domingo, 29 de junho de 2014

As Duas Caras de Aécio

“Aécio é um camaleão em busca de votos”

Conversa Afiada reproduz, a partir do Viomundo , artigo de Antônio de Souza:
Antônio de Souza: As duas caras de Aécio, recuos para inglês ver 
O senador Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência da República, é um camaleão em busca de votos.

Sem convicções realmente democráticas, ele apela apenas ao “marketing político”.

Nos últimos meses, foi possível flagrarmos alguns exemplos desse comportamento.

O mais escrachado foi em decorrência dos xingamentos à presidenta Dilma pelos VIPs do camarote do Itaú na abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, em São Paulo.

Aécio disse: os xingamentos foram a resposta à “arrogância” da presidenta.

Maciçamente a sociedade rechaçou os xingamentos. Foram um tiro no pé da elite brasileiros e de setores reacionários da mídia brasileira.

Aécio, então, provavelmente orientado por seus marqueteiros, repentinamente voltou atrás . Afirmou que críticas não devem “ultrapassar limites do respeito”.

Esse ziguezague mostra bem os dois Aécios: o que caminha junto com a direita brasileira e internacional aquele que, ao perceber o custo político-eleitoral da estratégia, recua.

Isso ficou bem claro anteriormente quando, em encontro com empresários, Aécio disse a Mônica Bérgamo, da Folha de  S. Paulo: “estou preparado para [implementar] decisões impopulares ”.

Nessa mesmo matéria, Aécio e seu guru econômico, o ex-presidente do Banco Central de FHC, Armínio Fraga, foram muito claros sobre a necessidade de implantar medidas contra a população.

Diante dos ataques de seus adversários, Aécio voltar atrás. Mas de mentira.

Em entrevista recente ao Estadão, Armínio Fraga , que é o coordenador do programa econômico de Aécio,  diz que deve ser revista a política para o salário mínimo, reduzindo os seus aumentos, que provocará menor consumo e terá impactos no crescimento do PIB brasileiro.

Armínio Fraga defende também criar um teto para o gasto público e, assim, aumentar o superávit primário e cortar gastos, muito provavelmente nas áreas sociais, como fez no governo Fernando Henrique Cardoso. Além disto, pensa em diminuir o papel dos bancos públicos, reduzindo o crédito e levando o país à recessão.

O fato simbólico de Aécio ter entrado de mãos dadas com FHC na convenção tucana sinaliza bem como será o seu eventual governo: uma continuidade das políticas neoliberais que quase arruinaram o Brasil nos anos 90.

O governo FHC, para quem não se lembra, aumentou brutalmente a carga tributária, não gastou nas áreas sociais, ampliou o desemprego e quebrou três vezes o Brasil.

Portanto, muito diferente do que se vê hoje, em que mesmo enfrentando o sexto ano da maior crise internacional, o Brasil ainda se aproxima do pleno emprego e gera milhões de empregos.

Nesse sentido, que declarações de Aécio que valem?

As primeiras manifestações, claro, e não os recuos, para inglês ver.

Elas expressam com clareza a linha ideológica neoliberal e a prática política do governo FHC, que concorda em transformar a política e as eleições em partida de futebol e aprofundar o clima de ódio que vê nas redes sociais.

É terrível um candidato à presidência achar normal a agressão de baixo calão à sua adversária e sinalizar que nas eleições teremos um vale tudo.

Esta tragédia é reforçada com a nova declaração de Aécio que sinaliza para os partidos da base aliada “sugarem tudo ” [de Dilma] e depois passarem a apoiá-lo.

Esta frase mostra que Aécio, sempre querendo parecer como paladino da moralidade, aprova as ações suspeitas e aceita a possível imoralidade com recursos públicos.

Ainda tem dúvida sobre a cara que vai um eventual governo Aécio?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Legado da Copa

CARLOS ODAS (Foi secretário nacional de Juventude do PT e membro da Executiva Nacional do Partido)

Da revista Veja costumo ler somente a capa dos exemplares que encalham nas gôndolas dos supermercados; a dessa semana, pelo que me lembro, cede ao irresistível apelo que vem marcando a Copa do Mundo do Brasil e exalta a alegria geral mas, para não perder a viagem, ameaça o povo brasileiro com a sentença: curta a festa, porque não haverá legado de longo prazo. Claro, assim que a Copa do Mundo acabar e o último torcedor estrangeiro for embora, nossos aeroportos voltarão a ser o que eram; as obras de mobilidade urbana se desmancharão no ar como hologramas, e todo o volume de dinheiro deixado por aqui pelos turistas se transformará em moedas de chocolate ou dinheiro de mentirinha, daqueles de banco imobiliário. Para a Veja, somos trouxas de acreditar mais no que vemos do que no que ela diz. Afinal, ela avisou que, no ritmo em que iam as obras para a Copa do Mundo, os estádios ficariam prontos em... 2038! E eu fico imaginando – meu Deus! – onde a Veja acha que o Chile despachou a Espanha e a Costa Rica derrotou a poderosa Itália, senão em estádios modernos, novos em folha e que... ficaram prontos a tempo?! Aliás, bem em cima da hora, como nas Olimpíadas de Londres ou na Copa do Mundo da África do Sul.
É inacreditável, mas a Copa do Mundo está servindo justamente para desfazer o trabalho duro que Veja e a mal chamada “grande imprensa” tiveram nesses anos todos para cravar a imagem internacional do Brasil como uma terra arrasada pela corrupção e incompetência – que teriam sido inventadas em 2003, claro! Essa turma não viu nada de bom no Brasil esses anos todos; seu entusiasmo com as perspectivas do país é inversamente proporcional ao tempo em que a taxa de desemprego por aqui batia na casa dos 20%, e que a renda do trabalhador perdia seguidamente para uma inflação que se media em dois dígitos. Aquilo é que era um tempo glorioso, segundo eles. E, para eles, devia ser mesmo. Patrimônio público vendido na bacia das almas, migalhas em forma de “vale-isso” e “vale-aquilo” distribuídas de acordo com os interesses políticos de caudilhos paroquiais, ministro de estado que tirava o sapato para ser revistado ao entrar nos EUA, o país insolvente por três vezes em sete anos. Naquele momento histórico de triste lembrança, O Brasil candidatou-se a sediar a Copa do Mundo de 2006 – episódio resgatado pelo incansável Eduardo Guimarães em seu Blog da Cidadania. Fez um papelão. De fato, aquele país sem importância geopolítica alguma não tinha condições de se propor a sediar um evento como esse. Mas aquele governo tentou. Alguém tem dúvidas de que se a sede do Brasil tivesse sido aprovada ainda sob um governo tucano, essa mídia não daria um jeito de atribuir o sucesso da Copa a FHC? Eu não. A lógica da mídia-partido-de-oposição-ao-PT é a seguinte: todos os acertos de Lula e Dilma são méritos de FHC; todos os erros de FHC são culpa do “frango da Malásia” – crises externas para as quais não estávamos preparados.
Eu, como sou latino, pobre e piegas – tudo de que a Veja se envergonharia de ser –, tenho me comovido muito nessa Copa do Mundo – com a recuperação heroica de Luiz Soares, do Uruguai; com a raça da seleção chilena; com a épica classificação da Costa Rica; com a dignidade das seleções africanas, com jogadores de seleções modestas e sem chance na disputa pela taça mas que agradecem pela oportunidade de estar em um mundial. Gente sendo o que pode ser sempre me comove. Mas, sobretudo, tenho me comovido com o povo brasileiro. O povo que rechaçou inequivocamente as ofensas a Dilma, que não se confunde com gente mal criada e mal intencionada. Não somos preguiçosos, nem corruptos, nem incompetentes; mas temos uma das elites mais antinacionais do planeta. Os meios de comunicação tradicionais pertencem a essa elite e servem aos interesses dela, que não são os do Brasil.
O maior legado dessa Copa, em minha opinião, é imaterial: o resgate da imagem internacional do país, tão vilipendiada pela nossa direita midiática, e o encontro de seu povo com a própria – e boa – imagem. Não me admira que Veja já o ameace; a parcela venal da imprensa brasileira só não está falando mal do país durante a Copa porque está tendo de dividir espaço com a cobertura internacional. Quando os correspondentes forem embora, aí sim, começa a tarefa de desconstruir o maior legado do evento – a nova imagem do Brasil no mundo. Tudo farão para tirar o sorriso da boca e o orgulho do peito dos brasileiros; para que tenham o sucesso eleitoral que almejam precisam semear desesperança e ódio. Tentarão transformar o legado da Copa, o material e o imaterial, em fatos negativos. Dirão que a Copa não resolveu os problemas sociais que persistem, como se dela fosse esse o papel. Esquecerão que o caos que previram não veio e preverão as mesmas catástrofes outra vez.
É uma pena ter uma mídia assim porque ela interdita o debate real sobre nossas possibilidades e perspectivas; há, é certo, correções de rumo a fazer e mudanças que devemos ter a coragem de propor a nós mesmos. Mas é fundamental também um debate honesto sobre o quanto já avançamos. É preciso discutir o modelo de desenvolvimento do país e os valores que vão orientar os processos futuros. É preciso, sobretudo, discutir sobre quais valores queremos assentar a sociedade que pretendemos ser. Mas como fazer isso se os meios de comunicação tem uma pauta própria, inegociável, e vinculada aos interesses econômicos de grandes corporações e que nada tem a ver com mais igualdade, com mais direitos, e com mais bem estar social? Como fazer se esses meios, de propriedade da elite nacional, detestam com fervor o povo brasileiro?
Convencido do acerto que foi fazermos a Copa do Mundo no Brasil nesse momento e do sucesso estrondoso que temos demonstrado na organização do mundial, vou aceitar meio conselho da Veja e curtir a festa; mas depois, como creio devem fazer todos os brasileiros decentes, pretendo defender o legado que ela nos deixa: o reencontro com a ideia de sermos um povo, de sermos capazes e de merecermos o respeito do mundo.

