segunda-feira, 31 de maio de 2010

Serra: o anti-Lula

Emiliano José , em cartacapital.com.br

As eleições deste ano apresentam um quadro curioso: o candidato da oposição tenta ser situação. Faz um esforço danado para não se contrapor ao presidente Lula. Quer fazer a simulação de que a disputa se dará entre pessoas, entre ele e a candidata do governo, Dilma Roussef. Ao menos tem sido essa a movimentação do ex-governador de São Paulo, José Serra, mesmo que oriente seus cães de guarda para bater no presidente e em sua política, resguardando alguns pontos que considera imbatíveis, como o Bolsa-Família, por exemplo. Serra faz das tripas coração para não ter parecença com o anti-Lula. Quer individualizar a campanha, evitar a todo custo o confronto de projetos nacionais. Será que essa estratégia tem futuro? Não creio. 

Serra é o anti-Lula, por obviedade. Lidera um projeto diverso daquele que vem sendo executado pela atual conformação de forças no poder, liderada pelo Partido dos Trabalhadores. Serra é o líder de um conjunto de forças sociais e políticas que representa inegavelmente o pensamento neoliberal no Brasil, pensamento que ganhou consistência exatamente nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso, cujo personagem virou quase maldito hoje nas hostes do PSDB. Querem escondê-lo, mitigar o discurso dele, evitar que ele fale exatamente por conta da estratégia serrista. Se Collor foi o marco inaugural do neoliberalismo tardio no Brasil, o PSDB, com FHC à frente, Serra então como ministro, foi o verdadeiro condutor desse projeto no País. 

O PSDB foi competente na condução da política neoliberal, isso ninguém pode esconder. Collor foi uma figura tosca, sem consistência, dada ao espetáculo, embora procurasse dar os primeiros passos para fazer avançar o pensamento neoliberal no Brasil. Caiu da forma que se sabe, e não compensa gastar mais tempo para explicar o episódio do impeachment. O neoliberalismo, com sua face cruel, fria, perversa veio com toda carga sob a direção do PSDB, e seu condottiere foi exatamente FHC. Durante os oito anos do PSDB, quase que o País vai à falência. Com a ideia básica de que o mercado tudo pode, com a afirmação do Estado mínimo, fez-se a privatização criminosa que se conhece, endividou-se o País da forma que se sabe, nos colocaram de joelhos diante do FMI, tudo com as graves consequências sociais, por demais conhecidas. 

O governo Lula, e não poderia ser diferente, fez o contrário disso. O projeto encabeçado pelo PT, cuja execução iniciou-se em 2003, com a posse de Lula, que eu prefiro chamar de projeto da revolução democrática, seguiu roteiro inverso ao do PSDB. Nele, o Estado passa a ter outra dimensão. Não se trata mais do Estado mínimo. Havia que se reestruturar o Estado no País, depois do furacão neoliberal peessedebista. Não é por acaso que uma das críticas centrais do PSDB ao governo seja exatamente o do “inchaço da máquina”, tradução da incorporação de milhares de pessoas via concurso para garantir serviços de boa qualidade e para assegurar capacidade técnica ao Estado para cumprir as metas de melhorar a vida do povo brasileiro. 

Para o projeto da revolução democrática, não se tratava mais de usar os fundos públicos para satisfazer os apetites do grande capital, característica do governo do PSDB. Agora, tratava-se de desenvolver políticas sociais capazes de enfrentar a tragédia da profunda desigualdade social existente no País, usar os fundos públicos para isso, e garantir assim a inclusão de milhões de pessoas à cidadania ativa porque com fome é difícil exercer a cidadania. O projeto da revolução democrática leva a sério a ideia de fazer do Brasil um país justo para todos, e para tanto leva em conta a desigualdade e as disparidades de gênero, de raça e até mesmo as diferenças regionais. É dessa maneira que devem ser encarados o Bolsa-Família, o Prouni, o Pronaf, o aumento do salário mínimo acima da inflação, entre outras medidas que tem assegurado que milhões de pessoas ascendam de modo mais pleno à cidadania. 

Dessa maneira, olhados os contornos dos dois projetos, seria possível reduzir o embate eleitoral apenas a um cotejamento de personalidades, como pretende Serra? Seria possível escamotear a existência de dois projetos distintos para o País? Não creio. O povo brasileiro, nas eleições presidenciais, tem votado em projetos, sem que naturalmente desconsidere as características individuais de cada candidato. Se um projeto está dando certo, se tem efetivamente melhorado a vida das maiorias, estas maiorias normalmente optam pela continuidade porque tem razões de sobra para tanto. Creio que o comando da campanha do PT sabe que não deve deixar o debate caminhar apenas para o terreno das personalidades, embora não possa deixar de tratar das tantas qualidades, dos tantos atributos de Dilma Roussef. 

Serra não poderá esconder o seu programa para o Brasil. E não poderá dizer que vai continuar o governo Lula. Se o fizer, joga água no moinho de Dilma. Afinal, entre a cópia e o original, o povo preferirá o original. E mesmo que o faça, não terá credibilidade para isso. Todo mundo reconhece nele a continuidade do governo FHC, com suas adaptações para a conjuntura em que vivemos. Não poderá tentar vestir a camisa do Estado forte, como chegou a propagar no lançamento de sua candidatura, quando se sabe que o ideário dele e de seu partido está profundamente vinculado ao Estado mínimo, com todas as suas consequências. Aquela afirmação, a do Estado forte, constitui uma vacina ao programa de Dilma que, aliás, foi violentamente atacada pela mídia ao defender a mesma idéia, aí com absoluta propriedade pelo fato de o governo Lula ter, nesses dois mandatos, se oposto à mitigação do papel do Estado, não ter privatizado nenhuma empresa estatal e ter fortalecido os serviços públicos. 

