domingo, 29 de julho de 2012

A Blogofobia de José Serra

A blogosfera e as redes sociais são o calcanhar de Aquiles de José Serra, e não é de agora. Na campanha eleitoral de 2010, o tucano experimentou, pela primeira vez, o gosto amargo da quebra da hegemonia da mídia que o apóia – toda a velha mídia, incluindo os jornalões, as Organizações Globo e afins. O marco zero desse processo foi a desconstrução imediata, online, da farsa da bolinha de papel na careca do tucano, naquele mesmo ano, talvez a ação mais vexatória da relação imprensa/política desde a edição do debate Collor x Lula, em 1989, pela TV Globo. Aliás, não houvesse a internet, o que restaria do episódio do “atentado” ao candidato tucano seria a versão risível e jornalisticamente degradante do ataque do rolo de fita crepe montado às pressas pelo Jornal Nacional, à custa da inesquecível performance do perito Ricardo Molina.

A repercussão desse desmonte midiático na rede mundial de computadores acendeu o sinal amarelo nas campanhas de marketing do PSDB, mas não o suficiente para se bolar uma solução competente nas hostes tucanas. Desmascarado em 2010, Serra reagiu mal, chamou os blogueiros que lhe faziam oposição de “sujos”, o que, como tudo o mais na internet, virou motivo de piada e gerou um efeito reverso. Ser “sujo” passou a ser um mérito na blogosfera em contraposição aos blogueiros “limpinhos” instalados nos conglomerados de mídia, a replicar como papagaios o discurso e as diatribes dos patrões, todos, aliás, alinhados à campanha de Serra.

Ainda em 2010, Serra tentou montar uma tropa de trolls na internet comandada pelo tucano Eduardo Graeff, ex-secretário-geral do governo Fernando Henrique Cardoso. Este exército de brucutus, organizado de forma primária na rede, foi facilmente desarticulado, primeiro, por uma reportagem de CartaCapital, depois, por uma investigação do Tijolaço.com, blog noticioso, atualmente desativado, do ministro Brizola Neto, do Trabalho.

Desde então, a única estratégia possível para José Serra foi a de desqualificar a atuação da blogosfera a partir da acusação, iniciada por alguns acólitos ainda mantidos por ele nas redações, de que os blogueiros “sujos” são financiados pelo governo do PT para injuriá-lo. Tenta, assim, generalizar para todo o movimento de blogs uma realidade de poucos, pouquíssimos blogueiros que conseguiram montar um esquema comercial minimamente viável e, é preciso que se diga, absolutamente legítimo.

Nos encontros nacionais e regionais de blogueiros dos quais participo, há pelo menos três anos, costumo dar boas risadas com a rapaziada da blogosfera que enfrenta sozinha coronéis da política e o Poder Judiciário sobre essa acusação de financiamento estatal. Como 99% dos chamados blogueiros progressistas (de esquerda, os “sujos”) se bancam pelo próprio bolso, e com muita dificuldade, essa discussão soa não somente surreal, mas intelectualmente desonesta. Isso porque nada é mais financiado por propaganda governamental e estatal do que a velha mídia nacional, esta mesma que perfila incondicionalmente com Serra e para ele produz, não raramente, óbvias reportagens manipuladas. Sem a propaganda oficial do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Petrobras, todos esses gigantes que se unem para defender a liberdade de imprensa e expressão nos convescotes do Instituto Millenium estariam mendigando patrocínio de açougues e padarias de bairro para sobreviver.

Como nunca conseguiu quebrar a espinha dorsal da blogosfera e é um fiasco quando atua nas redes sociais, a turma de Serra tenta emplacar, agora, a pecha de “nazista” naqueles que antes chamou de “sujo”. É uma estratégia tão primária que às vezes duvido que tenha sido bolada por adultos.

Um candidato de direita, apoiado pelos setores mais reacionários, homofóbicos, racistas e conservadores da sociedade brasileira a chamar seus opositores de nazistas. Antes fosse só uma piada de mau gosto.
LEANDRO FORTES

quarta-feira, 25 de julho de 2012

STF: Imprensa Prepara Espetáculo da Carta Jogada

O STF inicia o julgamento de uma farsa nos próximos dias.  O presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, e o jornalistaMerval Pereira tocam instrumentos diferentes, mas nada impede que atuem na mesma fanfarra quando o assunto é a proximidade do julgamento do chamado “mensalão”. Anos a fio, cada qual no seu campo específico, foram companheiros da banda de música do consórcio demotucano. Não surpreende, assim, a total semelhança entre o artigo do colunista, publicado no jornal O Globo, em 12 de junho, e a declaração de Guerra sobre uma suposta ofensiva do PT e do ex-presidente Lula contra o Supremo Tribunal Federal (STF), que representaria uma ameaça ao regime democrático.

“Vivemos um momento grave. Uma crise institucional. A democracia no Brasil está ameaçada. O Lula e o PT ameaçam o STF e o Procurador-Geral da República. Isso nunca aconteceu na história do país” (Sérgio Guerra, no encontro de pré-candidatos da legenda).

“Alegando que o “monopólio da mídia” quer condená-lo a qualquer custo, Dirceu exige um “julgamento técnico”, mas, no discurso, diz que “este julgamento é uma batalha política” que “deve ser travada nas ruas também”, marcando não apenas a contradição entre suas palavras e atos, mas, sobretudo, uma ameaça de pressão ilegítima de forças do aparelho partidário sobre o Supremo Tribunal Federal nunca vista antes” (MervalPereira, em sua coluna de 12/06, no diário da família Marinho).

O jornalista, um imortal sob encomenda, toca violino e o deputado arrisca no bumbo. O jornalista tenta lidar com o vernáculo simulando fluência e elegância, esgrimindo sua cantilena com graciosa malignidade. Já o estilo do deputado está mais para manifesto udenista às vésperas de golpe. Mas o colunista e o parlamentar estacionam na mesma calçada da crítica veemente aos que insistem em denunciar o enredo midiático do “escândalo” e seus melancólicos intérpretes.

Fica a impressão de que ambos se apressam a dizer o que os outros querem ouvir com sofreguidão de primeiro da classe na hora da prova da chamada oral. Mas esta lição aprende-se depressa, como veremos abaixo. O jornalismo, como já definiu Bernardo Kucinski (2000:173), “é intervenção, é conhecimento em ação: implica escolhas, opções, direções a seguir, com diferentes consequências” [1]. E bem conhecemos as escolhas da nossa imprensa partidarizada e seus métodos.

Bem mais do que os 300 volumes da Ação Penal 470, estão novamente em questão a imprensa e seu poder de agenda. As regras do xadrez determinam que o rei não pode ficar em xeque e, para escapar à ameaça do mate, a mídia corporativa terá de se movimentar com intensidade no tabuleiro político.

Voltam à ribalta os arrazoados de seus Torquemadas, repletos de incongruências, adjetivações fáceis e contorcionismos de estilo. Ressurge uma sucessão de relatos que nunca comportaram o princípio do contraditório. Em suma, o que os ministros da mais alta Corte do país têm que superar é, acima de tudo, produto de um jornalismo de ilações e invenções, obra de manipulação contextual e de acusação sem apuração.

Uma farsa que, como já tive oportunidade de escrever aqui mesmo, espera averbação judicial que legitime sua narrativa. Ou melhor, uma força que pretende legislar, submetendo o Judiciário aos mesmos constrangimentos impostos ao Executivo e ao Legislativo.

Querer não é necessariamente poder. E é justamente na distância entre esses dois verbos que repousam, agora, as preocupações do baronato midiático. Dela darão conta, além de Merval Pereira e outros articulistas, cientistas políticos e juristas de viés ideológico conhecido. O que teremos em telas e páginas? A intensificação de processos conhecidos. Métodos de desinformação que decorrem de uma escolha ético-política.

Teremos a multiplicação dos títulos inexatos ou tendenciosos para uma notícia fielmente escrita; uso tendencioso de aspas e adjetivos; editorialização do noticiário; distorção de fatos, mantendo uma parte da verdade, de modo que a inexatidão proposta pelo resto da notícia pareça verossímil; simulação de objetividade e desequilíbrio de informações.

A grande imprensa não só exerce a desinformação como também a utiliza como um código, uma gramática normativa dessa prestidigitação diária. Os nossos bravos “cães de guarda” sabem que devem se ater a esse conjunto de normas que sofre permanentes reajustes e atualizações. Disso depende o prestígio no campo jornalístico e a própria manutenção do emprego. Sabem que o verdadeiro diploma que o patronato quer é um atestado diário de fidelidade à ideologia das corporações.

Merval Pereira, o nosso “imortal” de coletânea, teria, como seus pares, condições para ser cidadão da modernidade. No entanto, como fiéis súditos de Macunaíma preferem alimentar o discurso primitivo de um Sérgio Guerra qualquer. No fundo, todos se merecem. Conluiados no propósito de desestabilizar o governo, nos próximos dias estarão empenhados em sair do ridículo e reinventar a roda. Um exercício inútil.

NOTA
[1] Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. São Paulo, Edusp, 2000.

Gilson Caroni Filho (professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Correio do Brasil e do Jornal do Brasil).

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Direita Declara Guerra Contra Integração da Venezuela

As forças oposicionistas não previram a movimentação liderada pela presidente Dilma Rousseff em Mendoza.  Uma onda conservadora desponta no cenário político do subcontinente. Seu mote é evitar o ingresso venezuelano no Mercosul. Mais afamado solista dessa ópera, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso veio a público atacar posição do governo brasileiro, em companhia de outros menestréis e escribas.

A saraivada de argumentos apresenta cardápio variado. Uns acenam com detalhes jurídicos que supostamente teriam sido desrespeitados, tanto na suspensão do Paraguai por quebra da cláusula democrática quanto na inclusão da Venezuela à revelia de um governo usurpador. Outros vislumbram faltas burocráticas cometidas por Caracas. Há ainda os que lançam suspeitas de que o presidente Chávez estaria planejando ludibriar obrigações junto ao organismo regional. Pouco importa que as razões jurídicas e políticas tenham sido apoiadas pela unanimidade dos membros plenos e democráticos do Mercosul, em conformidade com as regras da instituição.

Tal enxurrada de pretextos mal-ajambrados parece revelar que o reacionarismo tomou um susto. Afinal, era no Senado do Paraguai, controlado por bandos de cores diversas, que estava bloqueado o processo de ampliação do Mercosul. Quando as forças de direita, logo acolhidas por Washington, deram o bote contra Fernando Lugo, possivelmente imaginavam continuar dificultando o processo de integração. Foram surpreendidas, tudo indica, pela resposta liderada por Dilma Rousseff, a despeito de resistências no próprio corpo diplomático brasileiro.