domingo, 22 de junho de 2014

Latinos Americanos Devem Unir-se Contra o Capital Especulativo

A nova ofensiva contra a Argentina tem que ser respondida por todos os governos latino-americanos que são igualmente vitimas do capital especulativo.
por Emir Sader 
A nova ação dos fundos abutre contra a Argentina faz parte de uma contraofensiva mais ampla da direita internacional contra os países progressistas da América Latina. Conduzida por suas principais vozes na mídia – Financial Times, Wall Street Journal, The Economist, El País – atacam sistematicamente esses governos, que não aceitaram os ditames do Consenso de Washington. E por isso mesmo conseguiram contornar a recessão capitalista internacional, que se instalou já faz mais de 6 anos no centro mesmo do sistema, arrasando os direitos sociais, sem prazo para terminar.
Por isso os países latino-americanos que seguiram crescendo e distribuindo renda, diminuindo a desigualdade que aumenta exponencialmente no centro do sistema, são um fator de perturbação, são a prova concreta que outra forma de enfrentar a crise é possível. Que se pode distribuir renda, recuperar o papel ativo do Estado, apoiar-se nos países do Sul do mundo e resistir à crise.
Daí a contraofensiva atual, que busca demonstrar que já não haveria mais espaço para que a economia desses países continuasse crescendo; que os avanços nas políticas sociais não seriam reais; que o tema da dívida externa não estaria ainda resolvido. É crucial para as grandes potências tentar voltar ao ponto onde se dizia que não haveria alternativa ao Consenso de Washington.
A formidável arquitetura de renegociação da dívida argentina nunca foi assimilada por eles. Caso dê certo, que mau exemplo para a Grécia, para Portugal, para a Espanha, para o Egito, para a Ucrânia e para tantos outros países presos nas armadilhas do FMI! Eles têm que demonstrar que os ditames da ditadura do capital especulativo seriam incontornáveis.
A nova ofensiva contra a Argentina tem que ser respondida por todos os governos latino-americanos que são, em distintos níveis, igualmente vitimas do capital especulativo, que resiste a se reciclar para os investimentos produtivos que tanto necessitamos. É hora de que os governos dos outros países da região não apenas acompanhem as missões argentinas, mas também assumam a disposição de taxar a livre circulação do capital financeiro. Uma medida indispensável, urgente, que só pode ser assumida por um conjunto de países concomitantemente.
Tantos países do mundo olharam para a América Latina, para entender como pudemos livrar-nos das nossas dívidas externas. Eles mesmos olham agora para a Argentina. Porque sabem que se joga ali muito mais do que simplesmente 7% da divida restante. Se joga a soberania dos países frente aos que querem subjugá-la com o peso das dividas contraídas pelos governos subservientes ao FMI e a seus porta-vozes.

sábado, 21 de junho de 2014

Sabotagem da Copa é Questão de Tempo

Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:
A esta altura, milhões de brasileiros já começam a se perguntar onde está o “caos” que a mídia, os partidos de oposição e os grupos organizados que promovem vandalismo diziam que sobreviria nos aeroportos, nas vias públicas e nos estádios quando os turistas estrangeiros começassem a chegar para a Copa de 2014.
No terceiro dia, tudo está funcionando. Nenhum problema relevante foi detectado. A falta do que criticar é tanta que as injúrias contra Dilma Rousseff na abertura do evento, em São Paulo, e a simplicidade da cerimônia de abertura se tornaram os alvos da mídia oposicionista.
Sobre os palavrões atirados contra a presidente da República, foram um tiro no pé. Até a grande mídia e a oposição, que de início se animaram com o que fez um grupelho de endinheirados que, da área “VIP” das arquibancadas, puxou o coro obsceno contra a presidente, tiveram que voltar atrás.
Aécio Neves, por exemplo, que inicialmente atribuiu as vaias à “arrogância” de Dilma e tentou faturar em cima dos insultos de que ela foi alvo, teve que mudar o discurso e passou a “condenar” a falta de civilidade do grupelho que puxou o coro insultante de apenas uma parte do público.
O desatino de grupelhos endinheirados e de adolescentes hipnotizados por partidos políticos espertalhões autoproclamados “de esquerda”, assim como a falta de confirmação do catastrofismo midiático, tudo isso tem potencial para causar reviravolta no quadro político. Aqui e ali, já se escuta que houve exagero nas previsões de que o Brasil iria “passar vergonha”.
A aposta no “caos”, porém, foi tão grande que, se nada acontecer para dar alguma razão aos grupos de mídia e aos partidos de esquerda e direita que vêm atacando a realização da Copa no Brasil, Dilma pode sair fortalecida do processo. E, dada a disposição oposicionista para tentar alterar artificialmente o resultado das eleições deste ano, dificilmente esses grupos ficarão parados assistindo isso acontecer.
Os protestos violentos, coordenados por partidos de esquerda, não estão causando o que seus autores acharam que causariam. Até porque, a violência fez esses grupos perderem muitos adeptos, de forma que não passaram de poucas centenas os que saíram à rua dispostos a barbarizar. E, surpreendentemente, até aqui a polícia ainda não cometeu grandes excessos.
Assim sendo, caso a Copa transcorra em tranquilidade, com tudo continuando a funcionar como tem funcionado até aqui, o efeito eleitoral do evento pode ser o oposto do que os grupos políticos sem votos e os grupos de mídia pretendiam. Ora, ninguém imagina que essa gente irá se conformar com isso.
Mas o que fazer? Para Dilma ser responsabilizada por algum problema este não pode decorrer de ações como a dos black blocs. Durante anos, os brasileiros foram bombardeados com a premissa de que iríamos “passar vergonha” por problemas organizacionais, mas como nada indica que isso deverá ocorrer não é difícil supor que possam tentar sabotagem.
Entre todas as possibilidades de sabotagem existentes, a que mais atiça os instintos primitivos desses energúmenos das ruas e dos “aquários” da mídia é a possibilidade de apagão. Um estádio lotado e às escuras, talvez até com queda de transmissão pela tevê, seria a “glória” para a direita e a extrema esquerda.
O caos energético é tão almejado pelos adversários de Dilma que nas redes sociais já há grupos propondo verdadeiras loucuras, como um que apareceu nas páginas do Facebook.