Serra, quando a sua equipe econômica falou à agência Reuters recentemente, deixou claro o quanto está comprometido com o programa neoliberal, ao contrário do que quer fazer parecer. Isso foi revelado em artigo de Emir Sader, publicado pela agência Carta Maior, em 6 de maio deste ano. Primeiro, ele faria um duro ajuste fiscal. Promoveria a renegociação de contratos e o corte de despesas públicas, conforme um receituário antigo do FMI. Serra é mais real do que o rei. Nem sei se o FMI, a essa altura, exigiria isso de um Brasil que tem lhe emprestado dinheiro. Seria o que os tucanos gostam de chamar de choque de gestão, sempre um choque que afeta duramente o povo, com trágicas conseqüências sociais. “As despesas da maquina pública estão sob um controle muito frouxo”, disse a fonte tucana à Reuters, que é critica também em relação ao que chama de aumento das despesas públicas. 

Diz ainda a mesma fonte, que o papel dos bancos públicos será “relativizado”, um claro recado ao mercado. Aí, Serra quer dizer que seguirá o mesmo receituário do governo de São Paulo, quando ele privatizou o Banespa, e colocou a Nossa Caixa à venda, essa, para sorte do povo, resgatada pelo Banco do Brasil. Na visão tucana, o fortalecimento dos bancos públicos contribuiria para “aumentar a pressão inflacionária”. Tudo, como se vê, de acordo com o receituário neoliberal. Imaginemos nós o que seria do Brasil face à crise econômica que começou em 2008 se não contássemos com os bancos públicos. 

Diz a fonte tucana que os bancos públicos “não precisam ter uma política tão protagonista neste pós-crise”. Ou seja, vamos privatizar os bancos públicos, já que não há mais crise. Se vier outra crise, e o capitalismo vive delas, bem, aí veremos o que fazer... E aí, quem sabe, fariam o mesmo que fizeram durante a gestão tucana, particularmente o desastre de 1998/99, quando quase faliram o País. Na entrevista, a fonte tucana, ecoando o pensamento serrista, diz que foram exagerados os estímulos fiscais dados pelo governo Lula durante a crise recente. “Não precisava dar para toda a linha branca e depois para os móveis”. Tucano acredita sempre que o mercado tem soluções mágicas para as crises. Tivesse, e o Estado, no mundo, não teria que intervir tão fortemente como teve de fazê-lo para fazer frente à crise. 

Se alguém quiser se enganar, que se engane. Não há dúvida: o PSDB tem um projeto claro para o Brasil. Serra é a continuidade de FHC, é a continuidade daquele projeto. As biografias individuais devem ser levadas em conta, naturalmente. E não deve haver qualquer receio de comparações. Afinal, a tentativa de pretender uma Dilma inexperiente, por exemplo, é de um primarismo completo. Ela tem uma longa vida política e administrativa. 

E Lula, antes, aliás, não havia ocupado nenhum cargo executivo, e se tornou o maior presidente da República que o Brasil teve. Essas comparações de biografias, no entanto, não podem nem devem ser o centro da campanha. O que temos de ressaltar é que há um projeto Lula – vamos chamar assim para efeito simbólico – com todas as suas extraordinárias e positivas conseqüências para o povo brasileiro, e um projeto Serra, neoliberal, o anti-Lula, cujo impacto negativo o Brasil conheceu e não gostou. O que está em jogo é se continua a revolução democrática em curso, ou se ela é estancada pelo projeto neoliberal, pelo anti-Lula. 

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Filosofia do Linchamento

FILOSOFIA DO LINCHAMENTO

Ao contrário do que afirmam histericamente lideranças da direita e a mídia brasileira, a mediação do Brasil e da Turquia para o encontro de uma solução pacífica para a questão nuclear iraniana é louvável. Fica difícil de mensurar se a reação ao acordo foi pior da parte dos Estados Unidos ou da mídia conservadora.

A agressividade de Madame Clinton deixou claro que Washington, pressionado pelo lobby sionista e pelo complexo industrial militar, não quer negociar coisa alguma, mas apenas enquadrar o Irã e tentar de todas as formas se intrometer em assuntos internos de um país soberano. A China e a Rússia contraditoriamente, uma vez que num primeiro momento apoiaram as gestões dos países emergentes, decidiram apoiar a proposta dos EUA no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

E como fica agora depois que a agência Reuters divulgou informação segundo a qual o Presidente Barack Obama 15 dias antes da assinatura do acordo tinha estimulado Lula a tentar a negociação? Será que Obama não manda e foi desautorizado por Madame Clinton, pelo complexo militar e pelo lobby sionista?

