domingo, 30 de junho de 2013

O Inferno Urbano e a Política do Favor, Tutela e Cooptação

MARILENA CHAUÍ
publicado em 27 de junho de 2013 às 15:30
As manifestações de junho de 2013 na cidade de São Paulo
por Marilena Chaui, na revista Teoria e Debate
Observações preliminares
O que segue não são reflexões sobre todas as manifestações ocorridas no país, mas focalizam principalmente as ocorridas na cidade de São Paulo, embora algumas palavras de ordem e algumas atitudes tenham sido comuns às manifestações de outras cidades (a forma da convocação, a questão da tarifa do transporte coletivo como ponto de partida, a desconfiança com relação à institucionalidade política como ponto de chegada) bem como o tratamento dado a elas pelos meios de comunicação (condenação inicial e celebração final, com criminalização dos “vândalos”) permitam algumas considerações mais gerais a título de conclusão.
O estopim das manifestações paulistanas foi o aumento da tarifa do transporte público e a ação contestatória da esquerda com o Movimento Passe Livre (MPL), cuja existência data de 2005 e é composto por militantes de partidos de esquerda. Em sua reivindicação especifica, o movimento foi vitorioso sob dois aspectos: 1. conseguiu a redução da tarifa; 2. definiu a questão do transporte público no plano dos direitos dos cidadãos e, portanto, afirmou o núcleo da prática democrática, qual seja, a criação e defesa de direitos por intermédio da explicitação (e não do ocultamento) dos conflitos sociais e políticos.
O inferno urbano
Não foram poucos os que, pelos meios de comunicação, exprimiram sua perplexidade diante das manifestações de junho de 2013: de onde vieram e por que vieram se os grandes problemas que sempre atormentaram o país (desemprego, inflação, violência urbana e no campo) estão com soluções bem encaminhadas e reina a estabilidade política? As perguntas são justas, mas a perplexidade, não, desde que  voltemos nosso olhar para um ponto que foi sempre o foco dos movimentos populares: a situação da vida urbana nas grandes metrópoles brasileiras.
Quais os traços mais marcantes da cidade de São Paulo nos últimos anos e que, sob certos aspectos, podem ser generalizados para as demais? Resumidamente, podemos dizer que são os seguintes:
explosão do uso do automóvel individual: a mobilidade urbana se tornou quase impossível, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura com um sistema viário destinado aos carros individuais em detrimento do transporte coletivo, mas nem mesmo esse sistema é capaz de resolver o problema;
explosão imobiliária com os grandes condomínios (verticais e horizontais) e shopping centers, que produzem uma densidade demográfica praticamente incontrolável, além de não contar com redes de água, eletricidade e esgoto, os problemas sendo evidentes, por exemplo, na ocasião de chuvas;
aumento da exclusão social e da desigualdade com a expulsão dos moradores das regiões favorecidas pelas grandes especulações imobiliárias e o conseqüente aumento das periferias carentes e de sua crescente distância com relação aos locais de trabalho, educação e serviços de saúde. (No caso de São Paulo, como aponta Hermínia Maricatto, deu-se a ocupação das regiões de mananciais, pondo em risco a saúde de toda a população); em resumo: degradação da vida cotidiana das camadas mais pobres da cidade;
o transporte coletivo indecente, indigno e mortífero.  No caso de São Paulo, sabe-se que o programa do metrô previa a entrega de 450 km de vias até 1990; de fato, até 2013, o governo estadual apresenta 90 km. Além disso, a frota de trens metroviários não foi ampliada, está envelhecida e mal conservada; além da insuficiência quantitativa para atender a demanda, há atrasos constantes por quebra de trens e dos instrumentos de controle das operações. O mesmo pode ser dito dos trens da CPTU, que também são de responsabilidade do governo estadual.
No caso do transporte por ônibus, sob responsabilidade municipal, um cartel domina completamente o setor sem prestar contas a ninguém: os ônibus são feitos com carrocerias destinadas a caminhões, portanto, feitos para transportar coisas e não pessoas; as frotas estão envelhecidas e quantitativamente defasadas com relação às necessidades da população, sobretudo as das periferias da cidade; as linhas são extremamente longas porque isso as torna mais lucrativas, de maneira que os passageiros são obrigados a trajetos absurdos, gastando horas para ir ao trabalho, às escolas, aos serviços de saúde e voltar para casa; não há linhas conectando pontos do centro da cidade nem linhas inter-bairros, de maneira que o uso do automóvel individual se torna quase inevitável para trajetos menores.
Em resumo: definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, empreiteiras da construção civil e empresas de transporte coletivo dominam a cidade sem assumirem qualquer responsabilidade pública, impondo o que chamo de inferno urbano.
2. As manifestações paulistanas
A tradição de lutas
Recordando: a cidade de São Paulo (como várias das grandes cidades brasileiras) tem uma tradição histórica de revoltas populares contra as péssimas condições do transporte coletivo, isto é, a tradição do quebra-quebra quando, desesperados e enfurecidos, os cidadãos quebram e incendeiam ônibus e trens (à maneira do que faziam os operários no início da Segunda Revolução Industrial, quando usavam os tamancos de madeira – em francês, os sabots – para quebrar as máquinas – donde a palavra francesa sabotage (sabotagem). Entretanto, não foi este o caminho tomado pelas manifestações atuais e valeria a pena indagar por quê. Talvez porque, vindo da esquerda, o MPL politiza explicitamente a contestação, em vez de politizá-la simbolicamente, como faz o quebra-quebra.
Recordando: nas décadas de 1970 a 1990, as organizações de classe (sindicatos, associações, entidades) e os movimentos sociais e populares tiveram um papel político decisivo na implantação da democracia no Brasil pelos seguintes motivos:
1. introdução da idéia de direitos sociais, econômicos e culturais para além dos direitos civis liberais;
2. afirmação da capacidade auto-organizativa da sociedade;
3. introdução da prática da democracia participativa como condição da democracia representativa a ser efetivada pelos partidos políticos; numa palavra: sindicatos, associações, entidades, movimentos sociais e movimentos populares eram políticos, valorizavam a política, propunham mudanças políticas e rumaram para a criação de partidos políticos como mediadores institucionais de suas demandas.
Isso quase desapareceu da cena histórica como efeito do neoliberalismo, que produziu:
1. fragmentação, terceirização e precarização do trabalho (tanto industrial como de serviços) dispersando a classe trabalhadora, que se vê diante do risco da perda de seus referenciais de identidade e de luta;
2. refluxo dos movimentos sociais e populares e sua substituição pelas ONGs, cuja lógica é distinta daquela que rege os movimentos sociais;
3. surgimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea, fragmentada, ainda desorganizada e que por isso ainda não tem suas próprias formas de luta e não se apresenta no espaço público e que, por isso mesmo, é atraída e devorada por ideologias individualistas como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a ideologia do “empreendedorismo” (da classe média), que estimulam a competição, o isolamento e o conflito inter-pessoal, quebrando formas anteriores de sociabilidade solidária e de luta coletiva.
Erguendo-se contra os efeitos do inferno urbano, as manifestações guardaram da tradição dos movimentos sociais e populares a organização horizontal, sem distinção hierárquica entre dirigentes e dirigidos. Mas, diversamente dos movimentos sociais e populares,  tiveram uma forma de convocação que as transformou num movimento de massa, com milhares de manifestantes nas ruas.
O pensamento mágico
A convocação foi feita por meio das redes sociais. Apesar da celebração  desse tipo de convocação, que derruba o monopólio dos meios de comunicação de massa, entretanto é preciso mencionar alguns problemas postos pelo uso dessas redes, que possui algumas características que o aproximam dos procedimentos da mídia:
a. é indiferenciada: poderia ser para um show da Madonna, para uma maratona esportiva etc. e calhou ser por causa da tarifa do transporte público;
b. tem a forma de um evento, ou seja, é pontual, sem passado, sem futuro e sem saldo organizativo porque, embora tenha partido de um movimento social (o MPL), à medida que cresceu passou á recusa gradativa da estrutura de um movimento social para se tornar um espetáculo de massa. (dois exemplos confirmam isso: a ocupação de Wall Street pelos jovens de Nova York e que, antes de se dissolver, se tornou um ponto de atração turística para os que visitavam a cidade; e o caso do Egito, mais triste, pois com o fato das manifestações permanecerem como eventos e não se tornarem uma forma de auto-organização política da sociedade, deram ocasião para que os poderes existentes passassem de uma ditadura para outra);
c. assume gradativamente uma dimensão mágica, cuja origem se encontra na natureza do próprio instrumento tecnológico empregado, pois este opera magicamente, uma vez que os usuários são, exatamente, usuários e, portanto, não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam – ou seja, deste ponto de vista, encontram-se na mesma situação que os receptores dos meios de comunicação de massa.
A dimensão é mágica porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer. Ora, além da ausência de controle real sobre o instrumento, a magia repõe um dos recursos mais profundos da sociedade de consumo difundida pelos meios de comunicação, qual seja, a idéia de satisfação imediata do desejo, sem qualquer mediação;
d. a recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto,  indiferente à determinação de classe social, ou seja, no caso presente, ao se apresentar como uma ação da juventude, o movimento  assume a aparência de que o  universo dos manifestantes é homogêneo ou de massa, ainda que, efetivamente, seja heterogêneo do ponto de vista econômico, social e político, bastando lembrar que as manifestações das periferias não foram apenas de “juventude” nem de classe média, mas de jovens, adultos, crianças e idosos da classe trabalhadora.
No ponto de chegada, as manifestações introduziram o tema da corrupção política e a recusa dos partidos políticos. Sabemos que o MPL é  constituído por militantes de vários partidos de esquerda e, para assegurar a unidade do movimento, evitou a referência aos partidos de origem. Por isso foi às ruas sem definir-se como expressão de partidos políticos e, em São Paulo, quando, na comemoração da vitória, os militantes partidários compareceram às ruas foram execrados, espancados, e expulsos como oportunistas – sofreram repressão violenta por parte da massa. Ou seja, alguns manifestantes praticaram sobre outros a violência que condenaram na polícia.
A crítica às instituições políticas não é infundada, mas possui base concreta:
a. no plano conjuntural: o inferno urbano é, efetivamente, responsabilidade dos partidos políticos governantes;
b. no plano estrutural: no Brasil, sociedade autoritária e excludente, os partidos políticos tendem a ser clubes privados de oligarquias locais, que usam o público para seus interesses privados; a qualidade dos legislativos nos três níveis é a mais baixa possível e a corrupção é estrutural; como consequência,  a relação de representação não se concretiza porque vigoram relações de favor, clientela, tutela e cooptação;
c. a crítica ao PT:  de ter abandonado a relação com aquilo que determinou seu nascimento e crescimento, isto é, o campo das lutas sociais auto-organizadas e ter-se transformado numa máquina burocrática e eleitoral (como têm dito e escrito muitos militantes ao longo dos últimos 20 anos).
Isso, porém, embora explique a recusa, não significa que esta tenha sido motivada pela clara compreensão do problema por parte dos manifestantes. De fato, a maioria deles não exprime em suas falas uma análise das causas desse modo de funcionamento dos partidos políticos, qual seja, a estrutura autoritária da sociedade brasileira, de um lado, e, de outro, o sistema político-partidário montado pelos casuímos da ditadura. Em lugar de lutar por uma reforma política, boa parte dos manifestantes recusa a legitimidade do partido político como instituição republicana e democrática.
Assim, sob este aspecto, apesar do uso das redes sociais e da crítica aos meios de comunicação, a maioria dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica difundida anos a fio pelos meios de comunicação de que os partidos são corruptos por essência.
Como se sabe, essa posição dos meios de comunicação tem a finalidade de lhes conferir o monopólio das funções do espaço público, como se não fossem empresas  capitalistas movidas por interesses privados.
Dessa maneira, a recusa dos meios de comunicação e as críticas a eles endereçadas pelos manifestantes não impediram que grande parte deles aderisse à perspectiva da classe média conservadora difundida pela mídia a respeito da ética.
De fato, a maioria dos manifestantes, reproduzindo a linguagem midiática, falou de ética na política (ou seja, a transposição dos valores do espaço privado para o espaço público), quando, na verdade, se trataria de afirmar a ética da política (isto é, valores propriamente públicos), ética que não depende das virtudes morais das pessoas privadas dos políticos e sim da qualidade das instituições públicas enquanto instituições republicanas.
A ética da política, no nosso caso, depende de uma profunda reforma política que crie instituições democráticas republicanas e destrua de uma vez por todas a estrutura deixada pela ditadura, que força os partidos políticos a coalizões absurdas se quiserem governar, coalizões que comprometem o sentido e a finalidade de seus programas e abrem as comportas para a corrupção.
Em lugar da ideologia conservadora e midiática de que, por definição e por essência, a política é corrupta, trata-se de promover uma prática inovadora capaz de criar instituições públicas que impeçam a corrupção, garantam a participação, a representação e o controle dos interesses públicos e dos direitos pelos cidadãos. Numa palavra, uma invenção democrática.
