fora da Lei

Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador:
A cultura judaica já produziu bons comediantes. Alguns associam o humor a reflexões existenciais, sendo capazes de rir de si próprios - como Woody Allen.
O porta-voz do Estado israelense parece ser herdeiro de um outro tipo de humor. Em vez de rir de si próprio, prefere transformar em piada o assassinato de milhares de mulheres e crianças palestinas na faixa de Gaza.
A nota do governo brasileiro, que condenou de forma veemente o ataque brutal a Gaza e apontou o uso “desproporcional” da força por parte do governo israelense, fez com que o porta-voz Yigal Palmor manifestasse toda sua veia humorística: “desproporcional é perder de 7 a 1″, disse.
Israel já havia chamado o Brasil de “anão diplomático” e “politicamente irrelevante”, recebendo a justa resposta de Marco Aurélio Garcia (que você pode ler aqui, na íntegra):
“É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas. Como temos posições claras sobre a situação do Oriente Médio - reconhecimento do direito de Israel e Palestina a viverem em paz e segurança - temos sido igualmente claros na condenação de toda ação terrorista, parta ela de grupos fundamentalistas ou de organizações estatais.”
Freud (assim como Marx e Darwin, outros gênios que ajudaram a Humanidade a compreender melhor sua aventura – e suas desventuras – nesse Planeta) era judeu. Freud foi pioneiro em apontar atos falhos e piadas ditas assim, de forma “impensada”, como indicadores do que anda pelo inconsciente das pessoas. Quem tiver curiosidade sobre o tema pode consultar “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, um clássico publicado pela primeira vez em 1905 (Freud, diga-se de passagem, não era entusiasta do projeto de um Estado judeu, que àquela época começava a ganhar apoio na Viena onde vivia).
Ao comparar a morte de milhares de inocentes em Gaza com a goleada sofrida pelo Brasil na Copa, o lamentável porta-voz faz o mundo compreender: para o Estado de Israel, a guerra é um jogo. É isso o que o senhor Yigal Palmor deixou escapar. Fez uma piada e com ela revelou-se ao mundo. Ótimo!
O porta-voz aplicou uma goleada mental em si mesmo. E fez Israel levar uma outra surra na batalha de comunicação.
No cálculo do número de mortos, claro, não há dúvida de que os palestinos estão perdendo de goleada. Mas isso não é um jogo. É uma tragédia humanitária e política – tão grave quanto os “pogroms” contra judeus no século XIX, ou o apartheid sul-africano no século XX.
Aos olhos do mundo, é Israel quem se transforma em anão. Um anão moral. E que tem entre seus altos funcionários, além de tudo, péssimos humoristas.
Isolado, acostumado a ser o amigo preferido do menino fortão da rua (EUA), o Estado de Israel vê sua imagem se desmanchar perante o mundo.
No Brasil, setores da imprensa e jornalistas/apresentadores/comentaristas que costumam se reunir às escondidas com representantes da diplomacia dos Estados Unidos, alinham-se agora com os piadistas israelenses. Também são anões. Usam globos, cbns e outras concessões públicas para defender um estado fora-da-lei, o Estado de Israel.
Pode demorar um ano, cinco anos, cinco décadas. Mas os anões fora-da-lei serão derrotados. No Brasil e no Oriente Médio

domingo, 27 de julho de 2014

É a Mídia, Dilma! É a Mídia!

A politica (?) de Comunicaçao do Governo foi desastrosa !

O Conversa Afiada reproduz artigo de Emir Sader, extraído da Carta Maior :

Uma política de comunicações desastrosa por parte do governo é responsável por esse clima que coloca em risco a continuidade do projeto democrático e popular.

Qualquer comparação minimamente objetiva dos governos tucanos e petistas – dos candidatos que representam a um e a outro – permitiriam prever uma vitória eleitoral ainda mais fácil do governo neste ano. Ninguém duvida dos resultados dessa comparação, ainda mais que o candidato tucano reivindica a mesma equipe econômica de FHC e seu guru  econômico repete os mesmos dogmas que levaram os tucanos a nunca mais ganharem eleição nacional no Brasil depois que essa equipe governou o pais. Enquanto a candidata do governo representa a continuidade do projeto que transformou positivamente o Brasil desde 2003 e seu aprofundamento.