Há certa lógica, contudo, nesse furor contra a deliberação de Mendoza. Os Estados Unidos fixaram como centro tático de sua política para a América do Sul, após o enterro da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), impedir o robustecimento de um bloco fora de seu domínio e apostar nos tratados bilaterais de livre-comércio. A articulação de três das quatro principais economias locais (Brasil, Argentina e Venezuela), ainda mais sob uma mesma orientação geopolítica, é duro golpe nessas pretensões.

Por sua vez, as oligarquias do subcontinente, ou parte expressiva de seus grupos, costumam vincular perspectivas de fortuna e poder à associação com a superpotência. Advogam que as cadeias produtivas regionais só têm futuro se subordinadas à malha estadounidense, estando condenada ao fracasso qualquer hipótese de autonomia. O fato de que essa política, por décadas sem fim, tenha significado atraso, desigualdade, pobreza e opressão política, não parece lhes dizer respeito. Afinal, tais itens não constam do balanço de empresas e empreitadas, como é sabido.
Benefícios

Para esse ponto de vista, a integração da Venezuela é desconcertante. O novo membro do Mercosul, além de quase 30 milhões de habitantes, tem entre seus ativos uma das maiores reservas energéticas do mundo e um enorme potencial de alavancagem financeira, por conta da produção petroleira. Mais ainda, possui localização geográfica privilegiada para o acesso marítimo e serve como ponte político-econômica para outras nações andinas e caribenhas. Sob todos os ângulos, traz mais músculos ao bloco.

Este fortalecimento, aliás, chega em boa hora: o grupo de países sul-americanos liderados por administrações de esquerda representa, no hemisfério ocidental, a principal alternativa contra a crise fora dos marcos neoliberais. Quanto maior a sinergia entre suas estruturas produtivas, mais amplas serão as possibilidades de continuar o ciclo de crescimento econômico com base na expansão do mercado interno, na distribuição de renda, na universalização de direitos sociais e na reconstrução dos Estados nacionais.

As dificuldades e desalinhamentos não podem ser subestimados, é certo, mas a bronca do conservadorismo, acima de tudo, exala interesse de classe, preconceito ideológico e cultura colonizada. Sentimentos eventualmente acirrados pela América do Sul estar saindo do diagrama historicamente traçado pelas elites e suas metrópoles.  Breno Altman,  jornalista e diretor editorial de Opera Mundi
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domingo, 22 de julho de 2012

Anatel: Antes Tarde do que Nunca

Rodolpho Motta Lima

Demorou, mas acabou acontecendo. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações, reguladora e fiscalizadora dos serviços de telefonia), decidiu suspender , a partir da próxima segunda-feira, a venda de linhas de celulares por parte das operadoras TIM (em 19 estados), OI (em 5) e CLARO (em 3). A medida foi motivada por levantamentos colhidos junto a dezenas de “procons” no país,  que revelaram sérias deficiências na qualidade dos serviços prestados pelas empresas ao consumidor . A Anatel condiciona a interrupção da suspensão a providências corretivas das operadoras, que passam pela apresentação, em até 30 dias, de planos de investimentos capazes de levar à superação dos problemas detectados.
Já não era sem tempo. O cidadão brasileiro convive rotineiramente com os descalabros dessa área. Em maior ou menor escala, temos nossa paciência testada ao limite quando somos obrigados a contactar os malfadados “call-centers” dessas empresas, isso quando não passamos pelo jogo de empurra das operadoras, ao tentarmos resolver, sem êxito, os costumeiros problemas de interrupção ou deficiência dos serviços prestados...
Somos o quinto país do mundo no número de celulares, com cerca de 250 milhões de aparelhos. No Brasil, há mais celulares do que habitantes, como resultado de monumentais campanhas promocionais que seduzem o público com “ïnovações” que exploram a troca constante de aparelhos e vinculam seu uso ao sucesso pessoal, bem ao gosto do espírito de hoje.
Somos também o país onde os serviços desse tipo são os mais caros do mundo. As operadores - e alguns convenientes “especialistas” – tentam justificar as tarifas elevadas com a excessiva tributação a que são submetidas. Meia verdade, porque esse exagero de impostos já existia entre nós quando elas perseguiram e conseguiram as concessões que hoje detêm. É claro que se trata de um grande negócio, altamente lucrativo.
O fato é que essas operadoras são as líderes , quando se trata de reclamações dos usuários sobre qualidade. São as campeãs da ineficiência, superando outras áreas destacadas, como a dos cartões de crédito ou dos serviços bancários. A presteza no encaminhamento de soluções que resolvam os problemas está na proporção inversa da rapidez com que sabem cobrar suas faturas. As despesas com investimentos, na proporção inversa dos gastos hiperbólicos com a propaganda...
É bom lembrar, aqui, que a área da telefonia vem sendo cantada, em prosa e verso, pelo neoliberalismo caboclo, como um exemplo maior do sucesso do processo tucano de privatização. Uma espécie de cereja do bolo... Fico aqui pensando qual seria a reação dessa turma – que vive apregoando a excelência da iniciativa privada - se tais serviços fossem geridos pelo Estado.
Fico também pensando nas estradas privatizadas. Será que os cidadãos aceitariam pagar ao Governo os escorchantes pedágios que passaram a vigorar depois da privatização, em troca de “melhorias” que não guardam relação proporcional com as grandes receitas apuradas ?
Penso na área de saúde, na qual, se não houve um processo oficial de privatização, ocorreu – por ação (ou inação) de governos e governos – uma deterioração crescente dos serviços públicos, para redundar no panorama atual, com “planos” que vêem a saúde como fonte de lucro, algo bem parecido com o que acontece na educação. A vantagem de ter muitos anos de vida, se existe, está no fato de que posso falar disso como testemunha de um tempo em que saúde e educação eram geridas com excelência pelo Estado, antes de, literalmente, entregarem o ouro aos tubarões do lucro.
Devemos aplaudir a Anatel, que, embora com retardo, está agindo em defesa dos nossos interesses. Há algumas críticas quanto ao fato, não convenientemente explicado, de a VIVO ter ficado de fora da suspensão. De qualquer forma, o saldo da medida é altamente positivo. Torço, aliás, para que isso já seja resultado de uma nova estratégia que vem substituindo os políticos pelos técnicos em diversos setores. A presidenta Dilma, embora tenha gostado da medida, não interferiu na decisão, tomada de forma independente pela agência reguladora.
Agora é esperar pelo desenvolvimento e desfecho do caso, já que algumas empresas ameaçam recorrer à justiça, considerando-se surpresas com a medida, que julgam excessiva, radical. Acredito que tenham mesmo sido surpreendidas, acostumadas que estavam à impunidade. Quando ao radicalismo, é bom que tenha sido assim: para tratar o assunto a partir de sua raiz, o certo é falar a mesma linguagem dos infratores: para quem vive do lucro desmedido e pouco responsável, é bom experimentar um certo prejuízo. E não deixam de ser interessantes, depois da casa arrombada, as declarações das empresas sobre planos de investimentos bilionários no setor...
Não custa, finalmente, um pouco de otimismo para imaginarmos que outras agências, reguladoras de outras áreas de interesse direto do povo, poderão seguir os passos da Anatel, buscando corrigir posturas irregulares ou pouco éticas que frequentemente desrespeitam os cidadãos contribuintes.

Carta de Celso Brant a Helio Fernandes (Set/1999)



Celso Brant foi um importante jurista, professor, escritor e político brasileiro.  Foi ministro da Educação durante o governo de Juscelino Kubitschek, eleito deputado federal em 1956 e 1962 pelo PR mineiro, foi o secretário-geral da Frente Parlamentar Nacionalista até o golpe de estado de 1964, que cassou seus direitos políticos por dez anos.

Em 1984, criou o Movimento de Mobilização Nacional, que transformou-se em partido no ano seguinte, o PMN, de quem foi presidente nacional. De volta a Minas Gerais, se elegeu vereador por Belo Horizonte, e foi Secretário do Trabalho durante o governo de Itamar Franco.

Esta carta de Brant a Helio Fernandes, nos foi enviada por Carlos Cazé e digitada por Viviane Ramos, a quem agradecemos a gentileza.

NOSSA LUTA TEM QUE SER CONTRA O DÓLAR


Celso Brant


Quero cumprimentá-lo pelo seu excelente artigo de 15/09/99, na Tribuna da Imprensa. Lúcido, claro, objetivo. O repentino clarão de um relâmpago iluminando o universo. A sua observação sobre a inflação é perfeita. “Serve, apenas, aos donos do mundo”. Ela não é um fenômeno natural. É um instrumento econômico a serviço de um projeto político: o projeto de dominação do mundo. No caso, da hegemonia de um país que pretende colocar (e tem colocado) a seu serviço a economia mundial.

Não há tolice maior do que a ideia, corrente entre nós, de que foi Fernando Henrique Cardoso que acabou com a inflação no Brasil. Houve época em que a inflação se alastrou por todo o mundo: a Argentina chegou a ter inflação de 2.800% ao ano, a Bolívia superou esta marca, o mesmo acontecendo ao Brasil, ao México, a Israel, à Rússia… De repente, ela acabou no mundo inteiro.

Será que foi Fernando Henrique Cardoso que acabou com a inflação no mundo todo? É claro que não. Quem acabou com a inflação no mundo inteiro foi o Sistema Financeiro Internacional, que a havia criado. Durante longos anos, a inflação gerou grandes lucros para ele. Agora, com o fim da inflação, produz ganhos ainda maiores.

Até a guerra do Vietnã, os Estados Unidos usaram o poder militar para manter o seu domínio sobre o mundo. Vencidos pelo vietcongue – um grupo de homens descalços, sem armas e sem alimentos -, perceberam que a força não era o melhor instrumento para garantir a sua hegemonia, e optaram pelo projeto político, sem dúvida muito mais poderoso que o projeto militar. Foi aí que nasceu o Projeto Neoliberal.

Para termos ideia do seu poder de destruição, basta dizer que seria inconcebível a vitória do Exército dos Estados Unidos sobre a União Soviética dentro do território russo. Pois bem, o Exército russo foi destruído pelo Projeto Neoliberal sem um tiro. Hoje encontramos, pedindo esmola, em praça pública, em Moscou, soldados que pertenceram ao glorioso Exército Vermelho.

