terça-feira, 27 de março de 2012

Cadê Você, Chico?

Estou aqui. Muito bem, obrigado, contemplando o incontemplável que sempre sonhei e nunca revelei a ninguém quando passei por aí. Se soubesse da infinitude do infinito, pelo menos de fragmentos inteligíveis que me fizessem entender o mínimo possível, estaria por aqui há mais tempo.

Trata-se de uma dimensão intraduzível. Somente a alma espiritualizada dos seres humanos, poderão vislumbrar as maravilhas etéreas e eternas dessa dimensão.
Extasio-me a cada passo. Sou um ponto de energia nesse cosmos incomensurável, que me desloco sem pernas, abraço sem braços e manifesto-me e comunico-me com a “psique imortalizada.” É algo extraordinário e impensável pra vocês.
Nos primeiros momentos a leveza, a sensação de liberdade absoluta nos apresenta um certo receio, porquanto em nossa peregrinação terrena, cadeias, correntes e algemas de todas as espécies nos impõem limitações. Num estalar de dedos tudo se rompe e cai. Adquire-se, portanto, a “verdadeira liberdade dos filhos de Deus.”
Somos “pontos de energia” iluminados pela luz que emana de uma LUZ infinitamente mais intensa. Ela brilha em cada um de nós, e o seu brilho nos reveste de absoluta paz.
Quando aqui cheguei -  os meus alunos que se anteciparam há algum tempo -  estavam à minha espera, muito alegres e felizes. Ouvi comentários de que desde cedinho preparavam com esmero a sala para minha aula inaugural. Havia também gente diferente. Roupa branca, resplandecente, em grande expectativa. O Rolando me comunicou que eram anjos. Ainda bem que não prefaciou com as suas enroladas.
De repente não os vi mais. Desapareceram repentinamente, como uma névoa que se desfaz. Uma miríade de anjos conduziu-me até a sala de aula. Ao abrir a porta, todos levantaram-se em sinal de respeito. Pensei com os meus botões, aliás, com a minha luz: ‘Pelo menos já aprenderam alguma coisa boa!’
Sentei sem cadeira e eles me imitaram. Que interessante! Havia uma mesa e não era mesa. Passei os olhos do espírito por todos os alunos e quase não mais os conheci. Interiormente comentei: ‘Aqui existe algo diferente e excepcional que eu ainda não captei.’
Verifiquei em segundos uma metamorfose que denominei transfiguração. E é realmente. Como aconteceu ou acontece, não me perguntem, pois ainda não cheguei lá. Todos estavam jovens, inclusive eu. Meus joelhinhos e minha cabeça estão maravilhosos, lindos. Ouviu Aldemar Vigário? Pena que você não possa ver.

Joselino Barbacena mudou até o bordão: ‘Ai meu Jesus Cristinho! Que ele me descubra aqui.”

Seu Sandoval Quaresma não tem mais a boca murcha. Entusiasmado e feliz repete, completando: ‘Opa, tá na ponta da língua... o louvor do Senhor da vida.’

Samuel Blaustei desapegou-se totalmente do dinheiro. Fiquei impressionado quando o ouvi falar: ‘Fazemos qualquer negócio para compartilhar nossos bens com os necessitados.’

Seu Rolando Lero não enrola mais. ‘Captei! Captei a vossa mensagem... Deus é tudo.’

Tenho certeza que Baltazar da Rocha passou por uma cirurgia plástica. Que transformação visual! ‘Que que há-lho? Há uma beleza tão grande que se torna difícil para a imaginação de vocês.’

A transfiguração de dona Bela é algo inacreditável, inacessível e miraculoso. Se eu pudesse trazê-los até aqui para que vocês vissem... A transformação chegou a tal nível que ao fazer uma pergunta ela calma e serenamente responde: ‘Só pensa... naquilo! No Senhor que criou o céu e a terra, e do qual contemplamos a Face.’

