terça-feira, 23 de julho de 2013

Primavera à Brasileira

Radicalismo sem controle e, organizados, apenas o crime e os pentecostais  by bloglimpinhoecheiroso


Os “manifestantes” transformaram as passeatas em caos geral.
Hildegard Angel, lido no CNN
O que me impressionou não foi o índice alto de acessos à crônica publicada aqui sobre o casamento “Bastilha” no Copacabana Palace, mas a reação raivosa, odienta, sangue na boca, de tantos e tantos que se manifestaram e ainda se manifestam.
Isso só fez reforçar minha convicção de que o momento é extremamente grave e precisamos disso ter consciência. O radicalismo toma conta do País. Digo mais: estamos às vésperas de entrar numa guerra civil.
Fomentado pela grande mídia, o ódio da classe média manifesta-se nas mídias sociais, nas ruas, nas cartas aos jornais, nos bares, nas conversas.
Num projeto golpista, temendo a continuidade do governo PT, uma mídia irresponsável, inconsequente, com sua curta visão, fez sua audiência acreditar que todos os males crônicos do Brasil advêm da era Lula.
Corrupção, crise hospitalar, deficiência do ensino, do saneamento, mazelas que somam pelo menos cinco décadas de omissões em gestões sucessivas, se é que podemos chamá-las de “gestões”, são debitadas aos governos petistas, justamente aqueles que apresentaram e apresentam os melhores resultados no desenvolvimento econômico, na política externa, na qualidade de vida, na justiça social, no reconhecimento internacional, na distribuição de renda e em inúmeros outros méritos.
Tanto fizeram, tanto insistiram, numa campanha de tal forma poderosa, insidiosa, obsessiva, continuada, que conseguiram chegar ao cenário que pretendiam: o país desmoralizado internacionalmente, a presidenta impopular, a economia em queda, manifestações nas ruas.
Cegos, imprevidentes, imprudentes, os donos desta mídia, os membros desta sigla, PIG – de Partido da Imprensa Golpista – acabam por dar o Golpe neles próprios, pois a primeira vítima é ela mesma, a mídia, que acendeu o fósforo, mas quem jogou a gasolina foi o Facebook, foi o Google. Só então a grande e forte mídia brasileira percebeu o quão é pequena e frágil, uma formiguinha, perto das redes sociais.
E deu no que deu: para cobrir as manifestações, só com os repórteres no alto dos prédios, dialogando com os cinegrafistas no alto dos helicópteros. Se chegassem às ruas, eram escorraçados, enxovalhados, linchados. Os microfones, pelados: não podiam exibir logomarca de emissora.
Daí que essa campanha que agora vemos em grandes jornais e redes de TV contra a espionagem norte-americana não é por nacionalismo, é por interesses econômicos. Nossos big shots das comunicações abriram, enfim, os olhos e se deram conta de que o Google já fatura 50 bi contra 120 bi da mídia mundial. É uma fatia muito grande, não?
Porém, o leite derramado está: como frear esse ódio, essa sede incontrolável de vingança contra os ricos, e de modo indiscriminado, em que o joio é misturado ao trigo? Corruptos aos íntegros? Tudo junto e misturado: dinheiro ganho por debaixo dos panos sujos e dinheiro conquistado sob o lenço encharcado do suor do trabalho? Quem vai conseguir puxar esse freio?
Na hora da raiva generalizada, a riqueza dos outros é toda igual. Com o ódio vem o ressentimento das classes, das diferenças, da inveja, da ganância do bem do próximo. É o vale tudo de rua contra rua, bairro contra bairro, vizinho contra vizinho, parente contra parente, irmão contra irmão.
E quando essa ira da classe média se alastrar até os pobres, os muito pobres, os miseráveis, os iletrados, quem vai conduzi-los? Quem tem liderança, neste momento, em nosso país? Quem são nossas lideranças?
Os movimentos nas ruas já mostraram que não há quem os guie. As centrais sindicais convocaram greve geral e foi um fiasco. Não lideram mais. Os movimentos estudantis, igual. Acomodaram-se nestes 10 anos de ante sala do poder. O PT, nem se fala, bem como os partidos aliados do governo. Acostumados a ser oposição desde sua origem, desmobilizaram suas “massas” e não as entusiasmam mais com a mesma intensidade e velocidade de antes.
Os partidos de oposição, DEM, tucanos e correlatos, de elite, não têm liderança popular, nem sabem ter. Botam na rua, se muito, alguns gatos pingados. Agem na base da intriga dos punhos de renda, dos corredores, cochichando coisas nos ouvidos e nos iPhones dos editores de revistas e colunistas de jornais. Não são povo.
As únicas lideranças com poder de mobilização no país na atualidade são: 1) o crime organizado; 2) as seitas pentecostais (igrejas evangélicas). Escolha seu líder…
O Crime Organizado já disse a que veio nas manifestações. São as milícias que vandalizam, a Polícia Federal já identificou. Há vídeo de policiais trocando as fardas por roupa de civis para em seguida se misturarem às passeatas. Na agitação com coquetel molotov em frente do Maracanã, no dia do jogo da Copa das Confederações, o grupo era de milicianos, a Polícia apurou.
Com o povo nas ruas, as milícias no Rio de Janeiro retomaram sua força perdida, se reorganizaram. A ausência do secretário Beltrame neste processo de retomar o controle da situação está sendo vista, pelos observadores, como sua recusa de participar de qualquer tipo de “acordo” com essa turma para restabelecer a “ordem”.
Um retrocesso. É isso que a grande mídia do golpe conseguiu produzir para o país. O PIG. Manipulando a atração juvenil pelas ruas. Incensando, insuflando o ódio da classe média contra a classe operária, contra o analfabetismo dos “lulas”. Projetando uma imagem desfocada da realidade nacional, ao atribuir aos governos do PT as mazelas absolutas e a exclusividade da corrupção no país desde o seu Descobrimento.
O PIG atirou no próprio pé. Se a palavra, em inglês, não significasse Porco, eu o chamaria de Burro.
Por tudo, recomendo muita calma. Sugiro cautela. Bom senso, cabeça fria. O momento é tenso. Estamos às vésperas de o povo, o povão verdadeiro, embarcar nessa onda revoltosa, podendo se transformar num tsunami avassalador, levando tudo e todos de roldão.
Para o dia 7 de Setembro, está sendo convocada, com estardalhaço, grande manifestação nacional. Vão tentar uma “Primavera à brasileira”. Depois disso, tudo poderá acontecer.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Reforma Política Já

Algumas pessoas me sugeriram que eu desse a minha opinião sobre alguns tópicos da Reforma Política que estão em discussão.