O mesmo poderíamos dizer com relação ao Exército brasileiro. Seria inadmissível imaginar que o Exército americano derrotasse o nosso Exército dentro do território brasileiro. Mas o Projeto Neoliberal está acabando, também, com o nosso Exército, que está sendo sucateado e desmotivado por precárias condições de sobrevivência.

Nada imobiliza mais uma nação do que a pobreza. O Projeto Neoliberal, em curso no Brasil, está destruindo a nossa economia, empobrecendo o nosso mercado interno e entregando o nosso sistema produtivo para empresas estrangeiras.

É um engano pensar que o desemprego, no Brasil, tem sido obra do acaso ou de erro dos governantes. Ao contrário, ele é programado. Existe desemprego porque o governo assim o quer, porque faz parte do seu compromisso de destruição da economia nacional. Não tem sentido num País, em que tudo está por ser feito, haver desemprego.

A grande riqueza de qualquer país é o seu mercado interno, que é a soma de todas as suas rendas e salários. O desemprego e o salário miserável contraem esse mercado, impossibilitando o desenvolvimento do Brasil. As privatizações fazem parte dessa mesma política de empobrecimento da nação. Enquanto pertenciam ao patrimônio nacional, as estatais serviam de lastro ao real. Privatizadas, passam a servir de lastro ao dólar.

A globalização não tem, também, outra finalidade. Em que consiste? Em todos os países do mundo abrirem mão de suas riquezas para quem melhores condições tiverem de comprá-las. E quem tem condições de comprar todas essas riquezas gastando, apenas, papel e tinta? Os Estados Unidos, que emitem a moeda internacional.

PRIVATIZAÇÃO DA VALE


Vamos a um exemplo didático: a Companhia Vale do Rio Doce. Uma das maiores empresas do mundo, que dispõe, praticamente, de todas as riquezas do subsolo brasileiro. Em 1986, foi, de todas as empresas, públicas e privadas, a que deu maior lucro. Avaliada, para a privatização, primeiro em 25 bilhões de dólares, depois em 20 bilhões, acabou sendo vendida por 3,3 bilhões de dólares. Que representam, para os Estados Unidos, 3,3 bilhões de dólares? Apenas isto: seis latas de tinta e doze resmas de papel, que é o que gastam para imprimi-los.

Será que se poderia encontrar neste século (ou em qualquer outro) um débil mental como o nosso presidente, capaz de trocar uma das maiores empresas do mundo por seis latas de tinta e doze resmas de papel?

Sabe-se que o maior problema da economia, hoje, é que ela deixou de ter uma base física, um lastro. O mundo passou a ser um enorme cassino no qual são jogados, diariamente, 13 trilhões de dólares. E uma imensa bolha, sem nenhuma consistência, que pode estourar a qualquer momento.

O que deveríamos fazer é torcer para que essa bolha estoure logo para, aí sim, pensarmos em criar uma nova ordem para a economia mundial. Por estupidez do nosso governo, o que estamos fazendo é jogar fora todas as nossas riquezas na tentativa de salvar um sistema financeiro que está nos destruindo.

Não tem outro sentido o tal “risco sistêmico” que levou o governo a gastar mais de 47 bilhões de dólares para salvar o nosso sistema bancário. A ideia era que a sua bancarrota poderia levar à falência o próprio sistema financeiro internacional, dada a sua fragilidade e falta de sustentação.

Como você diz, a discussão que se trava no governo entre monetarismo e desenvolvimentismo é simples cortina de fumaça que tenta esconder do povo a triste realidade de que tem um presidente que traiu a causa do povo e se empenha na realização de um projeto de destruição do Estado brasileiro. Para se entender o que está acontecendo no Brasil, é preciso lembrar o que disse Henry Kissinger: “Os Estados Unidos não permitirão o aparecimento de um novo Japão abaixo da linha do Equador”. Que eles pensem isto, tudo bem. O inadmissível é que o aceitemos.

DERROCADA DO DÓLAR


Quando os Estados Unidos impuseram a sua moeda como moeda internacional, tinham o monopólio da bomba atômica, detinham 52% do Produto Mundial Bruto e possuíam o maior Exército do mundo. Hoje, muitos países têm a bomba atômica, o Exército americano foi derrotado por um grupo de homens descalços, sem armas e sem alimentos, e a sua participação no Produto Mundial Bruto não vai além de uns 18%.

O dólar só continua como moeda internacional por efeito da inércia, porque os outros países seguem aceitando, passivamente essa imensa chantagem, com certeza a maior de toda a história humana. E nenhuma nação está em melhores condições de dar um basta a essa situação que o Brasil, uma das suas maiores vítimas.

Sem sequer ter consciência disso, o Brasil é o líder natural do Terceiro Mundo, por ser o que conta com a melhor tecnologia de ponta, o que tem o parque industrial mais desenvolvido e a melhor liderança política disponível (não a que está no campo, jogando, mas a que se encontra no banco de reservas). Dos 197 países existentes, 170 pertencem ao Terceiro Mundo. Quem tem 170 votos numa assembleia de 197 e não assume o seu comando político é por absoluta incompetência. Além disso, os países do Primeiro Mundo estão na dependência dos do Terceiro Mundo. Basta lembrar o caso do petróleo: todas as nações do Primeiro Mundo dependem do petróleo do Terceiro Mundo. A diferença do Primeiro para o Terceiro Mundo é que ele tem um projeto político, e o Terceiro Mundo, não.

Cabe ao Brasil oferecer esse projeto político ao Terceiro Mundo, o que tornará possível criar uma nova ordem econômica para o mundo, baseada na justiça social e na igualdade de oportunidade para todos. Uma das suas primeiras e mais importantes medidas será acabar com a chantagem do dólar como moeda internacional e a criação de uma moeda internacional neutra, que tornará possível a ampliação do comércio mundial: cada país produzirá o máximo do que puder produzir melhor e permitirá trocar em seus excedentes pelos excedentes dos outros países. A contabilização dessas trocas será feita através de uma Câmara Internacional de Compensação. Hoje, existem cinco dólares fora dos Estados Unidos para cada dólar no país.

No dia em que o dólar deixar de ser a moeda internacional, esses dólares que estão no exterior refluirão para os Estados Unidos, que terão uma inflação maior que a da Alemanha do final da Primeira Guerra Mundial. Nessa ocasião, estará resolvido o problema do pagamento da dívida externa do Terceiro Mundo: cada país devedor trocará um carrinho de mão de sua moeda nacional por um caminhão de lixo de dólares.

E como você diz, Hélio: “A luta deverá ser contra o dólar, que controla e domina o mundo todo”. É nesse sentido que temos de unir os nossos esforços. Tudo o mais é secundário. Cortina de fumaça. Vamos continuar arando no mar.

RESPOSTA DE HELIO FERNANDES


P.S. Não tenho que agradecer os elogios, Celso Brant, nem me constranger com eles. E  não posso deixar de publicar as tuas lúcidas palavras sobre dólar, inflação, soberania. A nossa solidariedade é a solidariedade dos guerreiros, é a compreensão pela importância da luta, é o grito e o brado das trincheiras. Enquanto na nossa História e no nosso País não existir um outro 7 de Setembro, o da Independência Econômica, não deixaremos de lutar. Eu, você e todos que acreditam na luta. 
(Fonte: Tribuna da Imprensa)

sábado, 21 de julho de 2012

EUA: Um Recorde Raro e Cruel


Fomos o que fomos, porque, então, andávamos na direção exatamente oposta à que hoje trilhamos.

* Artigo de Jimmy Carter, Prêmio Nobel, 39º presidente dos EUA, originalmente publicado no The New York Times
Revelações de que altos funcionários do governo dos Estados Unidos decidem quem será assassinado em países distantes, inclusive cidadãos norte-americanos, são a prova apenas mais recente, e muito perturbadora, de como se ampliou a lista das violações de direitos humanos cometidas pelos EUA. Esse desenvolvimento começou depois dos ataques terroristas de 11/9/2001; e tem sido autorizado, em escala crescente, por atos do executivo e do legislativo norte-americanos, dos dois partidos, sem que se ouça protesto popular. Resultado disso, os EUA já não podem falar, com autoridade moral, sobre esses temas cruciais.

Por mais que os EUA tenham cometido erros no passado, o crescente abuso contra direitos humanos na última década é dramaticamente diferente de tudo que algum dia se viu. Sob liderança dos EUA, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adotada em 1948, como "fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo". Foi compromisso claro e firme, com a ideia de que o poder não mais serviria para acobertar a opressão ou a agressão a seres humanos. Aquele compromisso fixava direitos iguais para todos, à vida, à liberdade, à segurança pessoal, igual proteção legal e liberdade para todos, com o fim da tortura, da detenção arbitrária e do exílio forçado.

Aquela Declaração tem sido invocada por ativistas dos direitos humanos e da comunidade internacional, para trocar, em todo o mundo, ditaduras por governos democráticos, e para promover o império da lei nos assuntos domésticos e globais. É gravemente preocupante que, em vez de fortalecer esses princípios, as políticas de contraterrorismo dos EUA vivam hoje de claramente violar, pelo menos, 10 dos 30 artigos daquela Declaração, inclusive a proibição de qualquer prática de "castigo cruel, desumano ou tratamento degradante."

Legislação recente legalizou o direito do presidente dos EUA, para manter pessoas sob detenção sem fim, no caso de haver suspeita de ligação com organizações terroristas ou "forças associadas" fora do território dos EUA - um poder mal delimitado que pode facilmente ser usado para finalidades autoritárias, sem qualquer possibilidade de fiscalização pelas cortes de justiça ou pelo Congresso (a aplicação da lei está hoje bloqueada, suspensa por sentença de um(a) juiz(a) federal). Essa lei agride o direito à livre manifestação e o direito à presunção de inocência, sempre que não houver crime e criminoso determinados por sentença judicial - mais dois direitos protegidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, aí pisoteados pelos EUA.