No entanto, as pesquisas e o clima político e econômico mostram um cenário um pouco diferente. Somente o nível de rejeição que as pesquisas – maquiadas ou não – da Dilma e do governo – o dobro da rejeição de Aécio, segundo as pesquisas – já revela que outros fatores contam para entender as opiniões das pessoas.

Para um tecnocrata, para uma visão economicista ou positivista da realidade, a consciência é produto direto da realidade objetiva. Basta transformar a esta, que as pessoas se darão conta das mudanças e do seu significado. Não levam em conta o papel fundamental da intermediação que exercem os meios de comunicação.  A realidade concreta chega às pessoas através das representações dessa realidade, processo em que a mídia exerce um papel determinante. Essa visão ingênua não entende o que é a ideologia e como a fabricação dos consensos pela mídia monopolista atua.

A mídia conseguiu fabricar consensos como os de que a Dilma seria uma presidente incompetente, o governo seria corrupto, a política econômica fundamentalmente equivocada e a Petrobrás um problema, a inflação descontrolada, a economia estagnada e sem possibilidade de voltar a crescer. Por mais que se possa, racionalmente, desmentir cada uma dessas afirmações, são elas que permeiam os meios de comunicação e formam parte da opinião pública, contaminada pelo terrorismo em que aposta a oposição politica e seu partido – a mídia.

Uma política de comunicações desastrosa por parte do governo é responsável por esse clima, que coloca em risco a continuidade do projeto democrático e popular que o povo escolheu como seu em três eleições presidenciais. O governo ficou inerte diante da criação desse clima e o que poderia dizer ficou neutralizado porque o governo não avançou em nada na democratização dos meios de comunicação. É uma atitude grave, porque alimenta uma oposição derrotada, que se apoia no monopólio privado dos meios de comunicação para desgastar o governo, sem que este reaja.

É equivocada a alternativa entre uma imprensa barulhenta – que diga o que bem entenda – ou uma mídia calada. Esta era a alternativa durante a ditadura. Na democracia a alternativa é entre uma mídia monopolista, que só propaga a voz dos seus donos ou mídia democrática, pluralista. Ao não avançar na democratização dos processos de formação da opinião publica, o governo colocar em risco todos os avanços acumulados desde 2003.

Não por acaso os votos duros de apoio do governo – os mais pobres, os do nordeste – são os menos afetados pela influência da mídia, são aqueles influenciados assim diretamente pelos efeitos das políticas sociais do governo. E os setores de classe média das grandes cidades são os mais afetados.

O Brasil não será um país democrático, por mais que avancemos na diminuição das desigualdades sociais, se somente uma ínfima minoria pode influenciar sobre a opinião dos outros, impor os temas que lhes pareçam do seu interesse como agenda nacional, difundam o tempo todo suas opiniões. Não será democrático enquanto as pessoas possam ter acessos a bens indispensáveis, mas não possam dizer a todos os outros o que pensam.

Senão seria perpetuar a divisão entre os que trabalham, produzem, vivem no limite das suas necessidades, por um lado, enquanto por outro lado estão os que, pelo poder do dinheiro, podem ocupar os espaços de formação de opinião pública, podem influenciar os outros, impunemente.

A razão pela qual um governo que promove os direitos da grande maioria da população, até aqui excluída, tem tantas dificuldades para traduzir esses avanços numa clara maioria politica, é a mídia, é a mídia.

sábado, 26 de julho de 2014

De Cegos e Anões

O Conversa Afiada reproduz excelente artigo de Mauro Santayana:

Se não me engano, creio que foi em uma aldeia da Galícia que escutei, na década de 70, de camponês de baixíssima estatura, a história do cego e do anão que foram lançados, por um rei, dentro de um labirinto escuro e pejado de monstros. Apavorado, o cego, que não podia avançar sem a ajuda do outro, prometia-lhe sorte e fortuna, caso ficasse com ele, e, desesperado, começou a cantar árias para distraí-lo. 