Resolvi, então, enumerar alguns aspectos que, para mim, não podem deixar de ser mencionados num debate efetivo a respeito de uma Reforma ampla e profunda. 

Antes de apresentá-los, cumpre dizer que apenas uma Assembléia Constituinte formada exclusivamente para tratar da Reforma Política poderia introduzir as mudanças necessárias no nosso sistema político. É muito difícil supor que os atuais congressistas, que venceram pleitos eleitorais dentro das atuais regras, se disporiam a alterar essas mesmas regras que os consagraram vencedores em suas disputas.

A - Breve diagnóstico daquilo que eu considero como sendo uma das principais distorções do modelo de disputa eleitoral atualmente no Brasil:

Durante a Terceira República, período compreendido entre o fim do primeiro governo Vargas, em 1945, e o golpe de 1964, que instaurou a ditadura civil-militar no Brasil, os partidos políticos eram instituições relativamente estáveis e existia, entre eles e os diferentes setores da sociedade, uma relação de identificação razoavelmente bem definida. Conforme cada um se situava no espectro ideológico, mais à esquerda ou mais à direita, havia um partido que, mais ou menos, representava as diferentes formas de pensar o país. Entre o PTB (que não tem nada a ver com o de hoje), a UDN e o PSD (que também não tem nada a ver com o de hoje), para ficarmos apenas entre as maiores legendas legalizadas no período e que podiam atuar institucionalmente (o que não era permitido ao Partido Comunista), era possível ao cidadão encontrar uma relação de correspondência entre sua forma de pensar (mais nacionalista ou mais liberal) e os partidos políticos que atuavam naquele período.

Na ditadura, mais especificamente com a edição do AI-2, em 1965, que dissolveu os partidos políticos e passou a criminalizar a atividade político-partidária no país (eis o perigo de tratar a política como crime: apenas as ditaduras fazem isso!!! Criminalizar a atividade política é o primeiro passo para suspender o ambiente democrático e atacar os direitos e as liberdades individuais e coletivas!!!) os brasileiros foram perdendo os laços de identidade com as instituições políticas do país. 

O que vemos hoje é uma profunda despolitização das pessoas, o que acaba dando oportunidade ao surgimento de partidos políticos de ocasião, ou mesmo de fachada, que não conseguem (talvez até porque não exista esse propósito) penetrar no sistema político brasileiro e criar verdadeiramente laços de identificação com os cidadãos ou setores específicos da sociedade.

Disso decorre as disputas eleitorais pouco ideológicas, como as que têm acontecido no Brasil. O debate político, a confrontação de idéias têm cedido cada vez mais espaço ao espetáculo de marketing. As campanhas estão cada vez mais centradas na figura do candidato, que recebe um tratamento de astro de cinema, do que propriamente nas idéias e nos projetos que ele tenha para apresentar ao povo.

São campanhas cada vez mais caras e vazias. Caras porque a lógica da propaganda eleitoral está cada vez mais voltada para o desenvolvimento de estratégias de marketing que fazem dos programas políticos verdadeiras peças publicitárias, com efeitos visuais sofisticadíssimos e o candidato é abordado segundo uma perspectiva cinematográfica, na qual ele recebe o tratamento de um personagem de um filme hollywoodiano. Nesse modelo de disputa, as instituições são praticamente esquecidas e todas as atenções se voltam para o culto à imagem do candidato, que muitas vezes é apresentado não como uma pessoa real, mas como um personagem de ficção.

É preciso subverter essa lógica (ilógica) porque afinal de contas as instituições é que devem ser perenes e estáveis. A opção por um candidato não deve se fazer pelo encantamento momentâneo produzido por uma campanha de marketing, mas pela associação entre um candidato e a história do partido que o indica. É preciso que nos voltemos para as instituições e não para as pessoas. A escolha de um candidato deve estar lastreada no partido político e não no “la garantia soy yo”, que é o que acaba acontecendo quando a escolha se faz apenas em relação à pessoa.

Nos comentários que se seguirão, eu menciono – sobretudo em relação ao item 3 abaixo, que será comentado ao final desse texto – algumas medidas que poderiam contribuir para a superação dessas distorções.

As disputas eleitorais no Brasil precisam se tornar mais baratas, mais transparentes (com mais efetivos mecanismos de controle de gastos pelos partidos) e mais ideologizadas, isto é, mais políticas de fato, e menos personalistas, menos espetaculares, menos cinematográficas.

O financiamento exclusivamente público de campanha eleitoral e o voto em lista para eleições proporcionais seriam importantíssimos para o alcance desses objetivos. Além deles, outras medidas também seriam muito bem vindas e, sobre algumas delas, eu falo a seguir.