O papel subserviente da mídia conservadora é deveras lamentável. A TV Globo, por exemplo, foi ouvir em Israel um extremista de direita do governo Benyamin Netanyahu com tom ameaçador contra Teerã e entrevistou um cidadão israelense dizendo que ele era iraniano. O cidadão pode ter nascido no Irã, mas abdicou da nacionalidade iraniana para se tornar israelense e defender o ideário nacionalista de direita do sionismo, uma deturpação do judaísmo.

No noticiário da madrugada da Globo, seguindo a pauta do Departamento de Estado norte-americano foi convocado para desancar sobre Lula e Celso Amorim o “analista” Arnaldo Jabor, que com as suas gracinhas de sempre chegou a falar da “infiltração comunista” no Itamaraty. Lamentável e vale uma indagação: a quem o senhor Jabor está servindo? Os outros canais não foram diferentes no furor contra o acordo.

Editorial do jornal O Globo, em tom agressivo, com o título “Anatomia do fracasso da política externa”, não poupou Lula com o objetivo de incutir em seus leitores que o Presidente brasileiro deu “vexame”, como entenderam os articulistas do periódico. No mesmo dia, em matéria paga, um obscuro pastor, de uma obscura entidade pentecostal denominada Associação Vitória em Cristo, considerava o acordo Brasil-Irã “uma vergonha”. Os grupos pentecostais hoje na matriz EUA ou por aqui são radicais defensores do sionismo e defendem ações ainda mais violentas contra o Irã, em conformidade com os dirigentes israelenses que estão loucos por uma aventura bélica contra o Irã.

Voltando a O Globo, o furor do jornal de hoje contra Lula, Dilma Roussef, Hugo Chávez, Cristina Kirchner, Ahmadinejad, e o posicionamento histórico contra Raúl e Fidel Castro me fez recordar os anos 80, mais precisamente o primeiro governo de Leonel Brizola no Estado do Rio Janeiro.

Nesse sentido, o competente jornalista Pinheiro Júnior, ex-editor do caderno cidade de O Globo contou, em uma recente reunião do Conselho Deliberativo da ABI, que o então diretor de redação do referido jornal, Evandro Carlos de Andrade, cobrava diariamente dos jornalistas matéria contra Brizola. Pinheiro disse que a chefia de reportagem, conhecendo a política do jornal tomava providências para sempre haver notícias ou reportagens contra o governador do Estado do Rio, principalmente sobre os Cieps. Mas quando não havia nada, Evandro Carlos de Andrade não fazia por menos e deixava claro: “Te vira, arranja alguma coisa contra Brizola, porque o doutor Roberto (Marinho) quer”.

Entendo ser importante mencionar o fato, não só porque agora em junho fazem seis anos da morte de Brizola, como também porque a filosofia de O Globo não mudou. Uma semana antes da morte de Brizola, o diretor executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, culpava o político trabalhista pela violência no Rio.

Hoje, Brizola não está mais na pauta de O Globo, tendo sido substituído por Lula e demais líderes mundiais acima mencionados. Como resposta, as entidades da sociedade civil brasileira, ABI, OAB, Clube de Engenharia, para ficarmos em algumas, deveriam se empenhar, como foi sugerido aqui no Direto da Redação por Mair Pena Neto, em apresentar os nomes de Lula e do Primeiro-ministro turcoTyyiq Erdogan para o Prêmio Nobel da Paz. Seria uma forma de corrigir o que aconteceu o ano passado quando Barack Obama, hoje mais interessado na guerra (Iraque, Afeganistão e pressão contra o Irã) do que na paz propriamente dita, foi o premiado.

Em suma, quer queiram ou não Madame Clinton, as Organizações Globo e os grupos pentecostais, países emergentes como o Brasil e Turquia demonstraram na prática que através do diálogo e das negociações, a paz ainda é possível. Mas se prevalecer à vontade de Madame Clinton que representa os falcões, a paz ficará distante.

Ah, sim: todo cuidado é pouco, pois o Departamento de Estado pode querer colocar as mangas de fora contra o governo Lula em função do posicionamento brasileiro pela paz. Historicamente, sucessivos governos estadunidenses sempre agiram de forma golpista contra quem não aceita as suas exigências. 

domingo, 23 de maio de 2010

Os Estragos Que a Quadrilha Tucana Fez na Petrobrás

AMIGOS E AMIGAS, MESMO QUE VOCÊ AINDA TENHA UMA PARCELA DE SIMPATIA PELOS tucanos ATENHA-SE COM  UM POUCO DE PACIÊNCIA E VEJA A QUANTIDADE DE AÇÕES DESONESTAS, SAFADAS, BANDIDAS, CANALHAS, PRATICADAS PELA QUADRILHA COMANDADA PELO fhc  (aaarrgghhhhh!!!!)  CONTRA NOSSA MAIOR EMPRESA (SERÁ QUE AINDA É NOSSA?).    DESCULPEM-ME A FRANQUEZA E O DESABAFO.   NUM PAÍS SÉRIO ESSA CORJA TOMARIA, NO MÍNIMO, UMA PRISÃO PERPÉTUA.
SERÁ QUE É ISSO QUE VOCÊ DESEJA PARA O BRASIL, VOTANDO NESSE TAL DE SERRA, QUE A TUDO ACOMPANHOU, A TUDO PRESENCIOU, E NÃO DEU UM PIO CONTRA ESSES CRIMES.  SERÁ QUE PARTICIPOU TAMBÉM DA MAMATA?
POR FAVOR, LEIA COM ATENÇÃO E REFLITA.   INFELIZMENTE, OU FELIZMENTE, NÃO SEI,  LULA NADA REMEXEU NESSA PODRIDÃO, PROVAVELMENTE EM NOME DA GOVERNABILIDADE.  HOJE, PORÉM, ESTÁ NA HORA DE O PT DIVULGAR TUDO ISSO PARA A NAÇÃO. Um grande e perplexo abraço a todos.  Franklin.