Ora, ao entrar em cena o pensamento mágico, os manifestantes deixam de lado que, até que uma nova forma da política seja criada num futuro distante quando, talvez, a política se realizará sem partidos, por enquanto, numa república democrática (ao contrário de uma ditadura) ninguém governa sem um partido, pois é este que cria e prepara quadros para as funções governamentais para concretização dos objetivos e das metas dos governantes eleitos.
Bastaria que os manifestantes se informassem sobre o governo Collor para entender isso. Collor partiu das mesmas afirmações feitas por uma parte dos manifestantes (partido político é coisa de “marajá” e é corrupto) e se apresentou como um homem sem partido. Resultado: a) não teve quadros para montar o governo, nem diretrizes e metas coerentes e b) deu feição autocrática ao governo, isto é, “o governo sou eu”. Deu no que deu.
Além disso, parte dos manifestantes está adotando a posição ideológica típica da classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais. Eis porque surge a afirmação de muitos manifestantes, enrolados na bandeira nacional, de que “meu partido é meu país”, ignorando, talvez, que essa foi uma das afirmações fundamentais do nazismo contra os partidos políticos.
Assim, em lugar de inventar uma nova política, de ir rumo a uma invenção democrática, o pensamento mágico de grande parte dos manifestantes se ergueu contra a política, reduzida à figura da corrupção. Historicamente, sabemos aonde isso foi dar. E por isso não nos devem surpreender, ainda que devam nos alarmar, as imagens de jovens militantes de partidos e movimentos sociais de esquerda espancados e ensangüentados durante a manifestação de comemoração da vitória do MPL.
Já vimos essas imagens na Itália dos anos 1920, na Alemanha dos anos 1930 e no Brasil dos anos 1960-1970.
Conclusão provisória
Do ponto de vista simbólico, as manifestações possuem um sentido importante que contrabalança os problemas aqui mencionados.
Não se trata, como se ouviu dizer nos meios de comunicação, que finalmente os jovens abandonaram a “bolha” do condomínio e do shopping center e decidiram ocupar as ruas (já podemos prever o número de novelas e mini-séries que usarão essa idéia para incrementar o programa High School Brasil, da Rede Globo).
Simbolicamente, malgrado eles próprios e malgrado suas afirmações explícitas contra a política, os manifestantes realizaram um evento político: disseram não ao que aí está, contestando as ações dos poderes executivos municipais, estaduais e federal, assim como as do poder legislativo nos três níveis.
Praticando a tradição do humor corrosivo que percorre as ruas, modificaram o sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência, indicaram uma nova possibilidade de práxis política, uma brecha para repensar o poder, como escreveu um filósofo político sobre os acontecimentos de maio de 1968 na Europa.
Justamente porque uma nova possibilidade política está aberta, algumas observações merecem ser feitas para que fiquemos alertas aos riscos de apropriação e destruição dessa possibilidade pela direita conservadora e reacionária.
Comecemos por uma obviedade: como as manifestações são de massa (de juventude, como propala a mídia) e não aparecem em sua determinação de classe social, que, entretanto, é clara na composição social das manifestações das periferias paulistanas, é preciso lembrar que uma parte dos manifestantes não vive nas periferias das cidades, não experimenta a violência do cotidiano experimentada pela outra parte dos manifestantes.
Com isso, podemos fazer algumas indagações.
Por exemplo: os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)? Os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?
Essas indagações não são gratuitas, nem expressão de má-vontade a respeito das manifestações de 2013. Elas têm um motivo político e um lastro histórico.
Motivo político: assinalamos, anteriormente, o risco de apropriação das manifestações rumo ao conservadorismo e ao autoritarismo. Só será possível evitar esse risco se os jovens manifestantes levarem em conta algumas perguntas:
1. estão dispostos a lutar contra as ações que causam o inferno urbano e, portanto, enfrentar, para valer, o poder do capital de montadoras, empreiteiras e cartéis de transporte que, como todo sabem, não se relacionam  pacificamente (para dizer o mínimo) com demandas sociais?
2. estão dispostos a abandonar a suposição de que a política se faz magicamente, sem mediações institucionais?
3. estão dispostos a se engajar na luta pela reforma política, a fim de inventar uma nova política, libertária, democrática, republicana, participativa?
4. estão dispostos a não reduzir sua participação a um evento pontual e efêmero e a não se deixar seduzir pela imagem que deles querem produzir os meios de comunicação?
Lastro histórico: quando Luiza Erundina, partindo das demandas dos movimentos populares e dos compromissos com a justiça social, propôs a Tarifa Zero para o transporte público de São Paulo, ela explicou à sociedade que a tarifa precisava ser subsidiada pela Prefeitura e que ela não faria o subsídio implicar em cortes nos orçamentos de educação, saúde, moradia e assistência social, isto é, dos programas sociais prioritários de seu governo.
Antes de propor a Tarifa Zero, ela aumentou em 500% a frota da CMTC (explicação para os jovens: CMTC era a antiga empresa municipal de transporte) e forçou os empresários privados a renovar sua frota.
Depois disso, em inúmeras audiências públicas, ela apresentou todos os dados e planilhas da CMTC e obrigou os empresários das companhias privadas de transporte coletivo a fazer o mesmo, de maneira que a sociedade ficou plenamente informada quanto aos recursos que seriam necessários para o subsídio.
Ela propôs, então, que o subsídio viesse de uma mudança tributária: o IPTU progressivo, isto é, o imposto predial seria aumentado para os imóveis dos mais ricos, que contribuiriam para o subsídio juntamente com outros recursos da Prefeitura.
Na medida que os mais ricos, como pessoas privadas, têm serviçais domésticos que usam o transporte público, e, como empresários, têm funcionários usuários desse mesmo transporte, uma forma de realizar a transferência de renda, que é base da justiça social, seria exatamente fazer com que uma parte do subsídio viesse do novo IPTU.
Os jovens manifestantes de hoje desconhecem o que se passou: comerciantes fecharam ruas inteiras, empresários ameaçaram lockout das empresas, nos “bairros nobres” foram feitas  manifestações contra o “totalitarismo comunista” da prefeita e os poderosos da cidade “negociaram” com os vereadores a não aprovação do projeto de lei.
A Tarifa Zero não foi implantada. Discutida na forma de democracia participativa, apresentada com lisura e ética política, sem qualquer mancha possível de corrupção, a proposta foi rejeitada.
Esse lastro histórico mostra o limite do pensamento mágico, pois não basta ausência de corrupção, como imaginam os manifestantes, para que tudo aconteça imediatamente da melhor maneira e como se deseja.
Cabe uma última observação: se não levarem em consideração a divisão social das classes, isto é, os conflitos de interesses e de poderes econômico-sociais na sociedade, os manifestantes não compreenderão o campo econômico-político no qual estão se movendo quando imaginam estar agindo fora da política e contra ela.