B - Aspectos que eu considero que precisam ser discutidos numa proposta de Reforma Política (contrapontos, acréscimos, correções etc. são muito bem vindos. Os argumentos que serão apresentados aqui não são necessariamente definitivos):

1) Financiamento exclusivamente público de campanha eleitoral

Acho que esse tópico não carece explicação. Quem é contra o financiamento público é a favor do caixa 2 durante a campanha eleitoral e a favor da submissão do candidato eleito aos que tenham custeado sua vitória. Simples assim. Quem perde é a democracia. O financiamento de campanha exclusivamente por um Fundo Partidário Público seria o instrumento mais eficiente de controle de gastos. É mais barato, é mais transparente e é mais democrático.


2- Proibição às coligações partidárias para eleição proporcional

A explicação desse tópico será abrangida pela explicação do tópico seguinte.

3) Eleições proporcionais por meio de VOTO EM LISTA partidária, definida em processo democrático interno de cada partido

Por esse comentário ser um pouco mais longo, eu o deixei para o final.

4) Revisão das regras para suplência de titular no Senado Federal

Ontem o Senado reduziu para um o número de suplentes, que até as eleições de 2010 eram dois. De qualquer maneira, o suplente deveria existir apenas para substituir o titular e, jamais, para sucedê-lo. Em casos de ausência temporária (afastamento por motivo de saúde, viagens ao exterior etc.), o SUPLENTE exerceria a SUPLÊNCIA do titular, mas em casos de vacância do cargo (por morte, renúncia, cassação ou perda do mandato por qualquer outro motivo, pelo Senador titular), quem deveria ser empossado é o candidato subseqüente na ordem de votação na disputa da qual tenha saído vitorioso o Senador que vagou o cargo. A figura do suplente não se justifica na hipótese de vacância definitiva do cargo. Até porque em caso de cassação de mandato por corrupção, quebra de decoro ou abuso de poder durante a disputa eleitoral, a punição deveria recair sobre todos os membros da chapa. Que sentido faz em, por exemplo, a vaga deixada por DEMóstenes Torres ser ocupada por um suplente eleito juntamente com ele na mesma chapa e com os mesmos financiadores? Que ele fosse substituído pelo candidato seguinte na ordem de votação. No caso de morte do titular, tome-se como exemplo, o caso do Estado de Minas Gerais. Minas tem hoje dois terços de sua representação no Senado Federal a cargo de pessoas que não receberam um único voto sequer. Eliseu Resende e Itamar Franco morreram. Em seus lugares ficaram os suplentes, que não merecem sequer ser citados. Seria mais democrático (no sentido de que teria mais relação direta com a vontade popular) se tivessem sido empossados os candidatos imediatamente subseqüentes nas disputas das quais Eliseu Resende e Itamar Franco saíram eleitos. Por muito poucos que tivessem sido os votos recebidos por esses candidatos, já seria mais do que a quantidade de votos recebidos pelos Suplentes, que é zero.

5) Regras rígidas para consagração da fidelidade partidária

A fixação de tempo mínimo de filiação para se candidatar a cargos eletivos é uma medida que poderia conter em algum grau o “troca-troca” de partidos que alguns políticos praticam. Hoje, para concorrer a cargo eletivo, o interessado deve estar filiado a um partido por pelo menos um ano antes do dia fixado para as eleições. Esse prazo mínimo faz sentido apenas para a primeira vez que uma pessoa pretenda se candidatar a cargo eletivo. Seria necessário que, a partir da segunda disputa eleitoral, se previsse a obrigatoriedade de um tempo mínimo de três anos, pelo menos, de filiação a um partido. Como as disputas eleitorais no Brasil são bianuais, uma pessoa já filiada a partido político estaria impedida de participar, como candidato, de 1 (um) processo eleitoral, em caso de mudança de partido. Certamente, muito políticos pensariam duas vezes antes de saírem pulando de galho em galho, se soubessem que ficariam impedidos de disputar uma eleição.

6) Verticalização das coligações partidárias

Esse item é lindo na teoria, mas quase impossível de ser aplicado na prática, devido ao tamanho do Brasil e às muitas especificidades regionais. Mas, em todo caso, seria desejável que as coligações partidárias respeitassem uma lógica vertical. Isso quer dizer que as coligações entre partidos na esfera federal deveriam ser respeitadas nas esferas estadual e municipal. Se na esfera federal o partido A se coligou ao partido B, e o partido C se coligou ao D, nas esferas estadual e municipal eles podem até não se coligar entre si, mas, se se coligarem, esta coligação deverá reproduzir regionalmente a opção feita no nível federal. Esta seria uma maneira de conter o loteamento de cargos públicos por prefeitos e governadores em troca de apoio de partidos políticos. É muito ruim para a governabilidade que um partido aliado no plano federal se encontre ligado a governos de oposição em Estados ou Municípios.

7) Voto aberto ou fechado no Congresso?

Manutenção do voto parlamentar FECHADO, exceto em caso de votação de cassação de mandatos de pares. Tem-se falado bastante que seria desejável que fosse instituído o voto aberto no Congresso Nacional, mas muitos se esquecem de que o voto fechado é imprescindível para salvaguardar a independência e a harmonia entre os Poderes. Tudo o que não precisamos é de um Poder Legislativo submetido ao Poder Executivo ou a grupos megapoderosos economicamente. Se os parlamentares tiverem revelados todos os seus votos, eles se tornarão alvo-fácil de governos que eventualmente optem por comprá-los para votar matérias específicas conforme certos interesses. A instituição do voto aberto no Congresso seria abrir a porteira para a compra de votos. Afinal, ficaria fácil conferir, depois de cada votação, como votou cada parlamentar. Suponhamos que será votada uma matéria sobre regras de exploração do petróleo. Se o voto for aberto, basta que as grandes petroleiras do mundo ofereçam uma “recompensa” para os deputados que lhes favorecerem na votação. Se o voto for aberto, os parlamentares estarão desprotegidos e, por isso, mais suscetíveis a esse tipo de cooptação/corrupção. Da mesma forma, o próprio governo, eventualmente, poderá condicionar a liberação de um recurso para a região onde um deputado tem seu domicílio eleitoral - ou mesmo a indicação de um correligionário seu para um cargo do alto escalão do governo – à votação desse deputado, que poderá ser “premiado” ou “punido” de acordo com o modo como agrade ou desagrade aqueles que o chantageiam. Enfim, o voto aberto poderia representar o fim do parlamento, isto é, uma matéria para ser votada, não precisaria ser submetida a análise, a debates, à busca por consensos ou formação de maiorias, nada disso, bastaria uma reunião a portas fechadas em que uma mala de dinheiro fosse mostrada com a seguinte promessa: “votem como eu quero e depois que eu conferir no painel como cada um votou, eu retribuo a quem tiver sido obediente”. O voto aberto no Congresso Nacional seria uma espécie de “cala a boca”, ou seja, seria um anti-parlamento: ao invés de "parlar", os parlamentares passariam apenas a ouvir as recomendações dos interessados que tenham poder econômico para impor suas vontades nas votações de matérias que lhes interessem diretamente. É importante termos cuidado com o que reivindicamos. O voto aberto parece interessante, mas não é. Ele só deve ser aplicado em caso de cassação de mandatos, afim de que os parlamentares não se protejam no anonimato para votarem de forma corporativista. 