REFORÇANDO:   SE VOCÊ TIVER ESTÔMAGO FORTE, LEIA ATÉ O FIM.
Tempos de fhc

FERNANDO SIQUEIRA: OS ESTRAGOS QUE FHC FEZ NA PETROBRÁS


Crimes sem castigo

por Fernando Siqueira, da Associação dos Engenheiros da Petrobrás

Aepet denuncia 10 estragos do governo FH na Petrobrás (DIVULGADO EM MAIO DE 2009)

Em reação às crescentes manifestações contra a chamada CPI da
Petrobrás, criada pela oposição ao governo Lula, o senador Sérgio
Guerra (PSDB-PE) disse que as críticas dos manifestantes vão "bater no
vento". "Não estamos atacando a Petrobrás, estamos defendendo a
empresa. Vamos atrás de gente que não merece estar nessa empresa. É
desnecessária a forma como se deu o discurso ofensivo contra o PSDB,
isso já compromete essa manifestação na sua origem", avaliou Guerra,
em matéria no Jornal do Brasil, dia 22.

Para refrescar a memória do senador e demais entusiastas da CPI,
Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da
Petrobrás (Aepet), selecionou "Dez estragos produzidos pelo governo
FHC no Sistema Petrobrás", que o jornal Hora do Povo publicou e o
Portal do Mundo do Trabalho reproduz a seguir.

"Estragos produzidos na Petrobrás, pelo governo FHC, visando desnacionalizá-la:

1993 - Como ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso fez um
corte de 52% no orçamento da Petrobrás, previsto para o ano de 1994,
sem nenhuma fundamentação ou justificativa técnica.

Ele teria inviabilizado a empresa se não tivesse estourado o escândalo
do Orçamento, fazendo com que se esquecessem da Petrobrás.

Todavia, isso causou um atraso de cerca de 6 meses na programação da
empresa, que teve de mobilizar as suas melhores equipes para rever e
repriorizar os projetos integrantes daquele orçamento.

1994 - Ainda como ministro da Fazenda, com a ajuda do diretor do
Departamento Nacional dos Combustíveis, Fernando Henrique manipulou a
estrutura de preços dos derivados do petróleo, de forma que, nos 6
últimos meses que antecederam o Plano Real, a Petrobrás teve aumentos
mensais, na sua parcela dos combustíveis, em valores 8% abaixo da
inflação. Por outro lado, o cartel internacional das distribuidoras de
derivados teve, nas suas parcelas, aumentos de 32% acima da inflação.

Isto significou uma transferência anual, permanente, de cerca de US$ 3
bilhões do faturamento da Petrobrás para o cartel dessas
distribuidoras.

A forma de fazer isso foi através dos dois aumentos mensais, que eram
concedidos aos derivados, pelo fato da Petrobrás comprar o petróleo em
dólares, no exterior, e vender no mercado, em moeda nacional. Havia
uma inflação alta e uma desvalorização diária da nossa moeda. Os dois
aumentos repunham parte das perdas que a Petrobrás sofria devido a
essa desvalorização.

Mais incrível: a Petrobrás vendia os derivados para o cartel e este,
além de pagá-la só 30 a 50 dias depois, ainda aplicava esses valores,
e o valor dos tributos retidos para posterior repasse ao Tesouro, no
mercado financeiro, obtendo daí vultosos ganhos financeiros, em face
da inflação galopante então presente. Quando o Plano Real começou a
ser implantado, com o objetivo de acabar com a inflação, o cartel
reivindicou uma parcela maior nos aumentos, porque iria perder aquele
duplo e absurdo lucro.

1995 - Em fevereiro, já como presidente, FHC proibiu a ida de
funcionários de estatais ao Congresso para prestar informações aos
parlamentares e ajudá-los a exercer seus mandatos com respaldo em
informações corretas.

Assim, os parlamentares ficaram reféns das manipulações da imprensa
comprometida. As informações dadas aos parlamentares no governo de
Itamar Franco, como dito acima, haviam impedido a revisão da
Constituição Federal com um claro viés neoliberal.

Fernando Henrique emitiu um decreto, nº 1403/95, que instituía um
órgão de inteligência, o SIAL, Serviço de Informação e Apoio
Legislativo, com o objetivo de espionar os funcionários de estatais
que fossem a Brasília falar com parlamentares. Se descobertos, seriam
demitidos.

Assim, tendo tempo de trabalho para me aposentar, solicitei a
aposentadoria e fui para Brasília por conta da Associação. Tendo
recursos bem menores que a Petrobrás (que, no governo Itamar Franco,
enviava 15 empregados semanalmente ao Congresso), eu só podia levar
mais um aposentado para ajudar no contato com os parlamentares. Um dos
nossos dirigentes, Argemiro Pertence, mudou-se para Brasília, às suas
expensas, para ajudar nesse trabalho.

