quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Barroso É o Personagem do Dia

Luiz Roberto Barroso fez o óbvio, apenas.
Mas o óbvio, num ambiente envenenado por Joaquim Barbosa, a voz jurídica do 1%, é muito.
Por isso, imito Nelson Rodrigues e faço de Barroso meu Personagem do Dia.
Estava na cara que figuras como Dirceu, Genoino e Delúbio não haviam formado quadrilha. Tecnicamente, a acusação jamais se sustentou.
Mas eles estavam sendo condenados por isso a penas estapafúrdias num julgamento que é a maior vergonha da história dos tribunais. Quando até um jurista conservador como Yves Gandra Martins acusa o julgamento de ser uma farsa é que todos os degraus do escárnio foram percorridos.
Barroso liderou hoje, no STF, a retomada da sensatez, do bom senso. Foi claro como tinha que ser: a  ”quadrilha” foi o mecanismo espúrio encontrado para aumentar absusivamente as sentenças para garantir a prisão dos “mensaleiros”.
Brasileiros adeptos da justiça gostaram. JB, como se viu, não. Foi grosseiro e inconveniente com Barroso.
Conseguiu acusá-lo de chegar à sessão com o “voto pronto” – como se todos os votos de JB ao longo do caminho não estivessem prontos muito antes de ele se sentar.
Você sabe como JB vai votar. E como ele vai agir: sempre perseguirá odiosamente, por exemplo, Dirceu e Genoino.
Muito mais que juiz, ele acabou se revelando um carrasco. Por isso, não poderia ser pior como presidente do STF. Sua saída da presidência – e provavelmente da corte para se candidatar a alguma coisa – vai ser uma benção para o país.
Você conhece a estatura de uma pessoa pelo caráter dos que a admiram. Joaquim Barbosa é admirado – ou manipulado – pelo que há mais de retrógrado e egoísta no Brasil.
A esperança que a direita tinha de transformá-lo num ídolo capaz de arrebatar multidões virou pó em pouco tempo. JB provoca repulsa, e não entusiasmo.
Barroso, em compensação, foi ganhando relevância como o anti-Barbosa no STF. Neste papel, acabou sendo mais eficaz que Lewandowski.
A mim, pessoalmente, Barroso foi uma surpresa agradável. Sua ligação com a Globo – foi advogado da Abert, órgão de lobby da emissora – me incomodou desde sempre.
Li um artigo de Barroso no Globo em que ele defendia a reserva de mercado com argumentos risíveis como o de que os chineses poderiam fazer propaganda maoísta caso comprassem uma televisão no Brasil.
Pausa para rir.
Mas ele não virou um rábula da Globo – mais um – no STF, isto é fato. Ou pelo menos é o que parece.
Na discussão sobre a formação de quadrilha, ele comandou a mais espetacular derrota de Barbosa em sua calamitosa presidência.
A sessão foi suspensa quando o placar era 4 a 1 a favor de Barroso – e da justiça. Tudo indica que a maioria de 6 vai ser alcançada com facilidade amanhã.
Por ter enquadrado Barbosa, por ter trazido alento a milhões de brasileiros que já não suportam uma figura tão cheia de ódio e tão vinculada aos privilegiados que impedem o avanço social, Barroso é o Personagem do Dia.

O Que É Um Golpe De Estado

É MEU DEVER DIZER AOS JOVENS O QUE É UM GOLPE DE ESTADO
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Há cheiro de 1964 no ar. Não apenas no Brasil, mas também nas vizinhanças. Acho então que é chegada a hora de dar o meu depoimento.
Dizer a vocês, jovens de 20, 30, 40 anos de meu Brasil, o que é de fato uma ditadura.
Se a Ditadura Militar tivesse sido contada na escola, como são a Inconfidência Mineira e outros episódios pontuais de usurpação da liberdade em nosso país, eu não estaria me vendo hoje obrigada a passar sal em minhas tão raladas feridas, que jamais pararam de sangrar.
Fazer as feridas sangrarem é obrigação de cada um dos que sofreram naquele período e ainda têm voz para falar.
Alguns já se calaram para sempre. Outros, agora se calam por vontade própria. Terceiros, por cansaço. Muitos, por desânimo. O coração tem razões…
Eu falo e eu choro e eu me sinto um bagaço. Talvez porque a minha consciência do sofrimento tenha pegado meio no tranco, como se eu vivesse durante um certo tempo assim catatônica, sem prestar atenção, caminhando como cabra cega num cenário de terror e desolação, apalpando o ar, me guiando pela brisa. E quando, finalmente, caiu-me a venda, só vi o vazio de minha própria cegueira.
Meu irmão, meu irmão, onde estás? Sequer o corpo jamais tivemos.
Outro dia, jantei com um casal de leais companheiros dele. Bronzeados, risonhos, felizes. Quando falei do sofrimento que passávamos em casa, na expectativa de saber se Tuti estaria morto ou vivo, se havia corpo ou não, ouvi: “Ah, mas se soubessem como éramos felizes… Dormíamos de mãos dadas e com o revólver ao lado, e éramos completamente felizes”. E se olharam, um ao outro, completamente felizes.
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Ah, meu deus, e como nós, as famílias dos que morreram, éramos e somos completamente infelizes!
A ditadura militar aboletou-se no Brasil, assentada sobre um colchão de mentiras ardilosamente costuradas para iludir a boa fé de uma classe média desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da mídia, que antevia uma “invasão vermelha”, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava célere em nossa direção, era uma frota americana.
Deu-se o golpe! Os jovens universitários liberais e de esquerda não precisavam de motivação mais convincente para reagir. Como armas, tinham sua ideologia, os argumentos, os livros. Foram afugentados do mundo acadêmico, proibidos de estudar, de frequentar as escolas, o saber entrou para o índex nacional engendrado pela prepotência.
As pessoas tinham as casas invadidas, gavetas reviradas, papéis e livros confiscados. Pessoas eram levadas na calada da noite ou sob o sol brilhante, aos olhos da vizinhança, sem explicações nem motivo, bastava uma denúncia, sabe-se lá por que razão ou partindo de quem, muitas para nunca mais serem vistas ou sabidas. Ou mesmo eram mortas à luz do dia. Ra-ta-ta-ta-tá e pronto.
E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.
Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre “as malas do Golbery” ou “as comissões das turbinas”, “as compras de armamento”. Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.
E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.
Minha família se dilacerou. Meu irmão torturado, morto, corpo não sabido. Minha mãe assassinada, numa pantomima de acidente, só desmascarada 22 anos depois, pelo empenho do ministro José Gregory, com a instalação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos no governo Fernando Henrique Cardoso.
Meu pai, quatro infartos e a decepção de saber que ele, estrangeiro, que dedicou vida, esforço e economias a manter um orfanato em Minas, criando 50 meninos brasileiros e lhes dando ofício, via o Brasil roubar-lhe o primogênito, Stuart Edgar, somando no nome homenagens aos seus pai e irmão, ambos pastores protestantes americanos – o irmão, assassinado por membro louco da Ku Klux Klan. Tragédia que se repetia.
Minha irmã, enviada repentinamente para estudar nos Estados Unidos, quando minha mãe teve a informação de que sua sala de aula, no curso de Ciências Sociais, na PUC, seria invadida pelos militares, e foi, e os alunos seriam presos, e foram. Até hoje, ela vive no exterior.
Barata tonta, fiquei por aí, vagando feito mariposa, em volta da fosforescência da luz magnífica de minha profissão de colunista social, que só me somou aplausos e muitos queridos amigos, mas também uma insolente incompreensão de quem se arbitrou o insano direito de me julgar por ter sobrevivido.
Outra morte dolorida foi a da atriz, minha verdadeira e apaixonada vocação, que, logo após o assassinato de minha mãe, precisei abdicar de ser, apesar de me ter preparado desde a infância para tal e já ter então alcançado o espaço próprio. Intuitivamente, sabia que prosseguir significaria uma contagem regressiva para meu próprio fim.
Hoje, vivo catando os retalhos daquele passado, como acumuladora, sem espaço para tantos papéis, vestidos, rabiscos, memórias, tentando me entender, encontrar, reencontrar e viver apesar de tudo, e promover nessa plantação tosca de sofrimentos uma bela colheita: lembrar os meus mártires e tudo de bom e de belo que fizeram pelo meu país, quer na moda, na arte, na política, nos exemplos deixados, na História, através do maior número de ações produtivas, efetivas e criativas que eu consiga multiplicar.
E ainda há quem me pergunte em quê a Ditadura Militar modificou minha vida!
Hildegard Angel
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O primeiro parágrafo original deste texto, que fazia referência à possível iminente tomada do poder de um governo eleito democraticamente, na Venezuela, foi trocado pela frase sucinta aqui vista agora, às 15h06m deste dia 24/02/2014, porque o foco principal do assunto (a ditadura brasileira) foi desviado nos comentários. Meus ombros já são pequenos para arcarem com a nossa tragédia. Que dirá com a da Venezuela!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O STF e a Parábola Sobre a Quadrilha