E, finalmente, o item 3.

O voto em lista fechada, aprovada em convenção partidária (o que é um processo desejável também para o fortalecimento da democracia interna dos partidos políticos) se mostra como a alternativa mais racional ao atual modelo de disputa vigente, em que as campanhas para o Legislativo se baseiam em inserções, no rádio e na tevê, de flashes rápidos, confusos e individualizados de um sem-número de candidatos que não têm tempo de dizer o que precisam dizer ou, muitas vezes, não têm mesmo nem o que dizer aos eleitores. Com o VOTO EM LISTA, o tempo de rádio e televisão nos Horários Gratuitos de Propaganda Eleitoral poderia ser utilizado para que os partidos apresentassem seus estatutos, seus programas, sua história, sua plataforma política e, claro, os nomes que compõem a lista que o partido estaria indicando. O mais importante nessa modalidade de eleição seria o componente de “educação política” que ela conteria. Primeiro, porque tornaria mais claro para o eleitor que numa eleição proporcional ele não vota numa pessoa, num candidato, mas num partido. Segundo, porque o eleitor também compreenderia melhor o funcionamento da atividade parlamentar, que não se dá de maneira solitária e individual, mas sim em blocos que se organizam em “bancadas”, de acordo com as áreas de interesse que se representam. Além disso, seria uma oportunidade tanto para os partidos quanto para os cidadãos poderem estreitar laços de identificação entre os cidadãos e as instituições partidárias: esse modalidade de eleição proporcional, por meio de lista, incentivaria o estabelecimento de relações de identidade entre partidos e eleitores. Isso, por si só, também já contribuiria para a eliminação de boa quantidade de partidos que existem hoje sem qualquer representatividade nem consistência programática. Por tudo isso, as eleições proporcionais por meio de lista fechada representariam não apenas uma reforma eleitoral, mas uma reforma política de fato. Porque tornaria as eleições para o Legislativo mais politizadas e ideologizadas. Tudo isso fortaleceria as instituições político-partidárias verdadeiras, eliminaria os partidos de aluguel, ampliaria a consciência política do eleitor, incrementaria a legitimidade da representação parlamentar, além de facilitar o exercício do acompanhamento e fiscalização, pelo cidadão, da atuação dos deputados e vereadores eleitos, uma vez que o partido serviria como uma referência estável para essa participação democrática do eleitor no acompanhamento do mandato legislativo.

Aliás, muito se fala em “crise de representatividade dos partidos políticos”, e O VOTO EM LISTA seria um fator importantíssimo para a depuração desse cenário atual da política brasileira, em que a quantidade excessiva de partidos políticos não se traduz na qualidade de suas atuações. 

Pelo que me parece, essa alegada e, muitas vezes, constatada falta de representatividade dos partidos políticos tem origem na própria gênese dos partidos. Os partidos políticos no Brasil são mais um “abrigo” do que propriamente um “partido”. Isso se deve ao fato de que, em tese, um partido teria de existir para representar parte da sociedade (partido vem de parte). Portanto, um partido qualquer deveria surgir como um desdobramento natural da organização política de setores da sociedade em defesa de seus interesses. Isso conferiria legitimidade ao partido, porque ele já se constituiria com uma espécie de procuração para atuar em defesa dos interesses daquele segmento social que se organizou em torno de bandeiras e princípios específicos. No entanto, o que se vê é os partidos surgirem não da organização de setores da sociedade, mas como resultado de disputas internas de poder em outros partidos já preexistentes. Ou seja, os partidos têm sido formados não mais para que representem interesses espontâneos específicos de grupos sociais, se constituem não mais em torno de programas concretos e proposições próprias. Ao invés disso, os partidos têm sido formados em contextos de conchavos políticos, se constituindo, portanto, para que atendam meramente às necessidades de alocação das lideranças políticas que se unem em busca de manutenção ou ampliação de poder. Por isso, não existe fidelidade, por parte dos filiados, a esses partidos transitórios, justamente porque esses partidos carecem de um programa que represente a intenção verdadeira de responder a uma demanda social concreta.

Se, por outro lado, fosse instituída, como já se sugeriu acima, a obrigatoriedade de um período mínimo de filiação a uma legenda para apenas depois dessa “quarentena” ser permitido a um filiado disputar cargos eletivos, e se, nas disputas proporcionais fosse instituído o voto em lista fechada, elaborada em convenções internas, certamente auferiríamos um enorme ganho na qualidade da nossa democracia político-partidária.

Essas são as minhas impressões. Quem quiser contribuir com contrapontos, esteja à vontade.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Quem É a Viralatagem Nacional?


