domingo, 26 de agosto de 2012

A Democracia Relativa

Rodolpho Motta Lima

Países autointitulados democráticos estão mostrando a toda hora o relativismo desse conceito. Uma ação é tida como democrática quando consulta determinados interesses, mas uma outra atitude igual ou semelhante é tachada de antidemocrática se os contraria...
No reduto ocidental, que nos interessa diretamente,  Estados Unidos e Inglaterra – esse braço americano na Europa – tentam impor a concepção de que, em nome dos princípios democráticos,  é preciso haver uma “polícia mundial”, atuando, é claro, sob o comando deles,  que “coloque em ordem”  o planeta, segundo um conceito que quase  sempre esconde interesses discutíveis.
Em declaração recente, James Cameron , primeiro-ministro inglês, acusou a Argentina de colonialista em relação às ilhas Malvinas. Mas logo a Inglaterra é que vem falar disso, com sua vasta e não muito digna história nesse campo?  Logo a Inglaterra, que, há não muito tempo,  utilizando-se de uma falsa alegação de armas de destruição em massa e escondendo os verdadeiros objetivos petrolíferos da operação militar  , ajudou os americanos a invadir o Iraque?  Claro – dirão alguns -, o Iraque era uma ditadura.  Mas e as outras, da mesma região, aliadas do Ocidente, cujo petróleo já está “sob controle”?  É o tal princípio relativista de democracia , que se apregoa quando serve  e se esconde quando não interessa.
O caso  Assange, brilhante e exaustivamente tratado aqui no DR, caracteriza situação que envolve um atentado à  soberania nacional – insinuam-se ações contra a embaixada equatoriana - , e de profunda desfaçatez política – o estupro sueco como desculpa para a extradição do jornalista fundador do “Wikileaks”. Por que “desculpa”? Pela própria admissão da Suécia  de que poderá enviar Assange para os EUA se lá  não houver  risco de pena de morte (o estupro não seria então a razão e prisão perpétua pode...) . E qual é a postura dos órgãos midiáticos aqui do Brasil diante dessa perspectiva? Limitam-se a informar os fatos, sem qualquer análise , isso quando não deixam escapar simpatias pela extradição.
Em momentos como esse, percebe-se que, quando não interessa, não existe a tal visão crítica, ou, se existe, surge apoiada em pretensos “especialistas” colhidos a dedo.
Faço aqui uma comparação, só para provocar uma reflexão, com o  que vi na Globo a propósito  da declaração do candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Freixo,  para quem, se eleito,  o município carioca só subvencionaria o Carnaval para as escolas de samba que, nos desfiles,  apresentassem bons projetos culturais, já que, na sua concepção,  o dinheiro público não pode servir, por exemplo, à promoção da revista “Caras” e coisas do gênero. Tanto bastou para que a turma global denunciasse um comportamento de censura (o que não é o caso, porque o que ele diz é que dinheiro público deve ser aplicado em interesse público).
E é a mesma turma que se cala diante do caso-Assange que, com o Wikileaks, colocou a nu  ações governamentais  nem sempre dignas ou democráticas... São os mesmos, aliás, que não perdem uma oportunidade de defender o bloqueio a Cuba em função da ausência de liberdade na ilha cubana, mas calam-se quase totalmente quando se trata de referir-se à prisão de Guantânamo, essa excrescência  que mantém muitos seres humanos encarcerados sem acusação formal ou  julgamento, em uma das maiores manifestações de desapego aos direitos humanos nos dias que correm.
Mudo agora de exemplo, mas não de assunto. Ai do cidadão que não consegue ter discernimento (às vezes, recursos) para se informar corretamente através de fontes isentas  que lhe permitam distinguir o joio do trigo !
Recentemente, a grande imprensa publicou resultado de um levantamento efetuado na América Latina a respeito dos índices de desigualdade social nos países que a compõem. Colocou-se em destaque negativo o Brasil , posicionado  em quarto lugar entre os  países  de maior desnível, só perdendo para Guatemala, Honduras e Colômbia. Também se informou, porque os estudos diziam isso, que essa posição revelava uma melhoria conquistada nos últimos anos, porque anteriormente o país liderava esse “ranking” perverso. É claro, porém, que a ênfase ficou para o negativo.
A linguagem da mídia usa frequentemente o recurso do “mas” para enfatizar o que pretende. Ensino aos meus alunos que o “mas” não é apenas uma partícula adversativa no discurso, mas (como estou fazendo agora) tenta construir a verdade que se pretende, desqualificando o anteriormente dito.  Se alguém diz que “ela não é rica, mas é inteligente”, está valorizando a inteligência, o que não fará com a mesma ênfase quem disser que “ela é inteligente, mas não é rica”, que soa como uma lamentação.   Preste atenção na linguagem da mídia “tucano-urubulina” quando se trata de informar virtudes do governo: há sempre um “mas”, geralmente acompanhado de “especialistas“, para desconstruir o impacto positivo da própria notícia...
Ainda nesse levantamento , a Venezuela aparece como o país de menor desigualdade social  e Cuba não foi relacionada (não deve fazer parte da América Latina...). Nenhum destaque para esse fato.  Aí, ficamos sem saber o que pensar, ou melhor, o que pensam esses “deformadores de opinião”: se o indicador de desigualdade é – como eu penso que seja -  um dado democrático importantíssimo , então a Venezuela está de parabéns (e ninguém ousou dizer isso nas reportagens). Mas se essa turma não acha isso relevante, porque destacar negativamente o Brasil ? Respondam os que, ingenuamente, não acreditam em manipulações e na necessidade de se regular essa liberdade de desinformar...

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Judiciário é Culpado Pela Impunidade

Vitória (ES) – O presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, desembargador Pedro Valls Feu Rosa, afirmou hoje (17), em palestra na V Conferência Internacional de Direitos Humanos, que a corrupção no Brasil já configura ameaça à ordem pública e atribuiu a culpa pela impunidade ao próprio sistema judiciário, a quem acusou de “injusto ou cúmplice” pela impunidade dos corruptos. “Ou nosso sistema está a conferir benesses que a lei absolutamente não contempla, ou estamos diante de um sistema legal  injusto ou cúmplice – injusto na medida em que não aplica as leis de forma uniforme, ou cúmplice quando cria a impunidade para alguns poucos abonados”, afirmou o desembargador durante o painel Dignidade e Sistema Prisional.
O desembargador afirmou que “a corrupção no Brasil suga dos cofres públicos, anualmente, o equivalente a 1,35% do Produto Interno Bruto (PIB), o que representa  também o orçamento de sete ministérios”. E acrescentou: “E esse é o mesmo país sobre cujo solo morrem 20 crianças a cada dia por falta de saneamento básico. Essa praga (corrupção) está disseminada por todo o País, conforme pesquisas e relatórios produzidos. Desiludida, quase metade da população tem declarado a institutos de pesquisa que desconfia da democracia e diz preferir a ditadura, o que configura grave ameaça à ordem pública”.
Na opinião do presidente do TJ-ES, em uma palestra marcada pelo tom crítico ao Judiciário brasileiro, “a sábia voz das ruas não está errada: nosso sistema legal tem sido omisso ou cúmplice; não saberia dizer qual o pior, pois temos sido voluntaria ou involuntariamente  instrumento dos maus. Nossas interpretações não raramente tem jogado por terra a justiça e direitos humanos os mais elementares; abusamos com freqüência das leis e ainda chamamos em nossos pomposos acórdãos de devido processo legal. Nos especializamos em fazer com que o que esteja nos autos não chegue ao mundo – e o que esteja no mundo não chegue aos autos”.
Na mesma linha, o desembargador afirmou que o princípio de que a lei é igual para todos não tem sido, a rigor, aplicado pela Justiça brasileira que, ao permitir brechas para que os mais ricos utilizem de “filigranas jurídicas”para escapar a punições, pune de forma dura os mais pobres. Ao criticar o que chamou de ordem jurídica e social injusta, ele indagou: “Se a lei é igual para todos por qual motivo todas as filigranas processuais não são estendidas aos miseráveis? Quantos acusados em grandes casos de corrupção respondem presos hoje em seus processos? Afinal, falamos de um mesmo sistema legal”.
“Um semelhante nosso que jaz abandonado num corredor fétido de um hospital sabe perfeitamente que lá está por conta  dessa ordem jurídica e social injusta”, prosseguiu Valls Feu Rosa. “A mãe que segura no colo um filho morto e devorado por ratos em alguma favela sente com clareza que aí está mais uma vítima do desvio impune de recursos públicos. O pai que enterra o filho, morto por causa da péssima infraestrutura oferecida por este país, compreende que ele foi assassinado por omissão de alguns. Nenhum desses personagens externa ou sequer definem esses sentimos, mas eles estão lá, no coração de tão pobre povo que habita tão rica terra”.
“E assim como toda ação tem conseqüência – concluiu ele com um alerta -, estamos criando uma sociedade cada vez mais conflituosa cujos reflexos já se projetam nas portas de nossas casas e colorem de cinza nossas vidas e a dos nossos entes mais queridos”.
Desemb. Pedro Valls Feu Rosa

