sábado, 31 de maio de 2014

Saída de Barbosa É Alívio Para a Justiça

Aposentadoria do presidente do Supremo "abre a oportunidade para a recuperação de noções básicas do sistema republicano", escreve Paulo Moreira Leite; jornalista diz que ministro deixa o cargo "depois de uma decisão que se transformou em escândalo jurídico" e que agora "ficará longe dos grandes constrangimentos que aguardam" futuro da AP 470
30 DE MAIO DE 2014 ÀS 10:47
247 - A saída do ministro Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal Federal "abre a oportunidade para a recuperação de noções básicas do sistema republicano, como a separação entre poderes, e o respeito pelos direitos humanos", avalia o jornalista Paulo Moreira Leite, em sua coluna na IstoÉ. Barbosa deixa o cargo, porém, "depois de uma decisão que se transformou em escândalo jurídico" - a cassação do benefício de trabalho externo aos condenados ao regime semiaberto, acrescenta. Leia seu artigo:

O NOVO PAPEL DE JOAQUIM
Ao deixar STF, ministro ficará longe de cenas constrangedoras que aguardam futuro da AP 470
A saída de Joaquim Barbosa do STF representa um alívio para a Justiça do país e é uma boa notícia para os fundamentos da democracia brasileira. Abre a oportunidade para a recuperação de noções básicas do sistema republicano, como a separação entre poderes, e o respeito pelos direitos humanos – arranhados de forma sistemática no tratamento dispensado aos réus da Ação Penal 470, inclusive quando eles cumpriam pena de prisão.
Ao aposentar-se, Joaquim Barbosa ficará longe dos grandes constrangimentos que aguardam "o maior julgamento do século," o que pode ser útil na preservação do do próprio mito.
Para começar, prevê-se, para breve, a absolvição dos principais réus do mensalão PSDB-MG, que sequer foram julgados – em primeira instância – num tribunal de Minas Gerais. Um deles, que embolsou R$ 300 000 do esquema de Marcos Valério – soma jamais registrada na conta de um dirigente do PT -- pode até sair candidato ao governo de Estado.
Joaquim deixa o Supremo depois de uma decisão que se transformou em escândalo jurídico. Num gesto que teve como consequência real manter um regime de perseguição permanente aos condenados da AP 470, revogou uma jurisprudência de quinze anos, que permitia a milhares de réus condenados ao regime semi-aberto a trabalhar fora da prisão -- situação que cedo ou tarde iria incluir José Dirceu, hoje um entre tantos outros condenados. Mesmo Carlos Ayres Britto, o principal aliado que Joaquim já fez no STF, fez questão de criticar a decisão. Levada para plenário, essa medida é vista como uma provável derrota de Joaquim para seus pares que, longe de expressar qualquer maquinação política de adversários, apenas reflete o desmonte de sua liderança no STF.
Em outro movimento na mesma direção, o Supremo acaba de modificar as regras para os próximos julgamentos de políticos. Ao contrário do que se fez na AP 470 – e só ali -- eles não serão julgados pelo plenário, mas por turmas em separado do STF. Não haverá câmaras de TV. E, claro: sempre que não se tratar de um réu com direito a foro privilegiado, a lei será cumprida e a ninguém será negado o direito de um julgamento em primeira instância, seguido de pelo menos um novo recurso em caso de condenação. É o desmembramento, aquele recurso negado apenas aos réus da AP 470 e que teria impedido, por exemplo, malabarismos jurídicos como a Teoria do Domínio do Fato, com a qual o Procurador Geral da Republica tentou sustentar uma denúncia sem provas consistentes contra os principais réus.
Hoje retratado como uma autoridade inflexível, incapaz de qualquer gesto inadequado para defender interesses próprios – imagino quantas vezes sua capa negra será exibida nos próximos dias, num previsível efeito dramático – Joaquim chegou ao STF pelo caminho comum da maioria dos mortais. Fez campanha.
Quando duas aguerridas parlamentares da esquerda do PT – Luciana Genro e Heloísa Helena – ameaçaram subir à tribuna do Congresso para denunciar um caso de agressão de Joaquim a sua ex-mulher, ocorrido muitos anos antes da indicação, quando o casal discutia a separação, o presidente do partido José Genoíno (condenado a seis anos na AP 470) correu em defesa do candidato ao Supremo. Argumentou que a indicação representava um avanço importante na vitória contra o preconceito racial e convenceu as duas parlamentares. (Dez anos depois desse gesto, favorável a um cidadão que sequer conhecia, Joaquim formou sucessivas juntas médicas para examinar o cardiopata Genoíno. Uma delas autorizou a suspensão da prisão domiciliar obtida na Justiça).
O diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato (condenado a 12 anos na AP 470) foi procurado para dar apoio, pedindo a Gilberto Carvalho que falasse de seu nome junto a Lula. José Dirceu (condenado a 10 anos e dez meses, reduzidos para sete contra a vontade de Joaquim), também recebeu pedido de apoio. Dezenas – um deputado petista diz que eram centenas – de cartas de movimentos contra o racismo foram enviadas ao gabinete de Lula, em defesa de Joaquim. Assim seu nome atropelou outro juristas negros – inclusive um membro do Tribunal Superior do Trabalho, Carlos Alberto Reis de Paula – que tinha apoio de Nelson Jobim para ficar com a vaga.
Quando a nomeação enfim saiu, Lula resolveu convidar Joaquim para acompanha-lo numa viagem presidencial a África. O novo ministro recusou. Não queria ser uma peça de marketing, explicou, numa entrevista a Roberto dÁvila. Era uma referência desrespeitosa, já que a África foi, efetivamente, um elemento importante da diplomacia brasileira a partir do governo Lula, que ali abriu embaixadas e estabeleceu novas relações comerciais e diplomáticas.
De qualquer modo, se era marketing convidar um ministro negro para ir a África, por que não recusar a mesma assinatura da mesma autoridade que o indicou para o Supremo?
À frente da AP 470, Joaquim Barbosa jamais se colocou na posição equilibrada que se espera de um juiz. Não pesou os dois lados, não comparou argumentos.
Através do inquérito 2474, manteve em sigilo fatos novos que poderiam embaralhar o trabalho da acusação e que sequer chegaram ao conhecimento do plenário do STF – como se fosse correto selecionar elementos de realidade que interessam a denúncia, e desprezar aqueles que poderiam, legitimamente, beneficiar os réus. Assumiu o papel de inquisidor, capaz de tentar destruir, pela via do judiciário, aquilo que os adversários do governo se mostravam incapazes de obter pelas urnas.
Ao verificar que o ministro era capaz de se voltar em fúria absoluta contra as forças políticas que lhe deram sustentação para chegasse a mais alta corte do país, os adversários da véspera esqueceram por um minuto as desconfianças iniciais, as críticas ao sistema de cotas e todas políticas compensatórias baseadas em raça.
Passaram a dizer, como repete Eliane Cantanhede na Folha hoje, que Joaquim rebelou-se contra o papel de "negro dócil e agradecido." Rebelião contra quem mesmo? Contra o que? A favor de quem?
Já vimos e logo veremos.
Basta prestar atenção nos sorrisos e fotografias da campanha presidencial.