A Copa do Brasil

E do Chile, da Colômbia, da Costa Rica…

Américas (do Sul, Central e do Norte) predominam no confronto com europeus
Cartaz de francesa em Salvador: "Brasil, o melhor anfitrião da história da Copa do Mundo"
O mundo já se rendeu: o Brasil organiza, em 2014, a Copa das Copas. Isso não é um simples bordão. É a explicação da festa que acontece no país, dentro e fora de campo. E não só por parte dos brasileiros, mas sim de povos de todo o mundo. Em especial, dos latinos.
A Copa do Mundo não é sobre aeroportos e estádios. Os ingleses já viram isso. Aliás, tudo acontece com sucesso. O Mundial é, sim, sobre a diversidade cultural, sobre a recepção calorosa que as seleções tiveram, sobre as belezas naturais, sobre um Mundial diferente de todos os outros. É sobre alemão dançando com índio, holandês tomando caldo na praia, inglês jogando capoeira.

Os vizinhos entenderam a grandeza do evento e ‘invadiram’ o Brasil. Os argentinos chegaram aos milhares ao Rio de Janeiro. Chilenos e colombianos cantam seus hinos de forma empolgante nos estádios. Até os mexicanos fizeram barulho contra a maioria brasileira em Fortaleza.

E, dentro de campo, os países americanos sobram. É a Copa do Brasil, mas também é a Copa do Chile, da Colômbia, do Uruguai, da Costa Rica, da Argentina, do México. Até dos Estados Unidos, se formos mais longe.

Há algo mais emocionante que a festa da zebra costa-riquenha, classificada no ‘grupo da morte’? A passagem de fase é como um título para o país da América Central. É tanto choro e tamanha comemoração que fica impossível manter-se indiferente. Eliminaram os ingleses e podem ver a tradicional Itália também fora.

Para isso acontecer, só depende do Uruguai. A aguerrida Celeste ressurgiu após a antológica volta de Luisito Suárez, craque do time e que se recuperou em tempo recorde para salvar os uruguaios da precoce desclassificação e enfrentar a Itália com grande chance de avançar.

O Chile fez ainda melhor. Jogou bem e mandou a atual campeã Espanha para casa. A Colômbia lidera o grupo C e já está classificada, mesmo sem seu melhor jogador – o lesionado Falcão Garcia – e com James Rodrigues em grande fase. É candidata a chegar longe.

A Argentina tem caminho fácil em seu grupo e conta com um elenco estelar, com Messi faminto por um triunfo com a seleção. É favorita ao título, ao lado de Brasil e Alemanha. O único sul-americano que encontra dificuldades – já esperadas – é o Equador, que não deve conseguir avançar.

Na América do Norte, o México mostrou força ao parar o Brasil e pode conseguir vaga nas oitavas. Os EUA, que evoluem a cada Copa, estrearam bem e são capazes de eliminar Portugal, do midiático craque Cristiano Ronaldo.

Resultados à parte, essa é uma Copa, acima de tudo, divertida. Tem a cara do Brasil. Dentro de campo, com jogos em bom nível e alta média de gols. Fora dele, animação e festa em todas as cidades. Quem apostava no fracasso do Mundial, a turma do ‘Não vai ter Copa’, agora tem motivos para colocar capuz preto na cabeça. Não para protestar, mas por vergonha de seu pessimismo colonial.

João de Andrade Neto, editor do Conversa Afiada

Pressão de Aliado do JB Sobre Barroso

247 – O colunista da Istoé Paulo Moreira Leite chama atenção para a pressão que aliados do presidente do STF, Joaquim Barbosa, começam a fazer sobre o ministro Luiz Roberto Barroso, novo relator da AP 470. Leia:

Sem ruborizar, vozes que pediam "celeridade" na AP 470 criticam novo relator, que prometeu uma decisão rápida aos réus
A pressão sobre o ministro Luiz Roberto Barroso, novo relator da AP 470, obedece a uma finalidade óbvia: eternizar o ambiente de perseguição política que Joaquim Barbosa construiu em torno de José Dirceu, José Genoíno e demais condenados pelo STF.
Sentindo-se em posição de orfandade, agora que se forma uma nova maioria no tribunal, aliados de Joaquim procuram chantagear o novo relator.
Critica-se Barroso por ter lembrado que quem está preso tem pressa – quando essa afirmação merece elogios, não só pelo aspecto humanitário, mas também por revelar uma compreensão adequada da natureza do Direito. No caso da AP 470, a crítica expressa uma incoerência de envergonhar. As mesmas vozes que passaram meses cobrando “celeridade” da Justiça, aceitando atropelos diversos em direitos e prerrogativas dos réus -- inclusive a manutenção do sigilo sobre o inquérito 2474 com o argumento que ele poderia contribuir para atrasar a decisão -- agora têm coragem de criticar Barroso porque ele prometeu rapidez aos condenados.
Discursos festivos à parte, é preciso cultivar um desprezo profundo pelo direito de homens e mulheres a viver em liberdade para não enxergar o caráter inaceitável de manter uma pessoa presa por 24 horas – ou mesmo uma hora, ou 15 minutos – de forma injusta ou arbitrária.
O que se quer, é claro, não é defender a liberdade nem o direito das pessoas. A caminho da mais disputada eleição presidencial desde 2002, pretende-se manter o ambiente de espetáculo e castigo, com a convicção de que será util nas urnas. O que se quer é impedir que críticas cada vez mais amplas sobre o julgamento, envolvendo vozes insuspeitas do judiciário e dos meios acadêmicos, despertem a curiosidade e a dúvida de cidadãos e eleitores.
Em qualquer caso, não custa lembrar que, do ponto de vista da Justiça, a decisão já virá com atraso.
Condenado ao regime semi aberto, José Dirceu já completou sete meses em regime fechado, situação que contraria uma jurisprudência de mais de quinze anos da Justiça brasileira. José Genoíno só retornou a Papuda depois que sucessivas juntas médicas foram convocadas a produzir laudos e mais laudos até que se chegasse a um documento cuja finalidade real não tem a ver só com a medicina, mas com a polícia -- um atestado médico de grande utilidade para evitar denúncias de responsabilidade caso venha a ocorrer um acidente ou mesmo tragédia durante sua permanência na prisão. Não por acaso, o procurador-geral, Rodrigo Janot, já se manifestou a favor de Genoíno.
Outros presos da AP 470 foram liberados e aprisionados de novo ao sabor de conveni
ências de momento, a partir de denuncias absurdas de privilégios e regalias que jamais foram comprovadas.
São estes casos que Barroso irá examinar nos próximos dias, com a intenção de chegar a uma solução antes do recesso do Judiciário, que começa a 1 de julho. Preparando-se para deixar o STF numa saída que “não poderia ser menos gloriosa,” nas palavras de Merval Pereira, Joaquim Barbosa já recebeu o pedido de colocar o assunto em pauta, na quarta-feira. Poderá fazê-lo, ou não. A pauta é uma decisão do presidente, diz o estatuto do STF. Se não o fizer, levará Barroso a tomar a decisão de forma monocrática, o que é direito do relator. Não surgiram, até agora, razões jurídicas capazes de fundamentar uma decisão contra os réus..
Ao renunciar a posição de relator da AP 470 o ministro Joaquim Barbosa deu explicações que chamam atenção pelo absurdo. O ministro acusou os advogados dos réus de “agir politicamente.” Antes fosse verdade.
Ao longo de todo julgamento a defesa optou por uma atuação de caráter técnico, de quem acreditava que a AP 470 seria um processo igual a todos os outros, com a preservação dos direitos e garantias assegurados aos milhares de brasileiros que, todos os dias, com motivos justific
á
veis ou não, são levados a prestar contas a Justiça. Os advogados cobraram fatos e provas robustas e, na medida em que eles nunca foram apresentados, apostavam na absolvição da maioria de seus clientes.
Não estavam aptos para enfrentar uma ofensiva de conjunto contra os réus. Não imaginaram que iram enfrentar uma força que pretendia arrancar condenações de qualquer maneira.
Num dos momentos culminantes da fase final do espetáculo, quando o recém-chegado Barroso lembrou a denuncia de que as penas haviam sido agravadas artificialmente para permitir condenações em regime fechado, o próprio Barbosa confirmou ao vivo e a cores que havia sido assim mesmo – e ninguém interrompeu o debate, nem pediu maiores explicações, nem achou que era muito estranho nem cobrou nada.
Quem agiu politicamente, no início, no meio e no fim, foi a acusação. A partir da noção de que o país precisava de “exemplos” para deter a corrupção do sistema político, aceitou-se abolir garantias importantes para a defesa dos réus. Negou-se o direito a um segundo grau de jurisdição a toda pessoa que não tem prerrogativa de foro, condição que atingia 90% dos acusados.
Durante o julgamento, ocorrido em 2012, um ano eleitoral, os ministros permitiram-se fazer críticas de caráter político ao Partido dos Trabalhadores, chegando a denunciar que pretendia eternizar-se no poder graças a um sistema financeiro de “compra de votos” que “conspurcava” a vontade do eleitor. Contrariando documentos disponíveis nos autos, ministros falavam em desvio de dinheiro publico -- sem que fosse possível apontar um único centavo retirado dos cofres do Banco do Brasil, onde, conforme a acusação, ocorriam as falcatruas.
Derrotado nos embargos infrigentes, a atuação recente de Joaquim Barbosa não passou de uma tentativa de revogar, na prática, os benefícios a que os réus teriam direito depois que o plenário do STF retirou a condenação por quadrilha. Mais uma forma de “agir politicamente.”