Adora falar mal de tudo no país, de uma forma vergonhosa, desonrosa e servil. Com um desdém para lá da crítica, parece envergonhado pelo fato de ser brasileiro. É o otário que todo gringo reaça gostaria de encontrar, é o lacaio que não troca três palavras em inglês, mas concorda com tudo, balbuciando yah, yah!!!

Acha que só no Brasil as pessoas burlam o sistema de leis, vê com tremenda falta de lucidez a questão social, da mesma maneira que se sente inferiorizado com os 'estranjas' dos países ricos, se sente superior aos mais pobres daqui. É uma questão de compensação 'viralatiana', que não deixa dúvidas quando repete o mantra: 'só podia ser no Brasil' ...'isso é Brasil' ...ou aquele com a cola abanando: 'Nos EUA seria muito diferente'. Como disse um amigo outro dia, em tempos de uma embrionária luta por um transporte público de qualidade, de pensar uma saída para mobilidade urbana, de uma discussão ainda prejudicada pela falta de representatividade popular nesse debate na maioria massacrante dos municípios brasileiros, o vira-lata nacional posta uma foto do primeiro ministro da Suécia indo de ônibus para o trabalho e se desabrocha. Não se coloca na luta, nem protesta, nada mais, mostra sua ignorância geopolítica travestida por um elogio cínico e covarde. A viralatagem nacional é o medo do espelho.

Afirma de forma notória e costumaz que o problema aqui é a miscigenação, desconhecendo lamentavelmente a história. A miscigenação aqui em termos gerais é bem recente, diferentemente da Europa por exemplo. (não desprezando os movimentos migratórios atuais). O mundo é uma enorme colcha de retalhos, mas o Vira-lata nacional trabalha com a ideia de que existem os melhores que ele e os piores. Não acredita no sentimento de coletividade. Desconfio que prefere o âmbito dos círculos privados. A viralatagem nacional vez por outra, viaja ao exterior, mas para Miami (rsrs), ou os centros turísticos europeus (capitais de ex colônias), fica no ambiente destinado à turistas e se ilude achando que a vida lá é ordeira e pacífica. Ela é de classe média.

Adora curtir o som que veio de expressões populares estrangeiras e não sabe ao menos fazer uma crítica adequada sobre os daqui, o faz com preconceito. Acha que tudo está invariavelmente errado mas não tem o mínimo espírito revolucionário, é contra tudo que possa ser considerado “novo”, a não ser que seja made in blues eyes´s land. Não esconde a admiração pelos benefícios sociais da Dinamarca, mas odeia que o governo brasileiro amplie o Bolsa família ... considera tal proposta um insulto, é paradoxal mas não importa, afinal no Brasil tem muito aproveitador. Sabe de cor a segunda guerra mundial, mas não leu nada sobre a Coluna Prestes , nem cita Tiradentes. “Zumbi dos palmares foi um grande vagabundo”. A Viralategem nacional é reaça !!!

Chego à uma breve conclusão, pois caberia muito mais por discutir. Mas como esse não é o foro ideal, concluo dizendo que a VIRALATAGEM NACIONAL é uma contradição de si mesma, teve acesso ao estudo, vive em algum bom bairro (custodiado pelas policias) e não é capaz de entender sua participação nesse país saqueado por uma elite que desde 500 anos vende essa mesma imagem de desconstrução que ela acredita, fantasiosamente. O conservadorismo alimenta essa corja de vira-latas que, ao contrário dos cachorros assim denominados, escamoteiam sua cara de acordo com quem está à sua frente, deslumbrados com os de lá, enfurecidos com os de cá.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Rachaduras na Redoma

Diogo Costa

As relações entre Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, Rede Globo, PSDB, Daniel Dantas e Marcos Valério são maiores do que se imaginava. Desde o ano passado vinha escrevendo freneticamente que o julgamento-linchamento da AP 470 era, nem mais e nem menos, do que a maior farsa jurídica da história do Brasil.

O pior é que isso é verdade! E o pior, quer dizer, o melhor, é que as peças do quebra-cabeças (que já estavam sobre a mesa desde antes do julgamento-linchamento) vão se encaixando, uma após a outra. A grande verdade que os articuladores dessa canhestra tentativa de golpe branco de estado chamada de AP 470 não gostam de dizer é a seguinte, límpida e cristalina, desde sempre...

Desde o estouro desse caso, em 2005, a oposição fracassada e a mídia venal se utilizam do episódio para formar uma redoma de proteção contra os seus aliados políticos! Utilizam o caso como um biombo, se escondem atrás do biombo e do maniqueísmo dos 'homens bons' versus os 'malvados do PT'.

Desde a reforma feita no Banco do Brasil, no final do governo Itamar Franco, todas as decisões são tomadas de forma colegiada, por diversos diretores da instituição. Na AP 470, todos os diretores nomeados por FHC estão fora do processo, foram ignorados alguns e outros mandados para o julgamento em primeira instância, apenas Henrique Pizzolatto responde ao processo junto ao STF, como boi de piranha. Porque?

Porque ele é o único diretor do Banco do Brasil que na época dos fatos não havia sido nomeado pelo PSDB! O ex procurador Antonio Fernades de Souza, após deixar suas funções na procuradoria, tornou-se advogado de Daniel Dantas. Daniel Dantas não foi indiciado na famosa CPI dos Correios, em 2005/2006, justamente porque ele é o elo de ligação entre Marcos Valério (seu despachante de luxo), o PSDB, a Rede Globo, Eduardo Azeredo, Serra, FHC, Aécio e a Privataria Tucana.

Não esqueçam também de Carlos Cachoeira e de Demóstenes Torres! O primeiro foi o grande 'jornalista' oculto que forneceu dezenas, talvez centenas de materiais para que a Revista Veja fizesse a sua habitual campanha de ódio contra Lula e o PT. Sempre com interesses escusos, sempre atuando como uma máfia que assassinava reputações de pessoas e de empresas que atrapalham os interesses da quadrilha junto ao estado brasileiro.