Paulo Moreira Leite

by bloglimpinhoecheiroso
Você pode ter a opinião que quiser sobre os condenados da AP 470. Mas não pode dizer que se uniram para “o fim de cometer crimes”.
Paulo Moreira Leite em seu blog
O Supremo encara na quarta-feira, dia 26, o debate sobre os embargos infringentes contra a condenação de crime de quadrilha contra os réus da Ação Penal 470. Conforme o artigo 288 do Código Penal, quadrilha é uma associação de “três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes”.
A condenação por este crime é inaceitável.
Você pode ter a opinião que quiser sobre os réus da AP 470. Pode dizer que eles cometeram delitos e mesmo crimes. Mas não pode dizer que se articularam “para o fim de cometer crimes”. A menos, claro, que pretenda criminalizar a atividade política.
A atividade dos condenados não era cometer crimes, mas fortalecer e consolidar um projeto político. É uma diferença que a maioria da população distingue com clareza. Essa distinção explica as três vitórias eleitorais consecutivas obtidas pelo condomínio Lula-Dilma e, a julgar pelas pesquisas eleitorais mais recentes, pode lhe dar a quarta eleição em outubro, feito inédito desde a proclamação da República, em 1889.
A menos que você tenha uma visão preconceituosa sobre os valores do brasileiro, como sugerem tantos antropólogos de botequim e até alguns de nossa academia, irá reconhecer que isso acontece porque a população reconhece os benefícios produzidos pelas mudanças de natureza social e econômica que foram feitas no país. Aprova a distribuição de renda, a queda da desigualdade, o menor desemprego em muitos anos de história.
É disso que estamos falando.
É errado dizer que erros e ilegalidades que podem ser apontados no processo eram o “fim” do projeto. Embora seja possível concordar com a noção de que mais vantajoso do que assaltar um banco é fundar um, uma instituição financeira que cobra taxas indevidas de seus clientes deve ser punida pelos desvios cometidos mas não vamos dizer que é uma “quadrilha”, certo?
Uma empresa que não paga direitos trabalhistas aos empregados deve ser acionada na Justiça, mas não vamos dizer que seus executivos formam uma “quadrilha”, não é mesmo?
Falar em quadrilha, na AP 470, não é correto, quando a melhor prova do “fim” é um Land Rover de um acusado de periculosidade afinal tão relativa que sequer foi incluído entre os 40 réus da AP 470. Ou quando José Genoíno, um dos principais chefes, conforme a denúncia, reside numa casa modesta na Previdência, em São Paulo, comprada a prestações na Caixa Econômica.
Imagine que até hoje não se falou num único projeto do governo Lula que tenha sido aprovado pela “compra de votos”. Nenhum. Com toda sua retórica, o delator Roberto Jefferson não citou um único caso.
Quem fala da Previdência apenas demonstra que caiu num conto do vigário e desconhece um fato político elementar. Com as mudanças na Previdência o governo Lula aderiu às propostas de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
O problema de seu governo, então, não era conquistar votos adversários, que eram fartos, mas resolver o que fazer com os descontentes do próprio PT. A maioria foi enquadrada e disciplinada. Uma pequena parte fundou o PSOL.
Com tudo o que se disse e se escreveu sobre a AP 470 não se produziu nada que se compare, por exemplo, aos R$200.000,00 embolsados pelos parlamentares que venderam seus votos para aprovar a emenda da reeleição em 1997.
“Aquilo sim era compra de votos”, me disse o então deputado Pedro Correa (PP/PE), que testemunhou a presença de banqueiros que, à saída do plenário, entregavam a senha que os deputados convertidos deveriam apresentar a um doleiro.
Olha a verdadeira parábola do “mensalão” e sua quadrilha.
Dez anos depois da compra de votos da emenda da reeleição, uma parte dos vendidos de 1994 foi atrás das verbas do esquema do PT em 2004. Estavam quebrados. Aquela denúncia da emenda da reeleição virou processo na Justiça e aqueles que foram apanhados precisavam de dinheiro para pagar advogado.
Boa parte era do PP, o partido de Pedro Correa, que era contra a emenda da reeleição. Queria impedir a reeleição porque ela iria atrapalhar uma possível candidatura de Paulo Maluf. Quase dez anos depois, quando Fernando Henrique já havia deixado o Planalto, onde foi reeleito com ajuda daquela turma, o PP precisava de dinheiro para pagar a defesa dos deputados.
Hoje, condenado na AP 470, de onde seu partido tirou recursos para livrar seus colegas da cadeia, Pedro Correa cumpre pena em Pernambuco.
Cadê a quadrilha? Quem faz parte dela?
Isso só acontece porque nossa democracia mantém regras que estimulam o que é clandestino, irregular e pouco transparente. Apesar de falhas, defeitos e imperfeições, a democracia deve ser defendida de modo incondicional.
Não precisa de tutelas nem de salvadores de nenhum tipo.
As principais tentativas sérias de reformar o sistema eleitoral, impedindo relações promíscuas entre o financiamento dos partidos e o setor privado, foram bloqueadas pelos que, agora, emitem suspiros horrorizadas com as falhas e desvios com as quais conviveram alegremente por anos e anos.
Então chegamos a uma segunda parábola. Impedimos toda e qualquer mudança nas regras do jogo, mas, quando o adversário está ganhando, fazemos uma seleção sob medida para que sejam julgados e condenados sem que o direito à ampla defesa tenha sido assegurado, como observou o insuspeito jurista Ives Gandra Martins. Não devemos dar sequer o direito ao desmembramento, assegurado aos réus do PSDB/MG que não tinham direito ao foro privilegiado – situação de 34 dos 37 réus, entre os quais Dirceu e Delúbio Soares
Repare em quem se opôs com todas as forças ao debate no local adequado – o Congresso – sobre a reforma eleitoral encaminhada depois dos protestos de junho.
Repare quem dizia que o governo – mas também a OAB, o Movimento Ficha Limpa e outros – queria financiamento público exclusivo, com base no desempenho eleitoral de cada legenda, porque o PT iria beneficiar-se com isso (não pergunte, é claro, que outro critério, além do apoio popular, deveria ser empregado neste caso).
Repare em quem disse que uma reforma iria fortalecer as burocracias partidárias, fingindo desconhecer que elas são a única forma de resistência aos mercadores que adquirem parlamentares como quem compra automóvel numa concessionária.
Repare em quem se disse indignado com a possibilidade da atividade política ser financiada pelo dinheiro do contribuinte, como se não fosse claro que o dinheiro que financia campanhas é devolvido, com lucros, pelos contratos favorecidos.
Cadê a quadrilha? Quem faz parte dela?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fratura Exposta