O anão, ao ver que o barulho feito pelo cego iria atrair inevitavelmente as criaturas, e que o cego, ao cantar cada vez mais alto, se negava a ouvi-lo, escalou, com ajuda das mãos pequenas e das fortes pernas, uma parede, e, caminhando por cima dos muros, chegou, com a ajuda da luz da Lua, ao limite do labirinto, de onde saltou para  densa floresta, enquanto o cego, ao sentir que ele havia partido, o amaldiçoava em altos brados, sendo, por isso, rapidamente localizado e devorado pelos monstros que espreitavam do escuro.  

Ao final do relato, na taverna galega, meu interlocutor virou-se para mim, tomou um gole de vinho e, depois de limpar a boca com o braço do casaco, pontificou, sorrindo, referindo-se à sua altura: como ve usted, compañero… con el perdón de Dios y de los ciegos, aun prefiro, mil veces, ser enano…

Lembrei-me do episódio — e da história — ao ler sobre a convocação do embaixador brasileiro em Telaviv para consultas, devido ao massacre em Gaza, e da resposta do governo israelense, qualificando o Brasil como irrelevante, do ponto de vista geopolítico, e acusando o nosso país de ser um “anão diplomático”.

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, e os líderes de três das maiores potências espaciais e atômicas do planeta, além do presidente do país mais avançado da África, país com o qual Israel cooperava intimamente na época do Apartheid, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv.

O governo israelense não consegue mais enxergar além do próprio umbigo, que confunde com o microcosmo geopolítico que o cerca, impelido e dirigido pelo papel executado, como obediente cão de caça dos EUA no Oriente Médio.

O que o impede de reconhecer a importância geopolítica brasileira, como fizeram milhões de pessoas, em todo o mundo, nos últimos dias, no contexto da criação do Banco do Brics e do Fundo de reservas do grupo, como primeiras instituições a se colocarem como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, é a mesma cegueira que não lhe permite ver o labirinto de morte e destruição em que se meteu Israel, no Oriente Médio, nas últimas décadas.
Se quisessem sair do labirinto, os sionistas aprenderiam com o Brasil, país que tem profundos laços com os países árabes e uma das maiores colônias hebraicas do mundo, como se constrói a paz na diversidade, e o valor da busca pacífica da prosperidade na superação dos desafios, e da adversidade.

O Brasil coordena, na América do Sul e na América Latina, numerosas instituições multilaterais. E coopera com os estados vizinhos — com os quais não tem conflitos políticos ou territoriais — em áreas como a infraestrutura, a saúde, o combate à pobreza.

No máximo, em nossa condição de “anões irrelevantes”, o que poderíamos aprender com o governo israelense, no campo da diplomacia, é como nos isolarmos de todos os povos da nossa região e engordar, cegos pela raiva e pelo preconceito, o ódio visceral de nossos vizinhos — destruindo e ocupando suas casas, bombardeando e ferindo seus pais e avós, matando e mutilando as suas mães e esposas, explodindo a cabeça de seus filhos.

Antes de criticar a diplomacia brasileira, o porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, deveria ler os livros de história para constatar que, se o Brasil fosse um país irrelevante, do ponto de vista diplomático, sua nação não existiria, já que o Brasil não apenas apoiou e coordenou como também presidiu, nas Nações Unidas, com Osvaldo Aranha, a criação do Estado de Israel.