Entre os vários riscos dessa imaginação, convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A Importância da Voz Rouca Das Ruas

DIRETO DA REDAÇÃO

Mário Augusto Jakobskind

Muito importante o Brasil ter uma presidenta atenta à voz rouca das ruas e dialogar com representantes dos movimentos sociais. Faz parte do jogo democrático, mas só que Dilma Rousseff já poderia ter feito isso desde o início do governo. Não foi o que aconteceu, segundo admitem as lideranças.
Mas tudo bem, antes tarde do que nunca. Para começar a decodificar a voz das ruas urge que o governo federal se empenhe no sentido de pressionar os executivos estaduais e municipais a abrirem as contas das empresas que exploram os serviços de transporte coletivo.
Essas mesmas empresas tinham recebido isenção fiscal por parte do governo Dilma Rousseff e ainda por cima os prefeitos e governadores aumentaram o preço das passagens, que acabaram reduzindo, mas sem informar por quanto tempo e se as empresas serão subvencionadas pelo Estado para cobrir a redução.
No Rio de Janeiro, empresários do setor de transportes coletivos financiam campanhas de candidatos, que ao serem eleitos retribuem os favores concedidos. Conhecedores do setor acusam prefeitos e governadores, não só os atuais, como anteriores, de nomearem secretários de transportes indicados pelos empresários dos transportes. Promiscuidade total.
A voz rouca das ruas está dando outros recados. Da indecorosa privatização do Maracanã ao sucateamento dos hospitais, isso em todo o país, passando pela repressão indiscriminada em determinadas áreas.
Violência rotineira - Sobre este último item, o povo das áreas carentes do Rio há tempos conhece a truculência da PM, sob total silêncio da mídia de mercado. Agora, ao reprimir as legítimas e pacíficas manifestações dos jovens, os batalhões de choque cumprem a voz de comando, leia-se Sergio Cabral. A classe média sentiu de perto a truculência rotineira nas áreas carentes, prática habitual do tempo da ditadura.
Marginais e agentes provocadores do gênero pitbul não fizeram parte das manifestações. Pegaram carona, no caso dos agentes provocadores, para disseminar o pânico e mesmo agredir militantes de partidos. Há denúncias até de que além de estimulados, alguns receberam ajuda de custo para fazer o que fizeram.
Em Brasília foi claríssima a ação de agentes provocadores no prédio do Itamaraty e na Catedral. Manifestante na acepção da palavra não faz isso. Há indícios de incitamento por parte de grupos extremistas descontentes com as denúncias que a Comissão da Verdade vem divulgando e a discussão sobre a revisão da lei da anistia. É gente que tem culpa no cartório e teme a verdade.
Quanto à marginalidade no Rio, a Polícia Militar não estava presente durante a ação do setor, tanto que as depredações ocorreram sem obstáculos sob o olhar, muitas vezes exclusivo, das câmeras da Globo.
A Rede Globo, por sinal, entrou de sola nas manifestações. Com a soberbia de sempre, tentou pautar os acontecimentos. Aproveitou ao máximo as imagens dos quebra-quebras para disseminar o temor e mesmo o pânico a quem não esteve nas manifestações dos jovens, na prática tentando convencer a opinião pública que o melhor para o país deve ser o que a mídia de mercado sempre defendeu, ou seja, a paz dos cemitérios.
Depois de criminalizar o movimento dos jovens, prática rotineira contra os movimentos sociais, a mídia de mercado teve de mudar de enfoque na cobertura diante do crescimento dos protestos e da ação truculenta da PM contra jornalistas. Mesmo assim, os meios de comunicação de mercado priorizaram os quebra-quebras relegando as manifestações propriamente ditas a segundo plano. Ou seja, na batalha da opinião pública o papel da mídia de mercado foi o de sempre.
Voz de comando - Não adianta apenas falar sobre o despreparo policial, pois os soldados e oficiais obedecem a voz do comando de Sergio Cabral, um governador que não está a altura da importância do mandato, como comprova até a afirmação do mentiroso Secretário de Segurança, Mariano Beltrame, ao admitir que a PM perdeu o controle da situação, não descartando inclusive a possiblidade de convocação do Exército em próximas manifestações. A PM não perdeu o controle, ela simplesmente deixou correr em certos momentos. Só reprimiu indiscriminadamente e covardemente os verdadeiros manifestantes. Beltrame estava numa sala informatizada da Secretaria de Segurança acompanhando a movimentação na cidade. Dava ordens para reprimir e agora posa de bonzinho. Os covardes não assumem o que fazem em matéria de truculência.
Outro recado que a Presidenta deve considerar: a representação popular não pode estar sujeita aos lobies empresariais, muito menos a campanhas milionárias financiadas por grupos econômicos que vão cobrar a fatura depois das eleições.
Reforma política para valer - A reforma política que se faz necessária para aprimorar a democracia precisa levar isso em conta. Presidenta, por que não baixar um decreto, ou encaminhar ao Congresso, projeto impedindo que empresas financiadoras de campanhas eleitorais sejam impedidas de realizar obras públicas?
Para tudo isso acontecer é necessário que o povo seja informado de forma plural e não ficar sujeito ao esquema do pensamento único a serviço de interesses econômicos dos mais variados matizes. Dilma Rousseff, ouça a voz dos que pedem a democratização dos meios de comunicação e não ceda às pressões da mídia de mercado.

O Contragolpe de Dilma

DIRETO DA REDAÇÃO - Rui Martins

Berna (Suiça) - Estava tudo preparado – mais alguns dias de agitação e, no 1 de julho, com a greve nacional, um pilantra acionaria o Supremo Tribunal Federal argumentando que diante da confusão reinante, das perdas do Brasil com a depreciação do real diante das outras moedas e da impossibilidade de se governar só havia uma solução – o impeachment da presidenta.
Joaquim Barbosa faria um sorriso de envaidecido, já sonhando com a faixa presidencial, e daria provimento imediato à demanda. E o STF que, no caso Battisti, queria mas não pôde enquadrar o ex-presidente Lula, assumiria o controle político do país, retirando Dilma do poder.
Para garantir o golpe, legal como foi o do Paraguai, haveria a rede da grande mídia, com a Globo caprichando nos closes dos ministros togados favoráveis ao impeachment.
E a Veja lançaria a capa sacralizando o golpe – o “STJ cassa (ou caça ?) Dilma”. Em letras grandes, as primeiras medidas a serem tomadas por quem assumisse o poder – acabar com as bolsas escola e família, abrogar a lei em defesa das domésticas, privatizar a Petrobrás, acabar com as cotas universitárias em favor de negros e índios, privatizar o ensino e a saúde, acabar com a maioria dos ministérios e secretarias de governo dentro de um plano neoliberal de reduzir o Estado ao mínimo e abrindo nossas fronteiras a todo e qualquer capital estrangeiro, numa espécie de suk ou mercado livre de nossas riquezas.
Só que Dilma foi rápida na reação, impedindo que as manifestações iniciadas com justos protestos contra o aumento de passagens de transportes públicos, acabassem sendo recuperadas por setores menos interessados pelo povo e mais por assumir o poder, a fim de reverter todas as conquistas sociais dos últimos anos.
Muitos dos reclamos dos manifestantes correspondiam às necessidades da população e constituíam falhas cometidas pelo governo, no afã de construir uma base governável. Feita a autocrítica, tomada a palmada na bunda, era preciso, e logo, garantir terem sido ouvidos os protestos.
O plebiscito por uma assembléia constituinte evita que fique com o STF a decisão sobre quem governa, e restitui ao povo sua soberania. É um sabor de democracia participativa ou de democracia direta, que os suíços utilizam com frequência.
O povo nas ruas fez uma série de reivindicações que serão catalogadas para se transformarem em lei por uma assembléia constituinte.
É verdade que, depois do encontro da presidenta Dilma com a direção da OAB, surgiram dúvidas no Planalto, se o caminho a seguir é realmente o de se convocar uma Constituinte, capaz de mudar a Constituição, dentro do projeto de Reformas políticas.
O ideal seria a presidenta Dilma não ceder à OAB, que embora tenha ações louváveis e de vanguarda em diversos setores, não deixa de ser o lobby do atual establishment jurídico brasileiro, cujo emaranhado dificulta o combate à corrupção no Brasil. Principalmente quando Dilma diz querer tornar a corrupção num crime hediondo.
Como aplicar uma Reforma política sem uma Constituinte ? Tão logo seja submetido o plebiscito ao povo e aceito, o governo Dilma deveria convocar a assembléia. Como nosso regime presidencialista não permite a dissolução do parlamento, a Constituinte se faria com os atuais parlamentares. Haveria o risco de entraves e mesmo de algumas leis serem desvirtuadas, mas esse é o risco da democracia direta.
Mas não se pode esquecer que feitas as Reformas na atual Constituição, teriam de ser aprovadas num referendo submetido ao povo. Se as reformas aprovadas não corresponderem aos anseios populares, elas poderão ser rejeitadas.
Em todo caso, seja qual for a decisão tomada, o Brasil, que evita reprimir as manifestações e que aceita discutir soluções com os manifestantes, dá uma grande prova de democracia para o mundo. Mesmo a Europa não tem esse jogo de cintura com os manifestantes.

