segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A história e seus ardis. O lulismo posto à prova em 2010

André Singer 20/09/2010

Conta-se que certa vez o engenheiro Leonel Brizola teria levado o  metalúrgico Lula ao túmulo de Getúlio Vargas em São Borja (RS). Lá  chegando, o gaúcho pôs-se a conversar com o ex-presidente. Depois de  algumas palavras introdutórias, apresentou o líder do PT ao homem que  liderou a  Revolução de 1930: "Doutor Getúlio, este é o Lula", disse,  ou algo parecido. Em seguida, pediu que Lula cumprimentasse o morto.  Não se sabe a reação do petista.  Será que algum dos personagens do encontro pressentiu que, naquela  hora, estavam sendo reatados fios interrompidos da história  brasileira? Desconfio que não.  Os tempos eram de furiosa desmontagem neoliberal da herança populista  dos anos 1940/50. Mesmo aliados, em 1998 PT e PDT - praticamente tudo  o que restava de esquerda eleitoralmente relevante - perderiam para  Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. O consulado tucano  parecia destinado a durar pelo menos 20 anos e trazer em definitivo o  neoliberalismo para o Brasil.
BRECHA
Foi por uma brecha imprevista, aberta pelo aumento do desemprego no  segundo mandato de FHC, que Lula encontrou o caminho para a  Presidência da República. Para aproveitá-la, fez substanciais  concessões ao capital, pois a ameaça de radicalização teria afastado o  eleitorado de baixíssima renda, o qual deseja que as mudanças se dêem  sem ameaça à ordem.(1)  Apesar da pacificação conquistada com a "Carta ao Povo Brasileiro" ter  sido suficiente para vencer, o subproletariado não aderiu em bloco.  Havia mais apoio entre os que tinham renda familiar acima de cinco  salários mínimos do que entre os que ganhavam menos do que isso, como,  aliás, sempre acontecera desde 1989. Ainda que as diferenças pudessem  ser pequenas, elas expressavam a persistente desconfiança do "povão"  em relação ao radicalismo do PT.  Depois de 2002, tudo iria mudar. A vitória levaria ao poder talvez o  mais varguista dos sucessores do dr. Getúlio. Não em aspectos  superficiais, pois nestes são expressivas as diferenças entre o  latifundiário do Sul e o retirante do Nordeste. Tampouco no sentido de  arbitrar, desde o alto, o interesse de inúmeras frações de classe,  fazendo um governo que atende do banqueiro ao morador de rua. Dadas as  condições, todos os presidentes tentam o mesmo milagre.  O que há de especificamente varguista é a ligação com setores  populares antes desarticulados. Ao constituir, desde o alto, o povo em  ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção  aos pobres que Getúlio encarnou.
BURGUESIA EM CALMA
Mas em 1º de janeiro de 2003 ninguém poderia prever o enredo urdido  pela história. Para manter em calma a burguesia, o mandato inicial de  Lula, como se recorda, foi marcado pela condução conservadora nos três  principais itens da macroeconomia: altos superavits primários, juros  elevados e câmbio flutuante. Na aparência, o governo seguia o rumo de  FHC e seria levado à impopularidade pelas mesmas boas razões.  De fato, 2003 foi um ano recessivo e causou desconforto nos setores  progressistas. Ao final, parte da esquerda deixou o PT para formar o  PSOL. Mesmo com a retomada econômica no horizonte de 2004, Brizola  deve ter morrido em desacordo com Lula, por ter transigido com o  adversário.  Ocorre que, de maneira discreta, outro tripé de medidas punha em  marcha um aumento do consumo popular, na contramão da ortodoxia. No  final de 2003, dois programas, aparentemente marginais, foram lançados  sem estardalhaço: o Bolsa Família e o crédito consignado. Um era visto  como mera junção das iniciativas de FHC. O segundo, como paliativo  para os altíssimos juros praticados pelo Banco Central.  Em 2004, o salário mínimo começa a se recuperar, movimento acelerado  em 2005. Comendo o mingau pela borda, os três aportes juntos começaram  a surtir um efeito tão poderoso quanto subestimado: o mercado interno  de massa se mexia, apesar do conservadorismo macroeconômico.   Nas pequenas localidades do interior nordestino, na vasta região  amazônica, nos lugares onde a aposentadoria representava o único meio  de vida, havia um verdadeiro espetáculo de crescimento, o qual passava   despercebido para os "formadores de opinião".