Talvez, assim, ele também descobrisse por quais razões o país que disse ser irrelevante foi o único da América Latina a enviar milhares de soldados à Europa para combater os genocidas   nazistas; comanda órgãos como a OMC e a FAO; bloqueou, com os BRICS, a intervenção da Europa e dos Estados Unidos na Síria, defendida por Israel, condenou, com eles, a destruição do Iraque e da Líbia; obteve o primeiro compromisso sério do Irã, na questão nuclear; abre, todos os anos, com o discurso de seu máximo representante, a Assembleia Geral da Nações Unidas; e porque — como lembrou o ministro Luiz Alberto Figueiredo, em sua réplica — somos uma das únicas 11 nações do mundo que possuem relações diplomáticas, sem exceção – e sem problemas – com todos os membros da ONU.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

​​​A​ ​ Tentativa de Retorno da Velha Direita Brasileira ao Poder

Por Marilza de Melo Foucher - de Paris

Serra, FHC e Aécio Neves são os expoentes do neoliberalismo no Brasil

Existe no Brasil uma estratégia muito bem articulada com os setores conservadores da sociedade que contam com o apoio da grande imprensa para preparar o retorno dos neoliberais ao poder. Entretanto, o discurso utilizado contra a presidenta Dilma Rousseff e seu partido, o PT, parece não encontrar o eco necessário junto à maioria da população, hoje muito mais politizada e menos manipulável.
O desespero se ampara nos conservadores brasileiros, que esperavam a derrota da seleção brasileira e apostavam no fracasso total da Copa do Mundo de futebol. O movimento Não Vai Ter Copa saiu de campo com a bola furada! A campanha orquestrada no plano internacional para desacreditar o Brasil foi logo desmascarada. O principal motor do aquecimento da campanha presidencial da oposição falhou. Todavia, ela não desarmou sua fortaleza, e tudo já está preparado para a guerra política. No momento em que se aproxima a data da abertura oficial da campanha presidencial, o debate político vai se intensificar, todavia, a tendência é de se denegrir a política.
Pelo visto, esta campanha anuncia-se como a mais violenta da história da política brasileira. Possuídos pelo sentimento de ódio, os representantes da direita, da elite conservadora perderam a capacidade do raciocínio político. Dificilmente forjarão argumentos para entender porque perderam três eleições presidenciais. Dificilmente esta ala reacionária da direita entenderá porque um partido político como o PT chega ao poder liderado por um operário metalúrgico que, sem maioria para governar, chega a compor com partidos ditos de direita e do centro e cria uma aliança estratégica com o poder econômico e financeiro simplesmente para salvar o país da bancarrota. Patriotismo econômico? Diriam alguns… Como este pequeno operário e sua equipe conseguiram governar um país de dimensão continental dentro das normas republicanas, sem grandes conflitos que pudessem paralisar o funcionamento da democracia?
Como negar que o Brasil saiu da periferia para ser um ator influente na cena internacional graças aos governos de Lula e Dilma? Na certa, os artesãos de um mundo para todos estão conscientes do papel que o Brasil pode jogar diante de um planeta multipolar. Todos esses avanços perturbam a estratégia política dos conservadores de direita no Brasil.
Dar respostas coerentes com instrumentos pertinentes de análises política e econômica será quase impossível para aqueles que não se renovaram politicamente. Isto é fácil de observar, tendo em vista que no plano ideológico o discurso dos adversários de direita é retrógrado e não corresponde mais à evolução do pensamento político face ao desafio de um mundo multipolar.
Talvez, o melhor fosse dizer que existem hoje, no Brasil, velhas direitas e esquerdas inovadoras que buscam alternativas num modo de governar face à predominância do modelo neoliberal mundial. Esse tipo de “esquerda tropical”, por exemplo, a que governa o Brasil nesses últimos 10 anos foge de todos os critérios de enquadramento ideológico que lhe quer impor o campo da velha direita herdeira da Casa Grande e Senzala. Os reacionários desta direita rançosa que defendeu a ditadura no Brasil contra o ‘perigo vermelho’, até hoje continua a promover um anticomunismo primário que integram suas mentes afetadas por uma visão simplista, reducionista que eles têm do Bem e do Mal.
A esquerda na América Latina com rara exceção, é uma esquerda que renunciou a transformar a sociedade pela via revolucionária, preferindo transformá-la pela via democrática que incentiva a participação social. Ao mesmo tempo em que tenta conciliar um modelo de desenvolvimento mais igualitário respeitoso dos direitos humanos. Trata-se de uma esquerda que não é contra a economia de mercado, todavia, tenta criar uma economia mais solidaria. Incentiva as empresas privadas a investir em obras publica optando por parcerias com o Estado.
O Estado sob os governos de Lula e Dilma se definiu como um Estado regulador e promotor da inclusão social. Vale ressaltar que apesar da maioria de brasileiros ter dado preferência aos candidatos do PT nesses últimos anos, isto não quer dizer que as forças reacionárias e conservadoras tenham diminuído no Brasil. Ao contrário, a ala conservadora se revigora e surge, hoje, muito mais articulada e muito mais perigosa. Eles serão capazes de investir todos os meios necessários para impedir um novo mandato para a presidenta Dilma. Hoje a direita busca aliados até no campo da esquerda, nos extremos. Uma direita que sem argumentos e sem proposta alternativa aposta no desgaste dos 10 anos de governos do Partido dos Trabalhadores. Repetem em bloco que o PT e Dilma são responsáveis por tudo de mal que aconteceu no Brasil, inclusive do vírus da corrupção que contaminou todas as instâncias do poder e que persiste há séculos no Brasil!
Dotados de amnésia política, esquecem que eles estiveram ocupando todos os poderes durante varias décadas, eles não somente compraram votos para a reeleição do FHC, mas assaltaram as riquezas nacionais vendendo as grandes empresas públicas, privatizando as riquezas do solo e subsolo a preços abaixo do mercado. Eles praticaram uma política de depreciação do patrimônio nacional. Se eles tivessem permanecido por mais um mandato a Petrobras seria privatizada como foi a Vale do Rio Doce!
Apesar do bombardeamento mediático vai ser difícil suprimir da memória de um povo a crise econômica, a agravação das desigualdades sociais, da miséria urbana e rural vivida por milhões de brasileironos períodos faustos da ideologia neoliberal defendida pelo PSDB e aliados.