O Biquíni de Betty Faria e o Efeito Manada

Malu Fontes*
São inegáveis os usos, os benefícios e a amplitude de informações proporcionados pela internet. Mas como nada na vida é totalmente bom ou totalmente ruim, há uma onda de ódio cada vez mais manifestada pelos usuários de computadores conectados, independentemente de classe social, idade ou sexo, capaz de arregalar os olhos de quem se dá o trabalho de observá-la. Em todos os lugares do mundo sempre haverá pessoas dizendo e pregando coisas impensáveis sobre o próprio semelhante, mas, trazendo o fenômeno para a internet, nunca se viu tanta gente confundindo liberdade de expressão com apologia ao ódio e ao preconceito.

Mobilizados em grande parte pela violência urbana que cresce em proporções indescritíveis no Brasil, uma parcela nada desprezível de leitores de notícias on line ou com perfil em redes sociais parece sentir-se à vontade para reivindicar ou defender teses que deixariam os nazistas do passado constrangidos. E embora a violência noticiada seja, sim, um elemento motivador para que se escreva todo o tipo de apologia ao ódio, é bom lembrar que ela não é nem de longe o elemento mais fomentador dessas manifestações agressivas. O mesmo se dá diante de notícias relacionadas a aborto, sexo, homossexualidade, minorias sociais e velhice, entre outros temas. E mesmo que diante de denúncias de sofrimento de pessoas nesses contextos.

Esta semana, por exemplo, bastou a atriz Betty Faria aparecer na imprensa de biquíni, na praia, questionando por que não pode usá-lo aos 72 anos, que comentários em todos os veículos que publicaram a notícia explodiram em agressões contra a atriz, reduzida, no mínimo, a uma velha ridícula. Ora, e por que mesmo ela não pode usar biquíni, se homens com a mesma idade e até muito menos não são objeto de nenhum xingamento se saem por aí se banhando em público com suas barrigas, banhas e pelancas descomunais? Há uma semana, um índio foi morto e outro gravemente ferido em um conflito com a Polícia Federal numa desocupação de terras no Mato Grosso do Sul. Os comentários dos leitores eram de uma apologia ao ódio contra índios que custa a crer que pessoas em pleno gozo da saúde psíquica sejam capazes de fazê-los. Quanto ao que sobreviveu, era chamado de carnissa (sic) e não são poucos os que desejam que o rapaz fique “pelo menos paraplégico”, graças ao tiro que levou. O argumento para tamanho ódio era o de que índios são uma escória social, uma espécie de seborreia do país sustentada por pessoas de bem, essas que postam tais barbaridades na web.

Esse comportamento tem nome: efeito manada, em que pessoas se valem  da companhia de pares que sozinhos são covardes para em grupo ofender sem pudor. Mayara Petruso, a mocinha paulista que pregava a morte de nordestinos afogados nas enchentes de São Paulo porque elegeram Dilma Rousseff, é fichinha depois de tudo o que veio depois. Até mesmo um promotor de Justiça juntou-se à e-manada esta semana e, sobre os manifestantes na Avenida Paulista contra o reajuste da tarifa de ônibus afirmou numa rede social que se a Tropa de Choque os matasse, ele, promotor, arquivaria o inquérito. Em Salvador, uma manifestação de estudantes na Paralela levou a comentários do mesmo naipe: vagabundos, desordeiros, vândalos e que tais. Num artigo escrito há um ano, o jornalista Luciano Trigo deu o diagnóstico desse tipo de comportamento: as redes sociais estão se tornando veículo para perigosos rituais de justiça sumária e linchamento virtual por parte de uma e-massa exercendo um e-poder. Sem pudor algum. 