É neste ambiente que Luiz Roberto Barroso terá a responsabilidade de fazer Justiça.

Chance Perdida

Mino Carta 

“Sustentar que o PT faz de tudo para ser odiado é igual a dizer que assim também agiam os judeus dos guetos”

Conversa Afiada reproduz faca amolada de Mino Carta, irretocável:
Aécio e Eduardo ganhariam ao verberar as manifestações da tribuna vip do Itaquerão. Mas quem odeia quem?

Aécio Neves e Eduardo Campos perderam uma oportunidade de puro diamante para mostrar maturidade política, elegância e até mesmo astúcia. Senhoras e senhores da tribuna vip do Itaquerão, na estreia da Seleção Canarinho, primeiro dia da Copa, encenaram um espetáculo que envergonha o Brasil diante do mundo. Quase todos ali são, obviamente, eleitores dos candidatos da oposição, e estes desperdiçaram a chance de condenar o clamoroso, selvagem desrespeito a quem chefia o Estado e o governo.

O pior calão atirado pelos burguesotes chamados a engalanar a festa não surpreende. A dita elite brasileira em boa parte é primária e feroz, prepotente e vulgar, arrogante e ignorante. Muito ignorante. No fundo, a tribuna vip funcionava no Itaquerão como o alpendre da casa-grande. Creio que aquela manifestação, tão reveladora dos comportamentos de quantos ostentam as grifes e acreditam viver em Dubai, não favoreça as candidaturas da oposição, ao acentuar as diferenças e precipitar a polarização. Mas onde estavam os marqueteiros?

Cabia, no meu entendimento, a reação ponderada e imediata de Aécio e Eduardo, prontos a defender a sadia ideia de que a Presidência da República faz jus ao respeito devido ao cargo, acima do acirramento do confronto eleitoral. Aécio, depois de ter declarado que o ocorrido exibia a impopularidade da presidenta, voltou atrás nas redes sociais para uma crítica morna e tardia. No entanto, a disputa torna-se mais agressiva, com a contribuição useira da mídia. Quem odeia quem? Segundo a tese em voga na área da reação, o PT se esforça, com raro brilho e denodo vitorioso, para ser odiado. E ganha as manchetes a polêmica entre Fernando Henrique e Lula, com réplica, tréplica e não sei mais o quê.

É oportuno registrar algumas verdades factuais, do conhecimento até do mundo mineral, embora não haja como acusar a carência de cavernícolas da Idade da Pedra. Então, vejamos.

A mídia nativa sempre e sistematicamente combateu o PT, nascido da reforma partidária imposta pela ditadura no final de 1979. O partido era apresentado como de esquerda revolucionária, conquanto viesse a sofrer alterações de rota ao longo do caminho. O jornalismo pátrio sempre postou-se contra candidaturas petistas onde quer que aparecessem, a começar por aquela de Lula contra Collor, Fernando Henrique, José Serra e Geraldo Alckmin, e de Dilma Rousseff, novamente contra Serra. E mesmo os meteoritos sabem que a mídia distorce, manipula, inventa, omite e mente para desancar o inimigo.

Ao iniciar a tal polêmica, FHC falou em corrupção e ladrões, e me apresso a garantir que as falésias de Dover, elas inclusive, entenderam que se referia ao PT. Donde, a reação de Lula, inegavelmente alguém que põe medo à direita e tem, ao contrário de FHC, apurado senso de humor. Esqueceu-se o tucano, de todo modo, de alguns fatos a macular seu governo. A compra dos votos para conseguir a reeleição, obtida finalmente ao sabor de uma campanha conduzida à sombra da bandeira da estabilidade, rasgada 12 dias depois de reempossado, com o resultado de quebrar o País. Mas a maior bandalheira-roubalheira da história brasileira deu-se com a privatização das comunicações, largamente demonstrada pelos grampos das conversas entre os rapazes do bando, Luiz Carlos Mendonça de Barros, André Lara Resende e Pérsio Arida, cujas passagens mais candentes foram publicadas por CartaCapital, enquanto Época e Veja saíram com as versões corrigidas pelo governo, simpaticamente entregues à Globo por José Serra e à Abril por Eduardo Jorge.

Sim, o PT no poder portou-se como aqueles que o precederam e o próprio Lula reconheceu na entrevista publicada pela edição 802 de CartaCapital. “O PT erra – disse Lula textualmente – quando usa as mesmas práticas dos demais partidos.” Vale acrescentar que o caminho dos chamados “mensalões” foi aberto pelo tucanato ainda no século passado.

Fala-se em ódio contra Lula, Dilma e o partido. Mas como negá-lo? Tentem ouvir os privilegiados do Brasil e seus aspirantes e verifiquem que os graúdos do Itaquerão os representam à perfeição. E de ódio se trata, semeado e regado em primeiro lugar pela mídia. Há quem alegue ódio de classe e aqui me pergunto se a definição é justa. Não sei, sinceramente. Ódio de classe se espalha depois da Revolução Francesa, evento decisivo que até hoje não ocorreu no Brasil. Envolve burguesia, pequena burguesia e proletariado. Aqui ainda vivemos a dicotomia nefanda da casa-grande e da senzala, e os senhores odeiam quem acena com mudanças. Sustentar que o PT faz de tudo para ser odiado é igual a dizer que assim também agiam os judeus dos guetos.