Além de cidadãos dos EUA assassinados em terra estrangeira ou tornados alvos de detenção sem prazo e sem acusação clara, leis mais recentes suspenderam as restrições da Foreign Intelligence Surveillance Act, de 1978, para admitir violação sem precedentes de direitos de privacidade, legalizando a prática de gravações clandestinas e de invasão das comunicações eletrônicas dos cidadãos, sem mandado. Outras leis autorizam a prender indivíduos pela aparência, modo de trajar, locais de culto e grupos de convivência social

Além da regra arbitrária e criminosa, segundo a qual qualquer pessoa assassinada por aviões-robôs comandados à distância (drones) por pilotos do exército dos EUA é automaticamente declarada inimigo terrorista, os EUA já consideram normais e inevitáveis também as mortes que ocorram 'em torno' do 'alvo', mulheres e crianças inocentes, em muitos casos. Depois de mais de 30 ataques aéreos contra residências de civis, esse ano, no Afeganistão, o presidente Hamid Karzai exigiu o fim desse tipo de ataque. Mas os ataques prosseguem em áreas do Paquistão, da Somália e do Iêmen, que sequer são zonas oficiais de guerra. Os EUA nem sabem dizer quantas centenas de civis inocentes foram assassinados nesses ataques - todos eles aprovados e autorizados pelas mais altas autoridades do governo federal em Washington. Todos esses crimes seriam impensáveis apenas alguns anos.

Essas políticas têm efeito evidente e grave sobre a política exterior dos EUA. Altos funcionários da inteligência e oficiais militares, além de defensores dos direitos das vítimas nas áreas alvos, afirmam que a violenta escalada no uso dos drones como armas de guerra está empurrando famílias inteiras na direção das organizações terroristas; enfurece a população civil contra os EUA e os norte-americanos; e autoriza governos antidemocráticos, em todo o mundo, a usar os EUA como exemplo de nação violenta e agressora.

Simultaneamente, vivem hoje 169 prisioneiros na prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba. Metade desses prisioneiros já foram considerados livres de qualquer suspeita e poderiam deixar a prisão. Mas nada autoriza a esperar que consigam sair vivos de lá. Autoridades do governo dos EUA revelaram que, para arrancar confissões de suspeitos, vários prisioneiros foram torturados por torturadores a serviço do governo dos EUA, submetidos a simulação de afogamento mais de 100 vezes; ou intimidados sob a mira de armas semiautomáticas, furadeiras elétricas e ameaças (quando não muito mais do que apenas ameaças) de violação sexual de esposas, mães e filhas. Espantosamente, nenhuma dessas violências podem ser usadas pela defesa dos acusados, porque o governo dos EUA alega que são práticas autorizadas por alguma espécie de 'lei secreta' indispensável para preservar alguma "segurança nacional".

Muitos desses prisioneiros - mantidos em Guantánamo como, noutros tempos, outros inocentes também foram mantidos em campos de concentração de prisioneiros na Europa - não têm qualquer esperança de algum dia receberem julgamento justo nem, sequer, de virem a saber de que crimes são acusados.

Em tempos nos quais o mundo é varrido por revoluções e levantes populares, os EUA deveriam estar lutando para fortalecer, não para enfraquecer cada dia mais, os direitos que a lei existe para garantir a homens e mulheres e todos os princípios da justiça listados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Em vez de garantir um mundo mais seguro, a repetida violação de direitos humanos, pelo governo dos EUA e seus agentes em todo o mundo, só faz afastar dos EUA seus aliados tradicionais; e une, contra os EUA, inimigos históricos.

Como cidadãos norte-americanos preocupados, temos de convencer Washington a mudar de curso, para recuperar a liderança moral que nos orgulhamos de ter, no campo dos direitos humanos. Os EUA não foram o que foram por terem ajudado a apagar as leis que preservam direitos humanos essenciais. Fomos o que fomos, porque, então, andávamos na direção exatamente oposta à que hoje trilhamos.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Globo é o Túmulo do Jornalismo


Há pouco que falar sobre a extensa matéria do Fantástico que promoveu um massacre de injúrias e difamações contra o ex-presidente Fernando Collor de Mello no último domingo. Aliás, além de xingar e difamar, a Globo pode ter dado curso a calúnias.
Mas esse não é o aspecto mais importante daquele quadro em um programa que vai ao ar no horário mais nobre da televisão brasileira. O mais importante é o que havia de jornalismo e o que houve de pura vingança e de uma intimidação que não se resume a Collor.
O que foi, diabos, que a Globo trouxe de novo? Jornalismo é notícia, ao menos no formato imposto àquela matéria. Que notícia a Globo deu? Que Collor é macumbeiro? Isso o falecido irmão dele disse há mais ou menos 20 anos e foi objeto de especulações por muito tempo.
A maioria das pessoas não sabe o que ocorreu naqueles anos 1990 porque ainda há mais jovens do que maduros no Brasil. E o que ocorreu àquela época, hoje perdeu todo o sentido.
Collor foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal e foi absolvido. Se por inépcia da acusação, da promotoria, como foi dito, não importa. Se fosse condenado, a condenação seria usada sem dó nem piedade; é justo que a absolvição tenha o mesmo peso que a condenação.
Um parênteses: pelo que a Globo fez com Collor, pode-se prever o que fará se os acusados principais no inquérito do mensalão (leia-se José Dirceu em primeiro lugar) forem absolvidos…
Então, a reportagem do Fantástico sobre Collor não serviu para nada. Requentou um caso que já se perdeu nos desvãos da história. E o mais interessante é que quem requentou esse escândalo é a mesma mídia que diz que a Privataria Tucana ocorreu já faz “muito tempo”.
Ah, mas Rosane Collor confirmou alguns cafés da manhã entre Collor e PC Farias antes de eclodir o escândalo. E daí? PC foi caixa da campanha de Collor à Presidência. Não tem relevância alguma essa informação. Jamais terá conseqüência.
Não havia razão para a Globo trazer esse assunto à tona depois de tanto tempo. Collor fazia macumba, é? Quanta socialite ou dona-de-casa ou pai de família ou estudante ou empresário não faz seus “trabalhos”?
Em minha opinião, aliás, a Globo deu um tiro no pé, porque “trabalhos” com “animais mortos” estão por toda parte, neste país, e ninguém fica chamando de “magia negra”.
Ridículo, estapafúrdio, arcaico, fundamentalista… É criminalização religiosa, aliás. Daqui a pouco o PIG vai pregar a formação de uma força policial para prender qualquer Pai de Santo que matar uma galinha e colocar numa cesta com velas, fitas etc. numa encruzilhada.
Aliás, a criminalização da elite a certos cultos religiosos mal identificados com a cultura afro remonta aos primórdios da colonização brasileira. Mas o mais gozado é que nessa própria elite há muita gente fazendo seus “trabalhinhos”.
Alguma novidade, até aqui? Não é o que se diz à larga na Blogosfera e nas redes sociais, que a Globo e seus congêneres são o túmulo do jornalismo? Além de usar uma concessão pública para suas vendetas pessoais, a emissora da família Marinho ainda a usou para intimidação criminosa de membros da CPI do Cachoeira que pensem em incomodar a Veja e a própria Globo.
Resta saber qual será o prejuízo de Collor. Particularmente, penso que seu eleitorado não esteve e nem estará nem aí para o ataque que a Globo lhe fez.
Os setores que se impressionaram com as caras e bocas de “espanto” da entrevistadora Renata Ceribelli diante das “revelações” da esposa ressentida e gananciosa de Collor, que deixou ver que fez tudo aquilo porque a amiga ganha 40 mil reais de pensão do ex-marido e ela ganha “só” 18 mil reais, já não gostavam dele antes.
Grave, porém, é o uso de concessão pública para um ataquezinho político rasteiro, maledicente, burro e preconceituoso.Em qualquer país civilizado e desenvolvido, os irmãos Marinho sofreriam um questionamento pelos órgãos de controle da mídia que funciona sob concessão do Estado.
Contudo, estamos no Brasil e deve ficar tudo por isso mesmo.
Agora, convenhamos: que lição de vida representa o que a Globo fez com Collor, hein. Ele recebeu de volta exatamente aquilo que fez com Lula em 1989 – levou sua ex-namorada Miriam Cordeiro para injuriá-lo e difamá-lo na TV.
A ironia do destino é sempre surpreendente. A vida supera a arte. É ampla a quantidade de chavões que cabe usar. Nem se tivessem escrito um romance em que, mais de vinte anos depois, o feitiço se viraria contra o feiticeiro, a cena teria sido tão irônica.
Essas pessoas que aplicam esse tipo de golpe baixo nos desafetos, com ataques pessoais de natureza miseramente maledicente e geralmente sob armações, deveriam refletir muito…
Dado o que há de surpreendente em Collor ter sido vítima da mesma baixeza que praticou, seria demais cogitar que aqueles que, na Globo, engendraram essa vingançazinha tola, baixa, mesquinha e burra poderão, um dia, ser vitimados por gente igual a si?
(deu no Blog da Cidadania)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Veja na CPI, Por Que Não?

Por Emiliano José, na revista Teoria e Debate:

O Estado democrático não confere privilégios a ninguém. Não deveria. Digo isso a propósito dessa discussão sobre a eventual convocação do jornalista Policarpo Júnior à CPI do Cachoeira – e a depender das averiguações, do próprio Roberto Civita, o todo-poderoso da Editora Abril, a mão que balança o berço da revista Veja. Do meu ponto de vista, se houver, como há, claros indícios de participação da publicação nos propósitos criminosos de Carlinhos Cachoeira, não há atalhos possíveis para evitar a convocação de um deles, ou de ambos. O jornalista Luís Nassif tem insistido que se esqueça Policarpo Júnior porque o mandante de tudo é Roberto Civita.

É evidente que a discussão sobre o relacionamento dos jornalistas com a fonte não é simples. Lembro-me de um livro que li há muito tempo, de Yves Mamou, em que ele desenvolve a tese de que, longe de os jornalistas manipularem as fontes, são estas que os manipulam. É uma formulação que, em minha opinião, está muito próxima da verdade – ele trata no livro tanto do mundo dos negócios quanto do território da política.

Não há e não pode haver ingenuidade nessa relação, que é sempre um intercâmbio, uma troca. Há, sempre, um toma lá, dá cá – perigoso, tenso, delicado, sensível. E, nesse jogo, o jornalista pode esforçar-se para defender os interesses da sociedade, e não são todos que conseguem esse feito. Há aqueles que se submetem à fonte, aos interesses exclusivos da fonte, e aí, é claro, a notícia verdadeira, ou mais próxima da verdade, é sacrificada. E isso, como sabemos, não é raro.