* Malu Fontes  é jornalista e professora de Jornalismo da Ufba

O PT e o Governo Precisam de Uma Faxina

Breno Altman, via Carta Maior
Se a vontade política da presidente Dilma Rousseff e seu partido for realmente enfrentar a onda reacionária que tenta controlar as ruas, há uma lição de casa a ser feita. O PT e o governo precisam se livrar da quinta-coluna, que representa interesses alheios à esquerda e aos setores populares.
O termo nasceu na guerra civil espanhola, nos anos 30 do século passado. Quando Francisco Franco, líder do golpe fascista contra a república, preparava-se para marchar sobre Madri com quatro colunas, o general Quepo de Llano lhe assegurou: “A quinta-coluna está esperando para saudar-nos dentro da cidade.” Referia-se às facções que, formalmente vinculadas ao campo legalista, estavam a serviço do golpismo.
A maior expressão de quinta-colunismo no primeiro escalão atende pelo nome de Paulo Bernardo (foto) e ocupa o cargo estratégico de ministro das Comunicações. Não bastasse vocalizar o lobby das grandes empresas de telefonia e a pauta dos principais grupos privados de comunicação, resolveu dar entrevista às páginas amarelas da revista Veja desta semana e subscrever causas do principal veículo liberal-fascista do País.
Na mesma edição na qual estão publicadas as palavras marotas do ministro, também foi estampado editorial que celebra a ação de grupos paramilitares, na semana passada, contra o PT e outros partidos de esquerda, além de reportagem mentirosa que vocifera contra as instituições democráticas e os governos de Lula e Dilma.
Nesta entrevista, Bernardo referenda que se atribua, à militância petista, um programa que incluiria a defesa da censura à imprensa. Vai ainda mais longe, oferecendo salvo-conduto à ação antidemocrática da mídia impressa e restringindo qualquer plano de regulação a perfumarias que deixariam intactos os monopólios de comunicação, o maior obstáculo no caminho para a ampliação da liberdade de expressão.
De quebra, o ministro chancela o julgamento do chamado “mensalão”, ainda que escolhendo malandramente os termos que utiliza, caracterizando a decisão como um resultado “normal e democrático”. Por atacar seu partido nas páginas do principal arauto do reacionarismo, recebe de Veja elogio rasgado, ao ser considerado “um daqueles raros e bons petistas que abandonaram o radicalismo no discurso e na prática.”
Paulo Bernardo não é, porém, o único que flerta com o outro lado da barricada, apenas o que mais saçarica. Está longe de ser pequena a trupe de figuras públicas petistas que dormem com o inimigo, a maioria por pânico em enfrentar os canhões da mídia ou desejosos de receberem afagos por bom-mocismo.
O governador baiano, Jacques Wagner, é outro exemplo de atitude dúbia. Há algumas semanas bateu ponto, na mesma revista, para dar seu aval aos maus-feitos jurídicos de Joaquim Barbosa e seus aliados. Mas não parou por aí. Quando o presidente do PT, Rui Falcão, estava sob cerrados ataques por chamar sua gente à mobilização, Wagner correu aos jornais para prestar solidariedade. Não ao líder máximo de seu partido, mas aos lobos famintos que se atiravam contra o comandante petista.
Nos últimos dias assistimos incontáveis cenas que igualmente merecem uma séria reflexão. Não foi bonita ou honrosa a oferta do ministro da Justiça à repressão da PM paulista contra a mobilização social. Ou o prefeito paulistano fazendo companhia ao governador Alckmin na resposta ao movimento contra o aumento das tarifas de transporte. Nesses casos, contudo, não houve facada nas costas, mas flacidez político-ideológica que não pode ser relevada.
A questão crucial é que, para avançar na luta contra o reacionarismo e na reconquista das ruas, o PT e o governo precisam restabelecer uma ética de combate. A defesa dos interesses populares e da democracia não poderá ser feita, às últimas consequências, sem uma faxina de comportamentos e representantes que favorecem os inimigos do povo no interior das fileiras aliadas.
Breno Altman é jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

A Democracia Não é Uma Tolice

by bloglimpinhoecheiroso
Fernando Brito, via Tijolaço
Identificado como um criminoso condenado o homem que atirou coquetéis molotov contra o prédio do Itamaraty. Ele cumpria sentença de dois anos e quatro meses por furto, em regime semiaberto. Agora é preciso, saber quem o contratou.
Já chega desta história de mostrar “mauricinhos” arruaceiros, um após outro, como se estivessem ali espontaneamente, depredando e, depois, chorando lágrimas de arrependimento por suas transgressões.
Vá lá que muitos sejam apenas isso, mesmo. Mas um homem com cinco passagens pela polícia e duas condenações por furto, em regime prisional beneficiado não estava ali apenas “porque um amigo convidou”.
Nove em dez pessoas acharão óbvio que alguém tenha contratado alguém com este “currículo” para, literalmente, tacar fogo nos acontecimentos. Quem foi?
Ataque a bombas a um prédio federal é crime federal, cuja investigação é dever da Polícia Federal. O problema é que nossa Polícia Federal, tão eficiente e pressurosa – como deve ser, aliás – em investigar os “malfeitos” dentro do governo parece ser vítima de uma abulia imensa quando se trata de investigar os sabotadores do convívio democrático.
Estamos esperando até agora que apareçam as ligações telefônicas que originaram a corrida aos saques do Bolsa Família. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo mandou algumas dezenas de policiais da Força Nacional de Segurança para Minas Gerais. Nada a opor, se eles fossem desempenhar missões de coordenação e de proteção aos inúmeros dirigentes envolvidos na realização de partidas da Copa das Confederações.
Mas, no primeiro dia de ação, o que se viu foi estas tropas serem empregadas como cordão de isolamento e linha de confronto diante de manifestantes, papel que cabia à Polícia Militar do Estado. Nenhuma razão, a não ser que se deseje atirar nas costas do governo federal o ônus do enfrentamento e, pior, da eventualidade de riscos a vidas humanas.
O ministro José Eduardo Cardozo, que aparece sempre muito bem arrumado e penteado em suas aparições públicas, podia esmerar-se mais em suas funções do que com seu visual. Afinal, o que está em jogo não é uma tolice, mas a democracia que custou décadas de luta à minha geração.
Ah, e não sei se o ministro percebeu: o governo eleito pelo povo que, sabe-se lá porque, o mantém no Ministério da Justiça.

E o “Day After”?