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Farsa e os Farsantes

Por Bob Fernandes
Há quem diga ser uma farsa o julgamento do chamado “mensalão”.
Mas não, não é uma farsa. É fruto de fatos.
Ou era mesada, o tal “mensalão”, ou era caixa dois (esse todo mundo faz).
Mas não há como dizer que há uma farsa.
E quem fez, se fez, que pague o que fez.
A farsa existe, mas não está nestes fatos.
Farsa é, 14 anos depois, admitir a compra de votos para aprovar a reeleição em 98 – do Fernando Henrique Cardoso -, mas dizer que não sabe quem comprou. Isso, ao tempo que aponta o dedo e o verbo para as compras agora em julgamento.
A compra de votos existiu em 97.
Mas não deu em CPI e não deu em nada.
Farsa é fazer de conta que em 98 não existiram as fitas e os fatos da privatização da Telebras.
É fazer de conta que a cúpula do governo, de então, não foi gravada em tramóias e conversas escandalosas num negócio de R$ 22 bilhões.
Aquilo derrubou um pedaço do governo tucano.
Mas não deu em CPI. Não deu em nada e ninguém foi preso.
Farsa é esquecer que nos anos PC Farias se falava em corrupção na casa do bilhão. Isso no governo Collor; eleito, como lembramos, com decisivo apoio da chamada “grande mídia”.
À época, a polícia federal indiciou 400 empresas e 110 grandes empresários.
A justiça e a mídia deixaram p’ra lá o inquérito de 100 mil páginas, com os corruptos e os corruptores.
Tudo prescreveu.
Fora o PC Farias, ninguém pagou.
Aquilo foi uma farsa.
Farsa foi e tem sido o silêncio estrondoso diante do livro “A Privataria Tucana”. Livro que, em 115 páginas de documentos de uma CPI e investigação em paraísos fiscais, expõe bastidores da privatização da telefonia.
Farsa é buscar desqualificar o autor e fazer de conta que os documentos não existem ou são “velhos”.
Como se novas fossem as denúncias agora repisadas nas manchetes na busca de condenações a qualquer custo.
Farsa é continuar se investigando os investigadores e se esquecer dos fatos que levaram à operação Satiagraha.
Operação desmontada a partir da farsa de uma fita que não existiu.
Fita fantasma que numa ponta tinha Demóstenes Torres e a turma do Cachoeira. E que na outra ponta da conversa, que ninguém ouviu, teve o ministro Gilmar Mendes.
Farsa é, anos depois de enterrada a Satiagraha, o silêncio em relação a US$ 550 milhões de dólares.
Sim, por não terem origem comprovada, US$ 550 milhões continuam retidos pelos governos dos EUA e da Inglaterra.
E o que se ouve, se lê ou se investiga?
Nada. Tudo segue enterrado. Em silêncio.
O julgamento do chamado “mensalão” não é uma farsa.
Farsa é, isso sim, isolá-lo desses outros fatos todos e torná-lo único.
Farsa é politizá-lo ainda mais.
Como farsesco é magnificá-lo, chamá-lo de “maior julgamento da história do Brasil”.
Farsa não porque esse não seja o maior julgamento.
Farsa, porque se esquecem de dizer que esse é o “maior”, porque não existiram outros julgamentos.
Por isso, esse é o “maior”
Existiram, isso sempre, alianças ideológicas e empresariais, na luta pelo Poder.
Farsa, porque ao final prevaleceu sempre, até que viesse o “mensalão”, o estrondoso silêncio cúmplice.

domingo, 19 de agosto de 2012

Os Crimes de fhc Serão Punidos?

Por Altamiro Borges
No grande circo armado pela mídia para o “julgamento do século” do chamado “mensalão do PT”, até o ex-presidente fhc foi ressuscitado. Ontem (6), na abertura da 32ª Convenção do Atacadista Distribuidor, no Riocentro, ele reforçou o linchamento midiático exigindo a imediata punição dos réus. Na maior caradura, ele esbravejou: “Depois que eu ouvi do procurador-geral da República, houve crime. Crime tem que ser punido… Tenho confiança de que eles [STF] julgarão com serenidade, mas também com Justiça”. 
fhc já pediu para esquecer o que ele escreveu. Mas não dá para esquecer as denúncias de corrupção que mancharam o seu triste reinado. O ex-presidente não tem moral para exigir punição de qualquer suspeito de irregularidades. Desde que foi desalojado do Palácio do Planalto, o rejeitado ex-presidente tenta se travestir de paladino da ética com objetivos meramente políticos e eleitoreiros. Ela agora explora oportunisticamente o julgamento no STF para impulsionar e animar as campanhas dos demotucanos às eleições de outubro.
A lista dos crimes tucanos
Se um dia houver, de fato, Justiça no país, FHC é que será julgado e punido por seus crimes. Listo abaixo alguns que merecem rigoroso julgamento da história:
Denúncias abafadas: Já no início do seu primeiro mandato, em 19 de janeiro de 1995, FHC fincou o marco que mostraria a sua conivência com a corrupção. Ele extinguiu, por decreto, a Comissão Especial de Investigação, criada por Itamar Franco e formada por representantes da sociedade civil, que visava combater o desvio de recursos públicos. Em 2001, fustigado pela ameaça de uma CPI da Corrupção, ele criou a Controladoria-Geral da União, mas este órgão se notabilizou exatamente por abafar denúncias.
Caso Sivam. Também no início do seu primeiro mandato, surgiram denúncias de tráfico de influência e corrupção no contrato de execução do Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia (Sivam/Sipam). O escândalo derrubou o brigadeiro Mauro Gandra e serviu para fhc “punir” o embaixador Júlio César dos Santos com uma promoção. Ele foi nomeado embaixador junto à FAO, em Roma, “um exílio dourado”. A empresa ESCA, encarregada de incorporar a tecnologia da estadunidense Raytheon, foi extinta por fraude comprovada contra a Previdência. Não houve CPI sobre o assunto. fhc bloqueou.
Pasta Rosa. Em fevereiro de 1996, a Procuradoria-Geral da República resolveu arquivar definitivamente os processos da pasta rosa. Era uma alusão à pasta com documentos citando doações ilegais de banqueiros para campanhas eleitorais de políticos da base de sustentação do governo. Naquele tempo, o procurador-geral, Geraldo Brindeiro, ficou conhecido pela alcunha de “engavetador-geral da República”.
Compra de votos. A reeleição de FHC custou caro ao país. Para mudar a Constituição, houve um pesado esquema para a compra de voto, conforme inúmeras denúncias feitas à época. Gravações revelaram que os deputados Ronivon Santiago e João Maia, do PFL do Acre, ganharam R$ 200 mil para votar a favor do projeto. Eles foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos. Outros três deputados acusados de vender o voto, Chicão Brígido, Osmir Lima e Zila Bezerra, foram absolvidos pelo plenário da Câmara. Como sempre, fhc resolveu o problema abafando-o e impedido a constituição de uma CPI.
Vale do Rio Doce. Apesar da mobilização da sociedade em defesa da CVRD, a empresa foi vendida num leilão por apenas R$ 3,3 bilhões, enquanto especialistas estimavam seu preço em ao menos R$ 30 bilhões. Foi um crime de lesa-pátria, pois a empresa era lucrativa e estratégica para os interesses nacionais. Ela detinha, além de enormes jazidas, uma gigantesca infra-estrutura acumulada ao longo de mais de 50 anos, com navios, portos e ferrovias. Um ano depois da privatização, seus novos donos anunciaram um lucro de R$ 1 bilhão. O preço pago pela empresa equivale hoje ao lucro trimestral da CVRD.
Privatização da Telebras. O jogo de cartas marcadas da privatização do sistema de telecomunicações envolveu diretamente o nome de fhc, citado em inúmeras gravações divulgadas pela imprensa. Vários “grampos” comprovaram o envolvimento de lobistas com autoridades tucanas. As fitas mostraram que informações privilegiadas foram repassadas aos “queridinhos” de fhc. O mais grave foi o preço que as empresas privadas pagaram pelo sistema Telebrás, cerca de R$ 22 bilhões. O detalhe é que nos dois anos e meio anteriores à “venda”, o governo investiu na infra-estrutura do setor mais de R$ 21 bilhões. Pior ainda, o BNDES ainda financiou metade dos R$ 8 bilhões dados como entrada neste meganegócio. Uma verdadeira rapinagem contra o Brasil e que o governo fhc impediu que fosse investigada.
Ex-caixa de fhc. A privatização do sistema Telebrás foi marcada pela suspeição. Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-caixa das campanhas de fhc e do senador José Serra e ex-diretor do Banco do Brasil, foi acusado de cobrar R$ 90 milhões para ajudar na montagem do consórcio Telemar. Grampos do BNDES também flagraram conversas de Luiz Carlos Mendonça de Barros, então ministro das Comunicações, e André Lara Resende, então presidente do banco, articulando o apoio da Previ para beneficiar o consórcio do Opportunity, que tinha como um dos donos o economista Pérsio Arida, amigo de Mendonça de Barros e de Lara Resende. Até fhc entrou na história, autorizando o uso de seu nome para pressionar o fundo de pensão. Além de “vender” o patrimônio público, o BNDES destinou cerca de 10 bilhões de reais para socorrer empresas que assumiram o controle das estatais privatizadas. Em uma das diversas operações, ele injetou 686,8 milhões de reais na Telemar, assumindo 25% do controle acionário da empresa.
Juiz Lalau. A escandalosa construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo levou para o ralo R$ 169 milhões. O caso surgiu em 1998, mas os nomes dos envolvidos só apareceram em 2000. A CPI do Judiciário contribuiu para levar à cadeia o juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do TRT, e para cassar o mandato do senador Luiz Estevão, dois dos principais envolvidos no caso. Num dos maiores escândalos da era fhc, vários nomes ligados ao governo surgiram no emaranhado das denúncias. O pior é que fhc, ao ser questionado por que liberara as verbas para uma obra que o Tribunal de Contas já alertara que tinha irregularidades, respondeu de forma irresponsável: “assinei sem ver”.
Farra do Proer. O Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional (Proer) demonstrou, já em sua gênese, no final de 1995, como seriam as relações do governo FHC com o sistema financeiro. Para ele, o custo do programa ao Tesouro Nacional foi de 1% do PIB. Para os ex-presidentes do BC, Gustavo Loyola e Gustavo Franco, atingiu 3% do PIB. Mas para economistas da Cepal, os gastos chegaram a 12,3% do PIB, ou R$ 111,3 bilhões, incluindo a recapitalização do Banco do Brasil, da CEF e o socorro aos bancos estaduais. Vale lembrar que um dos socorridos foi o Banco Nacional, da família Magalhães Pinto, a qual tinha como agregado um dos filhos de fhc.
Desvalorização do real. De forma eleitoreira, fhc segurou a paridade entre o real e o dólar apenas para assegurar a sua reeleição em 1998, mesmo às custas da queima de bilhões de dólares das reservas do país. Comprovou-se o vazamento de informações do Banco Central. O PT divulgou uma lista com o nome de 24 bancos que lucraram com a mudança e de outros quatro que registraram movimentação especulativa suspeita às vésperas do anúncio das medidas. Há indícios da existência de um esquema dentro do BC para a venda de informações privilegiadas sobre câmbio e juros a determinados bancos ligados à turma de fhc. No bojo da desvalorização cambial, surgiu o escandaloso caso dos bancos Marka e FonteCindam, “graciosamente” socorridos pelo Banco Central com 1,6 bilhão de reais. Houve favorecimento descarado, com empréstimos em dólar a preços mais baixos do que os praticados pelo mercado.
Sudam e Sudene. De 1994 a 1999, houve uma orgia de fraudes na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), ultrapassando R$ 2 bilhões. Ao invés de desbaratar a corrupção e pôr os culpados na cadeia, FHC extinguiu o órgão. Já na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), a farra também foi grande, com a apuração de desvios de R$ 1,4 bilhão. A prática consistia na emissão de notas fiscais frias para a comprovação de que os recursos do Fundo de Investimentos do Nordeste foram aplicados. Como fez com a Sudam, FHC extinguiu a Sudene, em vez de colocar os culpados na cadeia.