Também em 1995, FHC deflagrou o contrato e a construção do Gasoduto
Bolívia-Brasil, que foi o pior contrato que a Petrobrás assinou em sua
história. FHC, como ministro da Fazenda do governo Itamar Franco,
funcionou como lobista em favor do gasoduto. Como presidente,
suspendeu 15 projetos de hidrelétricas em diversas fases, para tornar
o gasoduto irreversível. Este fato, mais tarde, acarretaria o "apagão"
no setor elétrico brasileiro.

As empresas estrangeiras, comandadas pela Enron e Repsol, donas das
reservas de gás na Bolívia, só tinham como mercado o Brasil. Mas a
construção do gasoduto era economicamente inviável. A taxa de retorno
era de 10% ao ano, enquanto o custo financeiro era de 12% ao ano. Por
isso, pressionaram o governo a determinar que a Petrobrás assumisse a
construção. A empresa foi obrigada a destinar recursos da Bacia de
Campos, onde a taxa de retorno era de 80%, para investir nesse
empreendimento.

O contrato foi ruim para o Brasil pelas seguintes razões: mudança da
matriz energética para pior, mais suja; ficar dependente de insumo
externo dominado por corporações internacionais, com o preço atrelado
ao do petróleo e valorada em moeda forte.

Foi ruim para a Bolívia, que só recebia 18% pela entrega de uma de
suas últimas riquezas, a mais significativa. Evo Morales elevou essa
participação para 80% (a média mundial de participação dos países
exportadores é de 84%) e todas as empresas aceitaram de bom grado.

E foi péssimo para a Petrobrás que, além de tudo, foi obrigada a
assinar uma cláusula de "Take or Pay", ou seja, comprando ou não a
quantidade contratada, ela pagaria por ela. Assim, por mais de 10
anos, pagou por cerca de 10 milhões de metros cúbicos, sem conseguir
vender o gás no mercado nacional.

Ainda em 1995, o governo, faltando com o compromisso assinado com a
categoria, levou os petroleiros à greve, com o firme propósito de
fragilizar o sindicalismo brasileiro e a sua resistência às
privatizações que pretendia fazer. Havia sido assinado um acordo de
aumento de salário de 13%, que foi cancelado sob a alegação de que o
presidente da Petrobrás não o havia assinado. Mas o acordo foi
assinado pelo então Ministro das Minas e Energia, Delcídio Amaral,
pelo representante do presidente da Petrobrás e pelo Ministro da
Fazenda, Ciro Gomes.

Além disso, o acordo foi assinado a partir de uma proposta apresentada
pelo presidente da Petrobrás. Enfim, foi deflagrada a greve, após
muita provocação, inclusive do Ministro do TST, Almir Pazzianoto, que
disse que os petroleiros estavam sendo feitos de palhaços. FHC
reprimiu a greve fortemente, com tropas do exército nas refinarias,
para acirrar os ânimos. Mas deixou as distribuidoras multinacionais de
gás e combustíveis sonegarem os produtos, pondo a culpa da escassez
nos petroleiros. No fim, elas levaram 28% de aumento, enquanto os
petroleiros perderam até o aumento de 13%, já pactuado e assinado.

Durante a greve, uma viatura da Rede Globo de Televisão foi apreendida
nas proximidades de uma refinaria, com explosivos, provavelmente
pretendendo uma ação de sabotagem que objetivava incriminar os
petroleiros. No balanço final da greve, que durou mais de 30 dias, o
TST estabeleceu uma multa pesada que inviabilizou a luta dos
sindicatos. Por ser o segundo maior e mais forte sindicato de
trabalhadores brasileiros, esse desfecho arrasador inibiu todos os
demais sindicatos do país a lutar por seus direitos. E muito menos por
qualquer causa em defesa da Soberania Nacional. Era a estratégia de
Fernando Henrique para obter caminho livre e sangrar gravemente o
patrimônio brasileiro.

1995 - O mesmo Fernando Henrique comandou o processo de mudança
constitucional para efetivar cinco alterações profundas na
Constituição Federal de 1988, na sua Ordem Econômica, incluindo a
quebra do Monopólio Estatal do Petróleo, através de pressões,
liberação de emendas, barganhas e chantagens com os parlamentares.

Manteve o presidente da Petrobrás, Joel Rennó, que, no governo Itamar
Franco, chegou a fazer carta ao Congresso Nacional defendendo a
manutenção do monopólio estatal do petróleo, mas que, no governo FHC,
passou a defensor empedernido da sua quebra.

AS CINCO MUDANÇAS CONSTITUCIONAIS PROMOVIDAS POR FHC:

1) Mudou o conceito de empresa nacional. A Constituição de 1988 havia
estabelecido uma distinção entre empresa brasileira de capital
nacional e empresa brasileira de capital estrangeiro. As empresas de
capital estrangeiro só poderiam explorar o subsolo brasileiro
(minérios) com até 49% das ações das companhias mineradoras. A mudança
enquadrou todas as empresas como brasileiras. A partir dessa mudança,
as estrangeiras passaram a poder possuir 100% das ações. Ou seja, foi
escancarado o subsolo brasileiro para as multinacionais, muito mais
poderosas financeiramente do que as empresas nacionais.