Célia Cardoso de Melo que repetia a cada instante ‘o povo é só um detalhe,’ agora já nos ensina que o povo é constituído de homens e mulheres, filhos de um mesmo Pai, que os ama com um amor único, apaixonado e fiel.

Galeão Cumbica nem se fala. Cabelos sedosos e bem cortados, pronuncia as mesmas palavras, mas o convite é totalmente diferente: ‘Atenção passageiros com destino ao Paraíso, portadores de ficha da cor azul... se piqueeeeee!!’

Pedro Pedreira com aquele seu temperamento e teimosia, demonstra serenidade até na maneira de falar. ‘Há controvérsias! Não aqui. Ao nosso redor perdura eternamente a paz, a compreensão, o perdão, a oração, o amor.’

Como viram, sou agora eternidade. Descanso nos braços do Pai que me acolheu como “o filho pródigo.” O anel, a túnica, as sandálias, a festa... Tudo tem ares de eternidade. Não há noite, não há lágrimas, não há luto, não há dor, e não se precisa de sol, porquanto Deus é a LUZ que ilumina tudo e brilha em todos. Não existe tempo pra sentir saudade. Aliás, nem tempo existe. Enquanto que por aí eu fazia do Humor, amor, por aqui estou realizando o mais sonhado dos meus sonhos: fazer do Amor, humor. Agora sou o que sou.

Antônio Luiz Macêdo,  24/03/2012

domingo, 25 de março de 2012

Humorista Deixa Personagens Arraigados no Imaginário

HUGO POSSOLO
Morreu o mais ator de todos os comediantes. As composições de Chico Anysio geraram personagens tão reais que talvez a nossa memória resista em associar as criaturas ao seu criador, tamanha vida própria que tinham.
Todos os detalhes, que ultrapassavam o limite da simples caracterização como maquiagem, perucas e figurinos, estavam vinculados à voz, aos trejeitos, ao olhar e, sobretudo, à alma de cada tipo tão específico quanto genial.
Aqui o clichê "ele continuará vivo" não cabe apenas a uma pessoa, pois Chico Anysio deixa vivos uma infinidade de personagens marcantes, que se arraigaram no imaginário brasileiro.
Dá até vergonha citar apenas uns poucos como Pantaleão, Tavares, Azambuja, Coalhada, Bento Carneiro, Bozó, Alberto Roberto, Justo Veríssimo, Salomé e, por fim, o Professor Raimundo.
Esse, uma espécie de alter ego do humorista, que oferecia o colo de sua merecida fama a outros comediantes, experientes ou iniciantes.
Na sala de aula, ensinava que o humor feito como o jogo entre parceiros atinge um grau de magnitude de que só a delicadeza do riso é capaz. Via-se a cumplicidade do mestre junto à de outros mestres, um cedendo espaço ao outro.
FAMA
Um rir-se por dentro que explodia grandioso para toda a nação. Por suas mãos muitos comediantes saíram do ostracismo e tantos outros ganharam fama.
Chico lidou diretamente com o poder. Dentro da Globo, deixou sua influência sujeita a novos rumos que talvez sua inteligência não tenha decifrado completamente. Mas, seria injusto grifar a fase em que saiu do ar e esquecer tudo o que fez.
Pensamento que serve também aos seus casamentos. Muita gente chegou a rejeitá-lo por causa do casamento com Zélia Cardoso, a operadora do saque à poupança do povo. Só que amor não pode ser mácula, muito menos diminuirá a grandeza.
Sua herança já vingou. Basta falar somente dos artistas de linhagem sanguínea, uma realeza que inclui Nizo Neto, Lug de Paula, Maria Maya, Marcos Palmeira e Cininha de Paula.
Mas, com o perdão de todos, em especial, o herdeiro Bruno Mazzeo, ninguém nunca será igual a ele. Bruno, que não o imita, é, no entanto, muito igual ao pai, por mostrar que a autenticidade é o principal valor artístico.
Chico deixa algumas décadas de humor, no rádio, na tevê e no teatro, alegremente acumuladas nas nossas lembranças. Nos fez rir de nós mesmos, de nossa brasilidade. Suas criações sempre o farão mais vivo, já que suas interpretações são -se é possível a contradição- únicas!...
É triste. Morreu o mais comediante de todos os atores.
Hugo Possolo, 48, é palhaço, dramaturgo e diretor do Parlapatões e do Circo Roda.