Os Órfãos de Joaquim Barbosa

O Conversa Afiada reproduz editorial de Saul Leblon, extraído da Carta Maior:


Órfão da toga justiceira, Aécio Neves tenta vestir uma fantasia de justiceiro social, esgarçada pela estreiteza dos interesses que representa.

por: Saul Leblon

Joaquim Barbosa deixa a cena política como um farrapo do personagem desfrutável que se ofereceu um dia ao conservadorismo brasileiro.

Na verdade, não era  mais funcional ter a legenda política associada a ele.

Sua permanência à frente do STF  tornara-se insustentável.

Vinte e quatro horas antes de comunicar a aposentadoria,  já era identificado pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, como um fator de insegurança jurídica para o país.

A OAB o rechaçava.

O mundo jurídico manifestava constrangimento diante da incontinência autoritária.

A colérica desenvoltura com que transgredia  a fronteira que separa o sentimento de  vingança e ódio da ideia de justiça, inquietava os grandes nomes do Direito.

Havia um déspota sob a toga que presidia a Suprema Corte do país.

E ele não hesitava em implodir o alicerce da equidistância republicana que  confere à Justiça o consentimento legal,  a distingui-la dos linchamentos falangistas.

O obscurantismo vira ali, originalmente, o cavalo receptivo a um enxerto capaz de atalhar o acesso a um poder que sistematicamente lhe fora negado pelas urnas.
Barbosa retribuía a ração de holofotes e bajulações mercadejando ações cuidadosamente dirigidas ao desfrute da propaganda conservadora.

Na indisfarçada  perseguição a José Dirceu, atropelou decisão de seus pares pondo em risco  um sistema prisional em que 77 mil sentenciados desfrutam o mesmo semiaberto subtraído ao ex-ministro.

Desde o início do julgamento da AP 470  deixaria  nítido o propósito de atropelar o rito, as provas e os autos, em sintonia escabrosa com a sofreguidão midiática.

Seu desabusado comportamento exalava o enfado de quem já havia sentenciado os réus  à revelia dos autos, como se viu depois,  sendo-lhe  maçante e ostensivamente desagradável submeter-se aos procedimentos do Estado de Direito.

O artificioso recurso do domínio do fato, evocado como uma autorização para condenar sem provas, sintetizou a marca nodosa de sua relatoria.

A expedição de mandatos de prisão no dia da República, e no afogadilho de servir à grade da TV Globo,  atestaria a natureza viciosa de todo o enredo.

A exceção inscrita no julgamento reafirmava-se na execução despótica de sentenças sob o comando atrabiliário de quem não hesitaria em colocar vidas em risco.

O  que contava era  servir-se da lei. E não servir à lei.

A mídia isenta esponjava-se entre o incentivo e a cumplicidade.

Em nome de um igualitarismo descendente que, finalmente, nivelaria pobres e ricos no sistema prisional,  inoculava na opinião pública o vírus da renúncia à civilização em nome da convergência pela barbárie.

A aposentadoria de Barbosa não apaga essa nódoa.

Ela continuará a manchar o Estado de Direito enquanto não for reparado o arbítrio a que tem sido submetidas lideranças da esquerda brasileira, punidas não pelo endosso, admitido, e reprovável, à prática do caixa 2 eleitoral.

Igual e precedente infração cometida pelo PSDB, e relegada pela toga biliosa, escancara o prioritário sentido da AP 470:   gerar troféus de caça a serem execrados em trunfo no palanque conservador.

A liquefação jurídica e moral de  Joaquim Barbosa nos últimos meses tornou essa estratégia anacrônica e perigosa.

A toga biliosa assumiu, crescentemente, contornos de um coronel Kurtz, o personagem de Marlon Brando, em Apocalypse Now, que se desgarrou do exército americano no Vietnã para criar  a sua própria guerra dentro da guerra.

Na guerra pelo poder, Barbosa lutava a batalha do dia anterior.

Cada vez mais, a disputa eleitoral em curso no país é ditada pelas escolhas que a  transição do desenvolvimento impõe à economia, à sociedade e à democracia.

A luta se dá em campo aberto.

Arrocho ou democracia social desenham  uma encruzilhada de nitidez crescente aos olhos da população.

A demonização do ‘petismo’ não é mais suficiente para sustentar os  interesses conservadores na travessia de ciclo que se anuncia.

Aécio Neves corre contra o tempo para recadastrar seu  apelo no vazio deixado pela esgotamento da judicialização da política.

Enfrenta dificuldades.

Não faz um mês, os centuriões do arrocho fiscal que o assessoram –
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e a mídia que os repercute
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–  saíram de faca na boca após o discurso da Presidenta Dilma, na véspera do 1º de Maio.

Criticavam acidamente o reajuste de 10%  aplicado ao benefício do Bolsa Família.

No dia seguinte, numa feira de gado em Uberaba, MG, o tucano ‘não quis assumir o compromisso de aumentar os repasses, caso seja eleito’, noticiou a Folha de SP (02-05).

‘De mim, você jamais ouvirá uma irresponsabilidade de eu assumir qualquer compromisso antes de conhecer os números, antes de reconhecer a realidade do caixa do governo federal”, afirmou Aécio à Folha, na tarde daquela sexta-feira.

Vinte e seis dias depois, o mesmo personagem, algo maleável, digamos assim, fez aprovar, nesta 3ª feira,  na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, uma medida que exclui limites de renda e tempo para a permanência de famílias pobres no programa (leia a reportagem de Najla Passos; nesta pág)

A proposta implica dispêndio adicional que o presidenciável recusava assumir há três semanas.

Que lógica, afinal, move as relações do candidato com o Bolsa Família?

A mesma de seu partido, cuja trajetória naufragou na dificuldade histórica do conservadorismo em lidar com a questão social no país.

Órfão da toga justiceira, Aécio Neves tenta vestir uma inverossímil fantasia de justiceiro social, desde logo esgarçada pela estreiteza dos interesses que representa.

A farsa corre o risco de evidenciar seus limites  tão rapidamente quanto a anterior.