Essa relação, nos dias de hoje, não pode ser pensada em termos individuais, como se o problema se circunscrevesse apenas à relação entre a fonte e o jornalista. Hoje, os jornalistas saem às ruas com a pauta pronta, com a ideia de provar uma hipótese elaborada na redação. São os editores que guiam os repórteres na sua relação com as fontes, mesmo que cada um tenha suas singularidades. Alguém pode imaginar um repórter de Veja cismando de pesquisar, aprofundar as denúncias contidas no livro do Amauri Júnior sobre as privatarias tucanas? Ora, ora, claro que não. A relação é mediada desde cima – a orientação editorial é que comanda a pauta e a relação fonte-jornalista, e o faz com mão de ferro, que ninguém se engane.

Dito isso, volto a nossa revista. Sabidamente, Veja se dedica, de modo militante, e sem nenhum escrúpulo, a combater o projeto político que o PT comanda no Brasil desde 2003. É uma revista filosófica e politicamente de direita – e nisso não haveria, em tese, nenhum mal. Bastava que fizesse isso observando algumas lições de manuais do jornalismo, que não chutasse tanto, não mentisse de modo tão desavergonhado, não fosse tão irresponsável e, agora podemos dizer, tão murdochiana. Sua visão tão sectariamente partidária – no amplo sentido da palavra, de ter um lado do qual não abre mão – faz com que mande às favas quaisquer escrúpulos e use quaisquer métodos, inclusive criminosos. O que fez Rupert Murdoch senão valer-se da arapongagem? E a Inglaterra soube reagir aos crimes daquele cidadão e suas empresas.

O que fez a revista nessa relação com sua fonte, Carlinhos Cachoeira? Poderia dizer que nos últimos anos tornou-se refém dela. Isso, no entanto, seria pouco. Veja terceirizou a pauta – é fácil perceber, pelo pouco que ainda sabemos, as muitas pautas que a fonte criminosa encomendou à revista, e foi prontamente atendida. Ou como a fonte atendeu a pedidos da revista para usar seus arapongas e construir matérias, verdadeiras ou falsas, muito mais falsas que verdadeiras. Pelas escutas divulgadas, a fonte comemorou tantas vezes o que Vejafazia, tudo previamente combinado. Muitas vezes comemorou com o senador Demóstenes Torres.

E é claro que Veja sabia quem era Carlinhos Cachoeira, a natureza de seus negócios, quem eram seus arapongas criminosos, quem era o senador Demóstenes Torres. Que justificativa há para tal, vá lá, conivência? Que justificativa há para tão íntima convivência? Que justificativa há para acobertar tantos crimes, inclusive contra o erário, que Veja, nos casos que seleciona, no mais das vezes sem critério, diz defender?

A CPI, instrumento que Veja sempre defendeu, é um instrumento do Estado de Direito. É um espaço democrático. Por que o medo da CPI? É só a revista se apresentar, se convocada, e provar que os mais de duzentos telefonemas trocados entre seu jornalista e Carlinhos Cachoeira atenderam aos critérios do bom jornalismo, aos interesses da sociedade. Ou não. E, se não, enfrentar as consequências. Simples assim.

domingo, 15 de julho de 2012

Coroné dos Zóio Azul

O governador Tasso Jereissati é acusado de beneficiar suas empresas com dinheiro público e de repetir as mesmas práticas dos velhos caciques cearenses

Francisco Alves Filho - Fortaleza

Conhecido como o homem que derrotou os antigos coronéis da política cearense em nome da modernidade, o governador Tasso Jereissati (PSDB), chamado carinhosamente pelos eleitores de Galeguin dos Zóio Azul, chega à metade de seu terceiro mandato mergulhado em contradição. Está sendo acusado de repetir um dos principais pecados da velha oligarquia do Estado: receber dinheiro público de forma privilegiada para usar em proveito próprio. Os autores da acusação não são os políticos de oposição, mas os auditores do Tribunal de Contas da União, que fizeram várias investigações no Banco do Nordeste do Brasil, instituição federal presidida por Byron Queiroz, indicado para o cargo por Tasso, de quem foi secretário de Planejamento. De acordo com os auditores do TCU, a administração do banco é marcada por várias irregularidades. Uma delas foi o empréstimo à empresa Refrescos Cearenses – cujo proprietário é Tasso – de cerca de R$ 24 milhões, quase três vezes mais que o valor máximo fixado por técnicos do próprio BNB, com dinheiro do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste (FNE). Essas e outras irregularidades praticadas pelo banco com dinheiro do FNE serão julgadas nos próximos dias no TCU, em Brasília. Além disso, o BNB também concedeu à empresa de Tasso um outro financiamento, com juros de 7,7%, muito abaixo do cobrado a outras empresas, que pagaram taxas de 11,37%. O governador também é um dos nomes investigados pela CPI do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), instalada na Câmara Federal. Ele foi acusado de usar em suas empresas notas frias para fraudar a prestação de contas ao BNB.
A tese polêmica – Criado há 46 anos, o BNB nasceu para fomentar o desenvolvimento do Nordeste e uma das suas principais atividades é a concessão de financiamento às empresas da região com dinheiro do FNE. Sua sede fica em Fortaleza. Desde a posse de Queiroz, várias irregularidades passaram a ser cometidas no banco, de acordo com a avaliação dos auditores do TCU. Uma delas foi a concessão de crédito a algumas empresas acima do estabelecido em suas próprias normas. A empresa de Tasso – uma engarrafadora da Coca-Cola – que, pela classificação de risco feita pelos técnicos do BNB só poderia receber créditos de até R$ 9 milhões, acabou levando quase três vezes mais. O relatório do TCU afirma que o banco permitiu “concentração de recursos para um único grupo econômico”. Para justificar essa liberalidade, Queiroz tem uma tese lapidar. “Quem faz as normas não é escravo delas”, afirmou em entrevista ao jornal cearense O Povo, no mês passado.
A Refrescos Cearenses teria sido também beneficiada em outra operação de crédito. O BNB captou dinheiro no Exterior para emprestar no mercado brasileiro. Mais de 90% dos financiamentos concedidos com esses recursos foram feitos a uma taxa de juros de 11,37% ao ano. Para a empresa do governador, que tomou dinheiro em 1997, a taxa foi bem diferente. Ficou em módicos 7,7% – a mais baixa de todas. Procurado para comentar esse possível favorecimento ao governador, Queiroz preferiu não dar entrevista. A assessoria técnica do BNB enviou fax à ISTOÉ rebatendo as irregularidades identificadas pelos auditores do TCU. Os técnicos afirmam que o secretário de Controle Externo do TCU no Ceará, Paulo Nogueira de Medeiros, “reformulou” o relatório dos auditores do próprio tribunal, dando como regular a operação em que a empresa de Tasso recebeu o empréstimo. De acordo com as normas do TCU, no entanto, o secretário não tem o poder de reformular relatórios, apenas de convocar ou divergir da opinião dos auditores. Em Brasília, a interpretação de Medeiros não teve eco. O ministro-relator do TCU, Adylson Motta, analisou o processo e concluiu que houve “concessões de crédito a empresas em desacordo com pareceres técnicos do próprio BNB, bem como com suas próprias normas internas”.
Procurado várias vezes por ISTOÉ para comentar as acusações, o governador não deu retorno. Talvez por estar ocupado demais com o cenário político. Tasso continua sonhando em disputar a sucessão de Fernando Henrique com apoio do próprio presidente, que chegou a sinalizar – antes do episódio Eduardo Jorge – que o governador poderia ser seu candidato dentro do PSDB. Ultimamente, Tasso tem se aproximado de seu afilhado Ciro Gomes, presidenciável do PPS. Os dois têm se encontrado no palanque de Patrícia Gomes, ex-mulher de Ciro e candidata à Prefeitura de Fortaleza coligada com os tucanos locais.
Os ministros do TCU terão muito trabalho quando começarem a julgar os deslizes cometidos no BNB. Os auditores constataram que apesar de o banco ter recebido nos últimos dez anos o valor de R$ 9,2 bilhões por conta do FNE, só tem de patrimônio a quantia de R$ 5,9 bilhões. Ou seja, o BNB tem disponível apenas 64% da quantia enviada pelo Tesouro Nacional. Além disso, os auditores reclamam de operações em atraso que não são lançadas no balanço como prejuízo. As 12 principais empresas inadimplentes estão “em difícil situação financeira ou já faliram”. Outro ardil: uma renegociação com empresas de duvidosa capacidade de pagamento transformou os saldos atrasados em normais, fazendo com que o balanço do FNE apresente um “ativo saudável quando na verdade é de liquidez duvidosa”. Os auditores afirmam no documento que o BNB dita regras favoráveis ao banco e prejudiciais ao fundo. Mas talvez o mais grave tenha sido a grande concentração de recursos liberados para um pequeno número de empresas. “De um total de 334.812 operações realizadas, 3.776 (1%) concentraram 40,99% dos recursos”, apontam os técnicos. Do saldo devedor bruto de R$ 6,2 bilhões, nada menos que R$ 2,5 bilhões destinaram-se a 1% dos beneficiários.
O interessante é que toda essa farra acontece sob as vistas do conselho de administração do banco, que tem um ilustre na presidência: o ministro do Planejamento, Martus Tavares. A atuação à frente do ministério não exime Tavares de suas responsabilidades junto ao BNB – ele foi, inclusive, notificado judicialmente de todas as irregularidades. ISTOÉ encaminhou ao ministro várias perguntas sobre os problemas detectados pelo TCU, mas ele repassou à direção do BNB a tarefa de responder. A assessoria do banco enviou texto manifestando a sua discordância dos critérios utilizados pelos auditores do TCU. Um dos pontos de divergência é a acusação de concentração de recursos em poucas empresas beneficiadas. “A informação levantada não trata de desembolso, mas de saldos devedores de uma data estática, não se prestando para tal afirmação”, diz o BNB. Sobre o expediente de apresentar como ativo saudável o que é de liquidez duvidosa, a assessoria afirma que “as renegociações de dívidas do BNB são efetivadas com base em dispositivos legais”. Apesar dessa argumentação, o ministro Adylson Motta acolheu o relatório do TCU.