PASSO DECISIVO
Quando sobrevém a tempestade do "mensalão" em 2005 - e, despertado do  sono eterno pela reedição do cerco midiático de que fora vítima meio  século antes no Catete, o espectro do dr. Getúlio começa a rondar o  Planalto -, já estavam dadas as condições para o passo decisivo.  Em 3 de agosto - sempre agosto -, em Garanhuns (PE), perante milhares  de camponeses pobres da região em que nascera, Lula desafiou os que  lhe moviam a guerra de notícias: "Se eu for [candidato], com ódio ou  sem ódio, eles vão ter que me engolir outra vez".  Até então, a ligação entre Lula e os setores populares era virtual.  Chegara ao topo cavalgando uma onda de insatisfação puxada pela classe  média. Optou por não confrontar os donos do dinheiro. Perdeu parte da  esquerda. Na margem, acionou mecanismos quase invisíveis de ajuda aos  mais necessitados, cujo efeito ninguém conhecia bem.
 Foi só então que, empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que  identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto.
PLACAS TECTÔNICAS
Os setores mais sensíveis da oposição perceberam que fora dada a  ignição a uma fagulha de alta potência e decidiram recuar. A hipótese  de impedimento foi arquivada, para decepção dos que não haviam  entendido que placas tectônicas do Brasil profundo estavam em  movimento. Em 25 de agosto, um dia depois do aniversário do suicídio de Vargas,  Lula podia declarar perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e  Social que a página fora virada: "Nem farei o que fez o Getúlio  Vargas, nem farei o que fez o Jânio Quadros, nem farei o que fez o  João Goulart. O meu comportamento será o comportamento que teve o  Juscelino Kubitschek: paciência, paciência e paciência". Uma onda  vinda de baixo sustentava a bonomia presidencial.  O Lula que emerge nos braços do povo, depois da crise, depende menos  do beneplácito do capital. Daí a entrada de Dilma Rousseff e Guido  Mantega em postos estratégicos, o que mudou aspectos relevantes da  política macroeconômica. Os investimentos públicos, contidos por uma  execução orçamentária contracionista, foram descongelados no final de  2005. O salário mínimo tem um aumento real de 14% em 2006.
POLARIZAÇÃO
Para o público informado, a constatação do que ocorrera ainda  demoraria a chegar. Foi preciso atingir o segundo turno de 2006 para  que ficasse claro que o povo tinha tomado partido, ainda que em certos  ambientes de classe média "ninguém" votasse em Lula.  A distribuição dos votos por renda mostra a intensa polarização social  por ocasião do pleito de 2006. Pela primeira vez, o andar de baixo  tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que  define o realinhamento iniciado quatro anos antes.  Embora, do ponto de vista quantitativo, a mudança relevante tenha se  dado em 2002, o que define o período é o duplo movimento de  afastamento da classe média e aproximação dos mais pobres. Por isso, o  mais correto é pensar que o realinhamento começa em 2002, mas só   adquire a feição definitiva em 2006. Como, por sinal, aconteceu com  Roosevelt entre 1932 e 1936.
SEGUNDO MANDATO
Assentado sobre uma correlação de forças com menor pendência para o  capital, o segundo mandato permitirá a Lula maior desenvoltura. Com o  lançamento do PAC, fruto de um orçamento menos engessado, aumentam as  obras públicas, as quais vão absorver mão de obra, além de induzir ao  investimento privado.  Em 2007, foi gerado 1,6 milhão de empregos, 30% a mais do que no ano  anterior. A recuperação do salário mínimo é acelerada, com aumento  real de 31% de 2007 a 2010, contra 19% no primeiro mandato, conforme  estimativa de um dos diretores do IPEA (Instituto de Pesquisa  Econômica Aplicada)2. A geração de emprego e renda explica os 70% de  aprovação do governo desde então.  Nem mesmo a derrubada da CPMF, com a qual a burguesia mostrou os  dentes no final de 2007, reduziu o ritmo dos projetos governamentais.  A transferência de renda continuou a crescer. Foi só ao encontrar a  parede do tsunami financeiro, no último trimestre de 2008, que se  interrompeu o ciclo ascendente de produção e consumo. Teria chegado,  então, segundo alguns, a hora da verdade. Com as exportações em baixa,  o lulismo iria definhar.