Aliás, Aécio Neves anuncia um tsunami para varrer o PT da face da terra. Em qual país democrático e civilizado frase similar cairia da boca de um candidato ao se referir ao adversário? Algo é certo: o tsunami não partirá da tribuna vip do Itaquerão. A tigrada, além de tudo, é velhaca.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Quem Envergonhou o Brasil Aqui e Lá Fora

Leonardo Boff

O que ocorreu revelou aos demais brasileiros e ao mundo que tipo de tipo de lideranças temos ainda no Brasil

Pertence à cultura popular do futebol  a vaia a certos jogadores, a juízes  e  eventualmente  a  alguma  autoridade  presente.  Insultos  e xingamentos com linguagem de baixo calão que sequer crianças podem ouvir  é coisa inaudita no futebol  do Brasil.  Foram dirigidos à mais altaautoridade do pais, à Presidenta Dilma Rousseff, retraída nos fundos da arquibancada oficial.
Esses insultos vergonhosos só podiam vir de um tipo de gente que ainda têm visibilidade do pais, “gente  branquíssima e de classe A, com falta  de  educação  e  sexista’  como comentou  a  socióloga  do  Centro Feminista de Estudos, Ana Thurler.
Quem conhece um pouco a história do Brasil ou quem leu Gilberto Freyre, José Honório Rodrigues  ou Sérgio Buarque de Hollanda  sabe logo identificar tais grupos. São setores de nossa elite, dos mais conservadores do  mundo  e  retardatários  no  processo  civilizatório  mundial,  como costumava enfatizar Darcy Ribeiro, setores que por 500 anos ocuparam o espaço  do  Estado  e  dele  se  beneficiaram a  mais  não  poder,  negando direitos cidadãos para garantir privilégios corporativos. Estes grupos não conseguiram ainda se livrar da Casa Grande que a tem entranhada na cabeça e nunca esqueceram o pelourinho onde eram flagelados escravos negros. Não apenas a boca é suja; esta é suja porque sua mente é suja. São velhistas e pensam ainda dentro dos velhos paradigmas do passado quando  viviam no  luxo  e  no  consumo  conspícuo  como  no  tempo  dos príncipes renascentistas.
Na linguagem dura de nosso maior historiador mulato Capistrano de Abreu,  grande  parte  da  elite  sempre  “capou  e  recapou,  sangrou  e ressangrou” o povo brasileiro. E continua fazendo. Sem qualquer senso de limite e por isso, arrogante, pensa que pode dizer os palavrões que quiser e desrespeitar qualquer autoridade.
O que ocorreu  revelou aos demais brasileiros e ao mundo que tipo de tipo de lideranças temos ainda no Brasil. Envergonharam-nos aqui e lá fora.  Ignorante,  sem  educação  e descarado  não  é  o  povo,  como costumam pensar e dizer. Descarado, sem educação e ignorante é o grupo que pensa e diz isso do povo. São setores em sua grande maioria rentistas que vivem da especulação financeira e que mantém milhões e milhões de dólares fora do país, em bancos estrangeiros ou em paraísos fiscais.
Bem disse a Presidenta Dilma: “o povo não reage assim; é civilizado e extremamente generoso e educado”. Ele pode vaiar e muito. Mas não insulta com linguagem xula e machista a uma mulher, exatamente aquela que  ocupa a mais alta representação do país. Com serenidade e senso de soberania pessoal deu a estes incivilizados uma resposta de cunho pessoal: ”Suportei agressões físicas quase insuportáveis e nada me  tirou do rumo”. Referia-se às suas torturas sofridas dos agentes do Estado de terror que se havia instalado no Brasil a partir de 1968. O pronunciamento que fez posteriormente na TV mostrou que nada a tira do rumo nem a abala porque vive de outros valores e pretende estar à altura da grandeza de nosso país.
Esse fato vergonhoso recebeu a repulsa da maioria dos analistas e dos que saíram a público para se manifestar. Lamentável, entretanto, foi a reação dos dois candidatos a substitui-la no cargo de Presidente. Praticamente  usaram as mesmas expressões, na linha dos grupos embrutecidos:”Ela colhe o que plantou”. Ou o outro deu a entender que fez por merecer os insultos que recebeu. Só espíritos tacanhos e faltos de senso de dignidade podiam reagir desta forma. E estes se apresentam como aqueles que querem definir os destinos do país. E logo com este espírito! Estamos fartos de lideranças medíocres que quais galinhas continuam ciscando o chão, incapazes de erguer o voo alto das águias que merecemos e que tenham a grandeza proporcional ao tamanho de nosso país.
Um amigo de Munique que sabe bem o português, perplexo com os insultos comentou: ”nem no tempo do nazismo se insultavam desta forma as autoridades”. É que ele talvez  não sabe de que pré-história nós viemos e que tipo de setores elitistas ainda dominam e que de forma prepotente se mostram e se fazem ouvir. São eles os principais agentes que nos mantém no subdesenvolvimento social, cultural e ético. Fazem-nos passar uma vergonha que, realmente, não merecemos.
Leonardo Boff, é  professor emérito de Ética e escritor.

O Que Poderia Ter Sido Grande, Mas Foi Apenas Mau

Luis Nassif
247 – Para Luis Nassif, do site GGN, Joaquim Barbosa tinha tudo para fazer história na Presidência do Supremo Tribunal Federal, mas não teve emocional para isso. Leia:
Quando o outsider entrou no STF (Supremo Tribunal Federal), os senhores formais aceitaram com superior condescendência. O outsider tinha currículo, falava várias línguas, desenvolvera teses importantes sobre inclusão.
Mas era outsider. Não vinha de família de juristas, gostava do ambiente informal dos botecos, era de pouquíssimos amigos e nunca fez média na vida.
Conquistou tudo na porrada, dependendo dele e só dele.
Tinha tudo para entrar para a história, derrubando conchavos, despindo o formalismo e a hipocrisia de muitas togas, subvertendo formas de ver o mundo, trazendo para o Supremo os ares da contemporaneidade e a marca altiva de sua cor e dos que conquistaram tudo sem nunca ceder.
Mas faltava-lhe algo, uma peça qualquer no sistema emocional, que o tornou uma espécie de Mike Tyson com toga, uma força gigantesca e incontrolável assombrada por mil demônios internos que o impediram definitivamente de se tornar um grande.
O que moldou essa lado emocional tosco, rude, cruel, não se sabe. As intempéries da vida costumam construir grandes caráteres; mas também modelam a crueldade, a vingança permanente contra tudo e todos que ousem se interpor no caminho.
Foi o caso de Joaquim Barbosa.
Seu mundo tornou-se uma ilha pequena, restrita, cercada por um oceano infestado de tubarões querendo prejudica-lo, cada gesto contrário visto como ameaça ao que ele conquistou.
Cada julgamento tornava-se uma guerra a ser vencida a qualquer preço, até com a sonegação de provas, se necessário. O tribunal era a arena povoada de gladiadores sangrentos aguardando o polegar para baixo do público para a degola final dos inimigos. E todos eram inimigos, o réu a ser condenado, o colega que ousasse discordar de qualquer posição, o advogado que rebatesse seus argumentos, o jornalista que o criticasse.
O ódio como seiva vital
Em poucas pessoas vi ódio tão acendrado, a raiva como motor de todas as atitudes, um egocentrismo tão exacerbado a ponto de tratar qualquer voz dissidente como um inimigo a ser aniquilado.
Talvez em José Serra, que, em todo caso, sempre foi suficientemente esperto para agir através de terceiros. Joaquim Barbosa nunca usou as armas da hipocrisia, a malícia das jogadas. Como Tyson, sempre saía de peito aberto distribuindo porradas pelo mundo. O que o movia não era a desonestidade, a vontade do poder, um pouco talvez a busca da popularidade, mas, acima de tudo, dar vazão ao ódio, sempre o ódio como seiva vital.
E esse bruto – na definição mais ampla do termo – foi transformado em campeão branco da mídia na disputa política. Emocionalmente tosco, embarcou no jogo de lisonjas, do “menino que mudou o Brasil”.

