quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cubanos Chegam e Já Diagnosticam a Doença do Brasil

Por Saul Leblon

Eles desembarcaram há apenas quatro dias.

Ainda nem começaram a trabalhar. Mas alguma coisa de essencial já foi diagnosticada entre nós, apenas com a sua presença.

Uma foto estampada na Folha de S. Paulo desta 3ª feira sintetiza a radiografia que essa visita adicionou ao diagnóstico da doença brasileira.

Um médico negro avança altivo pelo corredor polonês que espreme a sua passagem na chegada a Fortaleza, 2ª feira.

O funil do constrangimento é formado por jovens de jaleco da mesma cor alva da pele.

Uivam, vaiam, ofendem o recém-chegado.

Recitam um texto inoculado diuturnamente em sua mente pelas cantanhêdes, os gasparis e assemelhados.

Centuriões de um conservadorismo rasteiro, mas incessante.

É força de justiça creditar a esse pelotão a paternidade da linhagem, capaz de cometer o que a foto cristalizou para a memória destes tempos.

“Escravo!” “Escravo!” “Escravo!”.

Ecoa a falange cevada no pastejo da semi-informação, do preconceito e das tardes em shopping center.

Foi programada para cumprir esse papel, entre outros, de consequências até mais letais para a democracia e a civilização entre nós.

Um desembarque que em outros países seria motivo de festas, homenagens e bandas de música.

Aqui é emoldurado pelo espetáculo deprimente de uma classe média desprovida de discernimento sobre o país em que vive, o mundo que a cerca e as urgências da sociedade que lhe custeou o estudo.

Para que agora sabotasse a assistência cubana aos seus segmentos mais vulneráveis, aos quais ela se recusa a atender.

Os alvos da fúria deixaram família, rotinas e camaradagem para morar e socorrer habitantes de localidades das quais nunca ouviram falar.

Mas que a maioria dos brasileiros também sequer desconfia que existam.

Com o agravante de que ali talvez jamais pousem seus pés. Coisa que os cubanos farão. Por três anos.

E que graças a eles, agora saberemos que existem.

Se o governo for safo – espera-se que seja – fará do Mais Médico uma ponte de conexão de nós com nós mesmos.

O futuro da democracia agradecerá.

Os pilares dessa ponte, de qualquer forma, são os que transitam agora altivos diante da recepção que indigna o Brasil aos olhos do mundo.

Perfis médicos ainda improváveis entre nós, apesar do Prouni e das cotas satanizadas pela mesma cepa mental adestrada em compor corredores e funis.

Nem sempre físicos, como agora.

Mas permanentemente intolerantes, na defesa da exclusão e do privilégio.

Formados em uma ilha do Caribe desguarnecida de recursos, por uma escola de medicina que contorna a tecnologia cara, apurando a excelência do exame clínico – aquele em que o médico demora uma hora ou mais com o paciente, rastreando o seu metabolismo – eles passarão a cuidar da gente brasileira pobre e anônima. (Leia a excelente entrevista de Najla Passos com a doutora Ceramides Carbonell sobre a formação de um médico em Cuba).

Campos Alegres de Lourdes, Mansidão, Carinhanha, beira do São Francisco, Cocos, Sítio do Quinto, Souto Soares... Quem conhece esse Brasil?

É para lá que eles vão. E para mais 3.500 outras localidades.

Um Brasil esquecido, em muitos casos, mantido na soleira da porta, do lado de fora do mercado e da cidadania.

Que sempre esteve aí. Mas que agora, pasmem, terá um sujeito interessado em ouvir o que sua agente tem a dizer, esforçando-se por entender pronúncias que até nós, os locais, muitas vezes teríamos dificuldade de discernir.

O ‘doutor de Cuba’ de fala estrangeira e jeito parecido com a gente vai examinar, apalpar dores, curar vermes, prescrever cuidados, encaminhar cirurgias, ouvir e confortar.

Com remédios, atenção e esperança.

Houve um tempo em que essas expedições a um Brasil distante do mar eram feitas por brasileiros, e de classe média.

Protagonistas de um relato épico, de nacionalismo não raro ingênuo. Mas que aproximava e treinava o olhar do país sobre ele mesmo.

Coisa que a hiper-conexão disponível agora poderia fazer até melhor.

Não fosse a determinação superior de afastar e dissimular, o que muitas vezes se alcança destacando o pitoresco.

Em detrimento do principal: as questões do nosso tempo, do nosso desenvolvimento, as escolhas que elas nos cobram. E os interesses que as bloqueiam.

Tivemos a Coluna Prestes, nos anos 20.

Os irmãos Villas Boas, apoiados por malucos como Darcy Ribeiro e entusiastas como Antonio Calado, fizeram isso nos anos 40/50 e início dos 60, quando foi criado o Parque Nacional do Xingu.

Trouxeram a boca do sertão para mais perto do olhar litorâneo e urbano.

Desbastavam distancias a facão.

Na raça, traziam horizontes, aproximavam rios, tribos, desafios e, de alguma forma, semeavam um espírito de pertencimento a algo maior que a linha do mar e a calçada de Copacabana.

A utopia geográfica, se por um lado borrava os conflitos de classe, ao mesmo tempo colidia com o país real que os esperava em cada socavão, de trincas sociais, fundiárias, étnicas e econômicas avessas à neblina da glamorização.

Paschoal Carlos Magno, a UNE e o CPC, o Centro Popular de Cultura, fariam o mesmo nos anos 60, antes do golpe militar.

As famosas ‘Caravanas do CPC’ rasgaram o mapa do sertão, a exemplo do que fizeram as Caravanas da Cidadania, de Lula, nos anos 80.

Desceriam o São Francisco nas gaiolas lendárias para garimpar e irradiar a cultura popular em lugares onde agora, possivelmente, um doutor cubano irá se instalar.

Caso de Carinhanha, um dos mais belos entardeceres do São Francisco.

Onde foi que a seta do tempo se quebrou?

Por que já não seduz a grande aventura de nossa própria construção terceirizada, por décadas, aos mercados autoregulados?

Uma leitora de Carta Maior, Odette Carvalho de Lima Seabra, resume em comentário enviado ao site o núcleo duro do problema.

“ A geração dos nossos jovens doutores”, escreve, “ jamais compreenderá de que se trata. Foram criados nos shopping centers. A escola secundária limitadíssima no seu alcance humanístico os fez também vítimas sem que o saibam que são. Uma revolução que durou vinte anos e cujo sentido era o de esvaziar de sentido a vida de todos nós deixou no seu rescaldo, esse bando de jovens, como são os nossos doutores, muito alienados. É tempo de aprender com os cubanos”,
conclui Odette.

Colocado nos seus devidos termos, o impasse readquire a clareza histórica de que se ressente a busca de soluções.

Entre indignado e estupefato, o conservadorismo nega aos visitantes cubanos outra referência de exercício da medicina que não a dos valores argentários.

Ética médica, solidariedade, internacionalismo e humanismo formam uma constelação incompreensível a quem divide o mundo entre consumidores e escravos.

À esquerda, no entanto, cabe também evitar simplificações.

Se quiser enxergar a real abrangência das tarefas em curso, é preciso admitir que não estamos diante de uma batalha entre anjos e demônios.

Os médicos do Caribe não nascem bonzinhos. Tampouco endemoninhados, os dos trópicos.

Eles são formados assim. Por instituições.

A escola, por certo, mas a mídia, sem dúvida, que a completa pelo resto da vida.

É vital que o governo, lideranças sociais e os intelectuais compreendam o fundamental em jogo.

Se quisermos colher frutos duradouros com o ‘Mais Médicos’, o passo seguinte do programa terá que ser a reforma universitária brasileira.

Que reaproxime universidade e a juventude das grandes tarefas coletivas do nosso tempo.

As diferenças entre a formação do cubano hostilizado na chegada a Fortaleza, e aqueles que o ofendiam não são apenas de ordem técnica.

Mas, sobretudo, de discernimento diante do mundo.

A ponto de um não achar estranho sair de seu país para ajudar um outro.

Nem considerar despropositado que parte de seu ganho se transforme em fundo público de reinvestimento.

O oposto das convicções dos que o agraciavam com o corolário de sua própria servidão.

Esse talvez seja o aspecto mais chocante da visita que acaba de chegar.

E, sobretudo, o mais instrutivo.

Ela escancara a doença social que corrói o nosso metabolismo. E adverte para as limitações que irradia.