sexta-feira, 23 de março de 2012

A Sociedade É Feita Por Cada Um De Nós

O comentarista Mario Assis nos envia um texto que faz muito sucesso circulando na internet, de autor desconhecido, sobre a responsabilidade de cada um na formação da sociedade. Se alguém souber o autor, por favor nos informe.

Político não é uma subespécie geneticamente propensa a desviar verba pública, por exemplo. O político nasceu no mesmo país, foi criado da mesma forma (que eu saiba não tem uma escola toda especial que ensine como ser corrupto para eles frequentarem), e que o próprio povo elegeu, sendo assim o melhor representante deste “a sua imagem e semelhança“.
O problema não é o político ser corrupto, não, mas o político corrupto ter sido eleito pelo povo. O povo que reclama de políticos corruptos.
Você vê a Lei Ficha Limpa. A lei é de iniciativa popular. Mas o que me deixa zureta é que o povo ELEGEU os ficha-suja. Vários! E sabendo que é ficha suja! Se a maioria dos eleitores não são responsáveis na hora de votar, não se pode esperar que os eleitos também o sejam. Os eleitos saem do povo, afinal.
No dia a dia as pessoas fazem 300 mil titicas que julgam “não ter problema”. Grudam chiclete debaixo da mesa, da mesma forma que o político esconde dinheiro debaixo da cueca. Fazem piadinha com judeu, negro, mulher, pobre, japonês, da mesma forma que o político faz piadinha da cara do povo. Jogam papel no chão quando não tem ninguém olhando, da mesma forma que o político desvia um dinheirinho público quando ninguém está fiscalizando.
Riem de defeitos físicos, ridicularizam pessoas pela aparência. Não dizem “por favor”. Não dizem “obrigado”. Não devolvem o que pediram emprestado. Não guardam um segredo. Saem com 2 (ou mais) pessoas ao mesmo tempo, da mesma forma que o político é vaselina e passa na mão de 30 partidos. Traem, da mesma forma que o político não é fiel a nenhum partido ou ideologia. Mentem pra quem confia nelas, da mesma forma que o político mente pros eleitores. Não cumprem promessas, da mesma forma que o político faz promessas que não pode cumprir.
Avançam o sinal, da mesma forma que os políticos julgam não ter problema usar um cartãozinho corporativo ali pra pagar um resort. Joga voto fora ou vota em qualquer um, da mesma forma que parlamentar vota pra proteger alguém.
Não admitem as titicas que fazem no dia a dia e não dão satisfação delas, da mesma forma que os mesmos parlamentares não querem assumir os votos e não dão satisfação pro povo que colocou eles lá.