A ver

sexta-feira, 30 de maio de 2014

​O Legado de Joaquim Barbosa, Um Antibrasileiro

Uma saída que eleva o Brasil
Se for confirmada a aposentadoria de Joaquim Barbosa para junho, chegará ao fim uma das mais trágicas biografias do sistema jurídico brasileiro.
O legado de Barbosa resume-se em duas palavras absolutamente incompatíveis com a posição de juiz e, mais ainda, de presidente da mais alta corte nacional: ódio e vingança. Foi a negação do brasileiro, um tipo cordial, compassivo e tolerante por natureza.
A posteridade dará a ele o merecido espaço, ao lado de personalidades nocivas ao país como Carlos Lacerda e Jânio Quadros.
Barbosa acabou virando herói da classe média mais reacionária do Brasil e do chamado 1%. Ao mesmo tempo, se tornou uma abominação para as parcelas mais progressistas da sociedade.
É uma excelente notícia para a Justiça. Que os jovens juízes olhem para JB e reflitam: eis o que nós não devemos fazer.
O que será dele?
Dificuldades materiais Joaquim Barbosa não haverá de ter. O 1% não falha aos seus.
Você pode imaginá-lo facilmente como um palestrante altamente requisitado, com cachês na casa de 30 000 reais por uma hora, talvez até mais. Com isso poderá passar longas temporadas em Miami.
Na política, seus passos serão necessariamente limitados. Ambições presidenciais só mediante uma descomunal dose de delírio.
Joaquim Barbosa é adorado por aquele tipo de eleitor ultraconservador que não elege presidente nenhum.
Ele foi, na vida pública brasileira, mais um caso de falso novo, de esperanças de renovação destruída, de expectativas miseravelmente frustradas.
Que o STF se refaça depois do trabalho de profunda desagregação de Joaquim Barbosa em sua curta presidência.
Nunca, desde Lacerda, alguém trouxe tamanha carga de raiva insana à sociedade a serviço do reacionarismo mais petrificado.
Que se vá – e não volte a assombrar os brasileiros.

A Saída de Joaquim Barbosa Preenche Uma Lacuna no Judiciário Brasileiro

Autor: Fernando Brito

A anunciada saída do Ministro Joaquim Barbosa pode ser um alívio, mas não é uma alegria para quem deseja que o Judiciário brasileiro evolua para a plenitude institucional de uma Corte a quem cabe, sobretudo, guardar o respeito à Constituição.
Não é uma alegria porque a sua presença no cargo de presidente do Supremo Tribunal Federal poderia ser, enfim, a afirmação da diversidade étnica deste país tão marcado pelo preconceito e pelas injustiças com nossos irmãos negros.
Não é uma alegria porque Joaquim Barbosa, por todas as dificuldades que lhe deu sua origem humilde, poderia também mostrar que as oportunidades da educação podem transformar em iguais aqueles que vêm de famílias pobres, trabalhadoras e sacrificadas em nome do desejo de educar seus filhos.
Não é uma alegria, sobretudo, porque sua cátedra no STF, em lugar de ser o júbilo geral por alguém  que  carregava   em si o látego que se abateu – e que se abate, figurativamente – sobre negros e pobres deste país demonstrasse a grandeza de ser firme com suavidade, diferente sem teatralidades, humano e generoso sem fraqueza, tornou-se,  essencialmente, um retrato do ódio e da intolerância.
A magistratura exige – e a mais alta magistratura, sempre e muito mais – exige discrição, exige tolerância, exige ponderação e quantas vezes isso faltou ao Dr. Joaquim.
Não se quer dele ou de qualquer outro a infalibilidade, a perfeição, uma condição sobre-humana.
Ao contrário, foi ele quem sempre procurou mostrar-se assim, agradado de comparações com a figura de um “Batman”, vingador, justiceiro.
Joaquim Barbosa virou, sim, herói.
Herói dos homens pequenos, cuja ideia de Justiça é a da imposição de sua vontade e de humilhação do diferente, do divergente, em lugar de, ainda assim, respeitar a sua honra, o seu direito, a sua condição de humano e, por isso, igual.
O Dr. Barbosa não hesitava, inclusive, em tentar desmoralizar publicamente todo aquele que não lhe concordava.
E o furor de construir-se assim, o deus dos intolerantes, afinal, acabou por levá-lo ao melancólico isolamento com que se encerra sua carreira na Suprema Corte.
Mesmo os que lhe aplaudem, por conveniência política, em voz baixa o tem na conta de um homem sem equilíbrio.
Ou do homem mau, como disse dele o jurista Celso Bandeira de Mello.
Sai, assim, sem deixar alegrias, mas provocando alívio.
Porque restaura um mínimo de equilíbrio na Corte Suprema brasileira, a quem ele publicamente desonrou ao, derrotado, atribuir-lhe uma intenção subalterna de uma “sanha reformadora” de uma “maioria de ocasião”.
Barbosa não percebeu que a toga deve ter o condão e reduzir o homem e ampliar a alma de quem a enverga.

terça-feira, 27 de maio de 2014

​Sobre Orgulho e Vergonha


Luis Fernando
Perguntem aos 9,5 milhões de estudantes matriculados no Enem se sentem Orgulho ou Vergonha do país.

Perguntem aos milhares de operários da construção civil, crescente a cada dia, se sentem Orgulho ou Vergonha.

Perguntem aos milhões de trabalhadores que compraram carro 0 nos últimos anos se sentem Orgulho ou Vergonha.

Perguntem aos mais humildes atendidos pelo Mais Médicos se estão sentindo Orgulho ou Vergonha.

Perguntem aos jovens formados pelo Pronatec se sentem Orgulho ou Vergonha.

Perguntem aos milhares de empregados da Petrobras se sentem Orgulho ou Vergonha.

Perguntem aos mais de 50 mil trabalhadores da construção naval se estão Orgulhosos ou Envergonhados.

Pergunte à dona Luiza Trajano, representante dos grandes empresários brasileiros, se sente Orgulho ou Vergonha do Brasil.

Perguntem aos milhares de brasileiros que foram ao feirão da Caixa se estão Orgulhosos ou morrendo de Vergonha ao comprar sua casa própria.

Perguntem aos milhões de beneficiados pelo Minha Casa Minha vida se estão sentindo Orgulho ou Vergonha.

Agora, pergunte também:

Perguntem aos funcionários da globo se sentem Orgulho ou Vergonha de serem vítimas de irregularidades trabalhistas de seus patrões.

Perguntem aos ex-funcionários, recentemente demitidos da Abril, se estão Orgulhosos ou Envergonhados da empresa que trabalhavam.

Perguntem aos chefões da mídia se estão orgulhosos ou envergonhados da queda acentuada de sua audiência.

Perguntem aos funcionários públicos mineiros se estão orgulhosos ou envergonhados do tratamento dedicado a eles pelo governo do estado.

Perguntem ao povo paulistano se sentem Orgulho ou Vergonha de pagar por uma água que não chega em sua torneira.

Quem sente vergonha desse país é aquele doutorzinho que não atende os mais humildes e agora tem o Juan, a Margarida, o Pablo para fazê-lo.

É a dondoca do trânsito que para seu carro importado no sinal e se enraivece ao ver parando ao seu lado um trabalhador simples com seu 0 quilômetro do lado dela.