A Companhia Brasileira de Recursos Minerais havia estimado o
patrimônio de minérios estratégicos brasileiros em US$ 13 trilhões.
Apenas a companhia Vale do Rio Doce detinha direitos minerários de US$
3 trilhões. FHC vendeu essa companhia por um valor inferior a um
milésimo do valor real estimado.

2) Quebrou o monopólio da navegação de cabotagem, permitindo que
navios estrangeiros navegassem pelos rios brasileiros, transportando
os minérios sem qualquer controle.

3) Quebrou o monopólio das telecomunicações, para privatizar a
Telebrás por um preço abaixo da metade do que havia gasto na sua
melhoria nos últimos 3 anos, ao prepará-la para ser desnacionalizada.
Recebeu pagamento em títulos podres e privatizou um sistema
estratégico de transmissão de informações. Desmontou o Centro de
Pesquisas da empresa e abortou vários projetos estratégicos em
andamento, como capacitor ótico, fibra ótica e TV digital.

4) Quebrou o monopólio do gás canalizado e entregou a distribuição a
empresas estrangeiras. Um exemplo é a estratégica Companhia de Gás de
São Paulo, a COMGÁS, que foi vendida a preço vil para a British Gas e
para a Shell. Não deixou a Petrobrás participar do leilão através da
sua empresa distribuidora. Mais tarde, abriu parte do gasoduto
Bolívia-Brasil para essa empresa e para a Enron, com ambas pagando
menos da metade da tarifa paga pela Petrobrás, uma tarifa baseada na
construção do Gasoduto, enquanto que as outras pagam uma tarifa
baseada na taxa de ampliação.

5) Quebrou o Monopólio Estatal do Petróleo, através de uma emenda à
Constituição de 1988, retirando o parágrafo primeiro, elaborado pelo
diretor da AEPET, Guaracy Correa Porto, que estudava Direito e contou
com a ajuda de seus professores na elaboração. O parágrafo extinto era
uma salvaguarda que impedia que o governo cedesse o petróleo como
garantia da dívida externa do Brasil. FHC substituiu esse parágrafo
por outro, permitindo que as atividades de exploração, produção,
transporte, refino e importação fossem feitas por empresas estatais ou
privadas. Ou seja, o monopólio poderia ser executado por várias
empresas, mormente pelo cartel internacional.

1996 - Fernando Henrique enviou o Projeto de Lei que, sob as mesmas
manobras citadas, se transformou na Lei 9.478/97.

Esta Lei contém artigos conflitantes entre si e com a Constituição
Brasileira. Os artigos 3º, 4º e 21º, seguindo a Constituição,
estabelecem que as jazidas de petróleo e o produto da sua lavra, em
todo o território nacional (parte terrestre e marítima, incluído o mar
territorial de 200 milhas e a zona economicamente exclusiva) pertencem
à União Federal. Ocorre que, pelo seu artigo 26º - fruto da atuação do
lobby, sobre uma brecha deixada pelo Projeto de Lei de FHC - efetivou
a quebra do Monopólio, ferindo os artigos acima citados, além do
artigo 177 da Constituição Federal que, embora alterada, manteve o
monopólio da União sobre o petróleo. Esse artigo 26º confere a
propriedade do petróleo a quem o produzir.

"O PETRÓLEO AGORA É VOSSO"

1997 - Fernando Henrique criou a Agência Nacional do Petróleo e nomeou
o genro, David Zylberstajn, que havia se notabilizado como Secretário
de Minas e Energia do Estado de São Paulo, desnacionalizando várias
empresas de energia por preços irrisórios, inclusive a Eletropaulo,
vendida para a empresa americana AES que, para essa compra, lançou mão
de um empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) e não pagou.

Cabe salientar que, dos recursos do BNDES, 50% são originários do FAT
- Fundo de Amparo ao Trabalhador - e foram emprestados a empresas
estrangeiras para comprar empresas nacionais, que demitiram, em média,
30% dos trabalhadores. Ou seja, o FAT foi usado para desempregar os
trabalhadores.

Zylberstajn, no ato de sua posse, com o auditório cheio de empresas
estrangeiras ou de seus representantes, bradou: "O petróleo agora é
vosso".

Empossado, iniciou os leilões de áreas, já com alguma pesquisa feita
pela Petrobrás, com tal avidez entreguista que os blocos licitados
tinham áreas 220 vezes maiores do que a dos blocos licitados no Golfo
do México.

Zylberstajn, inicialmente, mandou que a Petrobrás escolhesse 10% das
áreas sedimentares, de possível ocorrência de hidrocarbonetos, nas 29
províncias onde ela já havia pesquisado, para continuar explorando por
mais 3 anos, quando, se não achasse petróleo, teria que devolvê-las à
ANP. Depois de 6 meses de exaustivos estudos, a Petrobrás escolheu as
áreas que queria.

Surpreendentemente, Zylberstajn, aproveitando que a atenção do país
estava voltada para a Copa do Mundo de futebol, em realização na
França, retomou 30% dessas áreas que a Petrobrás havia escolhido, sob
rigorosos critérios técnicos, pelos seus especialistas. Assim, a
Petrobrás passou a ter direito de explorar apenas 7% do total das
rochas sedimentares brasileiras. Esse prazo de 3 anos se mostrou
inviável e foi estendido para 5 anos. Nós publicamos informativos
mostrando que as multinacionais tinham 8 anos de prazo contra os 3 da
Petrobrás.