Na sociedade que estamos construindo.

Na mentalidade que vai se sedimentando. No risco que ela incide sobre o todo.

Para que o ‘Mais Médicos’ um dia possa ser dispensável, o Brasil precisa se tornar ele próprio um grande ‘Mais Solidariedade’.

Como faz Cuba desde 1959, com todos os seus erros, acertos e percalços.
Postado por Saul Leblon às 05:15

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

​ Quando os Corvos Vestem Branco

Fernando Brito, via Tijolaço
Paulo Moreira Leite publicou no sábado, dia 24, na IstoÉ, um artigo que só merece uma qualificação: magistral. A argumentação é cerebral, mas a indignação é figadal.
Porque quem escreve e fala não pode, sob pena de emburrecer ou desumanizar-se – o que não é o mesmo, mas é parecido – deixar de pensar, como não pode deixar de sentir, com funda humanidade.
Temos, neste caso dos médicos cubanos, duas faces.
Uma, velha, velhíssima: um anticomunismo arcaico, que já era doentio há 50 anos, na Guerra Fria, e hoje é, simplesmente, lunático. Parece que, como há 59 anos, naquele 24 de agosto fatídico, a razão está sob ataque dos corvos, agora em penas brancas.
Outra, mais e mais e mais velha ainda: o desprezo pelos seres humanos pobres, cujos direitos – inclusive os mais básicos, como a saúde e a vida – devem esperar que o “mercado” os resolva.
O tema voltará e voltará por muitos dias, até que a realidade desmanche os preconceitos, os benefícios anulem o ódio e faça a brutalidade recuar das bocas para os coraçÑoes miúdos desta gente.
Reproduzo o artigo magistral, repito, de Moreira Leite:
O debate sobre a chegada de médicos cubanos é vergonhoso.
Paulo Moreira Leite
Do ponto de vista da saúde pública, temos um quadro conhecido. Faltam médicos em milhares de cidades brasileiras, nenhum doutor formado no País tem interesse em trabalhar nesses lugares pobres, distantes, sem charme algum – nem aqueles que se formam em universidades públicas sentem algum impulso ético de retribuir alguma coisa ao País que lhes deu ensino, formação e futuro de graça.
Respeitando o direito individual de cada pessoa resolver seu destino, o governo Dilma decidiu procurar médicos estrangeiros. Não poderia haver atitude mais democrática, com respeito às decisões de cada cidadão.
O Ministério da Saúde conseguiu atrair médicos de Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai. Mas continua pouco. Então, o governo resolveu fazer o que já havia anunciado: trazer médicos de Cuba. Como era de prever, a reação já começou.
E como eu sempre disse neste espaço, o conservadorismo brasileiro não consegue esconder sua submissão aos compromissos nostálgicos da Guerra Fria, base de um anticomunismo primitivo no plano ideológico e selvagem no plano dos métodos. É uma turma que se formou nesta escola, transmitiu a herança de pai para filho e para netos. Formou jovens despreparados para a realidade do País, embora tenham grande intimidade com Londres e Nova Iorque.
Hoje, eles repetem o passado como se estivessem falando de algo que tem futuro. Foi em nome desse anticomunismo que o País enfrentou 21 anos de trevas da ditadura. E é em nome dele, mais uma vez, que se procura boicotar a chegada dos médicos cubanos com o argumento de que o Brasil estará ajudando a sobrevivência do regime de Fidel Castro. Os jornais, no pré-64, eram boicotados pelas grandes agências de publicidade norte-americanas caso recusassem a pressão norte-americana favorável à expulsão de Cuba da OEA. Juarez Bahia, que dirigiu o Correio da Manhã, já contou isso.
Vamos combinar uma coisa. Se for para reduzir economia à política, cabe perguntar a quem adora mercadorias baratas da China comunista: qual o efeito de ampliar o comércio entre os dois países? Por algum critério – político, geopolítico, estético, patético – qual país e qual regime podem criar problemas para o Brasil, no médio, curto ou longo prazo?
Sejamos sérios. Não sou nem nunca fui um fã incondicional do regime de Fidel. Já escrevi sobre suas falhas e imperfeições. Mas sei reconhecer que sua vitória marcou uma derrota do império norte-americano e compreendo sua importância como afirmação da soberania na América Latina. Creio que os problemas dos cidadãos cubanos, que são reais, devem ser resolvidos por eles mesmos.
Como alguém já lembrou: se for para falar em causas humanitárias para proibir a entrada de médicos cubanos, por que aceitar milhares de bolivianos que hoje tocam pedaços inteiros da mais chique indústria de confecção do País?
Denunciar o governo cubano de terceirizar seus médicos é apenas ridículo, num momento em que uma parcela do empresariado brasileiro quer uma carona na CLT e liberar a terceirização em todos os ramos da economia. Neste aspecto, temos a farsa dentro da farsa. Quem é radicalmente a favor da terceirização dos assalariados brasileiros quer impedir a chegada, em massa, de terceirizados cubanos. Dizem que são escravos e, é claro, vamos ver como são os trabalhadores nas fazendas de seus amigos.
Falar em democracia é um truque velho demais. Não custa lembrar que se fez isso em 64, com apoio dos mesmos jornais que 49 anos depois condenam a chegada dos cubanos, erguendo o argumento absurdo de que eles virão fazer doutrinação revolucionária por aqui. Será que esse povo não lê jornais?
Fidel Castro ainda tinha barbas escuras quando parou de falar em revolução. E seu irmão está fazendo reformas que seriam pura heresia há cinco anos. O problema, nós sabemos, não é este. É material e mental.
Nossos conservadores não acharam um novo marqueteiro para arrumar seu discurso para os dias de hoje. São contra os médicos cubanos, mas oferecem o quê? Médicos do Sírio Libanês, do Einstein, do Santa Catarina?
Não. Oferecem a morte sem necessidade, as pragas bíblicas. Por isso não têm propostas alternativas nem sugestões que possam ser discutidas. Nem se preocupam. Ficam irresponsavelmente mudos. É criminoso. Querem deixar tudo como está. Seus médicos seguem ganhando o que podem e cada vez mais. Está bem. Mas por que impedir quem não querem receber nem atender?
Sem alternativa, os pobres e muito pobres serão empurrados para grandes arapucas de saúde. Jamais serão atendidos, nem examinados. Mas deixarão seu pouco e suado dinheiro nos cofres de tratantes sem escrúpulos.
Em seu mundo ideal, tudo permanece igual ao que era antes. Mas não. Vivemos tempos em que os mais pobres e menos protegidos não aceitam sua condição como uma condenação eterna, com a qual devem se conformar em silêncio. Lutam, brigam, participam. E conseguem vitórias, como todas as estatísticas de todos os pesquisadores reconhecem. Os médicos, apenas, não são a maravilha curativa. Mas representam um passo, uma chance para quem não tem nenhuma. Por isso são tão importantes para quem não tem o número daquele doutor com formação internacional no celular.
O problema real é que a turma de cima não suporta qualquer melhoria que os debaixo possam conquistar. Receberam o Bolsa Família como se fosse um programa de corrupção dos mais humildes. Anunciaram que as leis trabalhistas eram um entrave ao crescimento econômico e tiveram de engolir a maior recuperação da carteira de trabalho de nossa história. Não precisamos de outros exemplos.
Em 2013, estão recebendo um primeiro projeto de melhoria na saúde pública em anos com a mesma raiva, o mesmo egoísmo. Temem que o Brasil esteja mudando, para se tornar um país capaz de deixar o atraso maior, insuportável, para trás. O risco é mesmo este: a poeira da história, aquele avanço que, lento, incompleto, com progressos e recuos, deixa o pior cada vez mais distante.
É por essa razão, só por essa, que se tenta impedir a chegada dos médicos cubanos e se tentará impedir qualquer melhoria numa área em que a vida e a morte se encontram o tempo inteiro.
Essa presença será boa para o povo. Como já foi útil em outros momentos do Brasil, quando médicos cubanos foram trazidos com autorização de José Serra, ministro da Saúde do governo de FHC, e ninguém falou que eles iriam preparar uma guerrilha comunista. Graças aos médicos cubanos, a saúde pública da Venezuela tornou-se uma das melhores do continente, informa a Organização Mundial de Saúde. Também foram úteis em Cuba.
Os inimigos dessas iniciativas temem qualquer progresso. Sabem que os médicos cubanos irão para o lugar onde a morte não encontra obstáculo, onde a doença leva quem poderia ser salvo com uma aspirina, um cobertor, um copo de água com açúcar. Por isso incomodam tanto. Só oferecem ameaça a quem nada tem a oferecer aos brasileiros além de seu egoísmo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Core Diante Desta Negra !