Fura fila, ludibria, passa a perna, copia trabalho, enrola professor, “dá perdido” em amigo, “dá balão” em namorada, chuta cachorro, faz churrasco de gato, some com a caneta do colega, não se mantêm firmes nas próprias convicções, se corrompem de mil formas diariamente. Discrimina, exclui, enche a cara e faz besteira, justifica a merda que faz com a bebida (mas continua bebendo), bebem e dirigem, se drogam, fazem passeata pela paz mas dão dinheiro pra traficante, arranham um carro, destratam a empregada, não dão boa noite pro porteiro, não agradecem ao motorista por ter parado no ponto pra você porque “não faz mais que a obrigação”.
Depredam patrimônio público, fumam maconha porque não dá nada, picham um muro, rabiscam uma mesa xingando alguém, batem e ofendem – quando em maioria – quem torce pro time adversário, zoa o amigo quando ele não está por perto, fala mal da amiga quando ela dá as costas.
Ontem, o político cometia esses delitos menores, que nem delitos são considerados. “Que mal tem?” é o que a maioria pensa. Agora, que ele pode, ele comete os maiores. “Que mal tem?” é o que ele ainda pensa.
Sabe quando você rouba uma balinha nas Lojas Americanas e enfia dentro do bolso? O político enfia o mensalão dentro da cueca. Ele paga uma tapioca com o dinheiro público, porque é só uma tapioca, não tem problema. Daí pra desviar milhões de um programa social é um passo.
As pessoas são plenamente capazes de vender o próprio corpo por dinheiro, e não me refiro a quando fazem disso uma forma de viver e há uma necessidade, mas mesmo quando não há. Às vezes se vendem tacitamente, em troca de luxo. Imagina então se não são capazes de vender até a alma por um combo de dinheiro+poder.
Você sabe que algo tá muito mal quando o Romário vem sendo uma grata surpresa nesse cenário. E o mais engraçado é que muito se reclama da corrupção nas ruas, mas o que as pessoas fazem sobre isso? Elas demonstram a indignação de alguma forma? Não. Elas reclamam entre si. É tipo fazer fuxico que a Cicrana vive falando mal da Fulana e você não agueeeenta mais essa falsidade, mas tudo que você faz é falar mal da falsa da Cicrana pelas costas, o que não te torna muito diferente dela.
As pessoas “revoltadas” se insurgem da seguinte maneira: Acordam cedo, se despencam até a zona eleitoral e apertam o botão “nulo” ou “branco”. Uau, que revolucionárias. Jogam fora 30 minutos da vida delas e 4 anos da vida política de todo o país achando que tão fazendo o certo, porque não tem nenhuma opção que preste. Não tem mesmo? Ou as pessoas que são acomodadas e não votam nas que prestam, porque “não tem mais jeito”?
Se você é acomodado, não espere que saia de um povo acomodado um político com vontade de mudar o país. Mudar o país dá bem mais trabalho do que pesquisar em quem se vai votar. E mudar o país não depende de só uma pessoa eleita, mas de todas as que elegem.
A sociedade é feita por cada um de nós.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Quando se Trata de IR, Quase Tudo Está Errado