Por um tempo, exercitou o duplo jogo de quem se formou nas guerras da vida e na formalidade de um poder hierárquico. Enfrentava o mundo jurídico intimidando mentes formais com a truculência desmedida das discussões de rua e de botecos; e se impunha com os amigos de praia com a condescendência dos que subiram na vida mas não esqueceram as origens.
Acima de tudo, contava com o beneplácito da mídia, que ele conquistou sem pedir mas que lhe proporcionou ser ouvido pelas ruas.
Com tal poder, passou a quebrar dogmas, mas da pior forma possível, atropelando direitos, sendo agressivo até o limite da boçalidade em um ambiente eminentemente formal.
Os juristas que domaram a besta
Coube a dois juristas de extrema afabilidade desmontar a besta.
Um deles, Celso Antônio Bandeira de Mello, o doce Bandeira, unanimidade no mundo jurídico por sua firmeza cortez, pespegou-lhe na testa a definição definitiva: “É um homem mau”.
Outro, Luiz Roberto Barroso, o homem dos salões cariocas, o iluminista que, ainda como advogado, arejou o Supremo com a defesa de teses contemporâneas, ao reagir à agressividade inaudita de Joaquim, sem perder a calma e sem perder a firmeza.
E aí, começaram a desmoronar as estratégias emocionais de Joaquim Barbosa, para enfrentar os rapapés do mundo jurídico e a rudeza dos botecos.
No mundo jurídico, a truculência deixou de intimidar, Pelo contrário, passou a ser tratada com uma impaciência cada vez maior de seus pares. No mundo dos bares, em lugar de só aplausos, passou a ser perseguido por vaias.
Aos poucos, os grupos de mídia perceberam que Barbosa tornara-se uma carga inútil, pesada, a vitrine onde estava exposta a parcialidade do julgamento da AP 470. Com sua irracionalidade, estava transformando os réus da ação em vítimas da arbitrariedade mais ostensiva.
No Supremo, sua única influência era sobre Luiz Fux.
Restava-lhe o apoio da malta, aquela parcela mais desinformada da sociedade, que aplaude linchamentos, que defende a lei de Talião, que se regozija com qualquer bode expiatório. E, no contraponto, as vaias da selvageria que despertou no lado oposto.
Dos dois lados do balcão, o homem mau só conseguia trazer à tona os piores sentimentos dos admiradores e dos críticos.
A cena final
Quanto mais se isolava, mais Joaquim Barbosa radicalizava as arbitrariedades.
Ganhou alguma sobrevida graças a mudanças nos procedimentos do STF que impediam impetrar habeas corpus contra decisões do presidente da casa, uma iniciativa do ex-presidente César Peluso supondo que jamais a presidência seria ocupada por uma pessoa desajustada.
As arbitrariedades foram tão ostensivas que um gesto totalmente fora das regras – do advogado de José Genoíno, invadindo uma sessão do STF para questiona-lo – não mereceu uma condenação sequer dos Ministros da casa. Pelo contrário, estimulou a defesa de Marco Aurélio de Mello, porque sabendo ser ato de absoluto desespero, de quem via leis e procedimentos jurídicos atropelados pela insanidade de um julgador.
E aí o poderoso, o imbatível Joaquim Barbosa pediu aposentadoria e, ontem, se afastou da AP 470 procurando se vitimizar, dizendo-se alvo de manifestos políticos e de ameaças do advogado.
Sai no momento em que o STF iria colocar um fim em suas arbitrariedades.
Do Jornal Nacional mereceu uma nota seca, que surpreendentemente terminou com uma frase do advogado que o enfrentou: “Agora, o Supremo poderá voltar a julgar com imparcialidade”. De seus pares, não mereceu nada, nenhuma saudação. Talvez na última sessão seja agraciado com os elogios aliviados de algum colega seguidor das formalidades do STF.
Saindo, passa uma enorme sensação de desperdício. Desperdício em relação ao que poderia ter sido na renovação do STF, na afirmação da diversidade racial, na consagração do esforço individual.
Fica apenas a imagem de um homem mau e sem grandeza, cujo objetivo final não está na história, mas em se vingar de um simples advogado que ousou enfrentar a sua ira.