Rafael Patto
Quando foi requerido o desmembramento da AP 470, a fim de que os réus que não possuíam prerrogativa de foro fossem julgados nas instâncias inferiores, conforme determina nossa Constituição, o pedido foi negado. Foi negado porque a acusação e o relator-inquisidor Joaquim Barbosa sabiam que a tese do “mensalão” não subsistiria ao desmembramento da ação. O enredo ficcional ficaria demasiadamente exposto. Dessa forma, constituiu-se um verdadeiro TRIBUNAL DE EXCEÇÃO, que negou aos réus o direito fundamental à ampla defesa e ao segundo grau de jurisdição.

A alegação para negar a Dirceu, por exemplo, o direito a ser julgado em primeira instância foi o fato de que as acusações pelas quais ele deveria responder se referiam à época em que ele ocupava cargo de Ministro de Estado e, portanto, detinha, naquele tempo, prerrogativa de foro.

Muito bem. E com o Sr. Azeredo, que ROUBOU dinheiro do Estado de Minas Gerais? Ele vai poder ser julgado em primeira instância depois de ter fugido feito menino covarde e renunciado ao mandato de Deputado Federal? Em relação ao Azeredão vai valer o mesmo raciocínio de que “não importa que ele não tenha hoje, no presente, prerrogativa de foro (até porque ele deixou de ter como manobra para atrasar o julgamento, porque sabe de sua culpa, diferentemente de Dirceu, que foi cassado porque se recusou a sair pela tangente, já que tinha e tem plena certeza de sua inocência)? Afinal, não estamos falando de crimes que o Sr. Azeredo cometeu quando era governador de Minas???

E aí? São dois pesos e duas medidas?

A propósito dessa discussão, o sempre lúcido e necessário Paulo Moreira Leite traz uma reflexão interessante. Para ele, não cabe agora querermos que se pratique contra Azeredo as mesmas arbitrariedades e abusos que foram cometidos contra os réus da AP 470. Por mais que sejamos levados a considerar que repetir contra tucanos os erros que foram cometidos contra petistas seja uma forma de compensar os danos causados, as coisas não são bem assim.

Se, dessa vez, o STF resolver fazer justiça de verdade (ao invés de fazer política – ou politicagem – como fez na AP 470), pode ser que fique ainda mais evidente a diferença de tratamento a casos relativamente semelhantes. Seria como uma fratura exposta, impossível de ser disfarçada. O que ensejaria uma rediscussão do caso...
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Com a palavra, Paulo Moreira Leite:
O lugar para se defender uma visão de mundo é a política e não a Justiça. Quem não compreendeu isso apenas alimenta a judicialização, que é política dos que não têm voto.

Estou convencido de que a Teoria do Domínio do Fato foi uma improvisação para se obter penas fortes a partir de provas fracas. Concordo com a visão de que as penas foram agravadas – artificialmente – apenas para permitir longas sentenças de prisão, em regime fechado. Já denunciei que, levados à prisão, vários condenados têm sido submetidos a um tratamento inadequado, e vexaminoso, apenas por “razões políticas.”
José Genoíno deveria ter sido retirado da cadeia definitivamente depois do primeiro exame médico. José Dirceu tem direito a regime semiaberto e não poderia estar trancafiado há mais de 90 dias. Por aí vai.

O erro de 9 entre os 11 ministros do STF foi cometido em agosto de 2012. Naquele momento, eles resolveram julgar réus sem direito ao foro privilegiado, tarefa que não é autorizada pela Constituição, como explica o professor Dalmo Dallari, e que se ainda mais complicada depois que eles já tinham desmembrado o julgamento do mensalão PSDB-MG.
Foi ali que se definiram caminhos diferentes para casos iguais. O resto é consequência.

A farsa de que se pretendia punir os poderosos no maior julgamento, do maior escândalo, foi construída em agosto de 2012 e não será alterada por uma decisão em 2014. Não será “corrigida” pela repetição de um erro.

Pelo contrário. Uma decisão correta, agora, pode abrir caminho para uma revisão de erros do passado. Terá o valor de uma autocrítica e não é por outro motivo, aliás, que assusta tantos campeões da AP 470. Sua técnica não é a defesa da boa lei, mas da boa aparência, aquela que mantém a sujeira embaixo do tapete.

Caso Eduardo Azeredo venha a receber um benefício negado a maioria dos réus em sua condição – só três dos 37 acusados da AP 470 deveriam ter sido julgados no STF – ficará claro que há muito para ser debatido no julgamento.

A repetição de um erro só tornará mais difícil corrigir outros erros.

Minha Cabeça Não É Latrina!!!

Comentário de Rafael Patto, no Facebook.
 