Um Nome e um Endereço

Os Centros do Poder.  (trecho)

Há anos, um banco fornece à administração norte-americana seus mais influentes funcionários, encarregados principalmente da liberalização dos mercados financeiros. Ele aconselha os governos endividados (como a Grécia, a quem ajuda a maquiar as contas), mas também seus credores. Seus dirigentes precipitaram a crise dos subprimes ao inundar seus investidores com títulos "podres"; depois, garantiram lucros fecundos ao apostar em sua baixa. Esse banco tem um nome - Goldman Sachs - e um endereço - 200 West Street, em Nova York.
Na Europa, uma instituição cujos membros não são eleitos acaba de ser dotada do poder de modificar os orçamentos de países soberanos com o objetivo de lhes impor o respeito às regras que ela mesma desenvolveu anteriormente. Essa instituição tem um nome - Comissão Européia - e um endereço - 200, Rua de la Loi, em Bruxelas.
Mas outro poder surge, diferente dos precedentes e com capacidade para derrubá-los. Ele também tem um nome - povo -, quando toma a Bastilha ou a Praça Tahrir. E, neste momento, ele tem apenas um endereço: todos os lugares."

Artigo de Bréville e Renaud Lambert denominado "Um nome e um endereço", onde fica claro os que querem mandar no mundo e o porquê dessa tal " austeridade fiscal" no Brasil e no mundo todo. 

Esse artigo está na edição de julho/agosto da Le Monde Diplomatique Brasil.

Avenida Brasil: um Caminho Duvidoso

Rodolpho Motta Lima

Desde que o mundo é mundo, o domínio de uns poucos sobre muitos – ou, se quiserem, das elites sobre o povo -, ou se dá na base da repressão , com violência explícita que sufoca o corpo e a alma dos cidadãos – ou se constrói com dissimulações que pretendem contagiar, com o subliminar, os corações e as mentes.
Esse segundo papel é desempenhado pelas grandes mídias de todos os países e, entre nós, tem seu maior representante nas empresas “globais”, que aqui trago como exemplo não porque não goste delas – o que, confesso, é verdade – mas porque ainda ocupam posição hegemônica junto ao “povão”, o que é bem claro no caso da TV aberta. E é óbvio que não estou falando de sustentação governamental, mas de um poder de classe, que transcende governos, porque encarna uma ideologia que a história mostra que jamais esteve a serviço do nosso povo.
Se tivermos paciência de, ao menos um dia, assumirmos o sacrifício de nos colocarmos como expectadores da “Vênus platinada”, perceberemos claramente que ela – porque vem perdendo seu público das classes “A” e “B” para a internet – assumiu a postura de pegar carona na ascensão da chamada “nova classe média” que, ironicamente, lhe foi oferecida pelo projeto social dos últimos governos, que os globais detestam... Até aí nada demais. Faz parte de um mundo onde lucro, mercado, oportunidade (ou oportunismo, como queiram) são palavras recorrentes. Essa é apenas mais uma corporação a querer a sua fatia desse bolo que envolve o poder e o que dele decorre.
O problema é que, a partir da constatação desse “nicho de mercado”, a impressão é de que se tenta reproduzir uma ideologia de componente preconceituoso a respeito do novo “público-alvo”, que parece ser visto como um conjunto de pessoas suscetíveis apenas de dar e receber o rasteiro, o vulgar, a baixaria. Pessoas a quem somente interessaria o superficial, o trivial, presas fáceis de modas e modismos, vírus que o quartel-general midiático sabe muito bem inocular. Misturando-se “caldeirões” e “faustões” em uma “zorra total” em que não falta lugar para “instrutivos e fascinantes” temas para “Encontros/ Na Moral”, como a histeria pela “mulher-melão”, a discussão sobre troca de casais e coisas do gênero, parece haver aí uma intencionalidade, cujo carro-chefe está nas novelas pretensamente ambientadas nos redutos “populares”, entre elas a “Avenida Brasil” , que hoje mobiliza o público noveleiro do país. E, no caso, importa pouco saber que milhões de brasileiros “se divertem” com a trama. Há uma grande discussão, não resolvida, sobre se a mídia “faz o que o povo quer” ou “faz o povo querer”...
Nunca houve uma enxurrada tão grande de novelas com personagens “do povo”: empregadas domésticas, balconistas, serventes, bombeiros, jogadores de futebol etc. Isso seria digno de aplausos se não colocasse o “povão” como ator e receptor de um permanente espetáculo circense, encobrindo-se suas justas revoltas e a procura de seus legítimos interesses. Porque esses personagens são mostrados ora como caricaturas risíveis, ora como individualidades predestinadas à fortuna pelos deuses da loteria ou da fama repentina que o sistema propiciaria, mas quase nunca como seres sufocados pelos verdadeiros embates diários que caracterizam uma sociedade desigual e perversa como a nossa.
Na ambiência de um falso lixão “glamourizado” ou no reduto do subúrbio carioca, a uma vilã irreal de incomensurável grau de mesquinhez e falsidade corresponde uma “mocinha” cuja vingança beira o sadismo, com dois heróis permanentemente enganados, cuja fraqueza não enxerga o óbvio. Um homem rico que desfruta e é desfrutável por três esposas condescendentes , um outro que tipifica o rufião cujo único valor é o dinheiro, uma jovem que encarna o chamado “objeto sexual”, empaticamente apresentada como alguém que goza de “liberdade”, homens e mulheres que trocam de amores como de roupa, jovens que não estudam (jogam bola) , crianças que são “salvas” em um lixão, todos esses personagens – e outros que é cansativo enumerar - compõem uma dramaturgia duvidosa , um enredo de soluções fáceis, que desenrola (ou enrola) a história , sempre com o auxílio de alguém que, nos momentos complicados, escuta através das paredes ou atrás das portas...
Nas últimas semanas, a Globo vem colocando seu foco em dois assuntos: um óbvio – o julgamento do STF – e outro, mais sutil, que é a “preocupação” com os rumos da Educação no país, promovendo levantamentos e buscando mostrar mais derrotas que vitórias. Na minha opinião, isso é parte da estratégia dos neoliberais contra o ex-ministro da Educação, candidato em São Paulo. Mas, admitindo-se que é sério o interesse global, não custa contribuir, lembrando que a Educação tem várias faces e não se faz só dentro das escolas: ela é mais ampla, passando, inclusive, pela família e pelos órgãos midiáticos, com suas responsabilidades sociais. A grade programática das emissoras abertas no Brasil – todas concessões do poder público - seguramente não ajuda em nada no processo de educação do povo. É, pelo contrário, instrumento que estimula a perpetuação do embrutecimento geral.
Ah ! Ia esquecendo de mencionar – e seria falha imperdoável – o “eu quero tchu, eu quero tcha” e o kuduro “oi oi oi” , pérolas do nosso cancioneiro, que vêm embalando as noites dos brasileiros.