Sente vergonha do Brasil aquele representante da Big House que pega um avião pra Miami e que olha para o lado e lá está o porteiro do prédio vizinho indo fazer as mesmas compras que ele.

No Brasil de hoje, ocorreu uma inversão canina curiosa.

Nós, cidadão comuns e trabalhadores viramos cães de raça.

Os mais abastados, transformaram-se em simples vira-latas.


Clique aqui para ler “Tem saudade do fantasma FHC ? Lembra do que ele fez ?”

Aqui para “Saudade do fantasma ? Santana deve um chopp ao Andrade”

E aqui para
 
“Professores não deixam globo filmar”

​Em Fortaleza, Mais um Passo Para Detonar Bretton Woods

Os BRICS e o fim de Bretton Woods

por Igor Grabois, especial para o Viomundo
Fatos históricos importantes, muitas vezes, passam em branco para seus contemporâneos. Nos dias 15, 16 e 17 de julho, em Fortaleza, ocorre a VI Cúpula dos BRICS. As Cúpulas têm reunido os Chefes de Estado de Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul anualmente desde 2009. A reunião de Fortaleza deverá consolidar os BRICS como uma organização dotada de instrumentos concretos para influir na economia e política internacionais. Este evento não tem merecido a atenção devida na mídia, na academia e nos debates da internet.
Os círculos bem-pensantes e a mídia no Brasil se espelham na Europa e nos EUA. Desprezam a integração sul-americana e torcem o nariz para as iniciativas Sul-Sul. Uma política brasileira para a África provoca reações entre o escárnio e a ojeriza.
Promovem uma campanha sistemática contra o MERCOSUL. Querem a ALCA e o TAFTA (acordo de comércio e investimentos entre EUA e União Européia).
Quanto aos BRICS, a conversa é de que eles não têm nada em comum, exceto o tamanho. Pois eles têm muitas coisas em comum: o inimigo.
Os BRICS representam 43% da população mundial, 27% do PIB mundial e apenas 15% das cotas do FMI. Pelo critério do poder de compra, a China é a primeira economia mundial, a Índia a quarta, o Brasil a sétima e a Rússia a décima economia mundial. Estão fora do G-8, que voltou a ser G-7, após a expulsão da Rússia em função da crise ucraniana.
Crescimento econômico, agricultura, participação no comércio exterior, indústria, produção de energia etc, todos os dados mostram a ascensão dos BRICS e a estagnação do G-7.
Rússia, Índia. China e Brasil aumentam a cada ano fiscal seus gastos militares. Do G-7, apenas o Japão amplia seus gastos militares para se contrapor à China. Os outros cortam gastos, inclusive os EUA, apesar do gigantismo de sua máquina militar. A despeito da projeção dos países BRICS, há um movimento para obstar a influência política e econômica desses países.
Neste quadro, nada mais lógico do que a associação de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desde a primeira cúpula dos BRICS em Ekaterinenburgo, em 2009, os acordos multilaterais e bilaterais se multiplicaram. Ciência e tecnologia, energia, compartilhamento de estatísticas, agricultura, energia, educação, defesa, espaço, em suma, a materialização de uma tirada de um diretor do Goldman Sachs é veloz.
Enquanto os BRICS aprofundam os laços, a reação de EUA, União Européia e Japão é cada vez mais barulhenta.
Não pode haver dúvidas dos verdadeiros alvos dos ataques dos EUA e União Européia na Ucrânia, na Síria e na Venezuela. Os EUA resolveram, agora, indiciar oficiais chineses por ciberespionagem… Snowden que o diga.
The Economist e Financial Times assumiram o papel de porta-voz dos rentistas brasileiros e estrangeiros na luta contra o que a política econômica brasileira pode ter de intervenção estatal e distributivista.
Desde 1945, o mundo capitalista foi regido pelos acordos de Bretton Woods, cidade do Massachusets, onde os vitoriosos da segunda guerra – sem a União Soviética — se reuniram para elaborar medidas para evitar crises como a de 1929.
Foi criado um banco de desenvolvimento, o Banco Mundial e um fundo para prevenir e combater crises cambiais, o FMI. E mais importante, elegeram o dólar como moeda de conversibilidade internacional. A solvência de um país passou a ser medida pela quantidade de dólares que possui.
Porém, o arranjo de Bretton Woods mostrou sinais de esgotamento a partir da crise do petróleo nos anos 70. A dívida dos países latino-americanos e do leste europeu explodiu. A terapia do FMI matava os doentes, ao invés de curá-los.
A América Latina enfrentou a recessão econômica e a tragédia social sob a égide do Fundo. E a política do Fundo não preveniu as crises cambiais, ao contrário, contribuíram para agravá-las.
China e Rússia, após a queda do socialismo real em 1989/90, não foram absorvidos no sistema Bretton Woods. Argentina e Brasil, principais clientes do Fundo, se livraram dos “empréstimos-ponte” na década passada. O Fundo passa a ser visto como um estorvo, não uma solução. O FMI se dedica, agora, a detonar as economias da Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda para garantir o euro e as aplicações de banqueiros alemães.
Em 2010, no auge da insolvência dos países do sul da Europa, chegou-se a um acordo no Conselho de Governadores do FMI. Haveria nova distribuição das cotas do Fundo, diminuindo o poder de EUA, União Européia e Japão. Em troca, os BRICS compareceriam com 70 bilhões de dólares. Um alívio para a Europa em crise. O Congresso estadunidense, simplesmente, rejeitou o acordo no início deste ano. A gestão do FMI continua como dantes e os 70 bilhões não vão aparecer. Como diz aquela subsecretária, f*-se a União Européia.
Fortaleza, julho de 2014. Os Chefes de Estado dos BRICS assinarão o acordo de criação do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos BRICS. Mais, assinarão um Acordo Contingente de Reservas. Um Banco Mundial e um FMI dos BRICS. China e Rússia fecharam acordo de fornecimento de gás nominado em rublos e yuans. Brasil e China já fazem parte do seu comércio nominado nas respectivas moedas nacionais.
As duas entidades financeiras, inicialmente, terão atuação nos países signatários. Nada impede que atuem junto a países fora dos BRICS. É só o começo. Afinal, para que acumular dólares, aturar as idiossincrasias das autoridades monetárias estadunidenses se os ventos batem em outra direção?

sábado, 24 de maio de 2014

A Copa, a FIFA e o Círculo Vicioso da Pseudo Esquerda

Raul Longo
Uma amiga pede minha opinião sobre artigo de uma jornalista que se acredita de esquerda, mas se estivesse em Cuba seria uma Yaoni Sanchez sem tirar nem pôr. Tanto que os argumentos que apresenta contra a realização da Copa do Mundo são idênticos aos empregados pela direita. Um pouco pior porque tenta convencer que os lucros a serem aferidos pela FIFA sejam o real interesse do governo brasileiro na promoção do evento. De resto, vai por onde qualquer Eliane Catanhede iria.
Conforme demonstro à amiga, a meu ver os niilistas que se acreditam e se anunciam como esquerda são mais prejudiciais ao país e à própria esquerda, do que os de direita. Razão do porque divulgo este comentário. Só não reproduzo o artigo que o motivou porque não traz nada de novo, apenas mais do mesmo. Mas disponho adiante das minhas, outras considerações mais elucidativas.   