À bancarrota – “A verdade é que o banco está falido”, resume Tomaz de Aquino e Silva Filho, presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará. De acordo com o relatório dos auditores do TCU, há R$ 1,7 bilhão em empréstimos vencidos, mais do que o dobro do patrimônio líquido do BNB. “O governador está usando no BNB a mesma estratégia que levou o Banco do Estado do Ceará (BEC) à bancarrota.” Tomaz refere-se à ruinosa administração do governo de Tasso, que acabou deixando um rombo milionário no BEC. Em quatro anos, a instituição passou de exemplo de banco público estadual a uma situação caótica. Em 1999, o BEC tinha um déficit de R$ 900 milhões, resultante da excessiva liberalidade na concessão de créditos que acabaram não sendo pagos. Como no caso BNB, Tasso foi acusado de usar o BEC para conceder altos créditos a poucas empresas – muitas pertencentes a financiadores da campanha do governador e uma delas, a EIT, de propriedade de Geraldo Rola, participante do conselho de desenvolvimento estadual instituído por Tasso. Rola também consta do relatório do TCU como proprietário de uma das maiores devedoras do BNB, a empresa Maisa. O prejuízo do BEC acabou sendo coberto por um empréstimo que o governo estadual fez com o governo federal. A instituição foi federalizada no ano passado e deverá ser privatizada posteriormente. Políticos e sindicalistas reclamam que o prejuízo causado pela má gestão do banco está sendo coberto pelo contribuinte. Está em curso uma ação popular com o objetivo de responsabilizar o governo e os antigos administradores do BEC pelo rombo.
Lavareda – Outra dor de cabeça para o governador deverá ser causada pelo sub-relatório da CPI da Câmara para tratar de irregularidades nos financiamentos concedidos pelo BNB com dinheiro do Finor. No escândalo que estourou em 1990, vários empresários foram acusados de usar notas fiscais frias para fraudar a prestação de contas ao banco. A acusação foi feita pelo empresário Carlos Wendt, do ramo de engenharia e construção, que afirmou em depoimento na Polícia Federal ter fornecido notas frias para muitos beneficiários de financiamento do Finor. Três das empresas citadas por Wendt pertenciam a Tasso. O processo acabou sem punir ninguém, já que prescreveu. Apesar disso, o deputado José Pimentel (PT-CE), que sugeriu a criação da CPI, afirma que vai citar o caso em seu relatório.
Para piorar a situação de Tasso, começa a ser questionada a atuação da empresa MCI em seu governo. De propriedade de Antonio Lavareda e dirigida por Fernando Caldas – irmão de Eduardo Jorge Caldas –, a MCI presta serviços de pesquisa a vários governos estaduais e também ao governo federal. No Ceará, além das pesquisas, a empresa estaria fazendo também a intermediação entre as agências de publicidade e o Executivo. “A Secretaria de Governo tem contrato com a MCI, que passa a ser uma intermediária na contratação das agências”, estranha o deputado federal Sérgio Novais (PSB). Ele encaminhou pedidos de informação ao governo para saber porque a MCI foi contratada sem licitação. “O governo do Ceará terceirizou a Secretaria de Comunicação e o trabalho da MCI é coordenar todo o trabalho das agências”, afirma Elziane Colares, presidente do Sindicato das Agências de Publicidade do Ceará. Nesse episódio, Tasso vai tão longe em seu estilo globalizante de administrar que parece ter privatizado a própria máquina do Estado.

Público e privado no mesmo prato

Byron Queiroz, o apadrinhado de Tasso Jereissati, deve muitas explicações sobre sua gestão à frente do Banco do Nordeste do Brasil. Um dos pontos mais comprometedores é o fato de que, em meados da década de 70, Queiroz conseguiu através do BNB incentivos fiscais do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor) para três empresas de sua propriedade. À época da aprovação, a operação foi legal. Mas o problema passou a existir quando, em 1995, Queiroz assumiu a presidência do banco e passou a gerir operações de crédito feitas para as próprias empresas. Mais ainda: de acordo com informações da Sudene prestadas à CPI do Finor, as empresas de Queiroz estão há seis anos sem remeter balanços e prestar contas sobre os recursos recebidos. Elas estão, inclusive, inscritas no Cadin, que é o cadastro nacional de inadimplência para pessoas jurídicas. Questionado sobre a situação, o presidente do BNB respondeu através de sua assessoria que “são empresas que, a partir de 1993, passaram a pertencer a seus filhos” e também que “têm contabilidade nos moldes regulamentares”.
Apesar da afirmação, até o final de julho, Queiroz ainda constava na Junta Comercial do Ceará como acionista das empresas Companhia Agropecuária do Médio Jaguaribe, Companhia Agropastoril Vale do Pavuçu e Fazenda Canto do Angico S/A. ISTOÉ questionou o ministro do Planejamento Martus Tavares, presidente do Conselho de Administração do BNB, sobre as providências tomadas com relação a essa esdrúxula situação em que o presidente do banco é responsável pela gerência de recursos repassados às suas próprias empresas ou à de seus filhos. Tavares passou à sua assessoria a informação de que o BNB “apenas opera o Finor, mas quem administra o fundo e suas operações é a Sudene”, concluindo que esses casos não seriam passíveis de análise do conselho. “A verdade é que essa situação deveria ser avaliada pelo Conselho de Administração do BNB, mas os conselheiros não se interessam em tratar disso”, critica o presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará, Tomás de Aquino e Silva Filho.

Sempre que uma nova denúncia de corrupção no governo paulista vem à tona, o governador Mário Covas (PSDB) fica agressivo e esbraveja ser um político de honestidade inquestionável. Não é bem assim. O número de inquéritos no Ministério Público (MP) e de ações na Justiça mostra que a gestão do governador merece ser vista com olhos de lince. Apenas com relação à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), à Companhia de Seguros Gerais do Estado de São Paulo (Cosesp) e aos negócios do governo com as empresas De Nadai Alimentação e Tejofran — ambas de amigos do governador – existem 143 inquéritos no MP. Na Justiça, tramitam 27 ações por improbidade administrativa. Essas ações contêm um suposto prejuízo de aproximadamente R$ 436 milhões. Um superfaturamento equivalente a 2,5 vezes a falcatrua do prédio do TRT do foragido juiz Lalau.
Em nenhuma dessas investigações o nome do governador é citado como beneficiário dos contratos suspeitos, mas elas mostram como os amigos de Covas têm se dado bem nos negócios com o Estado. Não é por outra razão que tanto promotores como deputados estranham o empenho do governador em defender seus amigos investigados, estejam eles no governo ou fora dele. “Ao contrário do presidente Fernando Henrique, o governador chama para si toda a responsabilidade. Não se trata de lealdade, mas de uma clara estratégia para intimidar as investigações”, diz o deputado petista Paulo Teixeira. Desde 1996 ele tenta instalar na assembléia uma CPI para investigar a CDHU. “O rolo compressor do governo é tão potente que o governador parece brincar com a oposição”, afirma o deputado. De fato, o comportamento de Covas em relação ao ex-presidente da CDHU Goro Hama pode ser visto como provocativo.
Goro é réu em oito processos, todos por improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. Apenas este ano, a Justiça bloqueou seus bens quatro vezes. As investigações do MP sobre a CDHU indicam que nos contratos que deram origem aos 21 processos em tramitação no Judiciário houve desvios de cerca de R$ 155 milhões. Em abril deste ano, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) descobriu que o Programa Mutirão, segundo maior projeto habitacional da gestão tucana, contrata empreiteiras para realizar os serviços que caberiam aos mutirantes. Os contratos apresentam custos elevados e os métodos de medição das obras são distintos daqueles acertados nos editais. Os 144 contratos assinados entre 1996 e 1999 estão sob suspeita. Em janeiro, Goro pediu demissão da CDHU. Apesar de tantas denúncias, o governador aceitou a demissão do amigo a “contragosto”. Hoje, Goro é assessor especial de Covas.
Marmitex – O empresário Sérgio de Nadai é um antigo companheiro do governador e, embora nunca tenha feito parte do governo, está na alça da mira do TCE e do MP. Ele é um dos diretores da De Nadai Alimentação, empresa que fornece alimentação para os prisioneiros da Casa de Detenção de São Paulo e para internos da Febem. Nos últimos anos, a De Nadai pôde festejar como poucas o sucesso financeiro. Em 1994, quando Covas foi eleito, a empresa registrava um capital de R$ 197 mil. Em janeiro de 1998, o capital era de R$ 4 milhões. Nesse período, a De Nadai manteve inúmeros contratos sem licitação com o governo paulista.
Em janeiro de 1996, o governo contratou a empresa do amigo de Covas para atender a sete mil detentos com café da manhã, almoço e jantar. O contrato, feito em regime de urgência, vigorou até julho daquele ano. A alimentação diária de cada preso custou R$ 6,50. Em agosto, a De Nadai venceu concorrência para manter o mesmo serviço, mas o valor da diária subiu para R$ 7,80. Esse segundo contrato expirou no final de 1996. Em janeiro de 1997, sem licitação, alegando urgência, o governo voltou a contratar a De Nadai. “Se em agosto o governo sabia que no final do ano terminaria o contrato, é estranho que em janeiro tenha feito um negócio em regime de urgência”, reclama o deputado estadual Renato Simões (PT).
Em fevereiro de 1997, o governo fez nova licitação para uma contratação que durou até o final do ano. Apenas duas empresas disputaram. A De Nadai ganhou a briga e elevou a diária para R$ 8,10. Um ano depois, o amigo de Covas ganhou nova licitação. Novamente, com apenas duas empresas. A De Nadai apresentou a diária de R$ 8,10, apenas R$ 0,05 menor do que o concorrente, uma empresa chamada Capital. Para o ano de 1999, o governo promoveu nova concorrência. Mais uma vez, apenas a De Nadai e a Capital disputaram. A De Nadai levou com a diferença de R$ 0,10 e o preço da diária caiu para R$ 7,20. Em janeiro deste ano, a De Nadai foi mais uma vez contratada, sem concorrência e por três meses. Quatro empresas apresentaram propostas. Três delas calcularam em R$ 5,81 a diária. A De Nadai apresentou R$ 5,80. Em abril, o governo fez um novo contrato emergencial e só a De Nadai participou, mantendo o preço de R$ 5,80. “Essas coincidências precisam ser muito bem investigadas”, diz Antônio Roque Citadini, conselheiro do TCE. “Parece que o governo força situações de emergência.” Em 15 de março, ele determinou que fosse feita auditoria em todos os contratos da De Nadai com a Casa de Detenção de São Paulo.
A De Nadai também é a principal investigada em um inquérito aberto pelo MP para apurar o fornecimento de leite tipo B à Febem, desde abril de 1996. Na época, o governo rompeu o contrato com a Riga Restaurantes por irregularidades. Contratou, então, a De Nadai e, de lá para cá, o contrato já sofreu quatro prorrogações, tudo sem concorrência. No entanto, o que mais chama a atenção é o valor pago pelo litro de leite: R$ 1,40, segundo o contrato. Sérgio De Nadai afirmou que o valor é uma previsão e que na verdade a empresa está recebendo, desde abril, R$ 1,16 por litro. Covas, por sua vez, mencionou um valor diferente: R$ 1,14. Independentemente de quem esteja falando a verdade, o certo é que nas padarias de São Paulo o litro do leite tipo B, em embalagem longa vida, custa em média R$ 1,10. “A padaria já vende com lucro. Como o Estado compra em grande quantidade o valor certamente teria de ser inferior”, escreveu o conselheiro Citadini em seu despacho, determinando a investigação pelo TCE.
O amigo de Covas faz coro com o governador ao dizer que a amizade entre eles não tem influenciado os contratos. Em abril, quando a De Nadai festejou a conquista de um certificado internacional de responsabilidade social, Covas compareceu e prestigiou o amigo. Na época, a De Nadai já estava sob investigação. “O Tribunal de Contas poderia pedir para o governo me pagar em dia e não questionar preços”, declarou De Nadai em junho deste ano. “Trabalho para o Estado a preço de custo e o crescimento da empresa se deve a contratos com empresas privadas.”
O português – As empresas Tejofran e Power também têm bons motivos para comemorar. Juntas elas têm 13 mil funcionários, número superior aos quadros da Ford. Até o início deste ano, na lista dos principais clientes do grupo figuravam estatais como a Dersa (Empresa de Desenvolvimento Rodoviário S.A.), Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e Metrô, entre outras. Na Justiça tramitam quatro processos contra a Tejofran, que podem culminar com a devolução de cerca de R$ 278 milhões aos cofres públicos. No MP existem 11 inquéritos para investigar os negócios mantidos entre o governo e a Tejofran. O TCE já julgou ilegais 11 contratos do grupo e em outros 22 foram encontradas diversas irregularidades, como superfaturamento e falta de licitação. Apenas em um contrato com a Dersa, o conselheiro Citadini descobriu um superfaturamento de 157%, além de falsificação de documentos na licitação. Em outro contrato entre a Power e a CDHU para a contratação de vigilantes a situação é escandalosa. O valor máximo estabelecido pelo governo era de R$ 4,12 por hora para cada funcionário. A Power recebeu R$ 8,33 por hora/homem.
O dono das empresas Power e Tejofran é Antônio Dias Felipe, compadre de Covas, conhecido como Português. Ele batizou o filho do governador, Mário Covas Neto, o Zuzinha, que advogou para a Tejofran até meados do ano passado. Covas nega que a relação de amizade interfira nos negócios do governo e assegura que todos os contratos são legais. Português faz o mesmo discurso (leia quadro abaixo) e lembra que desde 1988 mantém contratos com o governo estadual e com diversas prefeituras.
O tesoureiro – José Maria Monteiro, coordenador da campanha à reeleição de Mário Covas, é investigado pelo MP por ter autorizado a transferência da carteira de seguros de automóveis da Cosesp à Sul América. O repasse de 99,9% dos contratos foi feito sem licitação. Na transação, a Sul América foi assessorada pela Metacor, empresa ligada ao ex-secretário da Presidência, Eduardo Jorge. A Cosesp sustenta que a licitação foi dispensada, pois se tratou de uma operação de co-seguro e não da venda total da carteira. O promotor da Cidadania Fernando Capez ironiza o argumento. “Como eles podem chamar de parceria um contrato que repassa 99,9% da carteira? Para nós, isso foi uma forma simulada de transferir o seguro sem licitação”, afirma o promotor. Ele também apura a nomeação de diretores na Cosesp por suposta indicação de Eduardo Jorge. Além da investigação de Capez, o MP apura em outros 10 inquéritos irregularidades na Cosesp. Dois deles viraram processos na Justiça que poderão obrigar os ex-diretores da estatal a devolver cerca de R$ 3 milhões. “Tenho plena confiança no Zé Maria. Se tivéssemos cometido algum pecado, teríamos cometido esse pecado em comum”, disse Covas em entrevista coletiva. O governador confia mesmo em seus companheiros.
Colaborou – Adriana Souza Silva
O tesoureiro – José Maria Monteiro, coordenador da campanha à reeleição de Mário Covas, é investigado pelo MP por ter autorizado a transferência da carteira de seguros de automóveis da Cosesp à Sul América. O repasse de 99,9% dos contratos foi feito sem licitação. Na transação, a Sul América foi assessorada pela Metacor, empresa ligada ao ex-secretário da Presidência, Eduardo Jorge. A Cosesp sustenta que a licitação foi dispensada, pois se tratou de uma operação de co-seguro e não da venda total da carteira. O promotor da Cidadania Fernando Capez ironiza o argumento. “Como eles podem chamar de parceria um contrato que repassa 99,9% da carteira? Para nós, isso foi uma forma simulada de transferir o seguro sem licitação”, afirma o promotor. Ele também apura a nomeação de diretores na Cosesp por suposta indicação de Eduardo Jorge. Além da investigação de Capez, o MP apura em outros 10 inquéritos irregularidades na Cosesp. Dois deles viraram processos na Justiça que poderão obrigar os ex-diretores da estatal a devolver cerca de R$ 3 milhões. “Tenho plena confiança no Zé Maria. Se tivéssemos cometido algum pecado, teríamos cometido esse pecado em comum”, disse Covas em entrevista coletiva. O governador confia mesmo em seus companheiros.