Somos Bem-Vindos ao Planeta Marte?

Frei Betto

       Os  ibéricos, dos séculos XV ao XVII, conquistaram boa parte do mundo graças às  inovações tecnológicas de suas caravelas e o talento de cientistas  estrangeiros. Exemplos são o genovês Cristóvão Colombo, que se pôs a serviço  da coroa espanhola, e Américo Vespúcio, que se instalou em Sevilha e deu nome  ao nosso Continente.

       O  capitalismo neoliberal, com sede nos EUA, domina o mundo atual, unipolar,  malgrado as fortes resistências. Não satisfeita, a voracidade estadunidense  mira o espaço cósmico. A história do imperialismo se baseou em incursões por  terra (romanos e Alexandre Magno), mar (Espanha e Portugal) e, agora, ar.  

       Após pisar  na lua e fincar em seu solo a bandeira dos EUA (tivesse bom senso, a Casa  Branca teria hasteado a da ONU), a Nasa aterrissa em Marte o robô Curiosity –  após viajar 570 milhões de km em pouco mais de 8 meses, a um custo de US$ 2,5  bilhões (R$ 5 bilhões).

       Por fontes  fidedignas, sei como os marcianos receberam o  Curiosity.

       - Que  diabos caiu em nosso território? – indagou Elysium à sua mulher  Memnonia.

       - Pelo  aspecto, parece lixo do planeta Água.

       - Aquele  azul?

       - Sim,  cujos habitantes o denominam equivocadamente de Terra, embora contenha 70% de  água.

       - Não me  parece lixo, Memnonia. Repare, é um equipamento  articulado.

       - Talvez  tenha vindo espionar a nossa civilização – suspeitou a  mulher.

       - Isso não  me preocupa. Lembra quando, na década de 1950, nossos discos voadores foram  até lá?

       - Sim,  Elysium, foi uma decepção. As imagens de TV captadas por nossas naves  demonstraram que ali ainda não há vida inteligente.

       - De fato,  em matéria de ciência e tecnologia os terráqueos estavam muito atrasados. Suas  aeronaves ainda copiavam o formato dos pássaros, e, hoje, suas naves espaciais  têm aspecto bélico e gastam muito combustível para romper a  atmosfera.

       - O que me  impressionou – observou Memnonia – foi o contraste entre a sofisticação de  certos equipamentos e a miséria em que vivia tanta gente. Enquanto uns  trafegavam em veículos de luxo, outros rastejavam pelas calçadas suplicando  por comida. Como é possível uma civilização que não prioriza a vida de seus  semelhantes?

       - Lembra  que reparamos que, ao contrário do que acontece conosco, eles são visíveis uns  aos outros? Não tinham, como nós, o dom da invisibilidade. Ainda vivem muito  apegados às esferas dos sentidos e da razão. Não irromperam na esfera da  espiritualidade.

       - Elysium,  se este aparato veio nos espionar, não vai obter muito além das propriedades  de nosso solo e de nosso clima. Não poderá captar o avanço de nossa  civilização.

       - Mas  admito que eu gostaria de repassar aos terráqueos um pouco de nossa história.  Talvez isso os ajudasse a evoluir.

       - Ora,  Mamnonia, sabemos que há entre eles pessoas – e não são poucas – que também  pregam o que os nossos patriarcas disseram. Infelizmente a maioria não lhes dá  ouvidos.

       - Eles  seriam mais felizes – enfatizou a mulher – se trocassem a devastação ambiental  pela preservação; a apropriação privada pela partilha; a guerra pela paz; as  armas pelas ferramentas; a opressão pela justiça.

       - Como foi  positivo para nós trilhar esse caminho de sabedoria! Hoje, o alto grau de  amorização de nosso povo permite-nos tamanha transparência, que tanto o nosso  povo quanto a nossa natureza são invisíveis aos olhos  alheios.

       - Você acha  que devemos atirar pelo espaço esse aparato esdrúxulo?

       - Melhor  não, Elysium. Preservemos a nossa identidade e a paz com os vizinhos. Não  esqueça o que os terráqueos fizeram quando descobriram um Novo Mundo repleto  de povos indígenas... Nossa invisibilidade nos dará proteção. Melhor deixar  essa maquininha rodando por aí. Vai ser divertido vê-la restrita aos aspectos  geológicos e climáticos do nosso planeta.

       - Você está  certa, Memnonia. O amor que nos une e nos faz feliz não poderá ser captado,  pois os terráqueos ainda terão um longo percurso até conquistar a  globoamorização que reina entre nós.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Deus, Segundo Spinoza

“Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.  Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que  Eu fiz para ti.


Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.  Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar.  Ninguém leva um registro.  Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.  Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse.  Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.  Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres?  Para que tantas explicações?  Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... 
aí é que estou, batendo em ti”.

Baruch Spinoza.

As sábias palavras são de Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Acredite, essas palavras foram ditas em pleno Século XVII.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Abaixo o Diploma de Jornalismo

Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
NOVA YORK - Faltei à formatura da minha faculdade. Fiquei pendurada porque tirei nota baixa em estatística, tive de fazer o crédito em recuperação e colei grau sozinha no meio do ano. Confesso que não me recuperei em estatística. Assim como não aprendi jornalismo na escola de jornalismo. Lembro dos professores complacentes, um lacaniano esquisito (pleonasmo?), um comunista feroz, uma preguiçosa que não preparava nada e flertava com alunos.
Só fui boa aluna até o fim do segundo grau. Faltava muito à aula na faculdade porque já trabalhava como repórter. Aprendi o ofício na redação.
Uma vez, não preparei o trabalho final de uma matéria e só me lembrei na manhã da última aula. Lavei um vidro de geleia, datilografei várias palavras e joguei o papel picado lá dentro. Sacudi e entreguei para o professor, dizendo que era um poema concreto. Tirei nota 8.
Obrigar o jornalista a ter diploma de jornalismo é como obrigar um cantor a tomar aula de voz antes de cantar no palco, uma violação da liberdade de expressão. Não que uma boa escola de jornalismo seja inútil, pelo contrário, a da Columbia University, aqui perto, é uma usina de grandes profissionais. Mas é uma escola de pós-graduação, você só é aceito se já escrever num nível cada vez mais raro na nossa imprensa.
As redações eram a lição de anatomia do jornalista da minha geração. Hoje é indispensável aprender técnicas do jornalismo digital. Jornalista deve estudar, acima de tudo, português e se educar em história, literatura, economia, ciência, filosofia e ciência política. Quem chega à redação passou pelo crivo de editores e competiu com seus pares, mesmo por um estágio.
Não compreendo por que um graduado em economia que escreve bem seria impedido de cobrir o Banco Central e substituído por um foca que pode ser facilmente enrolado, já que não decifra a informação financeira. Não fui capaz de questionar porta-vozes do governo quando tive que substituir colegas na cobertura da negociação da dívida externa em Nova York. Não entendia bulhufas dos comunicados.
O senador paraibano Cícero Lucena declarou, orgulhoso, pelo Twitter, que votou a favor da obrigatoriedade do diploma porque "democracia se faz com jornalismo ético, profissional e técnico". Sua excelência vai me desculpar, mas essa frase não passa pelo copidesque. O que tem a democracia a ver com a profissionalização do jornalista? E com sua capacidade técnica de fazer fotografia com foco? A ética começa ainda na primeira dentição, em casa, é aperfeiçoada durante a educação e é fundamental para qualquer profissão.
A democracia se faz com jornalismo, ponto. Quando Thomas Jefferson disse que era melhor ter um país sem governo do que um país sem jornais, a inspiração era o civismo, não o corporativismo. O baixo nível da maioria das escolas de comunicação é que erode a democracia porque joga milhares de jovens iletrados na vala comum do subemprego, fabrica profissionais despreparados para contestar o poder e investigar a corrupção num mundo cada vez mais sofisticado e falsificado pelo marketing. Não foi coincidência Charles Ferguson, ganhador do Oscar de 2011 por Inside Job, ter conduzido as entrevistas mais reveladoras já feitas sobre o crash de 2008. O homem se formou em matemática e fez PHD em ciência política, sabia o que perguntar.
A desculpa usada pelo senador sergipano Antonio Carlos Valadares - empresas de comunicação se opõem ao diploma porque querem contratar mão de obra barata - é absurda. A epidemia de cursos superiores de jornalismo alimenta a distorção de mercado que baixa os salários. Por que só o senador Aloysio Nunes Ferreira teve coragem de apontar a aberração constitucional do voto? Qual o motivo por trás da esmagadora maioria dos votos a favor?
E o que define para esses parlamentares a tal profissão, numa era em que qualquer um munido de smart phone pode narrar e fotografar um atentado no Afeganistão e apertar "enviar"? A diferença é editorial e o público vota no bom jornalismo selecionando onde deposita sua atenção. As empresas de comunicação que quiserem produzir seu conteúdo com mão de obra medíocre e barata terão na exigência do diploma sua maior aliada.
O jornalismo é um bem social importante demais para ficar nas mãos de jornalistas diplomados.

domingo, 12 de agosto de 2012

Os Minérios e o Interesse Nacional

As empresas mineradoras, quase todas estrangeiras ou com forte participação de capital externo, ameaçam ir à Justiça contra o governo brasileiro. Alegam “direitos minerários”. Razão alegada: o Ministério de Minas e Energia e o Departamento Nacional de Produção Mineral, a ele subordinado, não têm emitido novas licenças para pesquisas de lavras, nem outorgas de concessão do direito de minerar. Segundo informações oficiosas, e não oficiais, a ordem é do Planalto.

A matéria sobre o assunto, publicada sexta-feira pelo jornal Valor, não esclarece de que “direitos minerários” se trata. Pelo que sabemos, e conforme a legislação a respeito, o subsolo continua pertencendo à União, como guardiã dos bens comuns nacionais. A União pode, ou não, conceder, a empresas brasileiras, o direito de pesquisa no território brasileiro e o de explorar esses recursos naturais, dentro da lei. Nada obriga o Estado a atender aos pedidos dos interessados.

A Constituição de 1988, e sob proposta da Comissão Arinos, apresentada pelo inexcedível patriota que foi Barbosa Lima Sobrinho, havia determinado que tais concessões só se fizessem a empresas realmente nacionais: aquelas que, com o controle acionário de brasileiros, fossem constituídas no Brasil, nele tivessem sua sede e seus centros de decisão.

O então presidente Fernando Henrique Cardoso, com seus métodos peculiares de convencimento, conseguiu uma reforma constitucional que tornou nacionais quaisquer empresas que assim se identificassem, ao revogar o artigo 171 da Constituição, em 15 de agosto de 1995, com a Emenda nº 6. Ao mesmo tempo, impôs a privatização de uma das maiores e mais bem sucedidas mineradoras do mundo, a nossa Vale do Rio Doce.

É bom pensar pelo menos uns dois minutos sobre a América Latina, seus recursos minerais e a impiedosa tirania ibérica sobre os nossos povos. A prata de Potosi – e de outras regiões mineiras do Altiplano da Bolívia – fez a grandeza da Espanha no século 17. O ouro e os diamantes de Minas, confiscados de nosso povo pela Coroa Portuguesa, financiou a vida da nobreza parasita da Metrópole, que preferiu usar o dinheiro para importar produtos estrangeiros a criar manufaturas no país. As astutas cláusulas do Tratado de Methuen, firmado entre Portugal e a Inglaterra, em 1703, pelo embaixador John Methuen e o Conde de Alegrete, foram o instrumento dessa estultice. Assim, o ouro de Minas financiou a expansão imperialista britânica nos dois séculos que se seguiram.

A luta em busca do pleno senhorio de nosso subsolo pelos brasileiros é antiga, mas se tornou mais aguda no século 20, com a intensa utilização do ferro e do aço na indústria moderna. Essa luta se revela no confronto entre os interesses estrangeiros (anglo-americanos, bem se entenda) pelas imensas jazidas do Quadrilátero Ferrífero de Minas, tendo, de um lado, o aventureiro Percival Farquhar e, do outro, os nacionalistas, principalmente mineiros, como os governadores Júlio Bueno Brandão e Artur Bernardes.

Bernardes manteve a sua postura quando presidente da República, ao cunhar a frase célebre: minério não dá duas safras. Essa frase foi repetida quarta-feira passada, pelo governador Antonio Anastasia, ao reivindicar, junto ao presidente do Senado, José Sarney, a aprovação imediata do novo marco regulatório, que aumenta a participação dos estados produtores nos lucros das empresas mineradoras, com a elevação dos royalties devidos e que, em tese, indenizam os danos causados ao ambiente.

Temos que agir imediatamente, a fim de derrogar toda a legislação entreguista do governo chefiado por Fernando Henrique, devolver a Vale do Rio Doce ao pleno controle do Estado Nacional e não conceder novos direitos de exploração às empresas estrangeiras, dissimuladas ou não. E isso só será obtido com a mobilização da cidadania.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

FHC: o Eco do Desencanto

Há alguns meses, em visita a Manaus, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez um comentário sobre a necessidade de se criar condições favoráveis para a instalação e manutenção de empresas no país. "Não adianta pedir mais investimentos se o governo não cria condições para que as empresas se desenvolvam”, afirmou em tom professoral.

A receita da felicidade inclui memória curta. FHC tem, no entanto, memória longa, e pertence à categoria de cidadãos que fazem questão de mantê-la acesa. Porém, para tanto, ao menos quando o assunto é política ou economia, não se baseia em suas lembranças pessoais, mas nas versões criadas pela mídia corporativa para glorificar sua passagem pelo poder.

FHC diz saber onde mora o pecado. Segundo ele, o inferno é a falta de políticas e estrutura adequada que atraiam o investimento. Resta saber o que andou fazendo entre 1995 e 2002, quando comandou um governo baseado na crença do "mercado desregulamentado".

Convém – como costumamos fazer em alguns artigos – voltar no tempo para termos a perspectiva exata do processo histórico. Em 2000, seis anos depois de aguçar a ideologia neoliberal iniciada no governo Collor, Fernando Henrique via generalizar-se uma análise mais abrangente do receituário adotado, superando-se as críticas fragmentadas e setoriais.

Não havia apenas sindicalistas protestando pelo corte de empregos, enquanto industriais aplaudiam a "modernização", pedindo o aprofundamento da desregulamentação que, rezava o credo hegemônico, daria a seus negócios a sonhada competitividade internacional. Foram-se os empregos, em grande parte desapareceu o peso dos encargos sociais, mas a mágica não aconteceu.

Os crentes do milagre neoliberal começaram a sentir na pele os efeitos de um confronto desigual: ao lado da privatização de empresas públicas, setores privados nacionais inteiros desapareceram, absorvidos ou vencidos por concorrentes externos, muitas vezes auxiliados por crédito fácil do próprio BNDES. O mesmo crédito negado aos brasileiros. Poucas vezes se viu sucateamento de tal monta.