Para ser esquerda não precisamos ser estúpidos e é uma evidente estupidez criticar os lucros de megaeventos promovidos por instituições capitalistas. Evidentemente uma instituição capitalista nunca realizará um empreendimento que não tenha como finalidade o lucro. E a instituição capitalista que promove megaeventos, consequentemente pretende aferir “megalucros”, lucros proporcionais às dimensões do empreendimento promovido.

Por burrice ou ingenuidade, seja qual for o motivo para questionar essa realidade não mudará a realidade.

A FIFA já anunciou que a Copa do Mundo de 2018 será na Rússia e a de 2022 no Qatar. Por que a Rússia e o Qatar foram as escolhidas e não as demais nações concorrentes: Inglaterra, Holanda, Bélgica, Portugal e Espanha? A resposta é muito simples: lucratividade.

Mas e a Ucrânia? As indisposições entre Estados Unidos e Rússia por causa a Ucrânia? Bem... Há aí um evidente desprestígio político para o capitalismo estadunidense, mas entre a política e o lucro o capitalismo fica com sua essência ideológica: o lucro. E a FIFA desde que surgiu sempre foi e continuará sendo uma instituição capitalista. Não é preciso recontar sua história para tentar provar o que ninguém ignora ou desacredita.

Mesmo que resolva destinar parte dos lucros aferidos em uma Copa do Mundo para o combate à miséria, a FIFA continuará sendo uma instituição capitalista. Acusá-la pela lucratividade alcançada nos certames quadrienais que promove há muitas décadas é um discurso vazio e inútil.

Dada essa realidade insofismável não é de estranhar ter elegido Rússia e Qatar para as próximas copas, eliminando as demais proponentes, pois todas as Copas do Mundo foram feitas para gerar lucros à FIFA que se nunca realizou o megaevento em países em má condição financeira, não o fará agora.

Portanto a escolha da FIFA demonstra que a Rússia vai muito bem financeiramente e não será arranhada pelos embargos dos Estados Unidos e da União Europeia por causa da Ucrânia. E também demonstra que a situação financeira dos embargantes não apresenta sinais de restabelecimento em médio prazo, até pelo adiantado do anúncio de onde os jogos serão sediados em 2022.

Disso tudo se conclui ser burrice da oposição de pretensa esquerda criticar a realização da Copa do Mundo no Brasil a partir dos lucros a serem aferidos pela FIFA.  Deviam se limitar a fazer coro às críticas da direita, apesar de que a direita, por ideologia, não possa apontar os lucros da FIFA como motivo de oposição à realização da Copa, afinal a direita é capitalista e também tem no lucro sua essencialidade ideológica.

A burrice está no fato de que ao criticar o evento pelos lucros da FIFA, contradizem a eles mesmos quando acusam o governo do PT de ineficiente. Se no início do governo Lula éramos umas das maiores dívidas externas mundiais e no decorrer de seu mandato fomos escolhidos pela FIFA como sede para o evento, evidentemente o governo Lula foi muito eficiente.

Mas isso é o de menos! Apenas confirma a insuficiência de raciocínio da dita esquerda de oposição. O pior é quando afetam a imagem da verdadeira esquerda brasileira, dando razão aos que acusam a esquerda em geral de desonesta e oportunista. Ao tentar dar a impressão de que os lucros da FIFA sejam gerados a partir de prejuízos ao povo, transmitem a impressão de que toda a esquerda é mesmo uma grande mentira.

Apesar de fácil de desmentir, deveriam parar naquela conversa mole da direita de que os gastos com os estádios onde se realizarão os jogos são em detrimento de investimentos em saúde ou educação. Deviam ficar apenas nisso, ainda que a população já tenha compreendido que esses gastos não são públicos e, embora financiados pelo BNDES, também não são um presente do Brasil para a FIFA que os restituirá com juros. Deveriam se limitar ao discurso empregado pela direita, mesmo com a comprovação de que nenhum outro governo investiu tanto em educação e saúde quanto se investe atualmente e do andamento de inúmeras obras de infraestrutura em locais distantes das capitais que hospedarão os jogos. Além, claro, do legado de muitas décadas depois aos cidadãos das cidades-sede da Copa.

Não por mais honesta, mas por mais esperta ou menos estúpida, a direita não comete a besteira de tentar sugerir que os lucros da FIFA seriam aferidos através de prejuízos à população. Desde o primeiro campeonato mundial de futebol ou da primeira Olimpíada, qual povo foi prejudicado por estes eventos? O governo de qual país recusou algum desses eventos baseado em exemplos de prejuízos aos povos em realizações anteriores?

Ainda que um ou outro país, por deficiência de suas administrações, não tenha obtido ou desenvolvido mais positivos e perenes benefícios, em qual o povo foi lesado? Quando alguém que se reivindica como esquerda tenta dar essa impressão, evidentemente falaciosa e especulativa, acaba promovendo a ideia tão explorada pela direita de que toda a esquerda é desonesta e voltada apenas para os próprios fins que buscam atingir através de quaisquer meios por mais falaciosos e inconsequentes sejam.

O niilismo dos que se confundem como esquerdas depõe muito mais contra as reais ideologias de esquerda do que todo o discurso da direita. A direita se compreende, mas o niilista sempre acaba se demonstrando incapaz e desinteressado em compreender até a si próprio.

Todos os megaeventos internacionais sempre têm um significado político muito forte, sobretudo as realizações da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Por exemplo, não dá mais para se considerar a África do Sul com o mesmo desrespeito com que os especuladores e piratas internacionais consideram as demais nações africanas.  Claro que a eleição da África do Sul para aquela copa adveio da positiva projeção internacional de Nelson Mandela, tanto quanto Copa e Olimpíadas no Brasil advieram da projeção de Luís Ignácio Lula da Silva, mas estes eventos confirmam uma representatividade internacional que incomoda a determinados interesses estrangeiros motivando a utilização da imprensa do hemisfério norte para explorar ao máximo as deficiências do governo sul-africano no aproveitamento do legado da Copa realizada naquele país, procurando transferi-los como uma previsão para o Brasil.

Isso é compreensível e não é apenas aí, nas realizações dos jogos da Copa e das Olimpíadas, que os prenúncios da hemisférica inversão da hegemonia política e econômica têm merecido acentuados detrimentos pelos porta-vozes das concentrações de capital. Também se pode entender que a matilha colonizada uive seus lamentos em resposta aos ladrares de seus alfas do hemisfério norte.  Mas porque alguém que se diz esquerda tenta traçar o mesmo paralelo imaginário? Será aquele complexo de vira-lata desenvolvido entre as vítimas da colonização de consciência promovida pela direita?