Acho que, se eu visse televisão e assistisse aos telejornais todos os dias, eu não faria outra coisa a não ser falar e falar dos absurdos que eles praticam porque, nas poucas vezes que eu vejo, eu não consigo não falar daquilo, não consigo não falar do quanto eu fico chocado.

Ontem uma "comentadora" do jornal das 10, da globonews, fez uma defesa enfática do deputado fujão Eduardo Azeredo, que correu da raia ontem para ficar impune, mesmo depois de ter ROUBADO dinheiro do povo de Minas Gerais para colocar nos cofres do seu partido, o psdb.

Ao tratarem de sua renúncia, os repórteres ouviram o deputado federal Andre Vargas (PT/PR), que disse, no trecho de suas declarações que foi ao ar, que os "mensalões" do PT e do psdb se assemelham em alguns aspectos.

Não creio que o deputado Vargas tenha querido forçar semelhanças entre um caso e outro. Acho até que sua assessoria deveria averiguar se não houve alteração do sentido da fala do deputado, já que foi fragmentada e editada.

Digo isso porque NÃO INTERESSA ao PT dizer que os "mensalões" em questão são semelhantes. Simplesmente porque NÃO SÃO!!!

A própria denominação "mensalão" é totalmente descabida, mas depois de 9 anos de uso incansável desse termo admito que é quase impossível escapar dele.

Mas as diferenças são enormes e o jornalixo da globonews fez parecer que o sonho do PT é s comparar ao psdb, como se o psdb fosse a última limonada do deserto.

Ora, pra início de conversa, os dois casos vulgarmente tratados como "mensalão" dizem respeito a arrecadação irregular de verbas de campanha. Mas o que mais interessa é a origem do dinheiro usado no pagamento de despesas de campanha (no caso do psdb, a de 1998, e no caso do PT, a de 2004. Portanto, o psdb deve satisfações à sociedade desde 6 anos antes do PT!!!!).

O dinheiro que o PT não declarou à Justiça Eleitoral foi obtido por meio de EMPRÉSTIMOS BANCÁRIOS, junto ao Banco BMG e ao Banco Rural. EMPRÉSTIMOS que foram QUITADOS pelo partido. Ninguém roubou de ninguém ou desviou de onde quer que seja. Foram empréstimos, assinados, contratados e saldados parceladamente pelo partido.

Já o "psdbzinho", todo fofo, não fez empréstimo não. Achou mais fácil SURRUPIAR a grana de empresas públicas: Cemig, Codemig, Comig etc. É um caso típico de desvio de dinheiro público, abuso de poder econômico com objetivos eleitorais, utilização da máquina estatal para fins privados (afinal, partidos políticos são pessoas jurídicas de direito privado).

O senhor Eduardo Azeredo, então governador de Minas Gerais, ROUBOU dinheiro de empresas do povo mineiro para colocar no caixa-2 de campanha do seu partido.

Em nenhum dos dois casos, houve qualquer situação de compra de apoio parlamentar, como o "jornalixo" insiste em declarar, a despeito de tudo o que já se provou contra essa tese furada. Dizem que o PT comprou apoio parlamentar para ver se conseguem tornar as coisas piores para o partido. No terreno da "justiça", até conseguiram, mas no terreno dos fatos não. Não houve mensalidade/mensalão pago a deputados. Isso, pelo que se sabe, aconteceu quando Fernando Henrique comprou a Emenda da Reeleição. Naquela oportunidade, sim, parlamentares foram CORROMPIDOS pelo Poder Executivo, que pagou 200 mil reais na época, para quem votasse a favor da "Emenda FHC", conforme alguns chegaram a confessar, como o então deputado Ronivon Santiago (PFL, hoje Dem).

Com tantos agravantes para o psdb, quem pode supor que o PT teria algum interesse em comparar esses dois casos??? O PT tem é que se esforçar para marcar as diferenças!!!

Mas da forma como o "jornalixo" brasileiro é totalmente manipulado pelos interesses tucanos, a globonews conseguiu a proeza de fazer de conta que o PT não apenas quer "se parecer" com o psdb, mas ainda faz seu público acreditar que o PT pensa que se parecer com o psdb seja alguma vantagem...

Tenha dó!!! Esse "jornalixo" repugnante me ofende. E não me ofende apenas na minha qualidade de cidadão petista: me ofende na minha condição de ser cognoscente. Pombas!!! Minha cabeça não é latrina!!!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Ofensiva Sobre os Cubanos

A ofensiva sobre os cubanos do “Mais Médicos” é ofensiva do imperialismo farmacêutico

Imperdível o artigo de Saul Leblon sobre a nova ofensiva contra o programa “Mais Médicos”.

Mostra como o ataque às missões médicas cubanas
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nada tem a ver com uma atitude de apoio àqueles profissionais. É o ataque à economia cubana, procurando sufocar a segunda maior receita do país, a exportação de serviços médicos.

No seu texto, na Carta Maior, ele vai recuperar esforços históricos de nosso país na busca da produção e comercialização de medicamentos, um setor da indústria dominado por um dos mais cruéis cartéis de grandes empresas multinacionais, americanas, sobretudo.
Estamos aqui discutindo a condição em que Cuba nos manda médicos e deixamos para lá a condição que nos vendem remédios, um mercado monstruoso onde os preços não guardam nenhuma relação com o custo de produção dos medicamentos, mas com sua posição de mercado, seus volumes de aquisição e o peso de cada um no “portfólio dos laboratórios”.
O máximo que nos aceitam é quebrarmos patentes de remédios antigos, cujos direitos contratuais estão vencidos ou a vencer.
O aliciamento de médicos cubanos no Brasil, se está sendo feito com um programa do governo americano, merece resposta de governo, também.

O nome disso é escárnio

O sultanato de jaleco branco trata a saúde como um mercado de camelos; alia-se ao conservadorismo retrógrado e tem na embaixada dos EUA um corredor de fuga.
Saul Leblon
Algo outrora inescapável  do epíteto de um escárnio contra o povo brasileiro  está em curso nos dias que correm.
O ruído que provoca — tanto das fileiras do governo, quanto nas de segmentos que se avocam à esquerda dele–  é incompreensivelmente desproporcional a sua gravidade.
Que as sininhos não badalem  e, igualmente, seus carrilhões silenciem, é ilustrativo do fosso existente entre o inflamável alarido anti- Copa bimbalhada nas ruas e a real preocupação com o futuro do país e  a sorte da população.
A Associação Médica Brasileira, em sintonia com a embaixada dos EUA e aliada à coalizão  demotucana, tendo respaldo e torcida da mídia, opera abertamente para destruir um programa de saúde pública emergencial voltado  às regiões e contingentes mais vulneráveis do país.
Não há resguardo das intenções, nem pudor na propaganda da ação.
A entidade que se proclama representante da corporação médica brasileira acolhe e viabiliza deserções de profissionais cubanos fisgados  pelo redil conservador em diferentes regiões e municípios.
O Estado brasileiro  investirá este ano R$ 1,9 bi em recursos públicos nesse programa, para agregar  43 milhões de atendimentos/ano ao SUS a partir de abril, quando o Mais Médicos atingirá seu efetivo  pleno, com mais de 13 mil profissionais em ação, sendo seis mil cubanos.
A embaixada dos EUA  no Brasil  –
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em sintonia com a Associação Médica e lideranças dos partidos conservadores
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opera abertamente para que não seja assim.