A burguesia nacional começou a desconfiar que o "dever de casa bem cumprido” – controle da inflação, abertura comercial, reformas em vários níveis (segundo o figurino do Consenso de Washington) – resultava em déficits comerciais crescentes, falências, enfraquecimento do mercado interno devido ao desemprego, intensificação da dívida pública, duplicação da dívida externa, controle estrangeiro crescente da economia se contrapondo ao protecionismo sólido dos países industrializados, exatamente os maiores pregadores do livre mercado.

Uma rápida consulta a algumas edições do Jornal do Brasil, nos primeiros meses de 2000, mostra que o setor mais dinâmico da economia brasileira reprovava a equipe econômica do governo FHC. Pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), realizada em março daquele ano, sobre as expectativas dos empresários em relação à economia, mostrava um acentuado grau de pessimismo. A nota máxima não passou de 4,6 numa escala de 10. O desencanto burguês era evidente.

Entre 1990 e 1998, os sucessivos déficits comerciais não podem ser explicados por uma conjuntura externa. Foram resultado de uma política deliberada, que considerava destoante fazer caixa, sendo mais apropriado endividar-se, vender patrimônio, desnacionalizar a economia – e ainda ser obrigado a desvalorizar a moeda.

Esse cenário de terra arrasada foi produzido por um governo que nunca teve política de desenvolvimento, deixando-se levar pelo capital especulativo que entrava apenas para ganhar juros altos e sair do jogo, aprofundando a sangria. E quem regia a orquestra da dependência? O mesmo maestro que hoje proclama que "precisamos ter estradas e aeroportos melhores. A produtividade não é só das empresas, uma parte desse trabalho é do governo". Bons tempos, os de FHC.

Somente com a chegada de Lula à presidência, a inflação que estava subindo voltou a cair. A reversão do quadro se deu com o incremento no mercado interno, redistribuição de renda e diversificação dos países para os quais o país exporta.

O contraste parece demonstrar que existem mesmo o tipo certo e o tipo errado de política econômica em tempos de globalização. As opções autorizam FHC a proferir críticas? E mais, como ficam os que dizem que Lula deu continuidade a seu antecessor?

Para compreender a sanha golpista das elites reacionárias e seus colossos midiáticos é necessário se dar conta da revolução molecular que vem sendo operada desde 2003. Só um maximalismo pequeno-burguês não deixa perceber a trama.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Ficção e Espionagem

Mauro Santayana
Os serviços secretos só se justificam na defesa da integridade territorial e política das nações contra seus inimigos externos, sobretudo em tempo de guerra e em situações internacionais de grande instabilidade e perigo. A experiência histórica demonstra, no entanto, que a coleta de informações por esses agentes, mesmo nessas situações, é precária. Os relatórios dos mais importantes serviços do mundo, como os britânicos, norte-americanos e franceses, de acordo com as revelações conhecidas, demonstram que, em sua maior parte, as informações eram absolutamente falsas. No caso brasileiro, costumam ser ridículas as informações dos agentes da Ditadura sobre algumas pessoas.

Os agentes precisam mostrar serviço, e, quando não há o que informar, valem-se da ficção, ou se baseiam em boatos, em denúncias absolutamente falsas, de desafetos dos monitorados. Qualquer pessoa que tenha acesso aos registros dos vários serviços secretos, aqui e em qualquer país do mundo, sobre si mesma, encontrará absurdos espantosos. E – o que é curioso – na maioria das vezes, esses serviços não conseguem registrar as atividades reais dos investigados contra os governos ditatoriais.

NA ERA FHC


Segundo revelou o site Carta Maior, o serviço secreto da União monitorou, durante o governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, as atividades dos intelectuais e políticos de esquerda que se opuseram à sua adesão ao Consenso de Washington, ao neoliberalismo e à globalização da economia. Na realidade, esses intelectuais, políticos nacionalistas, e militantes de esquerda, se opunham, de maneira clara, transparente, nunca clandestina, à entrega dos ativos públicos, representados pelas empresas estatais, e à desnacionalização da economia e do sistema financeiro, em benefício dos capitalistas estrangeiros.

Foi uma luta de peito aberto, dentro das regras democráticas, mediante documentos públicos, entre eles vários manifestos, como o assinado por personalidades respeitáveis da República, contra a privatização da Vale do Rio Doce, que tive o privilégio e a honra de redigir em Juiz de Fora, no escritório do honrado presidente Itamar Franco.

Como muitos outros homens que transitaram pela esquerda na juventude, o presidente se converteu, com a mente e o coração, à direita. De formação, e profissão acadêmica, fascinou-se pela inteligência técnica dos jovens economistas que o cercaram no Ministério da Fazenda, e genuflectiu diante de Wall Street. Ele agiu como um arrependido de seus ideais antigos, e saudou o neoliberalismo como uma nova era na História. Mas não foram poucos os que se aproveitaram de sua guinada a fim de se enriquecer com o processo. E há gestos seus que ainda incomodam a muitos de nós – como as suas relações muito próximas com alguns banqueiros e sua visível preferência por alguns consórcios licitantes, como no caso do Banco Opportunity.

OS ARAPONGAS…


Descobrimos agora que os serviços secretos não foram devidamente usados durante os oito anos dos tucanos paulistas na direção da República. Em lugar de seguir e monitorar os agentes estrangeiros que agiam em nosso país, sob o pretexto de combater o tráfico de drogas, e de acompanhar as atividades de autoridades brasileiras que colocavam em risco os interesses permanentes da nação, os arapongas investigavam os patriotas brasileiros que defendiam o nosso desenvolvimento autônomo. Nada de espantar: a Ditadura aprimorou o incipiente serviço secreto e o transformou no poderoso SNI para se alinhar aos norte-americanos na luta contra os comunistas, dentro do maniqueísmo da guerra fria. Como não há mais comunismo a combater, foi preciso encontrar outra causa, a causa dos novos liberais.
Teriam feito melhor se houvessem investigado como foi o enriquecimento rápido e tranqüilo de alguns daqueles que participaram do processo de privatização. Teriam feito melhor se houvessem acompanhado a evasão de recursos mal havidos, como os bilhões que atravessavam a fronteira do Paraguai, em caminhões fechados e autorizados, por portaria do Banco Central, para o ir e vir, sem a devida fiscalização da Receita Federal, em uma evasão calculada em 80 bilhões de dólares. Teriam, se assim agissem, justificado seus vencimentos, suas diárias, seus privilégios funcionais, na defesa dos interesses permanentes do nosso povo. Atuando, como atuaram, sob a ordem direta, ou não, do Presidente da República, eles se aliaram aos inimigos de nosso povo, que hoje estão sendo internacionalmente desmascarados, com a revelação de que a maior quadrilha de gangsters da História se encontra no conglomerado de Wall Street.