COMPRAR SEM MEDO
Mas o lulismo já contava com um mercado interno de massa ativado,  capaz de contrabalançar o impacto da crise no comércio exterior. A  ideia, difundida pelo presidente, de que a população podia comprar sem  medo de quebrar, ajudou a conter o que poderia ser um choque recessivo  e a relançar a economia em tempo curto e velocidade alta.  Além da desoneração fiscal estratégica, como a do IPI sobre os  automóveis e os eletrodomésticos da linha branca, o papel dos bancos  públicos -em particular o do BNDES - na sustentação das empresas  aumentou a capacidade do Estado para conduzir a economia. Numa manobra  que lembra a de Vargas na Segunda Guerra, Lula utilizou a situação  externa para impulsionar a produção local.  Surge uma camada de empresários - Eike Batista parece ser figura  emblemática, como notava dias atrás um economista -, dispostos a  seguir as orientações do governo. A principal delas é puxar o  crescimento por meio de grandes obras, como as de Itaboraí - o novel  polo petroquímico no Estado do Rio -, as de Suape (PE) e de Belo  Monte, na Amazônia. Cada uma delas alavancará regiões inteiras.  Por fim, a aliança entre a burguesia e o povo, relíquia de tempos  passados que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa  diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos  deixe mentir.
PROJETO PLURICLASSISTA
A candidatura Dilma representa o arco que o lulismo construiu. A  ex-ministra, por sua biografia, é talhada para levar adiante um  projeto nacional pluriclassista. O fato de ter sido do PDT até pouco  tempo atrás não é casual. A mãe do PAC tem uma visão dos setores  estratégicos em que a burguesia terá que investir, com o BNDES.  O povo lulista, que deseja distribuição da renda sem radicalização  política, já dá sinais de que o alinhamento fechado em 2006 está em  vigor. Em duas semanas de propaganda eleitoral na TV, Dilma subiu 9  pontos percentuais e Serra caiu 5. À medida que os mais pobres  adquirem a informação de que ela é a candidata de Lula, o perfil do  seu eleitorado se aproxima do que foi o de Lula em 2006. Ou seja, o  voto em Dilma cresce conforme cai a renda, a escolaridade e a  prosperidade regional.   A classe média tradicional, em que pese aprovar o governo, continuará  a votar na oposição, como demonstram a dianteira de Serra em Curitiba  e o virtual empate em São Paulo, municípios em que o peso numérico das  camadas intermediárias é significativo.  Parte delas, sobretudo entre os jovens universitários, deverá optar  por Marina Silva. Isso explica por que os que têm renda familiar  mensal acima de cinco salários mínimos dão 12 pontos percentuais de  vantagem para a soma de Serra e Marina sobre Dilma na pesquisa  Datafolha concluída em 3/9.  O problema da oposição é que esse segmento reúne apenas 14% do  eleitorado, de acordo com a amostra utilizada pelo Datafolha, enquanto  os mais pobres (até dois salários mínimos de renda familiar mensal)  são 48% do eleitorado. Nesse segmento, Dilma possui uma diferença de  22 pontos percentuais sobre Serra e Marina somados! Se vier a ganhar  no primeiro turno, será graças ao apoio, sobretudo, dos eleitores de  baixíssima renda, como ocorreu com Lula na eleição passada.
REALINHAMENTO
A feição popular da provável vitória de Dilma confirma, assim, a  hipótese que sugerimos no ano passado a respeito da novidade que  emergiu em 2006. Se estivermos certos, por um bom tempo o PSDB  precisará aprender a falar a linguagem do lulismo para ter chances  eleitorais. Não se trata de mexicanização, mas de realinhamento, o  qual significa menos a vitória reiterada de um mesmo grupo e mais a  definição de uma agenda que decorre do vínculo entre certas camadas e  partidos ou candidatos.  Quando um governo põe em marcha mecanismos de ascensão social como os  que se deram no New Deal, e como estamos a assistir hoje no Brasil,  determina o andamento da política por um longo período. Num primeiro  momento, trata-se da adesão dos setores beneficiados aos partidos  envolvidos na mudança - o Partido Democrata nos EUA, o PT no Brasil.  Com o passar do tempo e as oscilações da conjuntura, os aderentes  menos entusiastas podem votar em outro partido, mesmo sem romper o  alinhamento inicial. Foi o que aconteceu com as vitórias do  republicano Eisenhower (1952 e 1956) e dos democratas Kennedy (1960) e  Johnson (1964).   Mas para isso a oposição não pode ser extremada, como bem o percebeu a  hábil Marina Silva. Até certa altura da sua campanha, José Serra  igualmente trilhou esse caminho. Foi a fase em que propôs cortar juros  e duplicar a abrangência do Bolsa Família.  Depois, tragado pela lógica do escândalo, retornou ao caminho udenista  da denúncia moral, que só garante os votos de classe média - o que, no  Brasil, não ganha eleição. Convém lembrar que no ciclo dominado pelo  alinhamento varguista, a UDN só conseguiu vencer com um candidato:  Jânio Quadros, que falava a linguagem populista. Fora disso, resta o  golpe, sombra da qual estamos livres.