O segundo era o "Catão da ética, da moral e dos bons costumes"... Sempre foi um impostor, um farsante que atuava como ponte do mafioso Cachoeira e como seu representante comercial, dentro da estrutura estatal. Contava, para tanto, com a defesa intransigente que a quadrilha máfio-midiática fazia dele todos os dias.

Esse grupelho, que assaltou o estado brasileiro com voracidade ímpar nos tempos da Privataria Tucana, grita e esperneia desde a eleição de Lula em 2002. Já foram infinitamente mais poderosos, já tiveram um controle muito maior sobre as estruturas do estado, lutaram e lutam bravamente para imputar ao PT todos os males da humanidade, numa manobra diversionista para esconder as suas próprias tramoias e para defender seus interesses empresariais.

O biombo está caindo, a redoma de vidro está rachada há muito tempo! Percebam agora essa questão da Rede Globo de Sonegação Fiscal. Que a Rede Globo age como uma máfia, nenhuma novidade. Eles tem lá as suas toneladas de dossiês contra tudo e contra todos, dossiês que ficam lá, em 'prateleiras de supermercado', intocáveis, e que sempre são utilizados pela Vênus Platinada como instrumento de chantagem.

Quem ousa atravessar o caminho da organização que se fortaleceu e que criou um império lambendo as botas dos ditadores fardados, é 'mandado para a Sibéria' ou atacado virulentamente até que pare de ameaçar os interesses dos Marinho. Pois bem, não é que agora some o processo em que a Rede Globo é acusada de sonegação fiscal, em valores que, corrigidos, chegam a astronômica casa de mais de um bilhão de reais!

E isso refere-se a questão da Copa do Mundo de 2002... Quem é mais mafioso, Ricardo Teixeira ou a Rede Globo? Esse episódio responde bem às indagações sobre o ódio visceral da Globo por Lula e pelo PT. Antes, a Globo sempre contou com facilidades no aparelho estatal, inclusive nomeando e demitindo ministros ao seu bel prazer. Isso mudou com a eleição de Lula e a Rede Globo precisa urgentemente recolocar em Brasília pessoas mais dóceis e permeáveis aos seus interesses.

Por isso a batalha furiosa contra o PT, desde sempre. Batalha furiosa mas que nem de longe é inconsequente, desde o ponto de vista da Globo. É uma batalha pensada, calculada, estrategicamente desenvolvida para retomar o poder que um dia ela já teve neste país.

É por isso também que permanece a lúgubre simbiose entre PSDB e Rede Globo, afinal, ambos se conhecem muito bem, defendem-se mutuamente e se deram muito bem obrigado nos dois governos de FHC. A Rede Globo é uma das tantas empresas beneficiárias da Privataria Tucana!

Antes que alguém venha dizer que sou otimista demais com os governos do PT e a questão da mídia, reitero que é uma necessidade imperiosa para a democracia brasileira que se faça uma Ley de Medios. O Codigo Brasileiro de Telecomunicações é de 1962, feito no tempo de João Goulart! Óbvio que precisa ser atualizado, de acordo com os preceitos da Carta de 88.

Tudo isso é verdade, como também é verdade que antes do governo de Lula, menos de 500 veículos recebiam recursos da SECOM, hoje, são mais de 8.000 veículos recebendo recursos da SECOM. Ou seja, houve uma pulverização e uma desconcentração inimagináveis antes dos governos do PT. A Rede Globo ainda recebe muita grana do governo federal, mas nem se compara, em absoluto, com o que recebia antes de 2003...

Por fim, penso que é chegada a hora de apertar o cerco contra essa tentativa ridícula e relativamente eficaz (pelo menos até hoje) da oposição fracassada e da quadrilha oligopólica máfio-midiática, de esconder seus crimes protegendo-se na redoma que criaram com a farsa do "mensalão" e, posteriormente, com o julgamento-linchamento desse mesmo caso."

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Brasil se Reinventa, Contra as Aves de Rapina

Postado por Emir Sader
Tiveram que aguentar, durante mais de 10 anos, que o país mais desigual do continente mais desigual conseguisse diminuir a pobreza, a miséria e a desigualdade, mediante políticas sociais inovadoras. Tiveram que aguentar que um imigrante nordestino, líder sindical, dirigente de um partido de esquerda, se transformasse no maior líder político popular do mundo.

Quando o Brasil enfrenta sua crise atual, com mobilizações populares, enfrentadas pelo governo com diálogo e atendimento de reivindicações, soa o coro dos frustrados – da ultraesquerda incompetente para dirigir qualquer processo minimamente progressista a favor do povo, até a direita, encalacrada com uma crise interminável e devastadora da qual não consegue sair – para atacar o Brasil.

O Brasil não poderia dar certo, senão suas teses de que política social é custo, de que incluir a massa da população na economia é produzir déficit e inflação, de que uma pessoa sem preparação tecnocrática e acadêmica não pode governar melhor que seus bacharéis revelariam suas falácias.

Tudo tem que ter sido uma ilusão – de um “breve” período de 10 anos. O Brasil deveria voltar a ter um modelo centrado no mercado. O Estado não poderia demonstrar que é mais eficiente para reagir à recessão, nem mais justo no atendimento dos direitos da massa da população.

Não poderia dar certo uma política de integração regional e intercâmbio Sul-Sul, ao invés dos subalternos Tratados de Livre Comércio com os EUA. Contrariaria tudo o que os organismos internacionais – a começar pelo FMI, pelo Banco Mundial, pelo governo dos EUA – apregoam.

Todos os incomodados com os avanços do Brasil, do seu modelo econômico e social, da liderança do Lula, fazem coro agora para denunciar a “fantasia” do que teria acontecido nessa década no Brasil, da “farsa” de tudo o que se apregoava sobre o Brasil etc. etc. Juntinhos, ultraesquerda e direita neoliberal.