Tijolaço ao Dr CRM

Da xenofobia ao racismo é rapidinho

O Conversa Afiada reproduz es-pe-ta-cu-lar post do Fernando Brito, que trabalhou com o engenheiro Leonel Brizola: dá para perceber …

“Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por amor”, afirmou Nelson Rodrigues, 45.

“Nossa motivação é a solidariedade”, assegurou Milagros Cardenas Lopes, 61

“Viemos para ajudar, colaborar, complementar com os médicos brasileiros”, destacou Cardenas em resposta à suspeita de trabalho escravo. “O salário é suficiente”, complementou Natasha Romero Sanches, 44.

Poucas frases, mas que soam  como se estivessem sendo ditas por seres de outro planeta no Brasil que vivemos.

O que disseram os primeiros médicos cubanos do  grupo que vem para servir onde médicos brasileiros não querem ir deveria fazer certos dirigentes da medicina brasileira reduzirem à pequenez de seus sentimentos e à brutalidade de suas vidas, de onde se foi, há muito tempo, qualquer amor à igualdade essencial entre todos os seres humanos.

Porque gente que não se emociona com o sofrimento e a carência de seus semelhantes, gente que se formou, muitas vezes, em escolas de medicina pagas com o imposto que brasileiros miseráveis recolheram sobre sua farinha, seu feijão, sua rala ração, gente que já viu seus concidadãos madrugando em filas, no sereno, para obter um simples atendimento, gente assim não é civilizada, não importa quão bem tratadas sejam suas unhas, penteados os seus cabelos e reluzentes seus carros.

Perto desta negra aí da foto, que para vocês só poderia servir para lavar suas roupas e pajear seus ricos filhinhos, criados para herdar o “negócio” dos pais, vocês não passam de selvagens, de brutos.

Vocês podem saber quais são as mais recentes drogas, aprendidas nos congressos em locais turísticos, custeados por laboratórios que lhes dão as migalhas do lucro bilionário que têm ao vender remédios. Vocês podem conhecer o último e caro exame de medicina nuclear disponível na praça a quem pode pagar. Vocês podem ser ricos, ou acharem que são, porque de verdade não passam de uma subnobreza deplorável, que acha o máximo ir a Miami.

Mas vocês são lixo perto dessa negra, a Doutora – sim, Doutora, negra, negrinha assim! - Natasha é, eu lhes garanto.

Sabem por que? Por que ela é capaz de achar que o que faz é mais importante do que aquilo que ganha, desde que isso seja o suficiente para viver com dignidade material. Porque a dignidade moral ela a tem, em quantidade suficiente para saber que é uma médica, por cem, mil ou um milhão de dólares.

Isso, doutores, os senhores já perderam. E talvez nunca mais voltem a ter, porque isso não se compra, não se vende, não se aluga, como muitos dos senhores, para manter o status de pertenceram ao corpo clínico de um hospital, fazem com seus colegas, para que deem o plantão em seus lugares.

Os senhores não são capazes de fazer um milésimo do que ela faz pelos seres humanos, desembarcando sob sua hostilidade num país estrangeiro, para tratar de gente pobre que os senhores não se dispõem a cuidar nem querem deixar que se cuide.

Os senhores não gritaram, não xingaram nem ameaçaram com polícia aos Roger Abdelmassih, o estuprador, nem contra o infeliz que extorquiu R$ 1.200 para fazer o parto de uma adolescente pobre, nem contra os doutores dos dedos de silicone, nem contra os espertalhões da maternidade paulista cuja única atividade era bater o ponto.

Eles não os ameaçaram, ameaçaram apenas aos pobres do Brasil.

Estes aí, sim, estes os ameaçam. Ameaçam a aceitação do que vocês se tornaram, porque deixaram que a aspiração normal e justa de receber por seu trabalho se tornasse maior do que a finalidade deste próprio trabalho, porque o trabalho é um bem social e coletivo, ou então vira mero negócio mercantil.

É isto que estes médicos cubanos representam de ameaça: o colocar o egoísmo, o consumismo, o mercantilismo reduzidos ao seu tamanho, a algo que não é e nem pode ser o tamanho da civilização humana.

Aliás, é isso que Cuba, há quase 55 anos, representa.

Um país minúsculo, cheio de carências, que é capaz de dar a mão dos médicos a este gigante brasileiro.

E daí que eles exportam médicos como fonte de receita? Nós não exportamos nossos meninos para jogar futebol? O que deu mais trabalho, mais investimento, o que agregou mais valor a um país: escolas de medicina ou esteiras rolantes para exportar seus minérios?

É por isso que o velhíssimo Fidel Castro encarna muito mais a  juventude que estes yuppies coxinhas, cuja vida sem causa cabe toda dentro de um cartão de crédito.

Eu agradeço à Doutora Natasha.

Ela me lembrou, singelamente, que coração é algo muito maior  do que aquele volume que aparece, sombrio, nas tantas ressonâncias, tomografias e cateterismos porque passei nos últimos meses.

Ele é o centro do progresso humano, mais do que o cérebro, porque é ele quem dá o norte, o sentido, o rumo dos pensamentos e da vida.

Porque, do contrário, o saber vira arrogância e os sentimentos, indiferença.

E o coração, como na música de Mercedes Sosa, una mala palabra

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A AP 470 e as Lições da História