1998 - A Petrobrás é impedida pelo governo FHC de obter empréstimos no
exterior para tocar seus projetos - a juros de 6% a/a -, e de emitir
debêntures que visavam à obtenção de recursos para os seus
investimentos.

FHC cria o REPETRO, através do decreto 3161/98, que libera as empresas
estrangeiras do pagamento de impostos pelos seus produtos importados,
mas sem, contudo, dar a contrapartida às empresas nacionais. Isto,
somado à abertura do mercado nacional iniciada por Fernando Collor,
liquidou as 5.000 empresas fornecedoras de equipamentos para a
Petrobrás, gerando brutais desemprego e perda de tecnologias para o
País. Essas empresas haviam sido criadas através do repasse de
tecnologia que a Petrobrás gerava ou absorvia. A presença do
fornecedor nacional facilitava em muito a operação da empresa.

Ainda em 1998, seis empresas multinacionais (duas delas comandaram a
privatização da YPF Argentina - Merryl Linch e Gaffney Cline) passaram
a ocupar o 12º andar do prédio da Petrobrás (Edise) para examinar
minuciosamente todos os dados da Companhia, sob o argumento de que se
tratava de uma avaliação dos dados técnicos e econômicos necessários à
venda de ações da Empresa, em poder do governo.

Durante dois anos, essas empresas receberam todas as informações que
quiseram dos gerentes da Petrobrás, inclusive as mais confidenciais e
estratégicas, de todas as áreas. Reviraram as entranhas da Companhia,
de uma forma jamais realizada em qualquer empresa que aliene suas
ações.

1999 - Muda-se o estatuto da Petrobrás com três finalidades:

1) permitir que estrangeiros possam ser presidentes da empresa
(Philippe Reichstul)

2) permitir a venda de ações para estrangeiros;

3) retirar os diretores da empresa do Conselho de Administração,
colocando em seu lugar representantes do Sistema Financeiro
Internacional, como Jorge Gerdau Johannpeter (comandante do lobby para
a quebra do Monopólio), Roberto Heiss, Paulo Haddad e outros;

Reichstul inicia o mandato cancelando atabalhoadamente
(propositalmente?) o contrato da empresa Marítima - fornecimento de 6
plataformas para perfuração exploratória - um mês antes dela incorrer
numa grave inadimplência. O cancelamento salvou a Marítima de pesadas
multas e ainda deu a ela argumentos para processar a Petrobrás,
pedindo R$ 2 bilhões de indenização pelo incrível cancelamento. Ganhou
em primeira instância.

Reichstul viaja aos EUA com o ex-jogador Pelé e, juntos, fazem
propaganda do lançamento e venda de ações da Petrobrás em Wall Street;
o governo vende, então, 20% do capital total da Petrobrás, que estavam
em seu poder. Posteriormente, mais 16% foram vendidos pelo irrisório
valor total de US$ 5 bilhões.

Como a "Ação Direta de Inconstitucionalidade" da AEPET contra o artigo
26, já mencionado, assinada pelo governador Roberto Requião (Paraná),
foi derrubada, e a Petrobrás é dona das reservas, em detrimento da
União, esses acionistas incorporaram ao seu patrimônio um acervo de 10
bilhões de barris - 36% de 30 bilhões de barris nas mãos da Petrobrás
(incluindo 16 bilhões do pré-sal, já cubados) - os quais, pela
Constituição pertencem à União.

Como, agora, estamos no limiar do pico de produção mundial, o barril
de petróleo, em queda temporária, vai ultrapassar os US$ 100, esse
patrimônio transferido, gratuitamente, valerá mais de US$ 1 trilhão.
Considerando que já existiam no mercado cerca de 20% das ações em mãos
de testas de ferro, o governo, hoje, detém 54% das ações com direito a
voto, mas apenas 40% do capital total da Petrobrás (antes das
mudanças, o governo detinha 87% do capital total da Companhia).

O poder dos novos e felizardos acionistas de Wall Street os levam a
exigir da Petrobrás a quitação dos débitos que a Companhia tem com o
Fundo de Pensão (Petros), de preferência pelo menor preço possível.
Reichstul usa R$ 8 bilhões em títulos de longuíssimo prazo do governo
(NTN tipo B, recebidos na privatização das subsidiárias da Companhia -
prazos de 23 e 32 anos) e quita a dívida, financeiramente, mas não
atuarialmente, pelo valor de face dos títulos. A Petrobrás contabiliza
a saída dos títulos por R$ 1,8 bilhão e o Fundo de Pensão os recebe
por R$ 8 bilhões.

Reichstul dobra o salário dos gerentes da Petrobrás, amplia o número
deles, e lhes dá poderes ilimitados para contratar empresas e pessoas.
Ganha com isso o apoio para fazer todas as falcatruas que planejava.
Desmonta a competente equipe de planejamento da Petrobrás e contrata,
sem concorrência, a Arthur De Little, empresa americana, presidida
pelo seu amigo Paulo Absten, para comandar o planejamento estratégico
da Companhia.