Fedem como cães molhados de chuva, mas se espojam em ideologias para não se assustarem com a própria natureza que também desconhecem. Alguns, com a maturidade, acabam se reconhecendo como reais direita, outros vão continuar se enganando até o fim, em busca de uma auto-afirmação que nunca chegará porque se tornarem esquerdas de verdade, pode ter acontecido em alguns casos, mas são bastante raros.

Talvez fosse o caso de se perguntar se foram os Jogos Olímpicos de Moscou que determinaram o fim da União Soviética? Ou se os de Pequim ofereceram algum risco ao regime chinês? Mas é perda de tempo, porque niilistas não são capazes de responder nem por eles mesmos.

Os motivos dos esforços da direita em denegrir o evento são evidentes, afinal estamos em ano eleitoral. Da reduzida, porem existente real esquerda de oposição, vi algumas críticas pontuais sobre determinadas medidas de que discordam, mas nada contra o evento em si. Inteligente e consequente, mesmo que opondo-se ao governo a verdadeira esquerda sabe da importância dessa realização para o povo brasileiro.  E respeita o povo brasileiro.


Niilista não respeita nada e quando não se limitam em apenas repetir os discursos da direta, conseguem piorá-los.

Muito se fala que o Brasil tem de apreender com bons sucessos das Copas anteriores e também com o que é apontado como insuficiente e mal administrado pela África do Sul. Ainda assim, há ressalvas, como nesse parágrafo de uma matéria bastante crítica aos resultados da Copa do Mundo naquele país, publicada no portal do UOL,: Pesquisas feitas após a Copa do Mundo mostram que a imagem da África do Sul melhorou com o torneio. Mais de oitenta por cento das pessoas que viram o Mundial afirmaram que visitariam o país...”

Todos os demais parágrafos criticam acidamente a persistência de diversos problemas sociais já anteriores ao evento, mas nenhum confere quaisquer desses problemas ou algum agravamento e surgimento de novos àquela realização. No entanto, já li outras matérias com depoimentos de populares sul-africanos comentando grandes benefícios em seus cotidianos através do legado deixado pela Copa daquele país.

Claro que a realização de uma Copa do Mundo não resolverá todos os problemas de uma nação, mas concluo que se toda África do Sul não pode tirar maiores benefícios, tampouco aquela população foi prejudicada e ao menos os cidadãos das cidades que sediaram os jogos usufruem de melhorias no que antes já existia e com a implantação de novos serviços anteriormente inexistentes.

Utilizar a África do Sul como exemplo para o que possa acontecer com a Copa no Brasil demonstra claramente a inconsequência dos niilistas. E os mesmos preconceitos daqueles que acreditam que só os países do hemisfério norte tem capacidade para grandes empreendimentos.

Nessa linha de ausência de raciocínio dos colonizados pretensamente de esquerda, nenhum outro país se interessaria em Olimpíadas depois da de Munique em 1972, para não correr o risco de atentados terroristas. Sempre arrojados ao lucro, aos menos nessa esparrela os da direita não caem.


Também vale lembrar que nunca tantas cidades de um único país foram programadas para os jogos da Copa, com consequente implantação de melhorias nos mais diversos setores de serviços prestados às populações. Além de que, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, ou do Maracanã à Arena Pantanal há uma distância que certamente os niilistas jamais poderiam dimensionar, já que não se dimensionam nem a si mesmos e por mais aproximados à direita, acreditem-se no extremo oposto.

Pode ser, considerando que o extremo oposto do ponto de um círculo fica ao lado. E isso é vicioso.  


terça-feira, 20 de maio de 2014

O Comercial do PT e o Real Terrorismo

Observo as repercussões em torno do comercial do PT que fala nos “fantasmas do passado”. (veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Aif1uBVaekg)
Colunistas de oposição e os candidatos Aécio e Eduardo Campos criticam duramente.
Emerge a palavra “terrorismo”. O comercial estaria sendo terrorista ao sugerir o retrocesso social que ocorreria no país no caso de derrota de Dilma.
debate político no Brasil parece surreal, às vezes.
O que se espera de um comercial do PT? Que afirme que as coisas vão melhorar se Aécio ganhar?
Ora, um comercial é um comercial. Ou será que algum vídeo do PSDB vai comemorar avanços do PT e pedir mais quatro anos para Dilma?
Curiosamente, os roteiristas do comercial do PT parecem ter sido Aécio e seu mentor econômico, Armínio Fraga.
Numa das falas mais desastradas da história moderna nacional, ele prometeu triunfante, num jantar do 1%, medidas impopulares.
Aécio não usou de eufemismo. Não disse que ia rever mecanismos fiscais ou coisa parecida. Jurou medidas impopulares, sob aprovação ululante dos companheiros de jantar, entre os quais FHC.
Depois, também sem circunlóquios, Fraga afirmou que o salário mínimo está muito alto. Repetiu um lugar comum da ditadura, segundo o qual se você mexesse no salário mínimo a economia entraria em pane.
Me dê opositores como Aécio e Armínio Fraga e eu vou ficar eternamente no poder.
Na Escandinávia, segundo um levantamento que saiu esta semana, a hora de trabalho custa em média 40 euros, uns 120 reais. E a economia nórdica floresce, com pessoas sorridentes e bem vestidas indo trabalhar em suas bicicletas.
No Brasil, paraíso da desigualdade, o custo da hora trabalhada é várias vezes menor que o escandinavo, cerca de 20 reais. Mesmo assim, Fraga consegue dizer que o salário mínimo aumentou muito.
Isso sim é terrorismo.
Uma das conquistas sociais indiscutíveis do PT foi a recuperação do salário mínimo. Em 2002, o mínimo era 200 reais. Hoje, é 724. Desconte a inflação do período, e mesmo assim o que se registrou foi um efetivo crescimento.
O que teria ocorrido com o mínimo caso a mentalidade de Armínio Fraga tivesse comandado o Brasil nestes anos de recomposição?
Não seria muito diferente da distopia apresentada no comercial do PT.
Era assim, embora a mídia pareça gostar de imaginar que éramos a Escandinávia nos tempos de FHC.
O DCM criticou muitas vezes a velocidade dos avanços sociais do PT. Mas que houve avanço – menor do que o que deveria ter havido, a nosso ver – isso é inegável.
Mas o que Aécio promete, com suas “medidas impopulares”, é um brutal retrocesso.
Isto sim é terrorismo, repito.