Miguel do Rosário, via Tijolaço
Permitam-me retomar uma querida metáfora histórica que cultivo há algum tempo, quando penso no combate político que blogueiros e ativistas digitais dão contra a grande mídia corporativa. Em seu clássico História, o grego Heródoto descreve uma das maiores guerras da Antiguidade, que moldou a civilização ocidental. A vitória dos gregos sobre os persas representa, ao menos simbolicamente, o primeiro grande triunfo dos valores democráticos modernos sobre o totalitarismo asiático.
Decerto uma das batalhas mais determinantes para o futuro da Grécia e da humanidade, é a famosa batalha das Termópilas. É a primeira batalha decisiva do segundo ciclo de ataques que os persas faziam à Grécia. No primeiro, dez anos antes, haviam sido derrotados pelos atenienses e aliados. No segundo ciclo, os espartanos desempenharão o papel principal.
A batalha das Termópilas ficou famosa pelo incrível desequilíbrio de forças. Alguns milhares contra milhões. Os gregos não haviam conseguido se organizar novamente numa frente única. Os próprios espartanos viviam divisões políticas domésticas que os impediam de aprovar o envio de um exército para receber Xerxes, cujas tropas são estimadas por Heródoto em mais de cinco milhões de soldados.
Então Leônidas, rei de Esparta, pede autorização aos que detinham autoridade para que aprovassem ao menos que um grupo de 300 soldados de elite, incluindo ele mesmo, se dirigisse às Termópilas para frear a invasão.
Aos 300 de Esparta se juntam batalhões de outras cidades, mas são os espartanos que ganharão a imortalidade ao assumirem a linha de frente, atrasando por várias semanas a invasão persa, dando tempo e inspirando valentia a todos os povos helênicos para derrotarem Xerxes definitivamente.
Xerxes era tão rico como a família Marinho. E seus generais, assim como os colunistas de jornal, vestiam armaduras de ouro. Os gregos vestiam-se com simplicidade e leveza, e suas vantagens na guerra eram bravura, destreza, agilidade e inteligência militar. Enquanto o exército persa era formado por escravos e lacaios, os soldados gregos eram cidadãos orgulhosos de sua pátria.
No julgamento do “mensalão”, penso mais uma vez nessa batalha. De um lado, a grande mídia, com os Marinho ocupando o poder central, numa posição privilegiada para controlar a opinião pública brasileira e patrocinar uma grande farsa, pela qual vende aos brasileiros que, pela primeira vez, poderosos serão condenados. Faz isso ao mesmo tempo em que acoberta crimes muito maiores de seus amigos políticos e de si mesmo. O maior caso de corrupção da história do Brasil, por exemplo é a criação da própria Globo, cujos proprietários entram na ditadura com um jornal de médio porte, deficitário, e saem dela figurando entre as famílias mais ricas do mundo.
O “mensalão” é um processo político controlado pela Globo. Outros veículos de mídia têm de seguir a ordem central, mais ou menos dissimuladamente.
A rede democrática de resistência contra as sinistras manipulações da Globo e seus satélites é formada por guerreiros espartanos. A internet é o nosso Desfiladeiro de Termópilas.
O prognóstico para essa primeira batalha não me parece muito luminoso. Mas seremos derrotados com a altivez de quem se perfilou ao lado de valores democráticos e humanistas. Não nos comove o espírito de linchamento que a mídia conseguiu, com sucesso, insuflar no espírito de milhões de brasileiros. A história se moverá e o bom senso, como sempre, irá prevalecer. Os mesmos milhões que aderiram às tramoias da Globo, voltar-se-ão contra quem os enganou. Os “fiéis” da Igreja Globo, no caso “mensalão”, vem declinando rapidamente. Muitos já se deram conta do engano. A truculência do presidente do STF, Joaquim Barbosa, nada mais é do que desespero de se ver desmascarado. Querem encerrar tudo rápido, com medo do debate. Mas se o tempo está contra eles, então eles estão lascados, porque o tempo não para. Em algum momento, haverá uma virada na opinião pública, e aí quero ver.
Os Xerxes da mídia encontram-se hoje, talvez, levemente estupefatos, como ficou o original, mais de dois mil anos atrás, ao topar com nossa renhida e espartana resistência.
Ao fim, venceremos, não porque somos tão fortes assim, mas porque os princípios que defendemos são justos. Ninguém pode ser condenado por linchamento, sobretudo na mais alta corte do país. Os verdadeiros corruptos continuam posando de heróis para a mesma mídia que promove o linchamento de inocentes.
Os globais nos ameaçam com ataques diários, enquanto dão sequência a coberturas parcialíssimas sobre a fase final do julgamento da Ação Penal 470. Todos seus lacaios são mobilizados: chargistas, colunistas, humoristas, repórteres, âncoras.
Heródoto conta que o soberano persa, pouco antes de iniciar as hostilidades contra os espartanos, mandou um recado ameaçador: iria deflagrar um chuva de flechas tão grande, que cobriria a luz do sol. Um soldado grego sorri altivamente e rebate, aos brados:
“Muito bem, lutaremos à sombra!”
É o que estamos fazendo. Podemos não ter os grandes meios de comunicação a nosso favor. Podemos não contar sequer com o apoio do governo, a bem da verdade também cercado pelas mesmas tropas dos persas midiáticos. Mas seguiremos fazendo tantos estragos, fazendo a vitória da mídia custar tão caro, mas tão caro, que eles, um dia, serão obrigados a recuar.
Aí será tarde demais para eles, porque serão perseguidos até os confins do mundo. Então poderemos desfrutar, finalmente, da democracia moderna e autêntica que vimos tentando implantar no país desde a Constituição de 1988.
Sem democratizar a mídia, nossa democracia corre o risco de se tornar um triste e rico feudo da família Marinho, cuja fortuna de R$52 bilhões aliada a seu latifúndio comunicativo faz dela um agente político extremamente perigoso à estabilidade democrática. Não vai ser fácil, claro. Todas as coisas que brilham muito, como a liberdade, a democracia e a independência, são perigosas quando nos aproximamos. Mas quando essas luzes estiverem nas mãos do povo, o que nos ameaçava se tornará nossa principal arma contra o arbítrio dos herdeiros da ditadura.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

*O Pior Analfabeto é o Analfabeto Midiático


Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo.
Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula.
Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédiodependem das decisões políticas. E que elas na era da informaçãoinstantânea de massa são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. 

Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, ememissoras de rádio e tevê  que também estão presentes na internet  a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas
mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos.
O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ
 
denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.
O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo.
Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar.
Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o queo jornalista, o editor e, principalmente, o dono da voz (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens.
Dizem que uma foto vale mais que mil palavras. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: então diga isto com uma imagem). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas ao gosto do freguês. Há uma

infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana
ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.
O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica  para não

estender demais os campos do conhecimento para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em "especialistas" e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos.

Lê pouquíssimo, geralmente
best-sellers e livros de autoajuda.

Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o
 
pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto
 
e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.
O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres.
Em resumo: destroem a democracia.
Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer:Nada é impossível de mudar.
Desconfiai do mais trivial, na aparência  singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

por Celso Vicenzi (com a
"ajuda" de Bertolt Brecht)

**Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de
Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de
imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de "Gol é Orgasmo",
com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter
@celso_vicenzi. Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que
hoje sou: um autoignorante!?. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
Fonte: notaderodape

A Cultura da Corrupção

Rodolpho Motta Lima

Não vou aqui repetir declarações do Ministro já muito bem destacadas no artigo “Mensalão ruim é o dos outros”, de autoria de Rogério Guimarães Oliveira, publicado aqui no DR. Prefiro então me ater a uma fala em que ele, exemplificando o que denominou de nossa “cultura da corrupção”, mencionou atitudes corriqueiras no cenário nacional, tais como “cobrar com nota ou sem nota”, “levar o cachorro para fazer necessidades na praia”, “fazer combinações ilegítimas nas licitações”. E destacar sua conclusão de que as instituições públicas são um reflexo da sociedade: “Não adianta achar que o problema está sempre no outro. Cada um deveria aproveitar este momento e fazer a sua autocrítica. a sua própria reflexão pessoal”.
Muitas vezes tenho mencionado aqui, a título de exemplo desse farisaísmo que anda solto por aí, diversas outras atitudes que compõem esse nosso cenário “cultural”. É a propina para o guarda de trânsito, é a sonegação no imposto de renda, é o pistolão para empregar parente, é a burla na alfândega... São as nossas pessoas  físicas ou  jurídicas utilizando-se de firulas  para fraudar o tesouro e buscar o refúgio dos paraísos fiscais. São os nossos poderes legislativo e judiciário agindo em causa própria e presenteando-se com benesses que passam longe do cidadão comum.      
Não é preciso ser muito atento aos comportamentos sociais cotidianos para perceber que estamos muito longe do ideal ético. Nem é necessário estar muito envolvido nos meandros da política para perceber que há mil exemplos capazes de justificar, com sobras, as palavras do Ministro a respeito de uma corrupção que, ao contrário do que se quer fazer crer, não é “privilégio” de um partido político. Na terra em que se popularizou a “lei de Gerson”, aquela que parte do princípio que o bom é sempre levar vantagem em tudo, o que vemos são pequenas maracutaias do cotidiano que acabam tendo como projeção, na política, as grandes negociatas, fraudes e imoralidades de toda ordem.
Se quisermos ir mais longe, podemos ir ao tempo das Capitanias Hereditárias, podemos pesquisar o dia a dia da Colônia (procure ler o Gregório de Matos satírico), os anais do Império ou os diversos estágios da República (leia as crônicas ferinas de Lima Barreto). Podemos analisar a criação de Brasília, podemos esmiuçar os grandes negócios da Ditadura no tempo do “milagre brasileiro”. Sempre haverá , e fartamente, significativos momentos de denúncias – quase nunca apuradas com seriedade – de atos que envolviam corruptores e corruptos.
Mas também podemos nos limitar a tempos mais próximos do presente. Temos em plena atividade um ex-governador paulista e atual deputado eleito pelo povo, que não pode sair do país porque pode ser preso lá fora. Ele é do mesmo estado , aliás, que, nos anos 50, nos deu um governador que tinha como lema a frase “Roubo, mas faço”. Tivemos a era Collor, que dispensa explicações, logo seguida pelo escândalo dos “anões do orçamento”, no período de Itamar Franco. Tivemos o caso Lalau. Mais diretamente ligado aos  tempos que precederam o PT no poder, houve a suposta compra de votos para mudar a Constituição e permitir a reeleição de um presidente, nunca apurada, mas sempre mencionada; ocorreu a suposta  privataria tucana, que mereceu um livro de grande vendagem, cujas denúncias vêm passando em branco e tendem ao esquecimento. Antes do petista (o único que mereceu status de preocupação nacional), houve o mensalão de Minas, que não é julgado nunca, Ocorre agora o já apelidado “trensalão” paulista, mas ainda não averiguamos nem de longe aonde nos levarão (ou levariam) as águas torrenciais que vêm da cachoeira de Goiás... Precisa mais?
Esse clima de leniência permanente (e que parece eterna) com as falcatruas se espalha por outros campos que, contaminados pela corrupção, multiplica por aí posturas condenáveis nas quais, como sempre, o dinheiro atropela a moral, a ética e a honradez. E arranha significativamente a cidadania. Coisas de um sistema político corroído, é certo. Mas, muito mais que isso, coisas de um sistema econômico calcado na usura dos bancos, no oportunismo dos especuladores, nos fiéis seguidores do mercado. Coisas do capitalismo do salve-se quem puder e como puder, mesmo à custa da ética, e que gera, aos borbotões, distorções de caráter.
Apesar de tudo isso, não se pode embarcar na canoa furada – e perigosíssima – da desmoralização da representação política. Posições desse tipo acabam por gerar os coloridos salvadores da pátria, ou os generais de plantão... O que temos é que reforçar – reformando – a nossa estrutura política, afastando a nefasto patrocínio de corporações a candidaturas, tornando mais efetiva a fiscalização do povo e dando à iniciativa popular o privilégio da decisão, através de orçamentos participativos e  decisões comunitárias que imponham aos políticos a observância dos desejos daqueles que eles representam.    
O julgamento do STF, provavelmente, seguirá os rumos originais de um processo de cartas marcadas que escolheu, e não aleatoriamente, como bode expiatório da “cultura da corrupção” atávica e endêmica que nos persegue, um segmento partidário da política nacional que, de forma inédita,  mexeu nas estruturas sociais e tenta saldar uma dívida ancestral com os mais pobres, massacrados ao longo do tempo por políticos e políticas oligárquicas, seletivas, elitistas, corporativas, neoliberais (ou qualquer outro adjetivo que se queira escolher). E, fundamentalmente, corruptas.
Se é verdade, como disse o Ministro, que nada mudará se não reformarmos o nosso sistema político, é bom não esquecer que não mudaremos o nosso sistema político se não alterarmos o culto ao dinheiro, exacerbado por um sistema econômico que nos arruína enquanto seres humanos.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Mensalão Ruim é o dos Outros