Por Raul Haidar

Nós, pessoas físicas, já estamos na temporada oficial do acerto de contas com o imposto de renda, ou seja, a chamada declaração de ajuste. Eis a época em que os brasileiros de uma forma ou de outra se tornam ridículos.
Realmente é muito ridícula a preocupação do contribuinte que se esforça para enviar sua declaração o mais rápido que puder, na esperança de receber com igual rapidez a restituição a que tem direito. E o pior: é um escárnio, um acinte, uma afronta à nossa inteligência a maneira quase festiva com que o Ministério da Fazenda anuncia de tempos em tempos que vai devolver determinados lotes do que pagamos a mais.
Os servidores públicos e todos os cidadãos são obrigados a obedecer a Constituição e as demais leis do país. Assim, quando sofremos retenção indevida, isto é, quando pagamos imposto a maior, estamos na melhor das hipóteses sofrendo um verdadeiro empréstimo compulsório totalmente inconstitucional, por não se enquadrar nas hipóteses do artigo 148 da CF.
Mas o nosso sistema constitucional vai muito além disso. Basta que se atente para o preâmbulo da Carta, onde se garante que o Brasil é um estado democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança...a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna...”
O primeiro grande erro que se comete no imposto de renda é a não atualização dos valores, a começar da própria tabela de retenção. O reajuste mais recente, para este exercício, foi de 4,5%, embora a taxa oficial de inflação tenha sido de 6,5%. Portanto, se a correção fica abaixo da inflação, verifica-se um efeito danoso para os contribuintes, muito próximo de um confisco. Enquanto os valores do imposto de renda não forem ajustados à realidade e anualmente atualizados conforme a inflação, os contribuintes estaremos sendo vítimas de um grande embuste, obrigados a financiar o tesouro com um empréstimo compulsório inconstitucional.
Várias entidades de classe já tentaram as vias judiciais para corrigir esses erros, mas sem êxito. Um exemplo é Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte, que pretendia obter a correção automática da tabela de retenção do imposto de renda de acordo com a variação da UFIR. O julgamento demorou quase uma década e prova que a Justiça pode tardar e falhar ao mesmo tempo.
Perdeu o STF a oportunidade de fazer algo parecido com Justiça. O voto do ministro Marco Aurélio, que ficou vencido, trazia todos os ingredientes para que a verdadeira justiça se fizesse. Há um trecho muito expressivo do voto que merece especial destaque:
“O Estado não pode ludibriar, espoliar ou prevalecer-se da fraqueza ou ignorância alheia. Não se admite que tal ocorra nem mesmo dentro dos limites em que seria lícito ao particular atuar.” (RE 388.312).
A questão básica do imposto de renda é a tabela. Na Lei 4.862/62 a tabela iniciada em 5% ia até 50% do rendimento tributável. Essa progressividade é a característica do imposto e a atual tabela não cumpre a função social do imposto, por não observar uma progressividade digna desse nome.
Se a tabela é algo que exige correção e atualização permanente, o mesmo se aplica aos abatimentos. No caso dos dependentes comete-se grave injustiça, pois com o valor atual não se cumpre a obrigação legal de adequado atendimento ao dependente.
Também é necessário adequar o valor de abatimento do investimento com educação. A legislação fala em educação, mas o termo correto é investimento. As normas atuais limitam o valor da escola particular a cerca de R$ 200. Isso está totalmente fora da realidade. Aliás, educação é fator de desenvolvimento e deveria receber estímulo, não limite.
Já comentamos aqui alguns casos de verdadeiros crimes praticados por servidores públicos, quando não permitiram o abatimento de despesas legítimas, como, por exemplo, imposto retido do trabalhador e não recolhido pela fonte pagadora, pensão alimentícia decorrente de decisão judicial e cujo pagamento foi feito mediante desconto em folha, etc.
Poderá alguém por aí chamar isso de erro de interpretação. Mas o artigo 316 diz que é crime, sujeito a pena de reclusão. Afinal todos são iguais perante a lei. Inclusive a lei penal.
Se examinarmos todos os aspectos da legislação do imposto de renda, veremos que o contribuinte brasileiro é apenas uma vítima, não mais que isso.
Outra questão de precisa ser revista para nos aproximarmos da almejada justiça tributária é o tratamento dado às transações com patrimônio. É aquilo que o fisco chama de ganho de capital.
Ora, ninguém se sente confortável em dar informações falsas ou fazer contratos que não dizem a verdade. Mas todos sabemos que ainda existe inflação no país. Tanto assim que os índices são divulgados com regularidade e os débitos fiscais são atualizados.
Portanto, é obrigatória a correção monetária dos bens que integram o patrimônio dos contribuintes, para evitar que, sob o pomposo título de ganhos de capital, o contribuinte pague imposto sobre o que não ganhou.
Embora existam determinadas hipóteses de isenção, caso o contribuinte venha a alienar diversos imóveis pode sofrer tributação que não deveria existir se fosse admitida a correção integral de seu patrimônio. Isenção é favor fiscal, que se concede quando houver incidência do tributo. O contribuinte brasileiro não precisa de favor, mas apenas de justiça. A correção monetária que resulta da inflação é fenômeno econômico e não pode ser ignorado, sob pena de se permitir confisco.
Vemos, portanto que, em nome de justiça tributária, temos que fazer diversas alterações na legislação do imposto de renda. Do jeito que está, está quase tudo errado.

Raul Haidar é advogado tributarista, ex-presidente do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP e integrante do Conselho Editorial da revista ConJur.