Levar uma discussão a fundo sobre os resultados dos programas tanto econômico como social dos governos do PT e aliados é uma tarefa difícil para uma oposição rancorosa e movida pelo ódio.
A direita no Brasil tem um magro balanço apesar de quase um século controlando as rédeas de todos os poderes no Brasil. Esta nunca se deu conta que uma sociedade desigual engendra violência e acumula problemas sociais. Daí o descaso que sempre tiveram no tratamento da exclusão social. Basta ler e escutar o que diziam a respeito da Bolsa Família… Para eles o Bolsa família era a “Bolsa Esmola”, era um programa puramente clientelista. Depois que a ONU considerou o programa como o melhor exemplo a ser seguido de política pública de distribuição de renda no mundo, eles passaram o formatar um novo discurso.
Nesse contexto, parece oportuno destacar a importância de políticas públicas voltadas ao combate à pobreza e às iniquidades durante os governos de Lula e Dilma. Apesar de todos os investimentos, o atraso acumulado durante séculos fazem com que os índices de desigualdades no Brasil ainda continuem elevados Sabe-se que as desigualdades geram uma sociedade enferma, sem auto-estima, inclusive depressiva. Um dos indicadores do sucesso dos programas de inclusão social realizados pelos governos de Lula e Dilma é justamente o aumento da auto-estima nas camadas pobres.
O dilema da velha direita será de argumentar com velhas receitas que o neoliberalismo continua sendo a melhor via para governar o Brasil.
A presidenta Dilma, mesmo sendo criticada pela oposição de esquerda, talvez tenha mais capacidade para propor mudanças para seu segundo mandato do que a velha direita e seus aliados. Estes conservadores têm um passado e um presente comprometido com a filosofia e ideologia neoliberal.
Para os adeptos do neoliberalismo o Estado deveria ser privatizado perdendo seu papel de regulador econômico e social. Como denunciar a falta de serviços públicos quando eles sempre defenderam a privatização?
O que está em jogo hoje é um projeto de sociedade baseado numa nova concepção de desenvolvimento que leve em conta a dimensão humana e os desafios ambientais. A crise econômica relegitimou o papel do Estado, todavia, urge agora uma redefinição no modo de intervir no desenvolvimento territorial brasileiro levando em conta o potencial sócio-econômico-cultural e a diversidade de nossos ecossistemas. A referência “desenvolvimentista” baseada numa concepção puramente economicista não é suficiente para reduzir os desequilíbrios regionais, diminuir as desigualdades no meio rural, ou melhorar as condições de vida em nossas cidades.
Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris.