O  tripé orienta e encaminha pedidos de vistos especiais, a toque de caixa,  para que o maior número de desistentes possa rumar a  Miami, onde os espera a estrutura da ‘Solidariedade Sem Fronteiras’.
A ONG de fachada humanitária  tem como principal negócio –
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financiado por recursos orçamentários que a bancada cubana assegura no Congresso
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–  promover e operar deserções em  convênios de saúde firmados entre Havana e 66 países  nesse momento.

São mais de 43 mil  médicos cubanos em ação na América Latina, Ásia e África. Devem atingir  um recorde de 50 mil em dois meses, quando o convênio brasileiro estiver plenamente implantado.
Um aspecto da remuneração desses profissionais deliberadamente pouco divulgado  é que nem todos os convênios internacionais de Havana são pagos.
Na verdade, dos 66 países assistidos nesse momento apenas 26 se enquadram  no que se poderia chamar de prestação de serviços pagos.
Outros  40 países recebem contingentes médicos gratuitamente.
O mesmo ocorre com missões de educação ou esporte.
A ‘exportação’ de serviços rende a Havana, segundo a chancelaria cubana, cerca de US$ 6 bi/ano (três vezes mais que a segunda fonte de divisas do país,  representada pelo turismo).
A exportação de serviços  pagos – principalmente na área de saúde –  financia  as missões solidárias destinadas a países de extrema precariedade econômica e material ou focadas em situações de calamidade devastadora.
É assim desde 1960,  quando Cuba enviou  sua primeira missão de solidariedade ao Chile, vítima de um terremoto.
Eis a principal razão para a diferença entre o salário efetivamente recebido pelo profissional de uma missão e aquilo que o governo cubano arrecada pelo serviço prestado.
Uma parte do  saldo  financia as missões gratuitas que, repita-se,  são a maioria.
Outra sustenta a Escola Latino-americana de Medicina, que possuía em 2013 cerca de  14 mil alunos estrangeiros,  gratuitamente cursando ou com subsídio quase integral.
Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, Cuba investe pesado em pesquisa na área de saúde e formação de médicos:  são quase 83 mil (1/138 habitantes).
O investimento tem duplo objetivo: zelar pela população que tem a menor taxa de mortalidade infantil do mundo, e gerar receita numa economia asfixiada  há 50 anos pelo embargo comercial norte-americano.
Também isso se financia através das missões remuneradas.
A ideia de que a doutora Ramona Rodriguez possa ter  desembarcado no Brasil desinformada dessas particularidades acerca de seu salario, subestima a conhecida determinação de Havana, de ressaltar interna e externamente aquela que é a marca inegável de sua ação internacional: a solidariedade.
A mesma alegação de ignorância tampouco se pode conceder –neste aspecto–  ao colunismo isento, que cuida de  festejar as deserções  –por  ora pontuais –  como se fossem o preâmbulo de uma diáspora libertária, em marcha épica rumo a Miami.
A participação  da embaixada norte-americana no jogo de aliciamento e hipocrisia  é ainda mais grave.
Trata-se de uma tentativa de sabotagem de um programa soberano de saúde pública emergencial, cujo desmonte poderá agregar novas vítimas e mais sofrimento num universo de milhões de brasileiros desassistidos.
Se a intrusão é desconcertante, não se pode dizer que surpreenda.
Quando o governo Lula decidiu quebrar a patente de anti-virais , em 2007, a embaixada norte-americana operou para sabotar a medida.
Agiu em contato direto com as múltis do setor farmacêutico, o Departamento de Estado do governo Bush  e ‘amigos’ locais — não se sabe se os mesmos que hoje cerram fileiras com o duplo interesse de  implodir o ‘Mais Médicos’ e sangrar Havana.
Telegramas  secretos da época, obtidos pela organização  Knowledge Ecology International (KEI),  revelam ameaças de represália enviadas então a Brasília:
“(…) uma licença compulsória pode fazer com que fabricantes de produtos farmacêuticos evitem introduzir novos remédios no mercado e seria mais difícil para o Brasil atrair os investimentos que tanto necessita”, relatava um deles sobre o teor de reuniões com autoridades e políticos locais.
Lula oficializaria em maio de 2007 o licenciamento compulsório do anti-retroviral  Efavirenz, usado por 75 mil pacientes de Aids atendidos pelo SUS. Um genérico importado da Índia passou a ser usado ao preço de  US$ 0,45, contra US$ 1,59 cobrado pela  multinacional norte-americana.  Uma  economia de US$ 30 milhões até 2012.
Volte-se um pouco mais no tempo, até as vésperas do golpe de 64,  e lá estarão, de novo,  os mesmos protagonistas, com idênticos propósitos.
O embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, fileiras udenistas e lacerdistas, múltis do setor farmacêutico e sabujos da mídia, a ganir a pauta da estação.
Eram tempos de inflação galopante e dinheiro curto: a saúde corria risco.
O então ministro da Saúde, Souto Maior, lutava para obter uma redução de 50% sobre os preços de 70 medicamentos mais usados pela população.
Laboratórios das multinacionais abriram guerra contra o tabelamento.
Às favas a saúde: primeiro, os interesses das corporações.
Lembra algo do comportamento atual da embaixada que se orienta pelos mesmos valores e da Associação Médica Brasileira que tanto quanto os abraça?
No famoso comício da Central do Brasil, sexta-feira, 13 de março de 1964, João Goulart decretou a expropriação de terras para fins de reforma agrária, encampou refinarias e anunciou estudos para fabricação estatal de medicamentos no país.
O conjunto era fiel aos preceitos do ‘sanitarismo-desenvolvimentista,’ abraçado  então pelas fileiras progressistas da medicina brasileira.
Médicos como Samuel Pessoa, Mário Magalhães,  Gentile de Melo e Josué de Castro –autor do clássico ‘Geografia da Fome ‘ e primeiro secretário- geral da FAO, que faleceu no exílio , cassado pela ditadura e impedido de retornar ao Brasil mesmo para morrer – eram alguns de seus  expoentes.
Profissionais que hoje seriam olhados com suspeita, enxergavam a luta pela saúde como indissociável da luta pela desenvolvimento econômico e humano do país.
Em setembro de 1963, Jango, com apoio deles,  restringiu a remessa de lucros da indústria farmacêutica. Mister Lincoln Gordon foi à luta:  a USAID retaliou no lombo da pobreza cortando a ajuda no combate à malária – que se destacava como uma das principais doenças tropicais na época.
A ofensiva apenas fortalecia as convicções dos sanitaristas-desenvolvimentistas.
Embora heterogêneos nas filiações ideológicas, seus  representantes  entendiam que doença e pobreza  caminhavam juntas. Como tal deveriam ser enfrentadas  em ações soberanas, abrangentes e desassombradas, que rompessem a fragmentária  estrutura de uma sociedade retalhado por interesses que não eram os de seu povo.
Compare-se isso com o sultanato de jaleco branco.
Esse que  hoje trata a saúde como um entreposto de camelos; alia-se ao conservadorismo mais retrógrado  e tem na embaixada dos EUA um corredor de fuga em prontidão obsequiosa.