Direto da Redação

Abro o Correio do Povo de hoje (15/8/2013), página 3, e começo a ler:

“O prefeito José Fortunati (PDT) decidiu exonerar os cargos em comissão (CCs) ocupados por indicação dos três vereadores de sua base aliada que assinaram o requerimento de criação da CPI da PROCEMPA na Câmara da Capital, protocolado ontem. As exonerações dos CCs indicados pelos vereadores Cláudio Janta (PDT), Lourdes Sprengler (PMDB) e Séfora Mota (PRB) serão publicadas no Diário Oficial da Prefeitura de hoje.”
Para os desavisados, vamos traduzir isso. Algum tempo atrás, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), ao montar sua base de apoio na Câmara de Vereadores, negociou da seguinte forma com os vereadores Janta, Sprengler e Mota:  “se vocês, que são vereadores eleitos pelo povo, me indicarem pessoas de suas relações para ocuparem cargos de confiança (CC) na prefeitura, eu nomeio estas pessoas e elas passam a ganhar uma grana do erário público da cidade todos os meses.  Então, em contrapartida a este meu generoso gesto com os seus amigos, assegurando a eles um dinheiro público todo mês, vocês passam a votar lá Câmara conforme eu disser, OK?”  
Acordo fechado!  Os três vereadores toparam e indicaram pessoas de suas relações para os cargos de CC na prefeitura.  O prefeito nomeou todos os indicados e os vereadores passaram a votar como quer o prefeito.  E tudo ficou “perfeito", diria o alcalde, “certinho”.
Porém, agora, quando estourou um escândalo de roubalheira na PROCEMPA, nas gestões do PPS e do próprio PDT do prefeito (a PROCEMPA é a empresa pública que cuida do gerenciamento tecnológico dos dados do município), vereadores da Câmara Municipal de Porto Alegre resolveram criar uma CPI, o que causou imediatas urticárias na pele do prefeito Fortunatti. 
Alguns vereadores da colenda começaram então a colher assinaturas de outros vereadores para o requerimento necessário para a criação desta CPI.  Foi então que os três referidos vereadores acima, os que entregaram seus mandatos ao prefeito em troca da investidura de amigos aos cargos de CC na prefeitura, resolveram assinar o requerimento de abertura da tal CPI. 
O que ocorreu então?  O prefeito, desgostoso com a indisciplina dos transaentes, considerou rescindida a negociação e, imediatamente, retaliou-os, exonerando do cargo de CC todas as pessoas indicadas pelos três vereadores rebeldes.  É isto o que retrata a notícia acima.  É isto o que significará a publicação das exonerações no Diário Oficial do município. 
Ora, o que temos então é a confissão pública, lisa, pacífica e rematada, do mais descarado mensalão praticado pelo governante do município de Porto Alegre. Ou será que ?  Tudo exatamente igual ao mensalão que gerou a condenação e a execração pública de José Dirceu, José Genuíno e de vários outros políticos que integraram o primeiro mandato do PT no Palácio do Planalto.  Repare bem:  é exatamente o mesmo tipo de negócio:  a “compra” de parlamentares para compor a base de apoio do governo à custa do erário público que paga os salários dos tais cargos em comissão.
Isto torna acertadíssima a manifestação de estréia do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, quando ele afirmou que a corrupção não pode ser politizada, com o que descolou do PT o esquema ocorrido em 2005: "Não existe corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB. Existe corrupção. Não há corrupção melhor ou pior, dos ‘nossos’ ou dos ‘deles’. Não há corrupção do bem.  A corrupção é um mal em si e não deve ser politizada", disse o ministro Barroso em seu voto.  E ele foi adiante, tocando no nervo exposto que é o sistema político eleitoral do país, mostrando que há uma matemática financeira que não pode ser fechada no campo da ética na política, numa coa simples:  o custo médio de uma campanha para deputado federal é de R$4 milhões, cargo este cujo salário mensal é de R$20mil reais.  Evidentemente, temos aí uma conta que não fecha, pois, se eleito, o deputado terá que trabalhar para os seus financiadores, estando aí aberto o caminho para a corrupção dos mensalões.
Enquanto o STF gasta uma preciosa fatia de seu orçamento público julgando as filigranas processuais relativos às condenações do processo do mensalão, em Brasília, o país segue sua vida com todos os demais mensalões que são operados em todo o país, em todos os níveis, como este de Porto Alegre, que foi publicamente assumido e confessado pelo próprio prefeito. 
Enquanto isso, o país se debruça sobre um outro mensalão, que já é chamado de trensalão, o escândalo da roubalheira dos governos tucanos de São Paulo desde Mário Covas, passando pelas gestões dos ex-presidenciáveis José Serra e Geraldo Alckmin.  Só neste caso, segundo dizem, mais de meio bilhão de dólares teria sido desviado do erário público para pagamento de propinas a políticos corruptos de São Paulo.  Onde está a CPI, onde está a ação penal?
Aliás, o Brasil é gerido por mensalões e mensalinhos há séculos.  Onde está a repercussão do mensalão da aprovação da emenda da reeleição no Congresso articulada pelo FHC, enquanto era (nada menos) do que o Presidente da República?  Onde está a ação penal dos mensalões do Governador Azeredo, de MG (operado pelo mesmo Marcos Valério), e o do Roberto Arruda, do DEM, no Distrito Federal (neste, chegaram até a filmar parlamentares enfiando dinheiro vivo nas meias, bolsas e cuecas)?   Cadê o estardalhaço da imprensa em torno das denúncias comprovadas de roubos nas privatizações denunciadas no livro “Privataria Tucana”?  E a CPI e a ação penal agora, relativamente ao trensalão do PSDB de São Paulo?
A imprensa repetiu à exaustão a entrevista de Geraldo Alckmin de que irá processar a empresa alemã Siemens, por que ela é “ré confessa”.  Conforme disse o humorista José Simão, isto é o mesmo que o marido, após flagrado pela esposa com marca de batom na camisa ao chegar em casa, reunir a imprensa para dizer que irá processar o fabricante do batom!
O problema no Brasil é que a profusão de mensalões é tão intensa quanto a hipocrisia que transborda no entorno de todos eles.  Ou, como disse um outro humorista:  “mensalão ruim é o dos outros!”  Já agora, em agosto, começo a achar que todos aqueles que protestaram nas ruas em junho passado podem ter desperdiçado suas energias e seus cartazes.  Alguém me comprove que estou errado, pelamordedeus!
Contribuição do leitor Rogério Guimarães Oliveira, advogado. Email: rgo@via-rs.net

​A Cultura da Banana e a Irracionalidade dos Políticos

João Gualberto Jr.