domingo, 18 de maio de 2014

O Discurso de Lula

Lula da Silva do Brasil 
A democratização da publicidade oficial do governo e a importância dos jornais do interior foram os principais temas do discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta terça-feira (13), na abertura do 2º Congresso dos Diários do Interior organizado pela Associação dos Diários do Interior do Brasil em Brasília.
Para baixar fotos em alta resolução, visite o Picasa do Instituto Lula.
Lula abriu seu discurso falando sobre as mudanças do Brasil nos últimos 11 anos e do papel que a imprensa tem ao transmitir essas mudanças para a população. “Isso não se faz sem uma imprensa regional fortalecida, voltada para aquela grande parcela do país que não aparece nas redes de TV”.
O ex-presidente falou que a imprensa regional é responsável por fazer chegar ao interior a realidade do Brasil atual. “São os jornais do interior, e não os veículos nacionais, que traduzem essa realidade”.
Ele lembrou ainda que uma das mudanças mais importantes destes 11 anos foi democratização do critério de programação da publicidade oficial do governo. “Esta medida encontrou muito mais resistências do que poderíamos imaginar, embora ela tenha sido muito importante para aumentar a eficiência da comunicação de governo”, disse.
Leia abaixo o discurso na íntegra:
É sempre um prazer dialogar com os jornalistas e empresários da imprensa regional brasileira. Por isso agradeço o convite da Associação dos Diários do Interior do Brasil para participar desse Congresso.
Vocês acompanharam as transformações que ocorreram no Brasil nesses 11 anos e que beneficiaram o conjunto do país, não apenas os privilegiados de sempre ou as grandes capitais.
Sabem exatamente como essa mudança chegou às cidades médias e aos mais distantes municípios.
O Brasil antigo, até 2002, era um país governado para apenas um terço dos brasileiros, que viviam principalmente nas capitais. A grande maioria da população estava condenada a ficar com as migalhas; excluída do processo econômico e dos serviços públicos, sofrendo com o desemprego, a pobreza e a fome.
Os que governavam antes de nós diziam que era preciso esperar o país crescer, para só depois distribuir a riqueza. Mas nem o país crescia o necessário nem se distribuía a riqueza.
Nós invertemos essa lógica perversa, adotando um modelo de desenvolvimento com inclusão social. Criamos o Fome Zero e o Bolsa Família, que hoje é um exemplo de combate à pobreza em muito países.
Adotamos uma política de valorização permanente do salário e de expansão do crédito, que despertaram a força do mercado interno, e ao mesmo tempo garantimos a estabilidade, controlando a inflação e reduzindo a dívida pública.
O resultado vocês conhecem: 36 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza, 42 milhões alcançaram a classe média e mais de 20 milhões de empregos foram criados.
O Brasil não é mais um país acanhado e vulnerável. Não é mais o país que seguia como um cordeirinho a política externa ditada de fora. Não é só o país do futebol e do carnaval, embora tenhamos orgulho da alegria e do talento do nosso povo.
O Brasil tornou-se um competidor global – e isso incomoda muita gente, contraria interesses poderosos.
A imprensa cumpre o importante papel de traduzir essa nova realidade para a população. E isso não se faz sem uma imprensa regional fortalecida, voltada para aquela grande parcela do país que não aparece nas redes de TV.
Todo governo democrático tem a obrigação de prestar contas de seus atos à sociedade. E tem obrigação de divulgar os serviços públicos à disposição da população.
A publicidade oficial é o instrumento dessa divulgação, que se faz em parceria com os veículos de imprensa – desde a maior rede nacional até os jornais do interior profundo do país.
Uma das mudanças mais importantes que fizemos nestes 11 anos foi democratizar o critério de programação da publicidade oficial.
Quero recordar que esta medida encontrou muito mais resistências do que poderíamos imaginar, embora ela tenha sido muito importante para aumentar a eficiência da comunicação de governo.
Essa medida foi também uma questão de justiça, para reconhecer a importância do interior no desenvolvimento do Brasil.
Quando o companheiro Luiz Gushiken, que era o ministro da Secom em meu primeiro mandato, começou a democratizar a publicidade oficial, muita gente foi contra.
As agências de publicidade, os programadores de mídia e os representantes dos grandes veículos achavam que era uma mudança desnecessária.
Reclamaram quando o Luiz Dulci incluiu a imprensa regional na programação de publicidade do governo federal.
E reclamaram ainda mais quando o Franklin Martins aprofundou a política de democratização da publicidade, abrangendo as empresas estatais.
Diziam que para falar com o Brasil bastava anunciar nos jornais de circulação nacional e nas redes de rádio e TV.
Hoje é fácil ver como estavam errados, pois a imprensa regional está cada vez mais forte. São 380 diários que circulam 4 milhões de exemplares por dia, de acordo com os dados da ADI-Brasil.
Isso ocorre porque temos políticas que levam progresso e inclusão social ao interior do país.
De cada 3 empregos criados no ano passado, 2 se encontram em cidades do interior e apenas 1 nas regiões metropolitanas.
Nunca antes o governo federal investiu tanto no desenvolvimento regional, para combater desequilíbrios injustos e injustificáveis.
Nunca antes a relação entre o governo federal, os Estados e as prefeituras foi tão republicana quanto nestes 11 anos.
E são jornais do interior – e não os veículos nacionais – que traduzem essa realidade.
Quando chegamos ao governo, a publicidade oficial era veiculada em anunciava em 249 rádios e jornais. Em 2009, o governo federal já estava anunciando em 4.692 rádios e jornais de todo o país.
Meus amigos, minhas amigas
Pediram-me para contar aqui uma experiência com a imprensa regional no período em que fui presidente da República. Vou contar o que aprendi comparando a cobertura da imprensa regional com a que fazem os grandes jornais.
Quando o Luz Pra Todos chega numa localidade rural ou numa periferia pobre, está melhorando a vida daquelas pessoas e gerando empregos. Isso é uma notícia importante para os jornais da região.
Os grandes jornais nunca deram valor ao Luz Pra Todos, mas quando o programa superou todas as expectativas e alcançou 15 milhões de brasileiros, um desse jornais deu na primeira página: “1 milhão de brasileiros ainda vivem sem luz”. Está publicado, não é invenção.
Onde é que estava esse grande jornal quando 16 milhões de brasileiros não tinham luz?
Quando chega o momento de plantar a próxima safra, são os jornais regionais que informam sobre as datas, os prazos, os juros e as condições de financiamento nas agências bancárias locais.
Mas na hora de informar à sociedade que em 11 anos o crédito agrícola passou de R$ 30 bilhões para R$ 157 bilhões, o que a gente lê num grande jornal é que a inflação pode aumentar porque o governo está expandindo o crédito.
Quando uma agência bancária da sua cidade recebe uma linha do BNDES pra financiar a compra de tratores e veículos pelo Mais Alimentos, vocês sabem que isso aumenta a produtividade e aquece o comércio local. É uma boa notícia.