É preciso que saibam que os dados são inquestionáveis: fazendo o contrário do que eles pregavam, o Brasil resgatou da pobreza mais de 30 milhões de pessoas, diminuiu a desigualdade, retomou o crescimento econômico. Tudo isso a partir da herança maldita dos governos que tinham obedecido os preceitos que levaram a Europa à crise atual, preceitos recomendados por esses mesmos que nos criticam. Esses que, como diz o Lula, achavam que sabiam perfeitamente o que nós deveríamos fazer, e agora não sabem o que fazer nos seus próprios países.

Felizmente o Brasil seguiu a proposta do companheiro do Bolívar: Ou inventamos ou erramos. O Brasil inventou, e contra os prognósticos agourentos de ultraesquerdistas e dos direitistas, viveu uma década de avanços.

Enfrenta uma crise advinda dos próprios avanços. As pessoas querem mais e melhor – e tem razão. Mas ninguém reivindicou emprego, porque o Brasil está na fronteira do pleno emprego. 

Esses mesmos se apressaram a fazer comparações do Brasil com o Egito, com a Turquia. Só que aqui a Presidente reagiu com receptividade às demandas e às mobilizações, portanto não temos ditadura, como no caso do Egito, e nem governo autoritário, como no caso da Turquia. Diálogo, e não repressão do governo federal.

Ao contrário do que pregavam os ultraesquerdistas, o governo não se passou para o outro lado da barricada. Deu passos importantes para sair do modelo neoliberal, senão o Brasil estaria mergulhado ainda na recessão do governo FHC ou estaria na mesma situação caótica da Europa. Atendeu às necessidades básicas da massa da população, revertendo e não acentuando o processo de exclusão social. Recuperando o papel do Estado na indução do crescimento econômico e na garantia dos direitos sociais, superando a centralidade do mercado.

E o Brasil não está do lado dos EUA e dos governos da Aliança para o Pacífico, o reduto neoliberal no continente. O Brasil é aliado fiel dos governos da Bolívia, do Uruguai, da Venezuela, da Argentina, do Equador, de Cuba.

A ultraesquerda foi mais uma vez derrotada na conjuntura atual. Ela sabe muito bem apontar as “traições” dos outros, mas esconde sua incompetência em construir alternativas. Onde esses que pretendem julgar tudo e saber tudo conseguiram construir uma alternativa? Acusam os governos da Cristina, do Rafael Correa, do Pepe Mujica, da Dilma, do Maduro, do Evo de serem “traidores”, “neoliberais disfarçados”, mas fracassam em todos os lados. Os povos desses países não lhes dão nenhum apoio, são grupinhos ideológicos isolados do povo.

O Brasil enfrenta um grande desafio, mas não haverá retrocessos, ninguém perderá direitos. O governo Lula tinha enfrentado uma dura crise em 2005, tanto a direita como a ultraesquerda se assanharam e acreditaram que era o fim do governo. Foram surpreendidos pelo apoio popular que as políticas sociais do governo tinham conquistado e deixou frustrados seus adversários, que tinham se aliado contra o governo Lula.

A recessão internacional é outro obstáculo contra o qual o governo Dilma – tal qual fez e saiu vitorioso o governo Lula em 2008 – se vale de todos os recursos – menos cortar recursos sociais e apelar para a recessão – para superar seus efeitos internamente. Uma crise gerada no centro do capitalismo e que nos envia suas pressões recessivas. Em outras crises internacionais, teríamos entrado em profunda e prolongada recessão. Agora sofremos a baixa das demandas externas, mas temos o intercâmbio regional e com o Sul do mundo e temos o mercado interno de consumo popular. Os que dizem que o modelo se esgotou querem que se freie a distribuição de renda e a atenção às necessidades da massa da população – sempre relegada pelos governos da direita.

O Brasil sairá mais forte desta crise, dando de novo um tapa na boca nos urubus – da direita e da ultraesquerda –, como saiu em 2005 e em 2008. O governo está sabendo entender o apelo das ruas, da nova geração de jovens que ingressa na vida política. A campanha eleitoral, levada a cabo pela Dilma e pelo Lula, mostrará que continua a haver uma maioria progressista no Brasil, que quer mais e melhor do que foi feito até aqui e não os retrocessos que a direita deseja.

O Brasil mostra que convive com essas manifestações, sem que o governo federal apele à repressão. Ao contrário, conversa com todos os setores sociais, recolhe suas propostas e busca encontrar as formas políticas de concretizá-las. Fortalece a democracia e dá continuidade à inclusão social com a inclusão política de novas gerações. 

O governo se dá conta dos seus erros tecnocráticos, que buscam realizar planos de governo sem levar em conta as condições econômicas e sociais. O povo reivindica mais e melhores serviços públicos, representações políticas legítimas, sem o crivo do poder do dinheiro.

Fantasias foram as vãs promessas de que o neoliberalismo resolveria os problemas das nossas sociedades. Como fracassaram, precisam que os outros – os governos progressistas da América Latina, o Brasil – também fracassem.

Porém, mais uma vez essas aves de rapina, de dentro e de fora do Brasil, da direita e da ultraesquerda, vão ter que se calar. Porque o povo brasileiro não permitirá nenhum retrocesso e a Presidenta do Brasil já reafirmou isso. Não vão poder comemorar que o Brasil retroceda para os níveis de desemprego e de expropriação de direitos sociais que os países que seguiram o receituário neoliberal sofrem.

Mais uma vez vão se surpreender com a capacidade de o Brasil superar de forma progressista e inovadora a crise, de seguir avançando no extraordinário processo de democratização social que viveu na última década, estendendo-a agora à democratização dos meios de comunicação e das representações políticas, com o financiamento público e não do dinheiro privado nas campanhas eleitorais.