DURAÇÃO
Qual será a duração do ciclo aberto em 2002, completado em 2006, e,  aparentemente, a ser confirmado em 2010? O realinhamento abrange, por  definição, um período longo. O último que vivemos, dominado pelo  oposicionismo do MDB/PMDB, durou 12 anos (1974-86) e foi sepultado,  quem sabe antes do tempo, pelo fracasso em controlar a inflação. A  resposta para o atual momento também deve contemplar a economia.  Por isso, as condições de manter, pelo menos, o ritmo de crescimento  médio alcançado no segundo mandato de Lula, algo como 4,5% de elevação  anual do PIB, estarão no centro das preocupações do novo presidente.  Sem ele, as premissas do lulismo ficam ameaçadas. Recados  criptografados sobre a necessidade de reduzir a rapidez do crescimento  e de fazer um ajuste fiscal duro já apareceram na imprensa, dirigidos  a Dilma, provável vencedora.  O capital financeiro -apelidado na mídia de "os mercados"- vai lhe  cobrar o tradicional pedágio de quem ainda não "provou" ser confiável.  Caso os reclamos de pisar no freio não sejam atendidos, sempre haverá  o recurso de o BC - cuja direção deverá continuar com alguém como  Henrique Meirelles, senão o próprio - aumentar os juros. O aumento  real do salário mínimo no primeiro ano de governo, que dependerá da  presidente, pois o PIB ficou estagnado em 2009, será outro teste  relevante.
CABO DE GUERRA
Convém notar que, no segundo mandato de Lula, ainda que de modo  relutante, o BC foi obrigado a trabalhar com juros mais baixos. Mas o  cabo de guerra será reiniciado no dia 3 de janeiro de 2011. Com os  jogadores em posse de um estoque de fichas renovados pela eleição, uns  apostarão em uma recuperação do espaço perdido, outros numa aceleração  do caminho trilhado no segundo mandato.  O PMDB, elevado à posição de sócio importante da vitória, atribuiu-se,  na campanha, o papel de interlocutor com o empresariado. O PT,  possivelmente fortalecido por uma bancada maior, deverá, pela lógica,  fazer-lhe o contraponto do ângulo popular. A escolha dos presidentes  da Câmara e do Senado, em fevereiro, servirá de termômetro para o  balanço das respectivas forças.  O futuro do lulismo dependerá de continuar incorporando, com salários  melhores, os pobres ao mundo do trabalho formal. Em torno desse ponto  é que se darão os principais conflitos e se definirá a extensão do  ciclo. Alguns analistas da oposição alertam para a proximidade de um  índice de emprego que começará a encarecer a mão de obra e gerar  inflação. Como mostra Stiglitz,(3) é a conversa habitual dos  conservadores para brecar a expansão econômica.  Por fim, não se deve esquecer que uma palavra decisiva sobre esses  embates virá de São Bernardo, onde residirá o ex-presidente, bem mais  perto da capital do que foi, no passado, São Borja.  Aguardam-se os conselhos de Vargas e Brizola, dos quais poderemos  tomar conhecimento naquelas mensagens psicografadas por Elio Gaspari.
Notas:
1. Ver André Singer. "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo", "Novos Estudos", 85, nov 2009. Link para o artigo em folha.com/ilustríssima
2. Ver João Sicsú. "Dois Projetos em Disputa". "Teoria e Debate", 88,  mai/jun 2010.
3. Ver Joseph Stiglitz, "Os Exuberantes Anos 90", Companhia das Letras, 2003.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

As 10 Estratégias de Mnipulação Midiática

Por Noam Chomsky - de Boston, EUA

1. A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.
3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4. A estratégia de diferir. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.
6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!
10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.
Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Cavalo Manco e o Puro-Sangue

 Antonio Ermírio de Moraes
                       Os trabalhadores têm muito a aprender, mas não podemos negar que apontaram a seta do governo na direção de deixarmos de ser colônia extrativista. Isto já surtiu efeito no enfrentamento da última crise mundial: se o país estivesse com o modelo econômico anterior teria quebrado; isto foi dito por todos os segmentos da mídia (fora do contexto partidário) antes do processo da campanha política.