Diario do Centro do Mundo

O filósofo Renato Janine Ribeira reflete sobre a origem e o futuro das manifestações.
O artigo abaixo foi publicado, originalmente, no jornal Valor.
Há movimentos que saem do nada? Ninguém esperava que o Passe Livre mobilizasse assim a nação. Mas isso não significa que tais manifestações sejam um completo enigma.
O que não se pode é prever se e quando se darão, nem quais serão seus resultados. Ou seja, não se sabe do seu antes nem do seu depois. Mas vou comentar o que se sabe delas.
Primeiro, este tipo de grande movimento que parece vir do nada começa com o maio de 68 francês, que é além disso o seu paradigma.
No dia 15 de março daquele ano, o jornalista Pierre Viansson-Ponté lamentava que “a França [estivesse] entediada”, conformista.
Uma semana depois, a repressão a protestos contra a guerra do Vietnã e à entrada de rapazes nos quartos das alunas da Universidade de Nanterre detonava um movimento que cresceria rapidamente.
Esses movimentos vão bem além de suas causas imediatas. Estas se repetem dezenas de vezes, sem nada resultar. E de repente, a explosão. Que é um acontecimento muito maior que suas possíveis causas.
Acontecimento, em inglês, é “happening”; ora, nas línguas latinas, desde os anos 1960 chamamos de “happening” uma grande festa, às vezes promovida por artistas, que tem as características de acontecer só uma vez, não tendo ensaios nem podendo ser repetida. Um acontecimento máximo, um acontecimento em estado puro.
Daí que esses eventos únicos sejam festas. Quem participou dos muitos movimentos de 1968 – na França, em Nova York ou na Califórnia, na Alemanha, na então Tchecoslováquia ou no Brasil – viveu esse clima de festa.
Quem se manifestou pelas Diretas-Já em 1984 ou pelo impeachment de Collor, em 1992, festejou nas ruas.
Daí um tom de alegria. As pessoas descobrem que a política pode ser alegre.
Por isso, ocupam as ruas. A causa imediata das manifestações foi o transporte público de péssima qualidade, que impõe aos pobres o gasto de quatro a oito horas por dia para ir e vir do emprego – uma segunda jornada de trabalho, não paga em dinheiro e que onera a saúde física e mental dos trabalhadores.
Mas vejam o simbolismo: estão falando do transporte, isto é, do movimento (e reclamando contra a lentidão, a falta de movimento).
“A vida é movimento”, dizia em 1651 o filósofo Thomas Hobbes. Estão reclamando da estagnação, que é morte, e clamando pela vida. Uma política que clame por causas ligadas à vida é coisa rara.
Não é a política das instituições, não é a da governabilidade, não é a do Parlamento.
E assim a causa imediata funciona como um ímã. Ela atrai tudo o que seja “do bem”. Os manifestantes lhe agregam a demanda pela saúde, pela educação e até pelas palavras de ordem que não são da ordem, mas da liberdade, como o célebre “é proibido proibir” do 68 francês, ou o “seja realista, exija o impossível”.
Tudo adquire as cores das grandes mudanças, daquelas que não aparecem no dia a dia, mas surgem como uma revelação, uma epifania, um momento em que se descobrem novas potencialidades para o mundo e para a vida com o outro, para o viver-juntos.
Por isso mesmo, cintila sempre a perspectiva de que uma outra política, mais vital, é possível.
Nem tudo são flores. O Brasil padece de uma cultura política fragílima. Anos de pregação segundo a qual todos os nossos problemas decorrem da corrupção – convicção esta que é uma marca clara da ignorância política – fazem muitos acreditarem que o outro, aquele que discorda deles, não pode ser uma pessoa honesta.
Muitos ignoram o que significam democracia e política, a saber: há divergências sérias na condução dos assuntos públicos, que cabe ao voto resolver, mas dentro do respeito ao outro. Chamar o outro de ladrão ou bandido é destituí-lo dos direitos políticos e considerá-lo criminoso. Isso não deveria acontecer, salvo exceções comprovadas de crimes cometidos, entre petistas e tucanos, entre republicanos e democratas, entre trabalhistas e tories.
Mas acontece, no Brasil, com alarmante frequência. Daí que, quando as ruas se abrem para o imaginário, uma parte dele seja agressivo e violento.
Cito um ativista do Passe Livre, que esteve dia 21 no debate que coordenei no Instituto de Estudos Avançados da USP: a direita e o crime, disse ele, estão hackeando nossos movimentos.
E o “day after”?
A revelação de que você pode ocupar as ruas, de que por algumas horas pode tirá-las dos carros e fazer uma festa ali é tão poderosa que corre o risco de ser apenas uma catarse, uma pausa no meio de uma vida que antes e depois será conformista.
Muitos manifestantes de 1968, das Diretas ou do impeachment lembram esses momentos como apenas uma festa, mas que em nada mudou suas vidas.
Ganharam liberdade sexual, é tudo.
Será uma pena se assim for. Epifanias devem mudar, sim, a vida de quem as tem. Você não pode ter uma revelação e não se converter.
Que os políticos procurem conduzir “business as usual” é até compreensível, mas as pessoas que sentiram o gosto do diferente deveriam inseri-lo em suas vidas.
Isso, mesmo sabendo, o que é bastante amargo, que a curto prazo quem colhe os frutos não é quem os semeou.
A Primavera Árabe, obra de jovens democratas, levou ao poder gente conservadora, como os extremistas da Tunísia e do Egito.
Maio de 68 conduziu, em junho daquele ano, à vitória eleitoral da direita. Mas hoje ninguém lembra a direita francesa da época, e todos recordam os estudantes, os jovens, o mês de maio.
A sociedade muda.
E, assim como 1968 se deu em pelo menos três continentes, de 2011 para cá pode estar surgindo uma segunda onda dessas manifestações tão vitais: com a Espanha, países árabes, Turquia e Brasil, elas parecem estar-se espraiando pelo mundo.
O que virá desta segunda onda?

domingo, 23 de junho de 2013

Quem Não Sabe Brincar Não Brinca

DIRETO DA REDAÇÃO

Rodolpho Mota Lima

Os fatos  que estão movimentando o cenário político do país só contribuem para robustecer  a convicção de que a rua é do povo, livre para manifestar suas ideias e reivindicações. E merecem, é claro, muitas reflexões.
Comecemos pela  vaia no Mané Garrincha.   Penso  que muitos equívocos estão sendo cometidos a propósito da Copa do Mundo no Brasil. Ela poderia , sim, ser uma festa para o povo brasileiro se, efetivamente, estivesse voltada para o povo, mas não do jeito que é concebida, segundo o malfadado “padrão FIFA”.  Dilma recebeu a vaia classe “A” das elites embranquecidas presentes à “festa” na inauguração da Copa das Confederações porque aquela não era nem jamais poderia ser a sua gente, que, aliás,  não foi convidada para a festa. Simples assim:  vaiaram Dilma aqueles que não votaram nela e que insistem em desconsiderar o resultado das urnas.
Já as manifestações de rua  têm  uma complexidade maior. É impossível deixar de reconhecer sua expressividade como movimento de jovens  idealistas da classe média, embora se possa  enxergar que,  em meio a um mar de reivindicações díspares, grande parte deles não saberia explicar em profundidade por que estão nas ruas...
É claro, porém,  que o movimento não surgiu do nada.  Tenho muitos alunos de postura consciente,  que dele participam ou a ele são simpáticos . Por outro lado, há também    uma difusa manifestação tribal em que internet, aliada à natural tendência contestatória dos jovens, propiciou os encontros e as palavras de ordem que se espalharam pelo país.  Palavras, aliás, que a mídia manipulou, selecionou, editou e divulgou ao seu bel prazer, ou melhor, segundo suas conveniências, fazendo um jornalismo traiçoeiro, como sempre, provavelmente optando por tomadas aéreas para evitar o dissabor de ter que divulgar o que não interessava....  
Não cabe  censurar os jovens, mesmo  que, talvez, estejam embarcando em algumas canoas furadas. É bem melhor essa  sua manifestação do que o habitual cultivo dos seus umbigos. Muitos deles, seguramente, aprenderão nas ruas a verdadeira cidadania.  Cidadania que nada tem a ver com os depredadores  – horda que engloba  fascistas , marginais, histéricos e ladrões – cujas ações falam por si , mas que  também não saíram do nada. No caso, quem pariu Mateus que os crie.. 
O pessoal do passe livre, que obteve sucesso em suas reivindicações, agora denuncia a presença da direita no movimento e declara sua retirada das ruas. Mas não nos iludamos: continuarão em ação, agora, os golpistas de sempre que, com o apoio de mídia conhecida, apostam claramente   todas as suas fichas no caos, indiferente aos males que poderão advir para o país em termos globais.
Alguns jornalistas e “especialistas” de plantão, não sei se intelectualmente incompetentes ou deliberadamente mistificadores, agem e falam  como se vivêssemos aqui as crises do Egito, da Turquia, da Espanha e de tantos outros desastres econômicos ou sociais. Atuam no interesse de seus patrões e  no sentido do “quanto pior melhor”, insinuando, sempre que possível, que o movimento se volta contra o Governo federal.  Alguém, em sã consciência, acredita que o povo brasileiro, no geral,  repudie um Governo  que, dois dias antes, tinha aprovação da maioria?   
Tem havido uma tentativa permanente - crápula, mentirosa  - de transformar  a realidade brasileira em um caos fictício, que envolve uma falaciosa luta contra a inflação (no fundo ardentemente desejada) e uma falsa defesa da economia (que querem ver arrasada), como forma de recuperar o poder para o pessoal da classe que vaiou Dilma. Essa turma vê,  no aproveitamento das manifestações de rua, a possibilidade de um golpe branco, partindo, como sempre, de um  combate à corrupção,  que historicamente tem servido à direita como palavra de ordem que sabemos hipócrita, pois só se volta para os adversários e, convenientemente,  esquece as falcatruas dos seus próprios componentes.    
Mas quem não sabe brincar não devia brincar. Anselmo Gois talvez esteja antevendo isso quando diz, em sua coluna que “o perigo é transformar uma limonada em um limão”. Resta  saber perigo para quem...
Dilma Roussef  fez, a meu ver, um convincente discurso de estadista sobre o assunto. Ao abrir o diálogo com os manifestantes, repudiar o vandalismo e  convocar  toda a classe política para um pacto que envolva compromissos concretos com a pauta social, assume as posturas que se esperam de quem detém o apoio popular. E Dilma – não se enganem -   não é Fernando Collor. É óbvio que, a continuar a coisa como está, estarão nas ruas outros atores importantes. E eles virão, se houver radicalizações golpistas, para expressar a manutenção de  suas conquistas e contra o golpe. E para fazer outras reivindicações, que talvez não agradem aos homens da mídia. Dilma – que, aliás, possui nas ruas o seu DNA  -  não tem por que fugir das praças, mas incorporá-las como espaço de grandes manifestações, reivindicações e mesmo decisões. Isso se chama democracia participativa, em muitos casos mais efetiva que a representativa, quando esta tem como móvel o fisiologismo político.  É muito melhor estar no meio do povo do que ir às festas da elite para ouvir vaias ou alimentar os golpistas com polpudas verbas de publicidade...