​CV do Aécio: Nunca Fez Nada

Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público e patrimônio é herança

por Luis Carlos da Silva, especial para o Viomundo

Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.

Mas, entremos no clima por ele proposto.

Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.

Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.

Até sua carreira eleitoral tem como fato gerador a agonia terminal do avô, cuja morte “coincidiu” com o dia de Tiradentes . Seu primeiro cargo eletivo é tributário disso: em 1986 ele obteve mais de 200 mil votos para deputado federal sem lastro político próprio. Quatro anos mais tarde, distante do “fato gerador”, ele se reelegeu com magros 42.412 votos.

No quadro a seguir temos um diminuto resumo da versão de sua “bolsa família”.


Reitera-se: trata-se de um “diminuto resumo”. A história de seus avós paternos e maternos é a reprodução integral de como foram formadas as elites mineiras: indispensável vínculo estatal (cargos de confiança no Executivo, cartório e muita influência no Judiciário), formação de patrimônio fundiário à base da incorporação de terras devolutas e estreitas ligações com carreiras parlamentares.

O pai, Aécio Cunha, por exemplo, morava no Rio de Janeiro quando,  em 1952 retorna a Belo Horizonte e, com 27 anos de idade, em 1954,  “elegeu-se deputado estadual, pela região do Mucuri e do Médio Jequitinhonha, ainda que pouco conhecesse a região (…)” conforme descrição no Wikipédia. Seus  oito mandatos parlamentares nasceram de sua ascendência oligarca. Do avô materno, Tancredo, dispensa-se maiores apresentações. Atípico sobrevivente de várias crises institucionais que levaram presidentes à morte, à deposição e ao exílio, Tancredo Neves sempre esteve na “crista da onda”. Nunca como empresário. Quase sempre como interlocutor confiável dos que quebravam a normalidade democrática.

Aécio Neves, por sua vez, era um bon vivant quando passa a secretariar o avô, governador de Minas Gerais, a partir de 1983. Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público, nunca chefiou nenhum empreendimento privado. Sua famosa rádio “Arco Íris” foi um presente de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Boa parte de seu patrimônio é herança familiar construída pelo que se relatou anteriormente. O caso do aeroporto do município mineiro de Cláudio é apenas mais uma ponta do iceberg.

Enfim, ele é isso: um produto estatal que prega liberalismo, competição, livre mercado… para os outros. Uma contradição em movimento. Herdeiro, portanto, de uma típica “bolsa família”; só que orientada para poucos.

Aliás, esse parasitismo estatal é característico da maior parte das elites brasileiras. Paradoxal é defenderem os valores neoliberais.

Luis Carlos da Silva é sociólogo e assessor do bloco Minas Sem Censura

quarta-feira, 23 de julho de 2014

​Como Pensa a Elite Brasileira

Antonio Lassance, da Carta Maior:

A elite brasileira comprou o livro de Piketty, O Capital no Século 21. Não gostou. Achou que era sobre dinheiro, mas o principal assunto é a desigualdade.

A elite brasileira é engraçada. Gosta de ser elite, de mostrar que é elite, de viver como elite, mas detesta ser chamada de elite, principalmente quando associada a alguma mazela social. Afinal, mazela social, para a elite, é coisa de pobre.

A elite gosta de criticar e xingar tudo e todos. Chama isso de liberdade de expressão. Mas não gosta de ser criticada. Aí vira perseguição.

Quando a elite esculhamba o país, é porque ela é moderna e quer o melhor para todos nós. Quando alguém esculhamba a elite, é porque quer nos transformar em uma Cuba, ou numa Venezuela, dois países que a elite conhece muito bem, embora não saiba exatamente onde ficam.