Revista Consultor Jurídico, 5 de março de 2012

domingo, 4 de março de 2012

Abaixo-Assinado

Acabamos de criar no site Petição Pública o seguinte abaixo-assinado:

Pedimos punição severa aos militares que assinaram o manifesto "Alerta à Nação - eles que venham, aqui não passarão", texto que critica a interferência do governo da Sra. Dilma, publicado no site do Clube Militar. As forças armadas tem como função precípua a Defesa do Território e da Soberania Nacionais e como regra sagrada a obediência e respeito à hierarquia. Tem-se que respeitar principalmente a Presidência da República onde está o Comandante Supremo das Forças Armadas. Portanto esta sublevação deve ser contida de forma severa pela Sra. Presidenta da República.

Meus Amigos,
Acabei de criar e assinar este abaixo-assinado online:
«Punição aos Militares Que Subscreveram o Manifesto Contra o Governo»
http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N21652
Se você concorda com esse abaixo-assinado, assine-o também
Para assinar clique aqui


http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N21652 


Divulgue-o para seus contatos.  Obrigado.   Franklin

A Comissão da Verdade e os Brasileiros

Urariano Mota

Recife (PE) - A mais recente indisciplina de militares reformados contra a Comissão da Verdade, em manifesto onde tentam intimidar com as palavras "a aprovação da Comissão da Verdade foi um ato inconsequente, de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo" acende na gente duas observações.

Na primeira delas, chama a atenção que se dirigem mais aos colegas de farda, na ativa, que aos de fora dos quartéis. O que vale dizer, os generais e coronéis reformados clamam por uma quartelada, por um novo golpe de “31 de março”, mais conhecido adiante por revolução de primeiro de abril. Isso é claro porque em mais de um ponto escrevem – ou gritam, à sua maneira de escrever – que não reconhecem autoridade no atual Ministro da Defesa, nas Ministras de Direitos Humanos e de Política para as Mulheres. E, por extensão, desconhecem o poder legítimo da  Presidenta Dilma.
Na segunda observação, notamos que eles -  os amotinados no manifesto – fazem uma chamada geral, à Nação, aos colegas armados, gritam falar em nome de todos, mas falam em seus próprios, exclusivos e antigos interesses. A saber, quem assim reclama contra a  Comissão da Verdade, teme a justiça e a punição por crimes e acobertamento de homicídios cometidos. E não é preciso muito Sherlock Holmes para essa conclusão. Três dos assinantes são ex-torturadores reconhecidos por ex-presos políticos: os coronéis Carlos Alberto Brilhante Ustra, Pedro Moezia de Lima e Carlos Sergio Maia Mondaini.
Deste último, o ex-preso político e jornalista Ivan Seixas conta que “esse torturador, oficial médico psiquiatra, era conhecido na OBAN pelo vulgo de Doutor José. Entre outras proezas gozava nas calças ao ver as companheiras nuas se retorcendo com os choques elétricos aplicados por ele”. Daí podemos entender o tamanho da urgência desses militares reformados contra a volta do conhecimento da História em uma Comissão da Verdade. Invocam os nomes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica para melhor abrigo da pessoa criminosa. Mas todos sabemos, por delegação expressa do povo as forças armadas jamais abrigarão ou abrigariam o crime e a perversão.   
Ou viveríamos então em uma democracia sob tutela, onde os comandos militares fingem que não têm poder político, como se fossem pais benevolentes.  Seriam crianças, ou incapazes, o poder civil, a República, a Presidenta, os Ministros, o Congresso, a Justiça? Quer esses amotinados desejem ou não, vem chegando a hora do esclarecimento e da recuperação histórica de homens e mulheres, que viveram em condições-limite. Personagens como estes voltarão:
Odijas Carvalho de Souza (1945-1971)
Odijas foi levado para o Hospital da Polícia Militar de Pernambuco em estado de coma, morrendo dois dias depois, aos 25 anos... ‘No dia 30 de janeiro de 1971 fui acordado cedo por uma grande movimentação. Por volta das 7 horas, Odijas passou diante da cela, conduzido por policiais. Apesar da existência da porta de madeira isolando a sala do corredor, chegaram até nós os gritos de Odijas, os ruídos das pancadas e das perguntas cada vez mais histéricas dos torturadores. Durante esse período, Odijas foi trazido algumas vezes até o banheiro, colocado sob o chuveiro para em seguida retornar ao suplício. Em uma dessas vezes ele chegou até a minha cela e pediu-me uma calça emprestada, porque a parte posterior de suas coxas estava em carne viva. Os torturadores animalizados se excitavam ainda mais, redobrando os golpes exatamente ali”.   
Ou deste jornalista, intelectual, frágil de corpo e gigante de espírito:
“ – Teu nome completo é Mário Alves de Souza Vieira? -  Vocês já sabem.
-  Você é o secretário-geral do comitê central do PCBR?
-  Vocês já sabem.
-  Será que você vai dar uma de herói? ...
Horas de espancamentos com cassetetes de borracha, pau-de-arara, choques elétricos, afogamentos. Mário recusou dar a mínima informação e, naquela vivência da agonia, ainda extravasou o temperamento através de respostas desafiadoras e sarcásticas. Impotentes para quebrar a vontade de um homem de físico débil, os algozes o empalaram usando um cassetete de madeira com estrias de aço. A perfuração dos intestinos e, provavelmente, da úlcera duodenal, que suportava há anos, deve ter provocado hemorragia interna”.
Para essas vidas vem de longe um voz coletiva que se ouvirá: presente.