O ressentimento contra o sucesso do Brasil volta à tona da parte de quem não tem alternativas nem sequer para seus próprios países, que não sabem resolver a sua crise e os brutais retrocessos sociais e políticos em nas suas casas. E vem daqueles que sempre foram catastrofistas, mas foram sempre derrotados pela realidade e pela rejeição popular. 

O Brasil está reinventando seu processo democratizador, sem repressão e sem retrocessos. Com o Lula, com a Dilma e com o apoio do povo brasileiro.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Brasil Ganhou da Espanha no Hino

HUGO GUSMAO
DE NAVARRA, Espanha
É impossível derrotar um time que canta o hino com a paixão demonstrada pelos jogadores brasileiros.
Houve um tempo em que eu era um ardoroso fã de futebol e nutria uma paixão desmedida pelo Treze de Campina Grande e pela Seleção Brasileira.
Hoje, para mim, isso é coisa do passado. Algo parecido como um interesse efêmero da infância ou da adolescência.
Acredito que em algum momento perdi a fé na autenticidade deste esporte. Ocorreu-me que talvez estivesse vivendo uma ilusão alimentada pela má-fé de terceiros.
Isso me fez esconjurar tudo relativo a este esporte. Do dia para a noite.
Por uma destas ironias do destino, no entanto, vejo-me vivendo na Andaluzia profunda quando se apresenta uma final de uma importante competição futebolística entre Brasil e Espanha.
Inevitavelmente, nas pequenas reuniões há sempre a referência à partida, precedida da advertência de que ali se encontra um brasileiro. Torno-me, sem direito de defesa, um alvo fácil para todo tipo de sutis e risíveis provocações. Quase um refugiado de guerra na terra dos algozes de sua nação.
Passo a repetir o mesmo mantra: não gosto de futebol; no atual momento me parece um escapismo frívolo diante de todos os problemas e do inconformismo de meus compatriotas.
Não adianta.
E a verdade é que os espanhóis há um bom tempo acreditam na superioridade a toda prova de sua seleção. E não é para menos.
A Fúria arrebanhou os principais títulos no cenário mundial nos últimos anos, garantindo uma hegemonia inquestionável. Mais que isso, apropriou-se também de um estilo que se aproxima muito daquele que outrora nos distinguia no futebol mundial.
Na Espanha, o futebol brasileiro não é imediatamente associado ao estilo pragmático e protocolar dos dias atuais. Rima, ao invés, com duas gerações brilhantes e meteóricas: a de 70 e a de 82.
Por aqui, a expressão “jogo bonito” não tem tradução para o castelhano. É pronunciada em português. Idioma daqueles que a eternizaram.
É comum ouvir narradores esportivos falando uma corruptela de “tique-taque” para se referir a um estilo de jogo no qual a movimentação em campo associa-se ao lirismo de um toque de bola leve, envolvente e irremediavelmente ofensivo.
Por esta razão, enfrentar a Seleção Brasileira, que eternizou tal estilo, na final de uma prévia da Copa do Mundo, no lendário Maracanã, representava o sonho para uma equipe que emulou e preservou algo parecido ao que fazíamos num passado distante, e que abandonamos em nome da glória efêmera.
Para a equipe de Vincente Del Bosque, tratava-se da revalidação da sua hegemonia no templo supremo do futebol. Ganhar ali seria como receber as bênçãos dos deuses dos estádios.
À meia noite do último domingo, na falta de coisa melhor para fazer, plantei-me na frente da televisão para assistir a partida. Minha postura era provocativa. Minha esposa torcia ardentemente pelo Brasil, eu me sentia na obrigação de defender a Espanha.
Dei sorte de ligar a TV segundos antes da execução dos hinos, porque exatamente ali dei-me conta de que não havia qualquer oportunidade de vitória para “La Roja”, como a chamam por aqui.
O hino brasileiro não foi simplesmente executado. Ele foi bradado.
Naquele simulacro de guerra entre Estados, nenhuma equipe proveniente de países com soberanias relativizadas e crises de identidade nacional lograria derrotar um Brasil que ali se revelava titânico, avassalador.
O espetáculo épico e arrepiante da interpretação do hino pela torcida brasileira reserva uma humilhação e um massacre adicionais para a equipe contrária, forçada a permanecer impassível enquanto a melodia termina e os atletas e o público continuam cantando em êxtase patriótico.
É a crônica de uma derrota anunciada
“¡Madre mia!” Foi a expressão dos narradores televisivos espanhóis imediatamente após executado o hino. Salientavam que o Brasil acabara de marcar um gol psicológico na equipe espanhola.
A história da partida já é conhecida. O Brasil atuou com um rolo compressor. Nunca esteve perto, no entanto, daquela equipe que flanou pelos estádios espanhóis em 1982.
Ainda assim, num dado momento, diante do massacre alimentado pela multidão imersa numa catarse, me veio à mente o relato da partida disputada entre as mesmas equipes 63 anos antes, nas finais da Copa de 1950.
Reza a lenda que ao longo da goleada de 6 a 1 que a equipe brasileira aplicava na Espanha, o público começou a entoar “As Touradas de Madri”, uma marchinha de carnaval do saudoso Braguinha.
A música ressoava pelo estádio enquanto a multidão sacava lenços brancos dando um “adiós” à Fúria. O povo regendo a equipe de Ademir, Chico, Friaça e Zizinho, que eventualmente perderia a Copa para o Uruguai e ganharia um lugar para a história, juntamente com outras como a Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982.
Creio que minha antipatia com o futebol, afinal, talvez tenha a ver com a efêmera natureza do lirismo neste esporte. Sempre ameaçado pelo pragmatismo que sacrifica valores nobres na busca por uma vitória cuja densidade histórica no mais das vezes resulta duvidosa.