Ideia de elite é chamada de opinião. Ideia contra a elite é chamada de ideologia.

A elite usa roupas, carros e relógios caros. Tem jatinho e helicóptero. Tem aeroporto particular, às vezes, pago com dinheiro público – para economizar um pouquinho, pois a vida não anda fácil para ninguém.

A elite gosta de mostrar que tem classe e que os outros são sem classe.

Mas, quando alguém reclama da elite por ser esnobe, preconceituosa e excludente, é acusado de incitar a luta de classes.

Elite mora em bairro chique, limpinho e cheiroso, mas gosta de acusar os outros de quererem dividir o país entre ricos e pobres.

O negócio da elite não é dividir, é multiplicar.

A elite é magnânima. Até dá aulas de como ter classe. Diz que, para ser da elite, tem que pensar como elite.

Tem gente que acredita. Não sabe que o principal atributo da elite é o dinheiro. O resto é detalhe.

A elite reclama dos impostos, mesmo dos que ela não paga. Seu jatinho, seu helicóptero, seu iate e seu jet ski não pagam IPVA, mesmo sendo veículos automotores.

Mas a elite, em homenagem aos mais pobres e à classe média, que pagam muito mais imposto do que ela, mantém um grande painel luminoso, o impostômetro, em várias cidades do país.

A elite diz que é contra a corrupção, mas é ela quem financia a campanha do corrupto.

Quando dá problema, finge que não tem nada a ver com  a coisa e reclama que “ninguém” vai para a cadeia. “Ninguém” é o apelido que a elite usa para designar o pessoal que lota as cadeias.

A elite não gosta do Bolsa Família, pois não é feita pela Louis Vuitton.

A elite diz que conceder benefícios aos mais pobres não é direito, é esmola, uma coisa que deixa as pessoas preguiçosas, vagabundas.

Como num passe de mágica, quando a elite recebe recursos governamentais ou isenções fiscais, a esmola se transforma em incentivo produtivo para o Brasil crescer.

A elite gosta de levar vantagem em tudo. Chama isso de visão. Quando não é da elite, levar vantagem é Lei de Gérson ou jeitinho.

Pagar salário de servidor público e os custos da escola e do hospital é gasto público. Pagar muito mais em juros altos ao sistema financeiro é “responsabilidade fiscal”.

Quando um governo mexe no cálculo do dinheiro que é reservado a pagar juros, é acusado de ser leniente com as contas públicas e de fazer “contabilidade criativa”.

Quando o governo da elite, décadas atrás, decidiu fazer contabilidade criativa, gastando menos com educação e saúde do que a Constituição determinava, deram a isso o pomposo nome de “Desvinculação das Receitas da União” -  inventaram até uma sigla (DRU), para ficar mais nebuloso e mais chique.

A elite bebe água mineral Perrier. Os sem classe se viram bebendo água do volume morto do Cantareira.

A elite gosta de passear e do direito de ir e vir, mas acha que rolezinho no seu shopping particular é problema grave de segurança pública.

A elite comprou o livro de um francês, um tal Piketty, intitulado “O Capital no Século 21″. Não gostou. Achou que era só sobre dinheiro, até descobrir que o principal assunto era a desigualdade.

A pior parte do livro é aquela que mostra que as 85 pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente à da metade da população mundial. Ou seja, 85 bacanas têm o dinheiro que 3,5 bilhões de pessoas precisariam desembolsar para conseguir juntar.

A elite não gostou da brincadeira de que essas 85 pessoas mais ricas do mundo caberiam em um daqueles ônibus londrinos de dois andares.

Discordou peremptoriamente e por uma razão muito simples: elite não anda de ônibus, nem se for no andar de cima.

terça-feira, 22 de julho de 2014

​Os Arautos da Manipulação Ideológica Pela Televisão


Por: J. Carlos de Assis

Tendo passado mais de um terço de minha vida de jornalista sob ditadura, tenho razões pessoais, além de políticas, para considerar a liberdade de imprensa como um valor supremo. Há um momento, porém, onde uma nuvem de dúvida passa pela minha cabeça. É quando vejo o Jornal da Globo. Aí fica patente o fato de que a opinião pública está sendo empulhada e manipulada numa extensão além de qualquer possibilidade de autoproteção.