                      Se o governo não tivesse aberto agressivamente novos mercados com economias emergentes os efeitos teriam sido devastadores. Isto é sério e só aconteceu porque a direção foi mudada. As bases econômicas do governo FHC foram aproveitadas até um certo ponto, mas se não se mudasse a estratégia, o Brasil teria quebrado como ocorreu nas outras crises.
            A aposta no mercado exterior emergente e no mercado interno, via inclusão social, é reconhecida no mundo inteiro como uma grande sacada deste governo que salvou o país de um grande desastre.
            O interessante é que foi apenas uma questão de auto-estima. Por incrível que pareça, o governo Lula adotou a estratégia nacionalista dos governos militares e deu certo. O que aflige o pessoal que governou nas décadas passadas é que o novo posicionamento foi ideológico, deu certo: o país se protegeu e cresceu. A fome, a miséria, as desigualdades não seriam nem serão resolvidas em oito anos, basta um pouquinho de bom senso pra enxergar isto.
            A priorização no resgate dos pobres via programas de renda mínima e estímulo ao micro-crédito, o aumento em "dólar" de mais de 300% no salário mínimo, entre outras medidas, foram fundamentais para reduzir as desigualdades, irrigar a economia de forma bem pulverizada – com dinheiro que gera emprego – e germinou o ciclo virtuoso da economia.
Com o aproveitamento e o aperfeiçoamento das bases econômicas, bastou a decisão política de acreditar que podemos sonhar em deixar de ser colônia extrativista.
            Ainda estamos longe, não temos estradas, portos, aeroportos, escolaridade, sistema de saúde, centros de pesquisa, universidades qualificadas. Mas para que possamos ter um dia todas estas coisas é preciso que tomemos a decisão política de apostar no Brasil, no trabalhador do Brasil, no empreendedor brasileiro, na distribuição de renda via salários dignos, no ciclo virtuoso do bom capitalismo, e esta decisão foi tomada neste governo.
Nesta decisão de política nacionalista, deflagrou-se um programa de investimento maciço em infra-estrutura de longo prazo – que só vai repercutir em oito ou dez anos – visando viabilizar o desenvolvimento do país (reindustrialização nacional, agronegócio, infra-estrutura, geração de energia, etc), com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), representando mais uma vez que a aposta no Brasil deu certo: o iluminado Lula novamente pontuou onde os tucanos falharam.
            Quando a crise do primeiro mundo chegou, o ciclo virtuoso tornou-se auto-sustentável.
            O capital produtivo já havia apostado no Brasil e o país já se mostrava como uma decisão acertada.
            Em todas estas frentes estratégicas, o governo anterior apostou que as multinacionais tomariam nossas frentes produtivas sem interferência do estado, via privatização, etc, e que gerariam novos empregos, porque os trabalhadores venderiam sua mão-de-obra barato e os recursos naturais estariam à sua mercê para extrair e produzir fartos lucros.
            Ledo engano. As múltis são fiéis às suas origens, seu compromisso é o de          envio dos fartos lucros para as matrizes.
            Esta decisão estratégica errada estava transformando o país em quintal extrativista do mundo, deixando os industriais locais à margem do processo, com a maioria da população condenada ao subdesenvolvimento, enquanto uma minoria fazia compras nos shoppings de New York e Londres.
            O mundo desenvolvido, antes de ser o que é, passou por decisões estratégicas de governo; as coisas não acontecem sozinhas. Esta foi a direção errada do governo anterior, acreditar que o lobo seria o melhor guardião do galinheiro e não apostar na capacidade do empreendedor e do trabalhador brasileiro.
            Os trabalhadores têm muito a aprender e isto ficou evidente nos poucos anos de poder, mas os neocapitalistas de visão curta estiveram no poder a vida inteira e já mostraram muito bem o modelo de sociedade que desejam.
Prefiro levar meu cavalo manco para a fonte do que seguir de puro-sangue para o deserto.
Texto de Antonio Ermírio de Moraes

sábado, 6 de novembro de 2010

Uma Carta a Noblat

Noblat
Quem é você para decidir pelo Brasil (e pela História) quem é grande ou quem deixa de ser? Quem lhe deu a procuração? O Globo? A Veja? O Estadão? A Folha?