Como se cria uma cultura? Existe um caso bastante compartilhado no meio gerencial que trata de um grupo de macacos posto em uma jaula por cientistas. No cativeiro, foi colocada uma escada com uma banana em cima. Se um dos animais tentasse subir para pegar a fruta, os outros, embaixo, levavam choque elétrico. Por fim, quando um deles se atrevia na escalada, os demais se antecipavam e o espancavam para evitar o castigo.


Depois, os cientistas foram substituindo um a um os macacos. O novato tentou subir a escada, é claro, mas apanhou dos veteranos. Trocou-se um segundo animal, que também tentou pegar a banana. Mas foi igualmente impedido a pancadas pelos outros, inclusive pelo que havia entrado na jaula por último. Assim, todos foram substituídos, e, apesar de nenhum do novo grupo ter sofrido choques, aprenderam que não era bom tentar pegar a banana.


Na gestão pública brasileira, aparentemente, é mais ou menos assim. Só que, em vez de responder ao estímulo do medo, o que move nossos gestores é a mamata. As tais prerrogativas de função de desembargador, procurador, ministro, parlamentar etc. preservam o abismo que distingue os gabinetes do resto da sociedade. Em vez da jaula dos macacos, é uma redoma de vidro blindado.


O que explica o fato de as ruas do país pegarem fogo e um deputado, um senador ou um ministro fretar um avião da Força Aérea Brasileira para levar a família a um jogo da seleção brasileira? É só desfaçatez e cara de pau regimental? Os protestos levaram milhões de brasileiros a reivindicarem mais moralidade na condução da administração coletiva. Nos Legislativos, os nobres até que aprovaram medidas que acarretam mudanças positivas profundas. Contudo, as práticas individuais na investidura dos cargos se mostraram imunes aos apelos. Foi tudo da boca, ou melhor, do plenário pra fora?


TUDO CONTINUA IGUAL


Os gastos com diárias nos Poderes continuaram escorchantes na visão de quem tira do próprio salário para pagar a gasolina. Os deputados foram passear em destinos litorâneos em janeiro, quando não trabalham. As passagens eles penduraram nos ombros de todos nós, que precisamos dividir as viagens de férias em 12 vezes no cartão. Agora, vem a informação de que senadores vivem o bom e o melhor a nossas custas. Quem nos dera tamanha mordomia. Como pode? Uma dessas autoridades que usaram jatinho da FAB disse que se recusava a ressarcir a União porque tem direito à regalia.


É até de se supor que esses cavalheiros tenham alguma noção da distância entre a dimensão que habitam e a realidade da maioria dos trabalhadores. Mas o buraco é mais embaixo: trata-se de um vício cultural que remonta a 1808 e ao séquito transatlântico de d. João VI. Quando esse pessoal privilegiado sentou-se na cadeira, o dono da bunda que a esquentou anteriormente também recebia as mesmas benesses, e o predecessor desse também. A prática recorrente, passada a cada nomeação, se transforma em cultura com o tempo, e, por isso, o problema se complica.


Não adianta nada irmos trocando os macacos de quatro em quatro anos se a prática introjetada da mamata não for reformada também nos plenários, gabinetes, carros oficiais e afins. Se não há bananas para todos, é melhor que ninguém tenha acesso a elas.   
(transcrito de O Tempo)

O Fácil Caminho do Lucro

Direto da Redação - Eliakim Araújo

O lucro do Banco do Brasil, anunciado esta semana, de10,03 bilhões de reais no primeiro semestre do ano é o maior da história dos bancos no país.  Ao lado do BB, todos os grandes banco privados apresentaram enorme lucratividade.  Itaú Unibanco e Bradesco lucraram, no mesmo período, 7,23 bilhões de reais o primeiro e 5,87 bilhões o segundo.

Longe de ser motivo de euforia, esses números devem ser motivo de preocupação. Por uma questão muito simples. Como pode um país que possui milhões de seres humanos vivendo abaixo da linha de pobreza ter um sistema bancário com tamanha lucratividade?
Além das taxas e serviços, muitas delas cobradas ilegalmente,  por desconhecimento do consumidor, certamente é no spread que os bancos brasileiros estão enchendo seus cofres e o bolso de seus acionistas que botam o dinheiro para trabalhar por eles.   O spread é a diferença entre a taxa de juros que o banco paga para captar recursos e a taxa de juros que ele cobra para emprestar dinheiro.
E essa diferença é tão absurda que podemos dizer que a principal fonte de receita dos bancos é proveniente de uma agiotagem oficializada, ou, se quiserem, uma gatunagem com o dinheiro alheio.   Veja estes números que foram publicados no blog Clique aqui
Quando olhamos para os números no curto prazo, já enxergamos um abismo. O CDB (Certificado de Depósito Bancário), o papel que você recebe quando empresta ao banco, está rendendo atualmente 7,8% ao ano, em média.   Já o crédito pessoal, aquele dinheiro que você toma emprestado sem nenhuma garantia, rende 73% ao ano para a instituição financeira. Ao pensarmos em como isso ficaria no longo prazo, então, a diferença é muito mais gritante. 
O banco que  que emitiu um CDB a R$ 100,00 para uma pessoa física em 1º de julho de 1994, início do Plano Real, teria que devolver, hoje, R$ 2.038 a esse cliente. Descontado o Imposto de Renda, o pequeno investidor poderia resgatar R$ 1.733. Considerando que a inflação foi de 333% no período, a rentabilidade real dessa aplicação foi de 370%.  No caminho inverso, se porventura uma pessoa física tivesse tomado emprestados R$ 100,00 em 1994 e nada tivesse pagado nesse período e nem mesmo renegociado, sua dívida estaria hoje na casa dos milhões. Mais precisamente, ele deveria R$ 7.205.180,78”. 
Ou seja, em 19 anos ,  uma aplicação de R$ 100,00 vira R$ 2 mil; mas, se for uma dívida de R$ 100,00,   vira mais de R$ 7 milhões.  Não é uma aberração?  Essa é a prática de um sistema que não pode nem ser chamado de perverso,  ele é cruel, sobretudo porque quem vai ao banco buscar um empréstimo está, geralmente, em difícil situação financeira. Pois é destes que os bancos arrancam o couro, pois sabem que eles não têm para quem apelar.
Apesar desses lucros fabulosos, os bancos continuam  a) atendendo mal aos que são obrigados a enfrentar filas nas agências, apesar de uma lei fajuta que limita o tempo de permanência do cliente no local; b) pagando salários de fome a seus funcionários,  que além de tudo trabalham em péssimas condições materiais;  e c) cobrando taxas e serviços de quem usa e de quem não usa o sistema.  Experimente deixar uma conta parada por algum tempo... você vai ter uma desagradável surpresa quando checar seu saldo mais adiante.
Alguma coisa está errada nesse cruel sistema bancário brasileiro. Não podem os bancos ter esses lucros exorbitantes enquanto milhões de brasileiros vivem em extrema pobreza – apesar dos avanços sociais dos últimos dez anos.  Nos casos específicos do BB e da Caixa Econômica, bancos operados por gente nomeada pelo governo federal,  penso que estes deveriam canalizar seus recursos para atender as camadas mais carentes da população, mesmo que seus balançso apresentem lucros menores. .
Mas, é forçoso reconhecer,  são os bancos públicos que investem parte de seus lucros em projetos sociais muitas vezes a fundo quase perdido para alavancar programas de ajuda aos menos favorecidos,  enquanto dos bancos privados não se arranca um centavo para o mesmo fim.  Também é dos bancos públicos o mérito da iniciativa de promover uma redução das taxas de juros. E se uma redução maior não conseguem é porque a pressão dos bancos privados é grande para “preservar a competição no  mercado”.
Está mais do que na hora de o governo intervir nesse sistema injusto, que beneficia meia dúzia de banqueiros e investidores em detrimento de milhões que são obrigados a recorrer aos bancos na hora do aperto. Intervir nessas taxas de juros imorais e abrir linhas de crédito para quem realmente precisa de socorro financeiro devem ser prioridades.  Ao lado da reforma política, é urgente pensar em uma reforma do nosso sistema bancário.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

fhc , o crápula: “Eu Não. Eu Sou deus”