“Fui o primeiro cliente do Zuzinha”



Antônio Dias Felipe, 58 anos, dono das empresas Tejofran e Power, nasceu em Portugal, na região de Beira Baixa. Tinha 18 anos quando chegou ao Brasil, em 1960. Trabalhou no ramo de secos e molhados e depois num supermercado, em Curitiba. A Tejofran tem 43 anos e, segundo ele, desde que a empresa foi criada já eram comuns os contratos com o governo. Ele diz que da amizade com o governador “leva o ônus e não ganha o bônus”. A seguir, trechos da entrevista concedida por ele à ISTOÉ:

ISTOÉ – Como é a amizade do senhor com o governador?
Antonio Dias Felipe
– A esposa dele é portuguesa. É uma amizade antiga. Por ser da terrinha, a gente tinha uma identificação na vida.

ISTOÉ – O senhor frequenta a casa dele?
Felipe
– Não, sou muito ocupado para isso e ele também.

ISTOÉ – Mas o senhor é padrinho do filho do Covas. Compadres normalmente têm bastante amizade.
Felipe
– Sou padrinho em mais de 20 ou 30 casamentos. Esse foi o mais notório.

ISTOÉ – Como foi o trabalho do Zuzinha na Tejofran?
Felipe
– Eu fui o primeiro cliente dele, em 1988 ou 1989, quando ele abriu o escritório de advocacia. Era um contrato de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil por mês e vigorou até meados do ano passado.

ISTOÉ – O senhor ajuda as campanhas do PSDB?
Felipe
– Dei oficialmente R$ 50 mil, em 1998. Na campanha anterior foram uns cento e poucos mil.

ISTOÉ – Essas relações não tornam questionáveis as relações de suas empresas com o governo?
Felipe
- É fácil você ver uma mulher na rua e dizer que ela é uma prostituta. Você não tem a responsabilidade de provar. Há um desgaste, até que se prove o contrário. Tem muito concorrente que anda com os recortes de jornal e fica distribuindo faxes.

ISTOÉ – Mas o TCE considerou 11 contratos seus com o governo do Estado ilegais e outros 22 irregulares...
Felipe
– Sem o menor fundamento. Quando os órgãos competentes ou nós, através do departamento jurídico, trazemos os elementos questionados eles voltam atrás. É uma festa bater no Mário Covas e eu apanho por tabela. Eu levo o ônus e não ganho o bônus.

ISTOÉ – Alguns contratos foram considerados escandalosos, como os que foram firmados com a Dersa e a CDHU.
Felipe
– No contrato com a Dersa nada foi comprovado. No contrato da Power com a CDHU somos minoritários. Não sei porque o tribunal achou que era irregular.
Gilberto Nascimento
De tempos em tempos, o empresariado nacional vem a público para defender reformas nos sistemas tributário e de previdência, redução das taxas de juros, linhas de financiamento mais generosas. Na semana passada, foi diferente. Articulado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), um manifesto publicado quarta-feira 2, nos principais jornais do País, tinha o objetivo de demonstrar confiança no presidente Fernando Henrique Cardoso. Aproveitava para elogiar a condução da política econômica, afirmando que o País está “no caminho certo”. Que coincidência: no mesmo dia, o governo enviava à Câmara dos Deputados um projeto de reforma tributária que vai em sentido contrário às conhecidas reivindicações dos que assinaram o documento – por exemplo, ao tornar permanente a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF).
Além de associações de classe, aderiram trinta empresários de peso, como Jorge Gerdau Johannpeter, Antonio Ermírio de Moraes, Emílio Odebrecht, Olavo Setúbal e um crítico notório das políticas econômicas desnacionalizantes, Cláudio Bardella. O objetivo político do manifesto era tentar atenuar a crise detonada pelo escândalo do TRT e as denúncias envolvendo o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge. Mas acabou servindo para expor ainda mais a fragilidade do presidente. Além disso, levou o empresariado brasileiro à desunião – basicamente, por vaidades e discordâncias nos detalhes.
A reação contrária mais vigorosa foi a do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. Ele recusou-se a assinar a declaração e criticou abertamente a iniciativa da CNI, comandada pelo deputado federal Carlos Eduardo Moreira Ferreira (PFL – SP), ex-presidente da Fiesp. A análise de Piva foi a seguinte: não há, no momento, crise de governabilidade. Pela forma como o apoio foi dado, ficou parecendo que a própria legitimidade do governo está sendo questionada, ou, no limite, que a democracia estaria em perigo no País. Piva reafirmou, entretanto, seu apoio ao governo e ao presidente.
Chamou a atenção também a reação do presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Clésio Andrade. Em nota divulgada no dia do manifesto, Andrade afirma que seu nome foi colocado ali sem o seu consentimento. A CNI reconheceu que tinha atropelado a confederação de empresas de transporte, afirmando, também em uma nota, que, como o CNT não respondera no prazo combinado, havia entendido que “consentira tacitamente” com os termos da declaração.
A iniciativa da CNI aparentemente pretendia acalmar os investidores estrangeiros, demonstrando que o País está longe de uma crise institucional. Os números mostram que, ao menos por ora, o ânimo deles não é dos melhores: em julho tiraram R$ 310 milhões da Bolsa de Valores de São Paulo.
Enquanto as lideranças empresariais nacionais discutem a melhor forma de declarar seu apoio ao governo, sua participação na economia brasileira perde força. De 1995 para 1999, o total investido por estrangeiros no País cresceu de 5,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para 9,7%. Um exemplo emblemático do processo de desnacionalização foi a Metal Leve, do setor de autopeças, que pertenceu ao empresário paulista José Mindlin – aliás, um dos que assinaram o manifesto a favor de FHC.