Vou citar alguns fatos da última semana. A inflação baixou mas o Jornal da Globo, nas bocas de William Wack e Carlos Alberto Sardenberg, não só não reconheceu isso como antecipou novas altas da taxa básica de juros por causa da inflação. Fizeram isso também quando o Governo Dilma empurrou a taxa de juros para baixo. E intensificaram as pressões por mais juros quando a inflação teve ligeira subida, passando ao grande público a falsa impressão de uma eficácia definitiva entre aumento de juros e queda de inflação.

O avião da Malaysian Air Lines é derrubado sobre a Ucrânia. Aparentemente foi uma ação dos rebelde separatistas do Leste do país, mas nenhuma autoridade internacional, fora da própria Ucrânia, ousou culpar diretamente a Rússia. Exceto o Jornal da Globo. Auxiliado por um mapa, Waack exibiu a fotografia de Putin como a de um bandido que tivesse puxado o gatilho. Na sequência do noticiário, o locutor-comentarista-propagandista apresenta hipocritamente como uma “guerra” entre iguais o massacre israelense na Faixa de Gaza.

O Jornal da Globo não reconheceu a anexação da Crimeia pela Rússia como expressão de uma vontade popular apurada nas urnas. Apresenta a Rússia como uma nação expansionista omitindo o fato inegável de que a instabilidade ucraniana foi produto direto de intervenções ocidentais por razões geopolíticas; ou seja, pelo desejo de apertar o cerco sobre Moscou acrescentando mais um peão nas mais de 700 bases militares mantidas pelos Estados Unidos fora de seu território, a maioria contra a Rússia.

Jornalismo requer um certo grau de neutralidade, não obstante o fato de a neutralidade absoluta não ser possível. Entretanto, a parcialidade extrema através de um bem público como as ondas de televisão é abjeta. Em terminologia militar, condena-se o uso desproporcional de violência (como na atual “guerra” de Gaza). Usar o noticiário de televisão como instrumento de propaganda ideológica, no caso claramente a serviço das posições políticas norte-americanas, é um esbulho da sociedade brasileira pois poucos entre os milhões de telespectadores têm capacidade discricionária alimentada por fontes fora da própria televisão.

Não, não quero censura de Governo. Fiquei farto dela no tempo em que só tinha direito de opinião no Brasil a própria Globo, na medida em que a opinião da ditadura era a opinião dela. Mas torço para que, com a ajuda da Internet, a sociedade imponha à Globo a suprema censura de mudar de canal quando a manipulação ideológica do Jornal da Globo ultrapassar certos limites. Isso é comum nas democracias. Chegará a vez da nossa.

Entretanto, há uma pequena probabilidade de que eu esteja sendo injusto com a instituição Jornal da Globo. O problema talvez o caráter de seus locutores-propagandistas. Durante quase um ano, no início dos anos 90, escrevi uma das principais colunas de economia política no Globo, na página 7. Tinha total liberdade de opinião. Jamais Roberto Marinho ou outro dirigente do jornal me disse ou me mandou algum recado para deixar de abordar, ou abordar qualquer assunto. É fácil ver nos arquivos que defendi minhas ideias sem qualquer problema mesmo quando divergia da opinião editorial do jornal.

Isso me leva a pensar: será que Sardenberg, William Waack, Miriam Leitão não estão exagerando nas suas posições de extrema direita para supostamente agradarem seus chefes, quando os chefes talvez se contentassem com menos? Por exemplo: que tal se eles tentassem simplesmente ser mídias em sua acepção semântica, isto é, meios entre os fatos e o telespectador ou leitor, tentando, com honestidade, a imparcialidade possível? Será que seriam repreendidos pelos donos?

J. Carlos de Assis - Economista, doutor em Engenharia da Produção, professor de Economia Internacional na UEPB, autor de mais de duas dezenas de livros sobre a Economia Política brasileira.