Murdoquianas

Aprendi jornalismo com meu pai, Giannino. A questão central do aprendizado dizia respeito ao compromisso moral, antes ainda que ético. Moral no sentido imanente, a transcender o momento fugidio. Neste ponto, a lição deu-se pelo exemplo, sem desperdício de palavras, pois a regra valia em todos os níveis do comportamento humano no exercício complexo da existência.
Meu pai, como muitos outros profissionais de qualidade, acreditava que jornalismo exige, em termos técnicos, quase nada de quem o pratica, ao contrário, por exemplo, da medicina. Aprende-se tudo em dois meses na redação, ou menos ainda. Um cidadão munido de algum talento para a escrita e de razoável cultura geral tem todas as condições de ser competente como jornalista, mas o compromisso moral é indispensável ao correto cumprimento da tarefa. Jornalismo implica, é fácil entender, responsabilidades imponentes.
As ideias políticas de meu pai não eram iguais às minhas, no entanto, a questão moral nos unia. Foi ele quem me ensinou, sem permitir-se ministrar lições, que a objetividade é a da máquina de escrever, hoje diria do computador. Desconfiem do jornalista que a afirma e a toda hora a proclama. Dele pretenda-se a honestidade. Jornalista honesto é aquele que conta os fatos exatamente como os viu, sem omitir aspecto algum indispensável à compreensão da audiência, na fidelidade canina à verdade factual.
Na minha visão, a mídia nativa peca de todos os pontos de vista. Ela não prima na lida com o vernáculo e pelo bom gosto. Leitores, ouvintes, espectadores dotados de espírito crítico sabem disso. Peculiares, digamos assim, são os critérios que orientam a hierarquização das informações e atrabiliários aqueles que ditam as manchetes. Às vezes pergunto aos meus perplexos botões: que farão eles se eclodir a guerra?
Os jornais são feios e mal impressos, do encontro com eles sai-se de mãos sujas. As seções de cultura destinam-se claramente a indigentes, e as colunas sociais, banidas há muitas décadas nos países civilizados, são mantidas para falar daquelas 837 inextinguíveis personagens. Comparada com a mídia de outras nações, a nativa habilita-se a inspirar sentimentos de pena em almas caridosas.
Cabe registrar, porém, algo pior, muito pior. Ao noticiar os fatos da política, ou quaisquer outros relacionados com o jogo do poder, a mídia nativa é profundamente desonesta. Desde sempre, arrisco-me a sustentar. Ou, por outra, omite, inventa, mistifica, mente, tempo adentro, certa de que nada acontece se não for notícia nos seus espaços. E tão segura na crença a ponto de se tornar vítima de si mesma ao enxergar a verdade onde não está e viver uma miragem compartilhada por quantos se abeberam à sua fonte.
O conjunto da obra está longe de ser animador. De todo modo, o assunto da reportagem de capa desta edição, a revelar as parcerias entre a revista Veja e o contraventor Cachoeira, soa-me inédito. Não recordo situação similar na história do jornalismo brasileiro. Não é que o enredo derrube meu queixo. Desta Veja nada justifica espanto, inclusive por ganhar a absoluta primazia no desrespeito à questão moral, antes ainda que ética. Que me lembre, nunca houve órgão midiático, ou jornalista, capaz de chegar tão longe.
Como haverão de reagir os barões e seus sabujos? Quando surgiram os primeiros sinais da relação Veja-Cachoeira, logo anotados por CartaCapital, fomos animadamente criticados, ou ignorados. O que, aliás, faz parte de hábitos e tradições. Sim, o Brasil não é um daqueles países onde, se o tema é importante, e válido porque baseado em fatos reais, contará com o interesse geral independentemente de quem o levantou. A mídia lhe seguirá as pegadas imediatamente.
Exemplo não muito distante, o chamado mensalão mineiro. A respeito, CartaCapital, entre novembro de 2005 e junho de 2006, publicou três reportagens de capa, acolhidas, obviamente, pelo silêncio retumbante da mídia. Diga-se que, em qualquer latitude de nossa política, o esquema de corrupção é sempre o mesmo. Não pretendo esclarecer agora as razões pelas quais aos tucanos tudo se perdoa. Observo apenas que de súbito uma ou outra coluna evoca nestes dias as mazelas cometidas sob a proteção do ex-governador Eduardo Azeredo, com a expressão arguta de quem avisa: depois não digam que não falamos disso…
A desfaçatez da turma não tem limites. E por que não falaram na hora certa? Neste exato instante, não me surpreenderei se o silêncio do abismo se fechar sobre as façanhas murdoquianas de Veja.

sábado, 11 de agosto de 2012

fhc de Volta ao Brasil e a Agenda da Barbárie

Renato Rabelo - de Brasília
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso leu os jornais brasileiros onde, segundo ele, somente se fala de “mensalão” e Olimpíadas. Perdido no contexto nacional, ele voltou com tudo após receber US$ 1 milhão da Biblioteca do Congresso norte-americano, uma espécie de “contribuição” à sua elaboração ao pensamento neoliberal.
Artigo de sua autoria publicado na edição do último domingo do jornal O Estado de S. Paulo saiu pior que a encomenda. O nome da prosa é sugestivo O inescapável pelo fato dele mesmo não ter conseguido escapar de seu papel de líder de uma oposição que definha a cada dia. A tropa é o espelho do comandante. Um comandante perdido e preso a uma época em que comandou o maior assaque ao patrimônio público da história de nosso país, com sua política de privatizações.
Em seu artigo abordou dois assuntos. O “mensalão” e a crise financeira. Sobre o julgamento do “mensalão” nenhuma novidade. Cita e recita o que há meses a “grande imprensa” já publica. Endossa a conversa fiada da colunista Dora Kramer sobre a falsa dicotomia entre “julgamento técnico” e “julgamento político”. fhc literalmente escorrega ao afirmar algo que nem o procurador geral da República conseguiu provar em sua intervenção: que houve crime. Ou seja, é política pura!
Ele ainda se julga no direito de posar como o paladino de uma “fina intelectualidade” cujos direitos de intromissão saltam do conhecimento dito científico em si, para outra esfera. A dos valores morais e da salvaguarda de uma democracia que o “príncipe da moeda” acredita ser parte tanto de sua construção, quanto de seu salto qualitativo a partir desta farsa política em torno do “mensalão”. fhc padece do mal de alguns que se julgam gênios incompreendidos: o da construção de uma realidade virtual que só existe na sua própria cabeça.
Esse aspecto idealista e ultraconservador de sua visão de mundo explicitam-se na sua “análise” da crise financeira e seus efeitos no Brasil. fhc perde a oportunidade de uma autocrítica sobre como o Brasil de seu tempo passou pelas crises de 1997 e 1999. O FMI “salvou” a pele dele e em troca levou nossa soberania de roldão. São as reformas enfiadas goela abaixo de nosso povo, pelo FMI, que fhc advoga para sairmos da crise? É o que defende em seu artigo. A sua agenda fez o país com o maior potencial elétrico do mundo viver às escuras durante meses. Sua agenda destruiu parte da infraestrutura do país. Sua agenda gerou 12 milhões de desempregados, rachando ao meio o tecido social brasileiro. Sua agenda é a barbárie.
O que os governos Lula e Dilma fizeram e fazem é o oposto do que ele fez e propõe. São esses feitos e a própria tentativa de superação do perverso legado de fhc (“herança maldita”) o que está mantendo o país num nível onde a maioria esmagadora da população não passe pela indignidade de ter como alimento a famosa sopa de papelão, tão popularizada no Nordeste do final da década de 1990. Triste e desmoralizante lembrança de um tempo em que a fome campeava em nosso país. Ele significa o descrédito e a desmoralização completa. A barbárie sob forma de programa político, agora sob a assinatura de um falso Keynes que ele tenta resgatar em seu artigo.
É claro que nosso país necessita de um grande salto. De um conjunto de medidas para aumentar a taxa de investimentos (hoje a relação investimentos x PIB é de 19%, na época de FHC chegou a cair a 12%) a partir da criação de um ambiente sadio de investimentos públicos e privados. O caminho está para ser pavimentado, sedimentado. Andar para frente demanda uma condição objetiva excepcional: que FHC e sua tropa nunca mais ocupem os principais postos de comando de nosso país. A agenda deles é a do retrocesso politico e econômico.
Renato Rabelo é presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Triste Fim de Policarpo Jr.

Por Leandro Fortes
Na CartaCapital dessa semana há uma história dentro de uma história. A história da capa é o desfecho de uma tragédia jornalística anunciada desde que a Editora Abril decidiu, após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, que a revista Veja seria transformada num panfleto ideológico da extrema-direita brasileira. Abandonado o jornalismo, sobreveio a dedicação quase que exclusiva ao banditismo e ao exercício semanal de desonestidade intelectual. O resultado é o que se lê, agora, em CartaCapital: Veja era um dos pilares do esquema criminoso de Carlinhos Cachoeira. O outro era o ex-senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Sem a semanal da Abril, não haveria Cachoeira. Sem Cachoeira, não haveria essa formidável máquina de assassinar reputações recheada de publicidade, inclusive oficial.
A outra história é a de um jornalista, Policarpo Jr., que abandonou uma carreira de bom repórter para se subordinar ao que talvez tenha imaginado ser uma carreira brilhante na empresa onde foi praticamente criado. Ao se subordinar a Carlinhos Cachoeira, muitas vezes de forma incompreensível para um profissional de larga experiência, Policarpo criou na sucursal da Veja, em Brasília, um núcleo experimental do que pior se pode fazer no jornalismo. Em certo momento, instigou um jovem repórter, um garoto de apenas 23 anos, a invadir o quarto do ex-ministro José Dirceu, no Hotel Nahoum, na capital federal. Esse ato de irresponsabilidade e vandalismo, ainda obscuro no campo das intenções, foi a primeira exalação de mau cheiro desse esgoto transformado em rotina, perceptível até mesmo para quem, em nome das próprias convicções políticas, mantém-se fiel à Veja, como quem se agarra a um tronco podre na esperança de não naufragar.
A compilação e análise dos dados produzidos pela Polícia Federal em duas operações – Vegas, em 2009, e Monte Carlos, em 2012 – demonstram, agora, a seriedade dessa autodesconstrução midiática centrada na Veja, mas seguida em muitos níveis pelo resto da chamada “grande” imprensa brasileira, notadamente as Organizações Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e alguns substratos regionais de menor monta. Ao se colocar, veladamente, como grupo de ação partidária de oposição, esse setor da mídia contaminou a própria estrutura de produção de notícias, gerou uma miríade de colunistas-papagaios, a repetir as frases que lhes são sopradas dos aquários das redações, e talvez tenha provocado um dano geracional de longo prazo, a consequência mais triste: o péssimo exemplo aos novos repórteres de que jornalismo é um vale tudo, a arte da bajulação calculada, um ofício servil e de remuneração vinculada aos interesses do patrão.
A Operação Vegas, vale lembrar, foi escondida pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel, este mesmo que por ora acusa mensaleiros no STF com base em uma denúncia basicamente moldada sobre os clichês da mídia, em especial, desta Veja sobre a qual sabemos, agora, que tipo de fontes frequentava. Na Vegas, a PF havia detecdado não somente a participação de Demóstenes Torres na quadrilha, mas também de Policarpo Jr. e da Veja. Essa informação abre uma nova perspectiva a ser explorada pela CPI do Cachoeira, resta saber se vai haver coragem para tal.
Há três meses, representantes das Organizações Globo e da Editora Abril fecharam um sórdido armistício com Michel Temer, vice-presidente da República e cacique-mor do PMDB. Pelo acordo, o noticiário daria um descanso para Dilma Rousseff em troca de jamais, em hipótese alguma, a CPI do Cachoeira convocar Policarpo Jr., ou gente maior, como Roberto Civita, dono  da Abril. A fachada para essa negociata foi, como de costume, as bandeiras das liberdades de imprensa e de expressão, dois conceitos deliberadamente manipulados pela mídia para que não se compreenda nem um nem outro.
No dia 14 de agosto, terça-feira que vem, o deputado Dr. Rosinha irá ao plenário da CPI apresentar um requerimento de convocação do jornalista Policarpo Jr.. É possível, no mundo irrreal criado pela mídia e onde vivem nossos piores parlamentares, que o requerimento caia, justamente, por conta do bloqueio do PMDB e dos votos dessa oposição undenista sem qualquer compromisso com a moral nem o interesse público.
Será uma chance de ouro de todos nós percebermos, enfim, quem é quem naquela comissão.
No mais, CartaCapital, já nas bancas.
E, definitivamente, nem veja as outras