by bloglimpinhoecheiroso
FHC_Lixo_HistoriaLaerte Braga
Quando o ex-presidente Fernando Henrique
​, o crápula,​
 diz que “o PSDB não é farinha do mesmo saco”, não estava querendo defender o partido. Isso é o que pode parecer à primeira vista. Estava defendendo a si, largando os “amigos” (não tem, tem cúmplice) na chuva e cuidando de sua própria pele.
É deus, privatizou o mundo em seis dias e depois foi a Camp David passar o sétimo com Bill Clinton onde recebeu a mala pelos serviços prestados.
O que está dizendo é que não o confundam com Serra, com Alckmin, com Aécio, com Álvaro Dias, com Portelinha, Azeredo e toda a corja. Ele não. É deus e está acima do bem e do mal. O que fez não importa se eivado de corrupção, importa que ele é “deus”.
Parênteses.
No caso de Aécio estar no PSDB é falta de vergonha na cara, ou já está num estado de depauperação mental irrecuperável. Tancredo tinha horror de FHC.
Fernando Henrique percebeu a gravidade do caso do Metrô paulista e sente o cheiro da podridão que exala da Rede Globo, donde podem surgir segredos aterradores do seu governo, falo da sonegação fiscal de R$600 milhões. A Globo sempre foi fétida, só que agora o cheiro está chegando com insuportável odor às ruas.
São as duas grandes questões pontuais que vive o País nesse momento e são elas que devem fazer parte de qualquer bandeira de protesto, onde quer que se vá. No território nacional, ao lado das grandes causas, a Constituinte Popular, por exemplo. São produtos da podridão e da falência do Estado desde a época da ditadura militar.
Um corpo corroído muito mais pelos corruptores, principais acionistas desse Estado (bancos, grandes empresas, latifúndio, templários evangélicos, que pela corrupção, que é consequência (a bancada evangélica é uma espécie de ordem dos templários da Idade Média, mas caricata, latifúndios são pistoleiros do velho oeste e banqueiros e grandes empresários são a Opus Dei).
O sistema político eleitoral brasileiro permite que os corruptores elejam e mantenham a maioria das casas legislativas, prefeituras, esse adereço desnecessário câmaras municipais, governos estaduais, assembleias e as duas casas legislativas nacionais, uma delas a chamada representação popular, a Câmara dos Deputados e a outra, outro adereço desnecessário, o Senado, representação dos estados de uma federação que não existe exceto no papel.
Nosso sistema judiciário é uma teia de não resolve nada e isso é proposital. Quem vai ter peito de encarar o mea culpa no erro do “mensalão? Todo o arcabouço do Estado brasileiro guarda consigo “preciosidades” do Brasil colônia, do Brasil império e das várias “repúblicas” que tivemos ao longo de nossa História, mas sempre sob o controle das elites econômicas. O caráter democrático, que é também o caráter humano que deveria prevalecer não existe.
E aí, entra FHC, como entra o grupo Globo, como entram os que compram e se beneficiam do que na verdade é a diferença de classes, que por sua vez nos remete à luta de classes, necessária e fundamental para a construção de um Estado democrático. Aquele em que o trabalhador decide ao invés de ser alvo de gás lacrimogênio ou gás de pimenta, além da borduna da excrescência Policia Militar, outra “preciosidade” que trouxeram de antanhos.
Neste momento temos o que se chama de “condições objetivas” para buscar mudanças estruturais indispensáveis, a não ser que queiramos aceitar o papel de zumbis em função dos interesses dos donos. Não mudanças totais, plenas, mas portas para a construção de um futuro socialista.
No Brasil e em quase todos os países, há um problema complicado. Classe média. Come arroz e feijão, deve horrores ao banco para ter carro do ano e arrota maionese. Pior, lê Veja e acha que o Jornal Nacional é o ponto de referência da verdade absoluta. Extasia-se com o ET de Varginha.
No caso específico de FHC um safardana de grande porte, amoral, logo destituído de qualquer princípio e que em sua versão fumante de charuto cubano acredita que tudo é obra dele.
E que numa frase, como a que disse, falou para fora uma coisa, falou para dentro outra coisa, até porque se chegarem a ele respingos desse processo do Metrô, da Globo, o risco de retaliação é imenso. É detentor de segredos desde alcovas a gabinetes escuros e sombrios como aqueles que Drácula usa e não vai ter escrúpulos em esgrim
á
-los a seu favor.
É característica do amoral.
Foi o que ele quis dizer: “Eu não. Eu sou deus”.
O PSDB não é farinha do mesmo saco só, é um tipo de farinha predadora e que em vez de alimentar, devora.

domingo, 11 de agosto de 2013

Por Que os Norte-Americanos Bombardearam Hiroshima?

Se a guerra já estava ganha?

by bloglimpinhoecheiroso
Os japoneses pagaram o preço da rivalidade entre Estados Unidos e Rússia.
Paulo Nogueira, via Diário do Centro do Mundo
Em 6 de agosto último, foram completados 68 anos da bomba de Hiroshima. Recomendo um pequeno grande livro. Chama-se exatamente Hiroshima e foi escrito por Lawrence Yep. Todo mundo deveria ler. Não me consta que esse livrinho – no tamanho — tenha sido editado no Brasil. É uma pena.
São 50 páginas que contam o horror provocado pelos norte-americanos ao tomar a decisão cruel, absurda de destruir uma cidade inteira com suas crianças, velhos, mulheres.
A guerra já estava ganha. Hitler já se matara. Por que os norte-americanos fizeram uma coisa tão monstruosa? Uma retaliação ao ataque de Peal Harbour pelos japoneses não faz sentido.
Pearl Harbour era uma base naval. Não uma cidade. Seria como responder com um tiro a quem mandou um e-mail malcriado para você. Desproporção total.
O que os norte-americanos queriam era evitar que os russos, que tinham batido os alemães e definido o destino da guerra, se sentissem fortes demais. A bomba atômica foi um fator intimidador usado pelos Estados Unidos contra, sobretudo, a Rússia às vésperas da inevitável Guerra Fria.
Mas a que preço para Hiroshima.
O livrinho mostra que os habitantes da cidade achavam que até ali Hiroshima tinha sido poupada de bombas pelos norte-americanos porque era bonita. Mostra também a perplexidade do piloto do Enola Gay, o avião do qual foi jogada a bomba, ao ver depois as consequências. “O que fizemos?”, ele se pergunta.
A resposta é óbvia. Fizeram uma chacina.
A bomba ao cair espalhou um fogo intenso num raio longo. Milhares de pessoas foram imediatamente carbonizadas. Muitas outras morreram afogadas ao se atirar num rio para fugir do fogo. Era o começo de um dia. As crianças estavam indo para as escolas.
O livrinho mostra também uma “Donzela de Hiroshima”. Assim foram chamadas mulheres jovens desfiguradas pela bomba. Para elas se perdeu a possibilidade de atrair marido. Algumas foram para o país que as destruiu, os Estados Unidos, fazer plásticas. Cirurgiões plásticos norte-americanos se dispuseram a operar de graça.
Uma delas morreu na cirurgia. Suas cinzas retornaram a Hiroshima numa caixinha, levadas pelas conterrâneas no retorno à cidade devastada.
O livrinho também é um lembrete dos crimes de guerra sistematicamente cometidos pelos Estados Unidos. Com a impunidade de quem se julga dono do mundo.
Não.
Não é à toa que são tão odiados.

Pregos e Estopas

Rodolpho Motta Lima

Parto hoje de uma coluna de “O Globo”, não pela importância que atribua ao jornal, mas porque alguns de seus colaboradores exemplificam claramente, com sua posições, o pensamento do neoliberalismo nacional (ou será melhor dizer “antinacional”?).