Apresento-me: sou um brasileiro. Não sou do PT, nunca fui. Isso ajuda, porque do contrário você me desclassificaria, jogando-me na lata de lixo como uma bolinha de papel. Sou de sua geração. Nossa diferença é que minha educação formal foi pífia, a sua acadêmica. Não pude sequer estudar num dos melhores colégios secundários que o Brasil tinha na época (o Colégio de Cataguases, MG, onde eu morava) porque era só para ricos. Nas cidades pequenas, no início dos sessenta, sequer existiam colégios públicos. Frequentar uma universidade, como a Católica de Pernambuco em que você se formou, nem utopia era, era um delírio.
Informo só para deixar claro que entre nós existe uma pedra no meio do caminho. Minha origem é tipicamente “brasileira”, da gente cabralina que nasceu falando empedrado. A sua não. Isto não nos torna piores ou melhores do que ninguém, só nos faz diferentes. A mesma diferença que tem Luis Inácio em relação ao patriciado de anel, abotoadura & mestrado. Patronato que tomou conta da loja desde a época imperial.
O que você e uma vasta geração de serviçais jornalísticos passaram oito anos sem sequer tentar entender é que Lula não pertence à ortodoxia política. Foi o mesmo erro que a esquerda cometeu quando ele apareceu como líder sindical. Vamos dizer que esta equipe furiosa, sustentada por quatro famílias que formam o oligopólio da informação no eixo Rio-S.Paulo – uma delas, a do Globo, controlando também a maior rede de TV do país – não esteja movida pelo rancor. Coisa natural quando um feudo começa a dividir com o resto da nação as malas repletas de cédulas alopradas que a União lhe entrega em forma de publicidade. Daí a ira natural, pois aqui em Minas se diz que homem só briga por duas coisas: barra de saia ou barra de ouro.
O que me espanta é que, movidos pela repulsa, tenham deixado de perceber que o brasileiro não é dançarino de valsa, é passista de samba. O patuá que vocês querem enfiar em Lula é o do negrinho do pastoreio, obrigado a abaixar a cabeça quando ameaçado pelo relho. O sotaque que vocês gostam é o nhém-nhém-nhém grã-fino de FHC, o da simulação, da dissimulação, da bata paramentada por láureas universitárias. Não importa se o conteúdo é grosseiro, inoportuno ou
hipócrita (“esqueçam o que eu escrevi”, “ tenho um pé na senzala” “o resultado foi um trabalho de Deus”). O que vale é a forma, o estilo envernizado.
As pessoas com quem converso não falam assim – falam como Lula. Elas também xingam quando são injustiçadas. Elas gritam quando não são ouvidas, esperneiam quando querem lhe tapar a boca. A uma imprensa desacostumada ao direito de resposta e viciada em montar manchetes falsas e armações ilimitadas (seu jornal chegou ao ponto de, há poucos dias, “manchetar” a “queda” de Dilma nas pesquisas, quando ela saiu do primeiro turno com 47% e já entrou no segundo com 53 ) ficou impossível falar com candura. Ao operário no poder vocês exigem a
“liturgia” do cargo. Ao togado basta o cinismo.
Se houve erro nas falas de Lula isto não o faz menor, como você disse, imitando o Aécio. Gritos apaixonados durante uma disputa sórdida não diminuem a importância histórica de um governo que fez a maior revolução social de nossa História. E ainda querem que, no final de mandato, o presidente aguente calado a campanha eleitoral mais baixa, desqualificada e mesquinha desde que Collor levou a ex-mulher de Lula à TV.
Sordidez que foi iniciada por um vendaval apócrifo de ultrajes contra Dilma na internet, seguida das subterrâneas ações de Índio da Costa junto a igrejas e da covarde declaração de Monica Serra sobre a “matança de criancinhas”, enfiando o manto de Herodes em Dilma. Esse cambapé de uma candidata a primeira dama – que teve o desplante de viajar ao seu país paramentada de beata de procissão, carregando uma réplica da padroeira só para explorar o drama dos mineiros chilenos no horário eleitoral – passou em branco nos editoriais. Ela é “acadêmica”.
A esta senhora e ao seu marido você deveria também exigir “caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade”.
Você não vai “decidir” que Lula ficou menor, não. A História não está sendo mais escrita só por essa súcia de jornais e televisões à qual você pertence. Há centenas de pessoas que, de graça, sem soldos de marinhos, mesquitas, frias ou civitas, estão mostrando ao país o outro lado, a face oculta da lua. Se não houvesse a democracia da internet vocês continuariam ladrando sozinhos nas terras brasileiras, segurando nas rédeas o medo e o silêncio dos carneiros.

Carlos Torres Moura
Além Paraíba-MG
Postado por Paulo Ávila