terça-feira, 17 de junho de 2014

​ Sobre a Imprensa e a Campanha Contra Dilma

Por Heitor de Assis
 
Mesmo o Nassif parece confundir a transbordante personalidade de Lula com algum aparelho
​ ​
institucional de comunicação. Dilma não é Lula, e Lula não é Dilma. Não foi o aparelho de comunicação do Presidente Lula, que ele não teve, que impôs sua presença no noticiário durante seus mandatos, ainda que a contragosto dos barões da comunicação. Foram sua inteligência, seu faro político e sua personalidade, atributos impossíveis de serem escondidos atrás de uma porta.
Quem tenta corroer a credibilidade do Governo, quem tenta esconder as ações do Governo, quem achincalha dia sim e dia também o país, são as mesmas mídias imprensa e televisiva, cevadas pela Ditadura de 1964, e continuaram existindo mesmo após a posse de Sarney, atravessaram a Constituinte incólumes e só encontraram alguma resistência após a renúncia de Collor. Itamar Franco foi tratado como se petista f
o
sse, até que os meios de comunicação e a imprensa achassem que o tinham destruído. Com a chegada de Fernando Henrique à Presidência, ficou aberto o caminho para o retrocesso do país, e eles.
Por outro lado, a carranca de FHC e seus comentários sobre os aposentados, por exemplo, tiveram um tratamento benevolente da mídia, quase folclórico, ao longo dos seus mandatos. Enquanto seu desastrado atrelamento e descarada submissão aos dogmas neoliberais, suas escolhas de assessores como José Serra e Armínio Fraga entre outros, todos 
eles artífices e porta-vozes variados - por aqui - do apocalipse que revelou-se ao mundo a partir de 2006 e explodiu em 2008, foram tratadas pelo baronato como grandes formuladores e gestores. A alienação do patrimônio público, a compra da reeleição, as sucessivas e incompetentes administrações do Banco Central em seus mandatos, foram mostradas a leitores e telespectadores do país inteiro como ações e atitudes na luta para salvar um país que eles mesmos estavam a destruir. E a mídia, vendo tudo o que ocorria como inevitável, mero acidente da natureza, que a nós apenas cabia suportar passivamente.
A prudência e a sabedoria do Presidente Lula o levaram a avaliar o quanto hostil era o ambiente em torno de si, o que lhe garantiu a condição de ser noticiado no início de seu mandato, quando pareceu domesticado. Mas a campanha para impedir sua reeleição começou tão feroz quanto a dos dias atuais. Mais uma vez, sua argúcia pessoal calou os adversários e abriu caminho para a reeleição. O sucesso do segundo mandato - a diminuição da pobreza, os investimentos na educação, a projeção do Brasil no exterior, os bons resultados da economia
​ ​
- abriram-lhe as portas para que escolhesse e fizesse sua sucessora.
O primeiro mandato de Dilma ocorre ao mais ou menos ao mesmo tempo em que Barack Obama inicia a reação norte-americana contra os Brics, usando o que chamam de softpower, a alternativa às espalhafatosas e caríssimas - política e economicamente - invasões militares para obter a deposição de governos hostis ao que consideram seus interesses econômicos e geopolíticos. Trata-se de insuflar os ânimos de cidadãos desavisados dos países alvos, quando em luta na defesa de seus desejos e necessidades não atendidos pelos governantes da vez, para em seguida infiltrar neste movimentos até então reivindicatórios, mercenários e baderneiros pagos para instalar o caos e desestabilizar o governo. Tais recursos foram usados pela primeira vez pelos sérvios - até onde eu sei - na luta pela dissolução da Iugoslávia. Aquela guerra, necessária para abrir caminho para as fôrças da OTAN aproximarem-se das fronteiras russas, está agora na Ucrânia, na Síria, na Venezuela e outros lugares, e talvez no Brasil.
O desconhecimento pela mídia da recente inauguração de um trecho da Ferrovia Norte-Sul, de 1400 km solenemente ignorado por todos os noticiários escritos e televisados é, ou poderá ser, a síntese do tratamento que Dilma recebe de seus inimigos. A omissão de muitos fatos, a invenção de outros tantos, o tratamento sempre desdenhoso, as mentiras e distorções dos fatos econômicos, são os meios disponíveis nesta nova etapa da luta contra o país, travada diuturnament
e
 pelo imperialismo hegemônico e seus acólitos, que querem ser para todo o sempre, o que hoje são. Uns, no andar de cima desfilando suas desumanidades, os subservientes a comer migalhas no andar de baixo, e a grande maioria desamparada no subsolo.
A ascensão dos Brics e suas políticas não hegemônicas, inéditas no cenário internacional; da China como maior economia do mundo; o gás russo e o Pré-Sal brasileiro; o redescobrimento da Índia e da África do Sul, são as verdadeiras razões que levaram o que chamamos de elite brasileira ao papelão que ela fez no Itaquerão.
O papelão dos oportunistas Aécio Neves e Eduardo Campos, cuja chancela aos xingamentos dos VIPs presentes no estádio - convidados de empresas beneficiárias das rupturas institucionais em todos os países que são objeto de insaciável cobiça - revelam o caráter - tosco, chauvinista, burro e arcaico - de suas personalidades e o desapreço pelas mulheres e, previsível, pelo que acham que seja o resto.
A Presidenta Dilma Rousseff usou seu mandato para aprofundar as conquistas do governo Lula, continuar as gigantescas obras de infraestrutura iniciadas pelo antecessor, aperfeiçoou políticas sociais e criou outras, aparentemente ignorando a campanha midiática que nunca lhe deu trégua. Na minha opinião, se tivesse reagido antes, seu mandato teria sido reduzido a uma batalha contra o baronato. Se a Presidenta lançasse a campanha pela regulação da mídia em qualquer momento de seu mandato, no mínimo, teria lançada contra si, o que se viu no Itaquerão.



A campanha feroz da banca das finanças, da indústria, dos ruralistas, de políticos de todos os matizes que não enxergam um palmo adiante dos seus interesses de classe e pessoais, que ora expõe tais interesses sem qualquer escrúpulo, está com seus dias contados em boa medida. O horário eleitoral, a presença de Lula, as propostas indefensáveis dos opositores, a discussão da Lei dos Meios, do financiamento público de campanha e outros temas fundamentais para uma agenda progressista chegará às ruas. O resto, as urnas o farão.

O Que a Elite Reserva ao País

por: Saul Leblon/Carta maior 
​A ELITE RESERVA AO PAÍS O MESMO LUGAR EXORTADO À PRESIDÊNCIA
A virtude, a civilização, a sorte do desenvolvimento e os destinos da sociedade há muito deixaram de interessar a elite brasileira.

Quando a elite de uma sociedade se reúne em um estádio de futebol e a sua manifestação mais singular é um coro de ofensas de baixo calão, quem é o principal atingido: o alvo ou o emissor?

Vaias e palavrões são inerentes às disputas futebolísticas. Fazem parte do espetáculo, assim  como o frango e o gol de placa. A passagem de autoridades por estádios nunca foi impune.

O que se assistiu no Itaquerão, porém, no jogo inaugural da Copa, entre Brasil e Croácia, não teve nada a ver com o futebol ou deboche, mas com a disputa virulenta em curso  pelo comando da história brasileira.

Sem fazer parte da coreografia oficial o que aflorou ali foi a mais autêntica expressão cultural de um lado desse conflito, nunca antes assumido assim de forma tão desinibida  e ilustrativa.

Encorajado pelo anonimato, o gado OP
​​
 (puro de origem) mostrou o pé duro dos seus valores.

Dos camarotes vips um jogral raivoso e descontextualizado despejou sua bagagem de refinamento e boas maneiras  sobre uma Presidenta da República em missão oficial.

Por quatro vezes, os sentimentos de uma elite ressentida contra aqueles que afrontam a afável, convergente e impoluta lógica de sociedade que vem construindo aqui há mais de cinco séculos, afloraram durante o jogo.

Foi assim que essa gente viajada, de hábitos cosmopolitas, que se envergonha de um Brasil no qual recusa a enxergar o próprio espelho, ofereceu a um bilhão de pessoas conectadas à Copa em 200 países uma síntese dos termos elevados com os quais tem pautado a disputa política  no país.

Que Aécio & Eduardo tenham se esponjado nessa manifestação dá o peso e a medida do espaço que desejam ocupar no espectro da sociedade brasileira.

Dias antes, o  ex-Presidente Lula havia comentado que nem a burguesia venezuelana atingira contra Chávez o grau de desrespeito e preconceito observado aqui contra a Presidenta Dilma.

Houve quem enxergasse nessas palavras uma carga de retórica eleitoral.

A cerimônia da 5ª feira cuidou de devolver pertinência  à observação.

A formação virtuosa da infância,  o compromisso com a civilização, a sorte do desenvolvimento  e  os destinos da sociedade há muito deixaram de interessar à elite brasileira.

A novidade do coro contra  Dilma é refletir  o desejo  cada vez mais explícito  de mandar o país ao mesmo lugar exortado  à Presidenta.

Ou não será esse o propósito estratégico do camarote  vip ao apregoar o descolamento da sociedade brasileira de uma vez por todas, acoplando-a à grande cloaca mundial de um capitalismo sem peias, onde  se processa  a restauração neoliberal pós-2008?

Nesse imenso biodigestor de direitos e desmanche do Estado acumula-se o adubo  no qual floresce  a alta finança desregulada, que tem nos endinheirados brasileiros  os detentores da 4ª maior fortuna do planeta evadida em paraísos fiscais.

Estudos da  The Price of Offshore Revisited,  coordenados pelo ex-economista-chefe da McKinsey, James Henry, revelam que os brasileiros muito ricos – que se envergonham de um governo corrupto
​ 
-  possuíam, até 2010, cerca de US$ 520 bilhões  em paraísos fiscais.

O passaporte definitivo  para esse  ‘novo normal’ sistêmico requer a vitória, em outubro, das candidaturas que carregam no DNA o mesmo pedigree da turma que deu uma pala na festa de abertura da Copa. Não propriamente contra Dilma, mas contra o que ela simboliza: a tentativa de se construir por aqui um Estado social que assegure aos  sem riqueza os mesmos direitos daqueles que enxergam no espaço público  um  mero apêndice  do interesse plutocrático. 

A expressão ‘vale tudo’ descreve com fidelidade o que tem sido e será, cada vez mais, o bombardeio   para convencer o imaginário brasileiro  das virtudes intrínsecas  à troca do ‘populismo’  pelo estado de exceção de direitos e conquistas sociais, em benefício dos livres mercados.