General, a Verdade só Machuca Quem Mente

tijolaco.com

Os nossos chefes militares, de quem só se pode louvar o comportamento que têm tido de respeito às instituições democráticas, sabem, pela experiência que têm com a disciplina e a hierarquia que, quando se deixa passar a pequena transgressão, vêm outra e outra e outra, sempre maiores.
Resolveu-se, há dias, sem apelo aos regulamentos militares, pelo diálogo, uma nota mal-posta dos dirigentes dos clubes militares. Muito bem, melhor sempre a conversa que a ordem.
Mas, na instituição militar mais fortemente que nas civis, é preciso ordem.
A manifestação do general da reverva Luiz Eduardo Rocha Paiva no jornal O Globo, hoje, vai além de uma simples expressão de opinião. É um desrespeito não apenas a uma decisão legislativa mas, também, à própria figura da presidenta da República, sua comandante-em-chefe.
Mais: constitui-se num incitamento a que militares da ativa se insurjam contra ambas, à medida em que diz que os que não manifestarem insatisfação “não são dignos de serem chefes”.
O general chama de “parcial e maniqueísta” uma comissão que sequer se instalou e nem ainda funciona. Como poderia ser parcial ou maniqueísta?
E chega, vejam, a dizer sobre Wladimir Herzog: “quem disse que ele foi morto pelos agentes do Estado?”
Com todo o respeito: teriam sido marcianos, general?
A Comissão da Verdade é, exatamente, contra este tipo de encobrimento, que ainda hoje nega às familias o direito de enterrar seus mortos, como se lê na entrevista de Eliane Paiva, filha do ex-deputado Rubens Paiva, outro a quem o general vilipendia com uma postura eivada de cinismo.
O General Paiva prestou um imenso desserviço às Forças Armadas. Não é contra elas, nem contra seus integrantes, a Comissão da Verdade.
O general leva, com este comportamento, seus chefes à dura e desagradável decisão de puni-lo, nos moldes do regulamento que ele conhece e que a reserva não deixa de obrigar a respeitar.
Talvez, até, seja esse seu objetivo: o de “chamar a punição” para fazer-se de vítima da “intransigência” da esquerda.
O general não é vítima. Vitima é quem é tratado com deboche por ele: os mortos da ditadura, a lei civil legítima e as autoridades a quem ele deve obediência.