Bajulado pela mídia, o conjunto quer implodir o ‘Mais Médicos’.
O nome disso é escárnio. E Brasília deveria dizê-lo  claramente ao embaixador gringo, ao chamá-lo a prestar esclarecimentos sobre ingerência e sabotagem em assuntos internos.
Saul Leblon

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Gilmar Mendes Não Sabe o Que Diz ou Não Diz o Que Sabe

Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

Insinuações e ironias de ministro do STF não tem apoio nos autos da AP 470


 O esforço de Gilmar Mendes para tentar desmoralizar a campanha de solidariedade de tantos brasileiros aos condenados da AP 470 ajuda a entender o caráter precário do foi chamado  de “maior julgamento da história.”
 Ao sugerir que o senador Eduardo Suplicy liderasse uma campanha para ressarcir “pelo menos parte dos R$ 100 milhões subtraídos dos cofres públicos" no caso do mensalão” Gilmar Mendes assume uma postura espantosa para um ministro do STF.
Faz afirmações que não pode provar, insinua o que não consegue demonstrar.
A atitude de Gilmar é política.
As doações, em escala que surpreendeu os próprios condenados, mostram o repúdio de um número crescente de brasileiros diante dos abusos do julgamento.
Veja só: um ex-ministro do Supremo, como Nelson Jobim -- um dos responsáveis pela indicaçao do próprio Gilmar ao STF -, deu um cheque de R$ 10 000 para Genoíno. Celso Bandeira de Mello, jurista de folha irretocável, que patrocinou a presença de Ayres Britto na Corte, deu dinheiro para Genoíno e já disse que vai contribuir para José Dirceu.
Ao lado de militantes e de cidadãos comuns, a presença de respeitáveis homens de Direito na campanha pelas doações mostra até onde vai a crítica a AP 470.
Não é para menos.
A ideia de que houve desvio de recursos públicos é desmentida pelo processo.
A noção que eles chegam a R$ 100 milhões não tem base real alguma. É apenas um novo chute. 
 Quando o julgamento começou, os ministros falavam num desvio  de R$ 115 milhões. Recuaram sem maiores explicações para uma estimativa de R$ 73,8 com base num cálculo desinformado, absurdo mas cômodo.  Explico os três adjetivos.
 Como esse foi o total de gastos de recursos do Fundo de Incentivo Visanet com a agência DNA naquele período, passou-se a uma crença absurda: de que 100% desse dinheiro foi roubado, não sobrando um único centavozinho honesto para ser gasto com publicidade de verdade. Nenhuma página de jornal, nem um spot de rádio, nem 30 segundos na TV.
É claro que é uma conta de chegar. Era preciso falar em desvio, era preciso dar um número –- apontou-se para aquele que estava à mão. Parece absurdo e é. Mas absurdos ganham verossimilhança e circulam como afirmações verdadeiras em sociedades onde nenhuma instituição cumpre seu papel de fiscalizar e conferir o que dizem as autoridades. Este papel, como se sabe, deve ser cumprido pela imprensa. Mas você e eu sabemos muito bem onde os repórteres se encontrava no julgamento, certo?
Numa prova de que são os principais interessados em conferir gastos e e demonstrar o que foi feito, os advogados da defesa acabam de enviar, às 20 maiores empresas de comunicação do país, uma notificação judicial.
Solicitam apenas que elas confirmem – ou desmintam – aqueles recursos que a DNA declara ter enviado a elas.
Em novembro de 2005, os parlamentares da CPMI dos Correios receberam um documento “para uso interno – confidencial” da Visanet.
Os parlamentares perguntaram lá atrás:  
“ A Visanet é uma empresa pública? 
Resposta. “Não. É uma empresa de capital privado.”
Essa mesma afirmação foi confirmada por uma auditoria do Banco Brasil, encerrada em dezembro do mesmo ano. Ali se diz, com base no estatuto da Visanet, que seus recursos deveriam ser destinados a ações de incentivo, “não pertencendo os mesmos ao BB investimento nem ao Banco do Brasil.”
Se a denúncia de desvio de dinheiro público está errada, como conceito, também se desmente, nos números. As contas batem, com diferenças contábeis que podem ser explicadas por razões técnicas – e que nem de longe chegam aos R$ 100 milhões a que Gilmar Mendes se referiu.
(Quantias nesse volume gigantesco, e até maiores, foram mobilizadas por empresas privadas de telefonia que eram clientes das agencias de Marcos Valério. Nenhuma delas, por sinal, foi chamada a prestar contas no julgamento. Nenhuma. Foi assim que se pretendia “ punir os poderosos” , entendeu?)
Por fim, a afirmação de que foram dirigentes do PT que fizeram esses desvios é ainda mais absurda. Não estou falando de Delúbio Soares, por exemplo, que distribuía recursos para o partido e negociava apoio de empresas.
Estou falando de quem tinha acesso ao cofre. Sem ele nada se faz, certo? 
Pode-se ler, no laudo 2828, uma questão básica para se entender o papel do PT na denuncia de desvio de recursos – públicos ou privados.
O relator Joaquim Barbosa pergunta a  quem “competia fazer o gerenciamento dos recursos” do Fundo Visanet  repassados a agencia DNA?
Em bom português, o relator queria saber quem fazia os pagamentos – sem o quê, obviamente, não dá para tirar nem uma nota de 1 real de forma indevida.
O Banco do Brasil responde: quatro diretores eram responsáveis pela gestão do fundo de incentivo entre 2001 e 2005. (Estamos falando dos dois últimos anos do governo FHC, quando a DNA ganhou um bom pedaço da verba publicitária do Banco do Brasil, e dos dois primeiros anos do governo Lula).
Em sua resposta ao relator, o Banco do Brasil  faz até um gráfico pequeno, com nomes e datas, para ninguém ficar em dúvida. Até uma criança pode entender: nenhum dirigente indicado pelo PT encontra-se entre eles. Os responsáveis eram todos executivos indicados pelo PSDB. Está lá, numa tabela. Nenhum deles sentou-se no banco dos réus. Repito porque é escandaloso: nenhum. Quem assinava os cheques ficou de fora. Eram afilhados tucanos. 
Cabe a cada um fazer a pergunta que não quer calar: por que o laudo 2828, com uma informação tão preciosa, foi mantido em sigilo no próprio STF, e só foi distribuído para o plenário de ministros DEPOIS que a denuncia da AP 470 já fora aceita?
Minha opinião é a seguinte: temia-se, em 2006, que o debate sobre informações inesperadas e surpreendentes pudessem comprometer a denúncia e estragar o carnaval cívico em  torno do STF. Imagine se fosse possível criminalizar o governo Lula -- até se falava em impeachment, em 2005 -- se a denúncia envolvesse o PSDB, também. Imagine se alguém começasse a perguntar assim: se haviam tucanos no comando do esquema, quem é que colocou essa turma ali? 
Política, meu caro. Política.
Foi a mesma atitude de 2011, quando os ministros resolveram levar o julgamento em frente sem conhecer o inquérito 2474, com revelações que contrariavam o final feliz já anunciado e prometido. Veja você: desistiram de ler o inquerito 2474 sem saber o que tinha lá dentro. 
Não é de espantar que, agora, se veja uma situação constrangedora e grave de um ministro que faz afirmações que contrariam aquilo que se encontra no processo.
Ou Gilmar Mendes não sabe o que diz. Ou não diz o que sabe.
Você decide o que é mais grave.