Mas quando o programa bate o recorde de 60 mil tratores e 50 mil veículos financiados, a notícia em alguns jornais é que o governo “está pressionando a dívida interna bruta”.
Quando nasce um novo bairro na cidade, construído pelo Minha Casa Minha Vida, essa é uma notícia local muito importante.
Mas um programa que contratou 3 milhões de unidades, e já entregou mais da metade, só aparece na TV e nos grandes jornais se eles encontram uma casa com goteira ou um caso qualquer de desvio.
Quando o governo federal inaugura um hospital regional, isso é manchete nos jornais de todas as cidades daquela região. O mesmo acontece quando chega o SAMU ou um posto do Brasil Sorridente.
Mas lendo os grandes jornais é difícil ficar sabendo das quase 300 UPAs, 3 mil ambulâncias do SAMU e mais de mil consultórios odontológicos que foram abertos por todo o país nestes 11 anos.
A maior cobertura de políticas públicas que os grandes jornais fizeram, nesse período, foi para apoiar o fim da CPMF, que tirou R$ 50 bilhões anuais do orçamento da Saúde.
Quando sua cidade recebe profissionais do Mais Médicos, vocês sabem o que isso representa para os que estavam desatendidos. Vão entrevistar os médicos, apresentá-los à população.
Mas quando 15 mil profissionais vão atender 50 milhões de pessoas no interior do país, a imprensa nacional só fala daquela senhora que abandonou o programa por razões políticas, ou daquele médico que foi falsamente acusado de errar numa receita.
Quando um novo câmpus universitário é aberto numa cidade, os jornais da região dão matérias sobre os novos cursos, as vagas abertas, debatem o currículo, acompanham o vestibular.
Lendo os grandes jornais é difícil ficar sabendo que nestes 11 anos foram criadas18 novas universidades e abertos 146 novos campi pelo interior do país.
É nos jornais do interior que se percebe a mudança na vida de milhões de jovens, porque eles não precisam mais sair de casa, deixar para trás a família e os valores, para cursar a universidade.
O número de universitários no Brasil dobrou para 7 milhões, graças ao Prouni, ao Reuni e ao FIES. Os grandes jornais não costumam falar disso, mas são capazes de fazer um escândalo quando uma prova do ENEM é roubada de dentro da gráfica – que por sinal era de um dos maiores jornais do país.
Quando uma escola técnica é aberta numa cidade do interior, essa é uma notícia muito importante para os jovens e para os seus pais, e vai sair com destaque em todos os jornais da região.
Quando eu informo que nesses 11 anos já abrimos 365 escolas técnicas, duas vezes e meia o que foi feito em século neste país, os grandes jornais dizem apenas que o Lula “exaltou o governo do PT e voltou a atacar a oposição”.
Quando chega na sua cidade um ônibus, um barco ou um lote de bicicletas para transportar os estudantes da zona rural, essa é uma boa notícia.
O programa Caminho da Escola já entregou 17 mil ônibus, 200 mil bicicletas e 700 embarcações, para transportar 2 milhões de alunos em todo o país. Mas só aparece na TV se faltar combustível ou se o motorista do ônibus não tiver habilitação.
Eu costumo dizer que os grandes jornais me tratam muito bem. Mas eu gostaria mesmo é que mostrassem as mudanças que ocorrem todos os dias em todos os cantos do Brasil.
Meus amigos, minhas amigas,
Quanto mais distante estiver da realidade, mais vai errar um veículo de comunicação. Basta ver o que anda publicando sobre o Brasil a imprensa econômica e financeira do Reino Unido.
O país deles tem uma dívida de mais de 90% do PIB, com índice recorde de desemprego, mas eles escrevem que o Brasil, com uma dívida líquida de 33%, é uma economia frágil.
Não conheço economia frágil com reservas de US$ 377 bilhões, inflação controlada, investimento crescente e vivendo no pleno emprego.
Escrevem que os investidores não confiam no Brasil, mas omitem que somos um dos cinco maiores destinos globais de investimento externo direto, à frente de qualquer país europeu.
Dizem que perdemos o rumo e devemos seguir o exemplo de países obedientes à cartilha deles. Mas esquecem que desde 2008, enquanto o mundo destruiu 62 milhões de postos de trabalho, o Brasil criou mais de 10 milhões de novos empregos.
O que eu lamento é que alguns jornalistas brasileiros fiquem repetindo notícias erradas que vêm de fora, como bonecos de ventríloquo. Isso é ruim para a imprensa, porque o público sabe distinguir o que é realidade do que não é.
Alguns jornalistas dos grandes veículos passaram o ano de 2013 dizendo que a inflação ia estourar, mas ela caiu. Passaram o ano dizendo que a inadimplência ia explodir, mas ela também caiu.
Diziam que o desemprego ia crescer, e nós terminamos o ano com a menor taxa da história. Chegaram a dizer que o Brasil entraria em recessão, mas a economia cresceu 2,3%, numa conjuntura internacional muito difícil.
Eu gostaria que esses jornalistas viajassem pelo interior do país, conhecessem melhor a nossa realidade, estudassem um pouco mais de economia, antes de repetir previsões pessimistas que não se confirmam.
E vou continuar defendendo a liberdade de imprensa e o direito de opinião, porque sei que, mesmo quando erra, a imprensa livre é protagonista essencial de uma sociedade democrática.
Meus amigos, minhas amigas,
A democracia é o único sistema que permite transformar um país para melhor. E ela não existe sem que as pessoas participem diretamente da vida política. Por isso digo sempre aos jovens: se querem mudar a política, façam política. E façam de um jeito melhor, diferente. Negar a política é o caminho mais curto para abolir a democracia.
Aprimorar a democracia significa também garantir ao cidadão o direito à informação correta e ao conhecimento da diversidade de ideias, numa sociedade plural. Esse tema passa pela construção do marco regulatório da comunicação eletrônica, conforme previsto na Constituição de 1988.
O Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962, quando no país inteiro havia apenas 2 milhões de aparelhos de TV. Como diz o Franklin Martins, havia mais televizinhos do que televisores.
É de um tempo em que não havia rádio FM, não havia computadores, não havia internet. De um tempo em que era preciso marcar hora para fazer interurbano.
No Brasil de hoje é preciso garantir a complementariedade de emissoras privadas, públicas e estatais. Promover a competição e evitar a contaminação do espectro por interesses políticos. Estimular a produção independente e respeitar a diversidade regional do país.
Uma regulação democrática vai incentivar os meios de comunicação de caráter comunitário e social, fortalecer a imprensa regional, ampliar o acesso à internet de banda larga. Por isso foi tão importante aprovar o Marco Civil da Internet.
Este é o desafio que se apresenta aos meios de comunicação, seus dirigentes e seus profissionais, nesse novo Brasil: o desafio de ser relevante num país com uma população cada vez mais educada, com um nível de renda que favorece a independência de opinião e com acesso cada vez mais amplo a outras fontes de informação.
Quero cumprimentar a ADI-Brasil, mais uma vez, pela realização desse Congresso, e dar os parabéns aos seus associados, que levam notícias para a população do interior desse imenso país.
Muito obrigado.