Em Defesa de Bradley Manning & Edward Snowden

Julian Assange, Embaixada do Equador, Londres (por WikiLeaks)
http://wikileaks.org/Statement-by-Julian-Assange-after,249.html 

Faz agora um ano que entrei nessa embaixada, buscando refúgio porque estava sendo perseguido.

Resultado dessa decisão, tenho conseguido trabalhar em relativa segurança, protegido contra os agentes dos EUA que investigam uma acusação de espionagem.

Mas hoje, está começando o suplício de Edward Snowden.

Dois perigosos processos foram postos em movimento na última década, com consequências fatais para a democracia.

O sigilo dos governos expandiu-se numa escala aterrorizante. E, simultaneamente, a privacidade dos seres humanos foi erradicada, em segredo.

Há poucas semanas, Edward Snowden revelou ao mundo a existência de um programa secreto – que envolve o governo Obama, a comunidade de inteligência e gigantescas empresas que vendem serviços de internet – para espionar todos, em todo o mundo.

Resposta automática, como mecanismo de um relógio, Edward Snowden foi acusado de crime de espionagem pelo governo Obama.

O governo dos EUA espiona todos e cada um de nós... Mas é Edward Snowden quem é acusado de espionagem, porque nos alertou.
Estamos chegando ao ponto em que a honra internacional por serviços prestados à humanidade não recai sobre quem tem um prêmio Nobel da Paz. Recai, isso sim, sobre quem seja acusado de espionagem pelo Departamento de Justiça dos EUA.


Edward Snowden é o oitavo vazador de informação secreta a ser acusado de espionagem no governo do presidente Obama.

Na 2ª-feira, o julgamento-show de Bradley Manning entrará na quarta semana.

Depois de uma lista enorme de crimes e perversidades cometidas contra ele, o governo dos EUA tenta condená-lo por “ajudar o inimigo”.

A palavra “traidor” foi muito usada nos últimos dias.

Mas quem é realmente o traidor, aqui?

Quem prometeu “esperança” e “mudança” a uma geração, para imediatamente trair as próprias promessas, dando à população só miséria crescente e estagnação?
Quem jurou defender a Constituição dos EUA, para imediatamente se pôr a alimentar a besta-fera de uma lei secreta, que vai devorando viva a Constituição dos EUA, de dentro para fora?


Que fim levou a promessa de fazer o governo mais transparente da história, mas que não faz outra coisa que perseguir um vazador depois do outro, nessa sequência macabra, esmagando-os sob o peso de acusações de espionagem?

Quem assumiu, com mão de ferro, no Executivo, os poderes de acusador, juiz e carrasco, tentando fazer-se de dono do planeta, sobre o qual vai impondo todos esses poderes ilegítimos?

Quem se arroga o poder de espionar o planeta inteiro – cada um de nós – e, quando é apanhado com as mãos sujas de sangue, explica que “teremos de escolher”?

Quem é esse homem? Não pode haver dúvida alguma sobre quem declaramos “traidor”.

Edward Snowden está conosco. É um de nós. Bradley Manning é um de nós.

São jovens interessados em tecnologia, inteligentes: são a própria geração que Barack Obama atraiçoou, traiu.

São da geração que cresceu na Internet, modelada pela Internet.

O governo dos EUA sempre carecerá de analistas de inteligência, de administradores de sistemas, e terá de buscá-los nessa geração e nas gerações posteriores.

Um dia, essa geração comandará a Agência de Segurança Nacional, a CIA e o FBI.

Não é fenômeno passageiro. É absolutamente inevitável.

Ao tentar esmagar esses jovens vazadores, acusando-os de espionagem, o governo dos EUA ataca mortalmente uma geração inteira. E essa batalha os EUA perderão.

Acusar, prender, matar, não é o modo certo de consertar coisa alguma. O único modo de consertar o que deva ser consertado é: MUDEM SUAS POLÍTICAS.

Parem de espionar o mundo. Ponham fim às leis secretas.

Ponham fim à prisão por tempo indefinido, sem processo e sem acusação.

Parem de matar gente. Parem de assassinar.

Parem de invadir países e de mandar milhares de jovens norte-americanos para matar e ser mortos.

Parem de ocupar terras de outros. Ponham fim às guerras clandestinas.

Parem de destruir os jovens: Edward Snowden, Barrett Brown, Jeremy Hammond, Aaron Swartz, Gottfrid Svartholm, Jacob Appelbaum e Bradley Manning.

A acusação formalizada contra Edward Snowden visa a intimidar qualquer país que esteja pensando em ajudá-lo a defender seus direitos.

Não se pode admitir que essa monstruosidade se consume.

Todos temos de intensificar os esforços para encontrar país que dê asilo a Edward Snowden.

Que país valoroso o defenderá, reconhecendo o inestimável serviço que prestou à humanidade?

Diga ao seu governo, onde você estiver, que se apresente.

Apresente-se você mesmo. Defenda Snowden!