Resposta à Veja


Onde está o Brasil? Acorrentado ao poste, como aquele negro. A corrente é a mídia

by bloglimpinhoecheiroso
Fernando Brito, via Tijolaço
A revista Veja, uma espécie de toque de Midas ao inverso, que transforma em imundície tudo em que toca, coloca em sua capa a imagem do menino negro, acorrentado a um poste por um bando de tarados do Flamengo, pergunta “Onde está o Brasil equilibrado, rico em petróleo, educado e viável que só o governo enxerga?”.
A Veja merece resposta.
Não para ela, que é muito mais incorrigível que o pequeno delinquente que lhe serve de carniça. Porque ela, ao contrário dele, tem meios e modos para entender o que é civilização, enquanto ele precisa ocupar o tempo arranjando algum resto de comida para engolir, uma cola de sapateiro para cheirar em lugar do respeitável pó branco das festas da elite, e uma banca de jornal que lhe sirva de colchão de lata ou teto de zinco, se chove ou se faz sol.
A resposta à Veja é necessária para que este império de maldade e seus garbosos centuriões saibam que existe quem não lhe abaixe a cabeça e anuncie que fará tudo, tudo o que puder, enquanto a vida durar, para arrancar o Brasil das correntes com que a fina elite e seus brucutus anabolizados da mídia o amarram no poste do atraso, da submissão, da pobreza e da vil condição de uma sociedade de castas, onde eles são a nobreza opulenta.
O Brasil, senhores de Veja, é este negrinho. Está cheio de deformações, de cicatrizes, de desvios de conduta, de desesperança e fatalismo. Estas marcas, nele, foram você que as fizeram, abandonando-o à sua própria sorte, vendo crescer gerações nas ruas, ignorando-os, desprezando.
Tudo estaria bem se ele estivesse lá, no gueto das favelas, tendo uma existência miserável e conformada. Ou sendo um dos muitos que, por uma força até inexplicável, conseguem se sacrificar, como seus pais se sacrificam, para ter uma pobre escola pública, um trabalho mal-pago, uns bailezinhos funk por lá mesmo, com as devidas arrochadas da PM, os capitães de mato, negros e pardos como eles, mas a serviço dos “buana”.
Não é isso o que diz um dos “civilizados” aos quais a Veja serve de megafone, como está lá em cima?
A pobreza em que os governos que vocês apoiam, as elites que vocês representam e os interesses a que vocês servem tem, entretanto, destes efeitos colaterais. Porque aquele menino, como o Brasil, vê o mundo como vocês mostram, canta as músicas que vocês tocam, pensa o que vocês martelam em sua cabeça, tem os desejos que vocês glamorizam.
É foda, foda é assistir a propaganda e ver: “Não dá pra ter aquilo pra você”.
E o que tem pra eles, mesmo um pouquinho, vocês combatem furiosamente: uma bolsa-família, um salário mínimo menos pior, uma cota para a universidade…
Populismo, dizem vocês…
Aquele menino e as mazelas de sua vida nunca tiveram de vocês o tratamento do “Rei dos Camarotes”, aquele idiota. Ou como o “Rei dos Tribunais”, que vocês bajulam porque, politicamente, lhes é interessante explorar seu comportamento para atacar o Governo, embora ele tenha ficado quieto diante desta monstruosidade, quando gosta tanto dos holofotes para outros temas.
Aliás, quanto ele terá contribuído para a visão do “mata e esfola”, do pré-julgamento, do “não tem lei” para quem eu ache bandido?
Vocês não fazem uma matéria sobre os monstros que andam em bando, encapuzados, de porrete na mão, para distribuir bordoadas no “lixo social”, lixo que o seu sistema de poder produz há séculos.
Aqueles que tentam amenizar um pouco que seja isso é tratado como um primitivo, um arcaico, que não entendeu que só “o mercado” nos salvará.
Ou um “escravo”, como os médicos que aceitaram ir tratar dos negrinhos da periferia ou do interior, onde os coxinhas da Veja não querem ir.
O mercado do qual o menino terá – se tiver – a xepa. E ele tem direito a mais, porque ele brotou – feio e torto – desta terra. Não veio de fora para fazer fortuna entre nós e não ser um de nós.
O negrinho está acorrentado, Veja, e acorrentado por quem o domina.
O Brasil também, e também seu governo que, se não se “comportar” para com os que de fato o dominam, levará mais bordoadas do que já leva, por sua insubmissão.
Acorrentado por uma cadeia mental, a mídia, uma corrente da qual vocês são um dos maiores e mais odiosos elos.
Aquele negrinho não pode ter um destino próprio, apenas o papel que lhe derem, como o Brasil não pode ter seu próprio destino, aquele que convém a vocês e não nos tira do mesmo lugar.
Esta corrente, entretanto, é podre. Podre, podre de não se poder disfarçar o fedor que exala. E está se esgarçando, para desespero dos que contam com ela para nos manter atados.
O “Brasil equilibrado, rico em petróleo, educado e viável” que vocês dizem que só o Governo enxerga, de uns anos para cá, surgiu diante do povo brasileiro, depois de décadas de fatalismo de “este país é uma merda mesmo” que vocês nos inculcaram, a nós, os negrinhos. E ele nos atrai com tanta força que não será esta corrente imunda, de elos podres, que o deterá.
Por mais que vocês se arreganhem, como fazem os impérios em decadência, por mais que se comportem, nas bancas, como aqueles facínoras de porrete, será inútil.
Vocês já não são a única voz, embora muitos ainda os temam e procurem, inutilmente, cair nas suas boas graças com juras de vassalagem ao que vocês representam.
O mundo de vocês é o passado, é o da escravidão, é o da aristocracia que, tão boazinha, até deixa entrar alguns negrinhos na cozinha, desde que se comportem e não façam sujeira.
É o passado, porque o futuro tem uma força tão grande, tão imensa, tão inexorável que, logo, vocês penderão de um poste.
Não, fiquem calmos, não estou sugerindo enforcamentos, como foi o do Mussolini…
Apenas penderão como um elo roto de um poste velho e carcomido, que não tem mais luz, nem serventia.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