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As Estatais Necessárias

Mauro Santayana

As empresas estatais são necessárias, em qualquer país do mundo, para o processo de desenvolvimento econômico e social da população e a conquista e defesa de soberania e independência com relação às outras nações.

Nos Estados Unidos, que são citados como paradigma da livre iniciativa, o Exército, com 75 usinas, é o maior operador de hidrelétricas do país e a AMTRAK, a gigantesca empresa ferroviária nacional, subsidiada pelo governo – o que ninguém estranha – oferece um dos melhores serviços de transporte de passageiros do mundo.

Na China, com quase 4 trilhões de dólares em reservas internacionais, pouquíssimas empresas não têm participação majoritária do estado ou até mesmo do Partido Comunista Chinês. Elas competem entre si, dentro e fora do país, até mesmo na compra de empresas estrangeiras, principalmente da Europa, da América Latina e dos Estados Unidos.

No Brasil, também já tivemos grandes estatais, que foram essenciais para o desenvolvimento da siderurgia, da energia, do transporte, das telecomunicações, nos governos de Getúlio Vargas, de Juscelino e durante o regime militar. O problema das estatais não é o fato de pertencerem ao Estado, mas quem se coloca à frente delas. Como diz o economista Delfim Netto, não há diferença essencial entre empresa pública ou empresa privada, mas, sim, entre empresa bem administrada e mal administrada.

Infelizmente, muitas delas foram esquartejadas, desnacionalizadas e vendidas a preço de banana nos anos 1990, para empresas internacionais. Por ironia, muitas das compradoras eram estatais estrangeiras, ou tinham participação de governos estrangeiros, até mesmo de países menos desenvolvidos do que o nosso, que tinham acesso a dinheiro barato e subsidiado, e estão quebrando agora, como é o caso da Espanha.

Entre os argumentos para privatização, estava o de que o preço dos serviços ia cair e que ia se acabar com os cabides de empregos. E o que aconteceu? Pagamos, em telecomunicações, por exemplo, algumas das tarifas mais altas do mundo. Os serviços são tão “bons”, que empresas estiveram proibidas de comercializá-los até que melhorassem o funcionamento de suas redes. Seus lucros servem para pagar ao genro do Rei da Espanha, um jogador de handebol envolvido com a corrupção, mais de um milhão de euros por ano para participar de algumas reuniões como conselheiro da Telefónica (Vivo) para a América Latina.

A administração das estatais deve ser conduzida por critérios técnicos e sempre subordinada politicamente ao interesse nacional maior.

Escândalos como o da VALEC, com o prejuízo de mais de 400 milhões de reais, desgastam o Estado diante da opinião pública, o que só favorece aos estrangeiros que querem dominar a nossa economia.    (Do Blog do Santayana)

Sinto Uma Enorme Vergonha Dessa Gente

Rafael Patto

Dia desses o príncipe dos sociólogos recebeu um prêmio nos EUA, e esse evento me fez lembrar outros dois episódios.
Em 2010, FHC foi homenageado com o prêmio “Roberto Campos”, também conhecido como “Bob Fields”.
Roberto Campos foi ministro e embaixador da ditadura. O apelido carinhoso pelo qual passaria a ser conhecido lhe foi dado em razão da sua afeição às idéias americanas e à defesa dos interesses de Washington aqui na Terra Brasilis.
Esse prêmio evoca toda uma história de traição à pátria e de servidão ao imperialismo, e na verdade é uma homenagem à estranha satisfação que essa gente consegue sentir em vender sua alma.
O vencedor do prêmio poderia ser anunciado como “o capacho fiel” ou ainda “o entreguista do ano”, o que, aliás, não se aplicaria ao caso específico de FHC, uma vez que ele recebeu esse prêmio em reconhecimento ao “conjunto de sua obra”, ou seja, não foram as proezas conseguidas em um único ano, mas toda uma vida de devoção e serviços prestados ao governo e às corporações empresariais estadunidenses é que foi homenageada pela oferta de um prêmio batizado com o nome de um ditador.
Justíssima homenagem. Afinal, FHC sempre foi um agente do subdesenvolvimento brasileiro e latino-americano. Um entusiasta da dependência econômica, um saudosista do colonialismo. Desde suas monografias nos seus tempos de USP, em que defendia teses furadas contra a emancipação nacional e a favor do atrelamento do Brasil aos EUA, até seus oito anos como usurpador do cargo de presidente da República, cadeira na qual se sentou apenas para desempenhar funções típicas de um reles despachante de Washington em Brasília, FHC sempre atuou em defesa da ingerência dos EUA nos assuntos típicos do Governo e do Estado brasileiros.
Por essas razões é que diferentemente de Lula, que sempre será lembrado nos capítulos mais gloriosos da história ao lado dos grandes estadistas e líderes mundiais que lutaram por causas nobres e em defesa de seu povo, como Nelson Mandela, Salvador Allende, Mahatma Gandhi, Ho Chi Min, Yasser Arafat, entre tantos outros que inspiram a humanidade, FHC merecerá apenas algumas notas de pé-de-página que serão divididas com figurinhas como Alberto Fujimori, Carlos Menem, Gonzalo Sanches de Lozada, Carlos Salinas de Gortari, e outros exemplares do que há de mais vergonhoso para a espécie humana, e que demonstram o nível inacreditável de indignidade e baixeza moral que um ser pode alcançar em vida.
O outro evento foi um fórum promovido pelo Instituo Millenium em Belo Horizonte, também no ano de 2010. Naquela ocasião, o Instituto - formado pelas lideranças do PSDB, que se reúnem para discutir o sexo dos anjos e para defender o atraso, as trevas e o obscurantismo - prestou homenagem a Roberto Civita, diretor da Editora PRIMEIRO DE Abril, responsável pela publicação mais mentirosa do Brasil, a Revista Veja.
Os organizadores do encontro, que aconteceu num hotel na zona sul da capital mineira, prepararam uma singela mesinha para pôr à mostra alguns badulaques que eram vendidos como souvenires. Adesivos para idolatrar o capitalismo (com a própria palavra “Capitalismo” grafada como os caracteres de Coca Cola), um livro dedicado a cozinhar ataques ao projeto progressista da esquerda latino-americana, e camisetas também para saudar o capitalismo, no mesmo molde dos adesivos, ou então para homenagear o mentor dessa seita, justamente ele: Roberto Campos, cuja face estampada nas camisas era devidamente identificada pelo codnome Bob Fields. Ele que é um dos baluartes do Instituto Millenium por ter deixado para essa turma lições preciosas de como ficar de quatro para o Tio Sam montar confortavelmente no nosso lombo.
Falando muito francamente, eu sinto uma enorme vergonha dessa gente.