A mídia está aí para isso, como se viu pela cobertura dos fatos da última 5ª feira.
​ 
Trata-se de saber em que medida o discernimento social, condicionado por uma esférica máquina de difusão dos interesses vips,  saberá distinguir um caminho que desvie a nação do futuro metafórico reservado a ela nos planos,  agora explicitados, de sua elite.

A indigência do espírito público dos endinheirados brasileiros, reconheça-se,  não é nova. Mas se supera.

O antropólogo Darcy Ribeiro foi  um legista  obcecado dos seus contornos e consequências para a formação do país, a sorte de sua gente e a qualidade do seu desenvolvimento.

Em um texto de  1986, ‘Sobre o óbvio – Ensaios Insólitos’, o criador da Universidade de Brasília, e chefe da Casa Civil de Jango, iluminou os traços dessa rosca descendente, confirmada  28 anos depois, em exibição mundial,  na abertura da Copa de 2014.

"Dois fatos que ficaram ululantemente óbvios. Primeiro, que não é nas qualidades ou defeitos do povo que está a razão do nosso atraso, mas nas características de nossas classes dominantes, no seu setor dirigente e, inclusive, no seu segmento intelectual. Segundo, que nossa velha classe dominante tem sido altamente capaz na formulação e na execução de projeto de sociedade que melhor corresponde a seus interesses. Só que este projeto para ser implantado e mantido precisa de um povo faminto, xucro e feio. Nunca se viu, em outra parte, ricos tão capacitados para gerar e desfrutar riquezas, e para subjugar o povo faminto no trabalho, como os nossos senhores empresários, doutores e comandantes. Quase sempre cordiais uns para com os outros, sempre duros e implacáveis para com subalternos, e insaciáveis na apropriação dos frutos do trabalho alheio. Eles tramam e retramam, há séculos, a malha estreita dentro da qual cresce, deformado, o povo brasileiro (...) porque só assim a velha classe pode manter, sem sobressaltos, este tipo de prosperidade de que ela desfruta, uma prosperidade jamais generalizável aos que a produzem com o seu trabalho.

A primeira evidência a ressaltar é que nossa classe dominante conseguiu estruturar o Brasil como uma sociedade de economia extraordinariamente próspera. Por muito tempo se pensou que éramos e somos um país pobre, no passado e agora. Pois não é verdade. Esta é uma falsa obviedade. Éramos e somos riquíssimos! A renda per capita dos escravos de Pernambuco, da Bahia e de Minas Gerais – eles duravam em média uns cinco anos no trabalho – mas a renda per capita dos nossos escravos era, então, a mais alta do mundo. Nenhum trabalhador, naqueles séculos, na Europa ou na Ásia, rendia em libras – que eram os dólares da época – como um escravo trabalhando num engenho no Recife; ou lavrando ouro em Minas Gerais; ou, depois, um escravo, ou mesmo um imigrante italiano, trabalhando num cafezal em São Paulo. Aqueles empreendimentos foram um sucesso formidável. Geraram além de um PIB prodigioso, uma renda per capita admirável. Então, como agora, para uso e gozo de nossa sábia classe dominante. A verdade verdadeira é que, aqui no Brasil, se inventou um modelo de economia altamente próspera, mas de prosperidade pura. Quer dizer, livre de quaisquer comprometimentos sentimentais. A verdade, repito, é que nós, brasileiros, inventamos e fundamos um sistema social perfeito para os q
u
e estão do lado de cima da vida. 


O valor da exportação brasileira no século XVII foi maior que o da exportação inglesa no mesmo período. O produto mais nobre da época era o açúcar. Depois, o produto mais rendoso do mundo foi o ouro de Minas Gerais que multiplicou várias vezes a quantidade de ouro existente no mundo. Também, então, reinou para os ricos uma prosperidade imensa. O café, por sua vez, foi o produto mais importante do mercado mundial até 1913, e nós desfrutamos, por longo tempo, o monopólio dele. Nestes três casos, que correspondem a conjunturas quase seculares, nós tivemos e desfrutamos uma prosperidade enorme. Depois, por algumas décadas, a borracha e o cacau deram também surtos invejáveis de prosperidade que enriqueceram e dignificaram as camadas proprietárias e dirigentes de diversas regiões. O importante a assinalar é que, modéstia à parte, aqui no Brasil se tinha inventado ou ressuscitado uma economia especialíssima, fundada num sistema de trabalho que, compelindo o povo a produzir, o que ele não consumia – produzir para exportar – permitia gerar uma prosperidade não generosa, ainda que propensa desde então, a uma redistribuição preterida. 
 
Enquanto isso se fez debaixo dos sólidos estatutos da escravidão, não houve problema. Depois, porém, o povo trabalhador começou a dar trabalho, porque tinha de ser convencido na lei ou na marra, de que seu reino não era para agora, que ele verdadeiramente não podia nem precisava comer hoje. Porém o que ele não come hoje, comerá acrescido amanhã. Porque só acumulando agora, sem nada desperdiçar comendo, se poderá progredir amanhã e sempre. O povão, hoje como ontem, sempre andou muito desconfiado de que jamais comerá depois de amanhã o feijão que deixou de comer anteontem. Mas as classes dominantes e seus competentes auxiliares, aí estão para convencer a todos – com pesquisas, programas e promoções – de que o importante é exportar, de que é indispensável e patriótico ter paciência, esperem um pouco, não sejam imediatistas. O bolo precisa crescer; sem um bolo maior – nos dizem o Delfim lá de Paris e o daqui – sem um bolo acrescido, este país estará perdido. É preciso um bolo respeitável, é indispensável uma poupança ponderável, uma acumulação milagrosa para que depois se faça, amanhã, prodigiosamente, a distribuição.
       
A classe dominante brasileira inscreve na Lei de Terras um juízo muito simples: a forma normal de obtenção da prioridade é a compra. Se você quer ser proprietário, deve comprar suas terras do Estado ou de quem quer que seja, que as possua a título legítimo. Comprar! É certo que estabelece generosamente uma exceção cartorial: o chamado usucapião. Se você puder provar, diante do escrivão competente, que ocupou continuadamente, por 10 ou 20 anos, um pedaço de terra, talvez consiga que o cartório o registre como de sua propriedade legítima. 
 
Como nenhum caboclo vai encontrar esse cartório, quase ninguém registrou jamais terra nenhuma por esta via. Em consequência, a boa terra não se dispersou e todas as terras alcançadas pelas fronteiras da civilização, foram competentemente apropriadas pelos antigos proprietários que, aquinhoados, puderam fazer de seus filhos e netos outros tantos fazendeiros latifundiários. Foi assim, brilhantemente, que a nossa classe dominante conseguiu duas coisas básicas: se assegurou a propriedade monopolística da terra para suas empresas agrárias, e assegurou que a população trabalharia docilmente para ela, porque só podia sair de uma fazenda para cair em outra fazenda igual, uma vez que em lugar nenhum conseguiria terras para ocupar e fazer suas pelo trabalho. A classe dominante norte-americana, menos previdente e quiçá mais ingênua, estabeleceu que a forma normal de obtenção de propriedade rural era a posse e a ocupação das terras por quem fosse para o Oeste – como se vê nos filmes de faroeste. Qualquer pioneiro podia demarcar cento e tantos acres e ali se instalar com a família, porque só o fato de morar e trabalhar a terra fazia propriedade sua. O resultado foi que lá multiplicou um imenso sistema de pequenas e médias propriedades que criou e generalizou para milhões de modestos granjeiros uma prosperidade geral. Geral mas medíocre, porque trabalhadas por seus próprios donos, sem nenhuma possibilidade de edificar Casas-grandes & Senzalas grandiosas como as nossas".