​CFM Quer Que Cubanos “escravos” Não Atendam Doentes e Sirvam Cafezinho

by bloglimpinhoecheiroso

Fernando Brito, via Tijolaço
Chega a ser nojenta a notícia de que o Conselho Federal de Medicina fará uma campanha entre os médicos brasileiros para que ofereçam “empregos administrativos” em seus consultórios e hospitais para os médicos cubanos que “desertem” e abandonem seus postos de atendimento na periferia e no interior do Brasil.
“Vamos dar apoio aos cubanos, mas eles não poderão trabalhar como médicos. Primeiro, eles terão de buscar refúgio e asilo em embaixadas não alinhadas ideologicamente com Cuba. Enquanto isso, com a rede de 400 mil médicos brasileiros, vamos conseguir contratos de trabalho administrativo, para que eles então tentem o Revalida”, afirmou neste domingo o presidente do CFM.
O que estes “doutores” querem? Não se contentam em ser desprezados pelo povo brasileiro, querem levar as pessoas pobres que viram um médico pela primeira vez na vida, de volta ao abandono total?
Afinal, quem quer reduzir quem à condição de escravos, de seres inferiores e incapazes senão de servir aos senhores?
Vão lhe servir cafezinho e vocês tolerarão, por isso, que usem a roupa branca? Vão ser os seus “negrinhos”? Como aquela imbecil que disse que as médicas cubanas tinham cara de “empregada doméstica”. E que beleza, não é, nem direitos trabalhistas terão, porque não têm visto de trabalho no Brasil para nada senão o que são: médicos de família, doutores em medicina social.
Ou será que os estão provocando até que um deles, em nome de sua dignidade, lhes esbofeteie? E aqueles brasileiros que estão lá, onde vocês não querem ir, nem ganhando quatro vezes mais do que os cubanos?
É gente simples, que não tem ninguém que olhe por ela, que suplica, implora, se ajoelha, até, para que se cuide de um filho doente.
Os dirigentes destas instituições não fizeram o Juramento de Hipócrates? Não é possível que tenham prometido nunca “causar dano ou mal a alguém”. A mesquinhez e a crueldade de parte da elite brasileira chegaram ao extremo.
Já não lhes basta viver na abundância: é preciso que os pobres morram na doença e no abandono.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Toga do 1%

Diário do Centro do Mundo

por : 

Eu não seria cínico o suficiente para dizer que não gostei do braço erguido do deputado petista André Vargas diante de Joaquim Barbosa no Congresso.
Foi infantilidade? Foi. Foi desabafo? Foi. Foi desrespeito? Não. Por que não? Porque JB mereceu.
Não é desrespeitado quem merece ser desrespeitado.
Mesmo para um não petista como eu, ele simboliza o que existe de mais atrasado e retrógrado no Brasil. É a toga do 1%. Se eu me sinto assim, imagine o que sentem militantes e simpatizantes do PT, como Vargas.
O gesto de Vargas não feriu ninguém. Mas as ações de JB ferem.
Agora mesmo: faz sentido ele revogar uma decisão de Lewandowski apenas para punir Dirceu e impedi-lo de trabalhar quanto antes?
Ah, mas Lewandowski desautorizou Barbosa antes.
Mas entre as duas desautorizações vai uma distância formidável.
JB colocou Dirceu na geladeira por causa de uma nota – isto, uma nota – da Folha de S. Paulo.
Conhecemos todos a precisão da Folha. No obituário do jornalista Renato Pompeu, na segunda feira, a homenagem foi para Renato Pompeu de Toledo.
A nota falava de um telefonema que Dirceu trocara com um secretário do governo da Bahia. Dirceu negou, o secretário negou, o presídio – depois de uma investigação – negou.
Mas JB permaneceu acreditando na veracidade da nota, como uma velhinha de Taubaté ao contrário.
Isto – a fé cega numa mídia cujos interesses são conhecidos — mostra muita coisa. Grande parte das alegadas evidências do Mensalão derivou de “denúncias” da mídia.
Num voto louvado por colunistas no Mensalão, um juiz se declarou indignado porque todo dia, ao abrir os jornais, via um escândalo.
Não passava pela cabeça do ministro, aparentemente, que as denúncias pudessem ser, simplesmente, infundadas. Ele tomava as coisas que lia como verdade inquestionáveis, como um muçulmano diante do Alcorão.
Ora, a Veja – confiante na impunidade que calúnias têm perante a justiça brasileira – chegou a publicar uma capa com uma suposta conta de Lula no exterior em que dizia, numa das coisas mais patéticas que já cometidas no jornalismo nacional, que não conseguira provar nem desmentir a acusação.
Não conseguiu provar, e ainda assim publicou um fato de extrema gravidade em relação à honra do acusado, o “presidente-retirante”, como o definiu um aristocrático blogueiro de Taquaritinga.
A sociedade, nos últimos anos, foi aprendendo a entender melhor a lógica da imprensa. Daí a perda de influência.Mar de lama só aparece em governos populares.
Mas os ministros do STF não aprenderam o que a voz rouca das ruas, em sua humildade insuperável, aprendeu. E dão um valor desmedido ao festival de escândalos com o qual se tenta minar qualquer presidente que não governe para o 1%.
Foi assim que uma nota da Folha – a Folha do Renato Pompeu de Toledo – virou uma coisa capaz de afetar (piorar é um verbo mais preciso) a vida de um presidiário quando lida por Joaquim Barbosa.
A presidência de JB caminha para seus últimos meses. Eleito em outubro de 2012, ficará no cargo dois anos – a não ser que saia antes para concorrer a algum cargo.
Pelo conjunto da obra, pela mistura deletéria de rancor com pequenez de espírito, JB se credencia a concorrer ao título de pior presidente da história do STF.
Basta ver quem o apoia: apenas o que há de mais reacionário na sociedade brasileira.
Se JB fosse um produto da Amazon, apareceria o seguinte. Quem gosta dele gosta também de Feliciano, Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Lobão, Veja, Globo, Sheherazade, Gentili, Tas et caterva.