No dia 08.08.2013, Merval Pereira tentou justificar a pisada na bola que deu ao afirmar que a confirmação das falcatruas do tucanato com a Siemens e outras empresas seria “o pior dos mundos para a democracia”. Defendendo-se da acusação de que teria deixado implícito que a corrupção “boa” para a democracia seria a do PT, Merval chamou seus críticos de “pseudojornalistas a serviço do governo petista”. Talvez tenha cometido, então, um segundo ato falho, pois essa afirmação permite que se faça o mesmo juízo de valor a respeito de jornalistas que, como ele, poderiam estar a serviço dos partidos de oposição ao PT.
Em princípio, é saudável que os órgãos “globais” estejam falando do assunto, ainda que se possa supor que só o fizeram pressionados por denúncias anteriormente feitas por outras mídias. Prefiro, contudo, aguardar o desenvolvimento dos acontecimentos, porque também pode ser que esteja em curso estratégia que, ao fim, pretenda beneficiar alguém nesse nosso complexo jogo político-eleitoral. Quando jovem, ouvi muitas vezes o dito popular “Ele não prega prego sem estopa”, para caracterizar uma pessoa cujas atitudes objetivas trazem sempre uma finalidade não declarada. É esperar para ver.
A propósito desse jogo político, aliás, acho que se enganam os que imaginam que Dilma entrará enfraquecida na disputa. Em primeiro lugar, porque ela contará com seus próprios méritos, consubstanciados na continuidade de um projeto empenhado na redução das desigualdades e na inclusão social.  Em segundo plano, porque o quase único programa político da assim chamada oposição tem como mantra o combate à corrupção, que agora, ironicamente, atinge de cheio os baluartes tucanos, a mostrar que o nosso problema nesse âmbito é endêmico, visceral, quase generalizado, resultante de uma estrutura fundada no lucro, no capital, no mercado.
Evidentemente, não se pode considerar que o atual Governo seja imune a críticas. Ele tem problemas, é certo. No sistema político, não há vestais, e o primeiro desses problemas decorre de uma série de ligações pouco aceitáveis, composições paradoxais, comprometimentos nem sempre republicanos, tudo em nome da malfadada “governabilidade”. O nosso poder legislativo há muito está na boca do povo e, seguramente, não com adjetivos favoráveis. Há uma chantagem permanente nos movimentos dos nossos deputados e senadores, que, de forma surreal, colocam  em primeiro lugar os seus interesses – confessados ou inconfessáveis – deixando de votar o que interessa aos cidadãos que os elegeram. Fatos como o “mensalão”, certamente, derivam desse panorama. 
É realmente um problema sério, comprometedor dos interesses nacionais, a existência de um Executivo cercado de não confiáveis por todos os lados, na chamada “base governamental”, fruto de uma estrutura política que tem que ser urgentemente reformada. Mas há também a inação de Dilma com relação a essa mídia que manipula informações e atua diuturnamente contra o Governo que, de forma inaceitável, financia seus detratores com expressivas verbas publicitárias, abrindo mão da colocação em pauta, como primordial, da chamada Lei dos Meios.
Apesar de tudo, é favorável o saldo dos últimos governos comprometidos com causas populares. O país vem experimentando uma nova realidade social, fruto de ações políticas cujos resultados estão aparecendo claramente, digam o que disserem os nossos conhecidos urubus. Embora ainda falte muita estrada a percorrer para que possamos celebrar a desejável e definitiva inclusão social dos menos favorecidos, não há como negar os avanços já obtidos. A recente divulgação dos índices alcançados no IDH mostra isso. São dados muito mais relevantes para a cidadania do que o sagrado PIB dos economistas, porque revelam que as crianças  brasileiras estão morrendo bem menos e os adultos estão vivendo bem mais. E como não há nada mais importante do que a “sempre desejada” vida, os brasileiros têm razões inéditas para se alegrar.
A Presidenta, com erros e acertos, não dá mostras de que pretenda se afastar da rota que traçou para seu governo, de combate à pobreza. Vitórias genéricas como essas, visualizáveis no IDH e nunca verificadas nos governos anteriores – que não tinham essa preocupação – se fazem acompanhar de muitos outras medidas de caráter social. Seria inimaginável, no tempo dos governos neoliberais, uma semana em que se anunciassem, simultaneamente, além da queda da mortalidade infantil e do aumento da expectativa de vida dos brasileiros,  a sanção de uma lei punitiva para as empresas corruptoras,  um índice deflacionário no IPCA, a criação de 239.000 vagas gratuitas em cursos técnicos, um expressivo lucro da Petrobras, a continuidade do programa “mais médicos”  ou a inauguração de um moderníssimo Instituto do Cérebro com atendimento exclusivo para os usuários do SUS.
É claro que, daqui até outubro de 2014, muitos tomates e pepinos vão ser “plantados” para desestabilizar o Governo. E a mídia hegemônica, essa vai continuar procurando quem possa representar melhor os interesses corporativos que ela defende. Parece que não será fácil continuar com os tucanos, contaminados pela corrupção. São boas as chances de estes serem abandonados. 
As alternativas, então, passariam por uma Rede em que tudo que cai é peixe ou por ex-aliados que cresceram politicamente graças aos governos do PT, mas que parecem não hesitar em cuspir imoralmente no prato em que comeram. O perigo é inventarem um novo “messias”, um crítico da classe política estilo Collor. Há gente que já percebe, no ar, essa tendência...

sábado, 10 de agosto de 2013

Não São Só Os Políticos Que Precisam de Aulas de Ética

Cynara Menezes


Em viagem de férias pelo Nordeste, vi este cartaz em tudo quanto é biboca de beira de estrada em Pernambuco e Alagoas. Me senti profundamente indignada, não só porque é o milionésimo anúncio de cerveja que usa a mulher como chamariz para vender álcool. Trata-se de uma propaganda imoral pelas seguintes razões:
1. O trocadilho utilizado a título de “humor” vulgariza a primeira vez sexual de alguém, ao associá-la ao consumo de álcool. Transar pela primeira vez é um acontecimento inesquecível, único, e me parece triste e repulsivo que seja utilizado para vender cerveja.
2. Se você não pensar em sexo, só em cerveja, o anúncio continua a ser imoral por escancarar o apelo da indústria de bebidas para que o jovem se inicie no álcool cada vez mais cedo. Só isso já seria o suficiente para proibir o anúncio, mas infelizmente, em nosso país, a publicidade de bebidas é permitida em todas as mídias.
3. Subliminarmente, é um anúncio degradante da condição feminina, porque dá a entender que a atriz está se oferecendo para transar com o consumidor em troca de cerveja.
Mas o que mais me intriga é o fato de uma mulher famosa e influente ter aceitado participar de algo tão abusivo quando, há menos de dois meses, celebridades se juntavam às pessoas nas ruas para pedir ética na política. Eu pergunto à bela atriz Alinne Moraes, que protagoniza o anúncio: querida, você acha mesmo ético ajudar a atrair jovens para a bebida? Você sabia que causa enorme preocupação no Brasil, hoje, o fato de os adolescentes beberem cada vez mais cedo? Não é antiético receber dinheiro para incentivar isso? Ou só políticos precisam ter ética?
A cada hora vejo, na TV, jornais, revistas e na internet, celebridades brasileiras, ao mesmo tempo que se engajam em campanhas contra os políticos, sem vergonha alguma de aceitar dinheiro para propagandear produtos questionáveis como instituições financeiras, construtoras, produtos de limpeza, remédios ou empresas de telefonia. É o caso do “bom moço” Luciano Huck, garoto-propaganda de uma infinidade de produtos e pai de três filhos, que não acha antiético anunciar suplementos vitamínicos cuja necessidade a ciência questiona, nem fazer propaganda de uma empresa de celular, a Tim, quando ao que tudo indica é usuário de outra, a Vivo (leia aqui). É ético mentir para vender um produto? Ou mentir só é condenável quando se trata de políticos?
O que dizer então da cantora Ivete Sangalo, que aceitou cachê de 650 mil reais do governo do Ceará para se apresentar na inauguração de um hospital que na verdade ainda se encontra em obras? Aliás, convenhamos que fazer show em inauguração de hospital, em si, já é uma aberração. “Mas a culpa é de quem a contratou.” Desculpa, não só. Se você é uma artista multimilionária que gosta de apontar o dedo para os malfeitos dos políticos, poderia muito bem passar uma peneira nos eventos para os quais é contratada. Ou será que, como os políticos que critica, está interessada mesmo é na grana?
Quando se trata de ética, não dá para ter dois pesos e duas medidas. A ética é uma só, na política e fora dela. Só vou deixar de fazer muxoxo para o engajamento de artistas em protestos contra a classe política no dia em que eu vir algum deles encampando, por exemplo, a defesa do projeto de lei que circula na Câmara dos Deputados restringindo a propaganda de bebidas no país. A mesma que rende ao mercado publicitário mais de um bilhão de reais por ano, parte deles embolsado pelas celebridades que protagonizam as campanhas. Ou quando vir famosos dizendo que se recusam a participar do anúncio de alguns produtos.
Até lá, para mim, eles serão tão demagogos quanto os políticos que acusam.
Em tempo: não adianta acionar o Conar contra a publicidade imoral da Devassa. O órgão “auto-regulatório” já absolveu a campanha, denunciada por consumidores pela “associação da cerveja à iniciação sexual” e  por estimular jovens a “assumir um comportamento de risco”.