Que o brasileiro não acredita nos políticos é fato público e notório. Mas a última pesquisa realizada pelo Instituto Brasmarket, com 2.584 entrevistados em todos os Estados, revela que essa velha descrença tem aumentado. E muito. Comparando os dados da mesma pesquisa publicada por ISTOÉ em abril passado, a constatação é simples: com o aumento de seus índices de desaprovação em 17,0% em menos de quatro meses – de 42,0% para 59,0% –, é sobre os ombros do presidente Fernando Henrique Cardoso que recai a culpa de todos os males da política nacional. A decepção é tanta que o número dos que pensam na volta do regime militar como solução é alto. Segundo a pesquisa, 38% dos brasileiros são a favor do retrocesso e acham que a vida nos tempos de ditadura era melhor. Para 66,6%, a corrupção só aumentou de lá para cá. Na região Sudeste, este índice é ainda mais alto e a maioria (46,8%) acha que sob o comando do Exército o Brasil teria chances de voltar a ser o “país do futuro”. Não por acaso, o Sudeste é a região que mais desaprova o governo FHC: 61,1%.
A crença no regime ditatorial também é alimentada pelo aumento da criminalidade no País. O Instituto Brasmarket realizou pesquisa com 3.948 entrevistados para saber o que o brasileiro pensa sobre a violência. Resultado: 62,2% culpam os governantes pela falta de segurança. Apenas 9,2% responsabilizam a polícia, embora 45,7% desaprovem seu desempenho e 28,8% o considerem regular. Mas o dado desanimador para o governo é saber que a imensa maioria dos entrevistados (88,1%) não soube citar absolutamente nenhum investimento ou medida do presidente para melhorar a área de segurança pública. A pesquisa revela ainda que, para a população, o governo federal não se esmera o suficiente para resolver o problema da criminalidade.

Sem desculpa – Não é só o presidente Fernando Henrique que está desacreditado pelos cidadãos. Os índices de aprovação dos poderes Legislativo e Judiciário também caíram em relação à pesquisa anterior. Os dados mostram que a credibilidade do Senado, da Câmara e da Justiça está baixíssima: respectivamente, os índices de desaprovação são 57,8%, 53,5% e 63,3%. Prova de que o brasileiro, embora acostumado, ainda se choca com escândalos de corrupção, como o desvio de R$ 169 milhões dos cofres públicos, verba destinada para a construção do fórum trabalhista de São Paulo. Dois dos principais responsáveis pela maracutaia compunham os quadros do nosso sistema político: o ex-senador Luiz Estevão e o juiz foragido Nicolau dos Santos Neto. E nem a punição dos envolvidos no caso – a cassação de Estevão e a prisão decretada do juiz – ajudaram a salvar a imagem dos nossos Três Poderes.

O Crime Organizado Pelos Banqueiros

Por Mauro Santayana
A invenção da moeda, contemporânea à do Estado, foi um dos maiores lampejos da inteligência humana. A primeira raiz indoeuropéia de moeda é “men”, associada aos movimentos da alma na mente, que chegou às línguas modernas pelo verbo sânscrito mányate (ele pensa). Sem essa invenção, que permite a troca de bens de natureza e valores diferentes, não teria havido a civilização que conhecemos.

A construção das sociedades e sua organização em estados se fizeram sobre essa convenção, que se funda estritamente na boa fé de todos que dela se servem. Os estados, sempre foram os principais emissores de moeda. A moeda, em si mesma, é neutra, mas, desde que surgiu, passou a ser também servidora dos maiores vícios humanos. Com a moeda, vale repetir o lugar comum, cresceram a cobiça, a luxúria, a avareza – e os banqueiros.

A moeda, ou os valores monetários, mal ou bem, estavam sob o controle dos Estados emitentes, que se responsabilizavam pelo seu valor de face, mediante metais nobres ou estoques de grãos. Nos tempos modernos, no entanto, a sua garantia é apenas virtual. Os convênios internacionais se amarram a um pacto já desfeito, o Acordo de Bretton Woods, de 1944. A ruptura do contrato foi
ato unilateral dos Estados Unidos, sob a presidência Nixon, ao negar a conversibilidade em ouro do dólar, moeda de referência internacional pelo Acordo.
Essa decisão marca o surgimento de uma nova era, em que o valor da moeda não se relaciona com nada de sólido. Os bancos, ao administrá-la, deveriam conduzir-se de forma a merecer a confiança absoluta dos depositantes e dos acionistas, e assegurar essa mesma confiabilidade às suas operações de crédito. O papel social dos bancos é o de afastar os usurários e agiotas do mercado do dinheiro. Mas não é desta forma que têm agido, sobretudo nestes nossos tempos de desmantelamento dos estados. Hoje, não há diferença entre um Shylock shakespereano e qualquer dirigente dos grandes bancos.

Na Inglaterra, o escândalo do Barclays, que se confessou o primeiro banco responsável pela manipulação da taxa Libor, provocou o espanto da opinião pública, mas não dos meios financeiros que não só conheciam o deslize, como dele se beneficiavam.
Segundo noticiou ontem El Pais, os dois grandes executivos da Novagalícia, surgida da incorporação de duas instituições oficiais da província galega – a NovaCaixa e a Caixa Galícia – e colocada sob o controle de Madri em setembro do ano passado, pediram desculpas aos seus clientes, por ter a instituição agido mal. Entre outros de seus malfeitos, esteve o de enganar pequenos investidores mal informados, entre eles alguns analfabetos, com aplicações de alto risco, ou seja, ancoradas em débitos podres, as famosas subprimes, adquiridas dos bancos maiores que operam no mercado imobiliário do mundo inteiro.

Além disso, os antigos responsáveis por esses desvios, deixaram seus cargos percebendo indenizações altíssimas. E os novos administradores tiveram sua remuneração reduzida, por serem as antigas absolutamente irracionais. Com todas essas desculpas, a Novagalícia quer uma injeção de seis bilhões de euros, a fim de regularizar a sua situação.

Este jornal reproduziu, ontem, artigo de The Economist, a propósito da manipulação da taxa Libor, por parte do Barclays, e disse, com a autoridade de uma revista que sempre esteve associada à City, que
não há mais confiança nos maiores bancos do mundo, como o Citigroup, o J.P.Morgan, a União de Bancos Suíços, o Deutschebank e o HSBC. Executivos desses bancos, de Wall Street a Tóquio, estão envolvidos na grande manipulação sobre uma movimentação financeira total de 800 trilhões de dólares.

Para entender a extensão da falcatrua,
o PIB mundial do ano passado foi calculado em cerca de 70 trilhões de dólares, menos de dez por cento do dinheiro que circulou escorado na taxa manipulada pelos grandes bancos. A Libor, sendo a taxa usada nas operações interbancárias, serve de referência para todas as operações do mercado financeiro.

O mundo se tornou propriedade dos banqueiros. Os trabalhadores produzem para os banqueiros, que controlam os governos. E quando, no desvario de sua carência de ética, e falta de inteligência, os bancos investem na ganância dos derivativos e outras operações de saqueio, são os que trabalham, como empregados ou empreendedores honrados, que pagam. É assim que estão pagando os povos da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Grã Bretanha, e do mundo inteiro, mediante o arrocho e o corte das despesas sociais, pelos governos vassalos, alem do desemprego, dos despejos inesperados, das doenças e do desespero, a fim de que os bancos e os banqueiros se safem.

Se os governantes do mundo inteiro fossem realmente honrados,
seria a hora de decidirem, sumariamente, pela estatização dos bancos e o indiciamento dos principais executivos da banca mundial. Eles são os grandes terroristas de nosso tempo. É de se esperar que venham a conhecer a cadeia, como a está conhecendo Bernard Madoff. Entre o criador do índice Nasdaq e os dirigentes do Goldman Sachs e seus pares, não há qualquer diferença moral.

Os terroristas comuns matam dezenas ou centenas de cada vez.
Os banqueiros são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, todos os anos, sem correr qualquer risco pessoal. E ainda recebem bônus milionários.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Dilma, Como Ela É

15 Dez 2009 - 00h51min
Setores da Imprensa comprometidos com grupos ou partidos, pessoas ou organizações, entram, vez por outra, no esquema de seus interesses, em detrimento da informação de alcance coletivo. Agora, por exemplo, estamos testemunhando sinais disto .

E o personagem central é a ministra Dilma, apontada como possível candidata à sucessão do presidente Lula. Raro o dia em que não esteja ela no centro
do ``noticiário``.

``A peruca não cai bem``. Eu me pergunto: não caberia um pouco mais de consideração à ministra, vítima que foi de um longo tratamento contra o câncer que a deixou careca, obrigando-a, por força da vaidade feminina, a utilizar o artifício da peruca?

``É muito séria. Não sorri ...``

Mas ninguém cita a ``cara fechada`` das ministras Golda Meyer (Israel) e Margareth Thatcher (Inglaterra), como não se alude ao não sorriso da rainha Beatrix (Holanda) e das presidentes Cristina Kirchner (Argentina), Michelle Bachelet (Chile) e de Ângela Merkel (Alemanha)... mulheres que estiveram ou estão à frente de governos de países reconhecidamente ``machistas``, como os da Alemanha e da Argentina.

Mas Dilma não, ela precisa sorrir, ter a peruca milimetricamente assentada... pisar leve. Talvez até queiram que ela conte piadas ou desfile em passarela. Ridículo.

Um país como o nosso que quebrou ``cadeias`` culturais curtidas por segmentos sociais defensores do isolamento feminino; um país que elegeu e elege governadoras de Estados, senadoras, deputadas federais... estaduais, vereadoras, prefeitas, Ministras de Tribunais, inclusive o Supremo, está preparado para ter uma Presidente da República.

Além de Dilma há outras mulheres prontas e preparadas para chegar à presidência, mas, para isto o que se espera é a que segmentos da Imprensa não sejam manipulados por homens do tempo e do espaço da cartola e da bengala, fraque, longos bigodes e madames de compridos vestidos de cinturas fininhas graças a espartilhos sufocantes e enganadores...

Adísia Sá - Jornalista,   adisia@opovo.com.br