Isto resulta numa série de desastres consecutivos. Entre eles, a
compra de ativos obsoletos na Argentina, na Bolívia e em outros
países. Os gerentes - cooptados - se fartam de contratar empresas e
pessoas, sem controle. A terceirização atinge o estrondoso absurdo de
120.000 contratados, com nepotismo e corrupção, enquanto os empregados
efetivos caem de 60.000 para cerca de 30.000, seguindo a estratégia
aplicada na Argentina, de enxugar para desnacionalizar. Abre-se acesso
às entranhas da empresa para pessoas alocadas por empreiteiras e
concorrentes estrangeiras.

Reichstul tenta mudar o nome da empresa para Petrobrax, para facilitar
a pronúncia dos futuros compradores estrangeiros. Causa uma reação de
indignação nacional e recua. Mas segue a sua meta desnacionalizante e
divide a empresa em 40 unidades de negócio, seguindo a proposta do
Credit Suisse First Boston, apresentada ao Governo Collor, para a
desnacionalização da Companhia. Pulveriza as equipes técnicas,
desmantelando a tecnologia da empresa e preparando para, através do
artigo 64 da Lei 9478/97, transformar cada unidade de negócio em
subsidiária e privatizá-las, como iniciou fazendo com a Refinaria do
Rio Grande do Sul, a Refap.

Essa privatização foi feita através de uma troca de ativos com a
Repsol Argentina (pertencente ao Banco Santander, braço do Royal
Scotland Bank Co), onde a Petrobrás deu ativos no valor de US$ 500
milhões - que avaliamos em US$ 2 bilhões - e recebeu ativos no valor
de US$ 500 milhões, os quais, dois dias depois, com a crise da
Argentina, passaram a valer US$ 170 milhões.

A avaliação dos ativos foi feita pelo banco Morgan Stanley, do qual
Francisco Gros era diretor, acumulando, desde o inicio da gestão
Reichstul, o cargo de membro do Conselho de Administração da
Petrobrás. Gros, segundo sua biografia publicada pela Fundação Getúlio
Vargas, veio para o Brasil, como diretor do Morgan Stanley, para
assessorar as multinacionais no processo de privatização. Através de
sindicalistas do Rio Grande do Sul, entramos com uma ação judicial na
qual ganhamos a liminar, cassada, mas que interrompeu esse processo de
desnacionalização.

A gestão Reichstul levou a empresa a um nível de acidentes sem
precedentes na sua história: 62 acidentes graves - em dois anos -
contra a série histórica de 17 acidentes em 23 anos (1975 a 1998),
segundo relatório publicado pelo Conselho Regional de Engenharia do
Estado do Paraná.

Nós pedimos investigação de sabotagem aos vários órgãos de segurança:
Polícia Federal, Marinha, Procuradoria Federal. Não investigaram, mas
os acidentes cessaram.

2001 - Reichstul, desgastado, dá lugar a Francisco Gros, que, ao
assumir a presidência da Petrobrás, num discurso em Houston, EUA,
declara que, na sua gestão, "a Petrobrás passará de estatal para
empresa privada, totalmente desnacionalizada".

Gros compra 51% da Pecom Argentina, por US$ 1,1 bilhão, embora a dita
empresa tenha declarado, publicamente, um déficit de US$ 1,5 bilhão;
cria um sistema para mascarar acidentes, nos quais os acidentados não
os possam reportar; tenta implantar um plano de Benefício Definido no
fundo de pensão - Petros.

Faz, ainda, um contrato de construção de duas plataformas com a
Halliburton, com uma negociação obscura, sem concorrentes, que
resulta, além de um emprego maciço de mão-de-obra estrangeira, em dois
atrasos superiores a um ano e meio. Esses atrasos fizeram com que,
pela primeira vez na história da empresa, houvesse uma queda de
produção, fato ocorrido em novembro de 2004. Apesar desses atrasos, a
Halliburton não pagou multa e ainda ganhou cerca de US$ 500 milhões
adicionais da Petrobrás, em tribunal americano.

Com a eleição de Lula para a presidência da República, antes da sua
posse, houve uma renegociação em massa dos contratos de serviço em
andamento, com novos prazos, superiores a 4 anos, de forma a criar uma
blindagem ao novo governo, impedindo as reanálises, renegociações ou
revogações dos contratos feitos sem concorrência, incluindo empresas
ligadas aos amigos de alguns gerentes do governo FHC."

Atualizado em ( 27/05/2009 )
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/fernando-siqueira-os-estragos-que-fhc-fez-na-petrobras/

sábado, 22 de maio de 2010

Os Interesses do Império e os Nossos

Os interesses do Império e os nossos
Mino Carta

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”. 
Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte. 

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante. 

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos. 

Não há entidade, instituição, setor, capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do que a nossa mídia. Desta nata, creme do creme, ela é, de resto, o rosto explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa, ou melhor, galopa. Tudo muda, ainda que nem sempre a galope. No entanto, o partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho, e se arma, compacto, diante daquilo que considera risco comum. Agora, contra a continuidade de Lula por meio de Dilma. 

Imaginemos o que teriam estampado os jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiáticas à fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira” Dilma, e não dele, o sequestrador? 

A pergunta é cabível, conquanto Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a aderir a uma luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo. Nada disso impede que a chamem de guerrilheira, quando não terrorista. Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de fato desempenhou, mas no sequestro esteve tão envolvido a ponto de alugar o apartamento onde o sequestrado ficaria aprisionado. E com os demais implicados foi desterrado pela ditadura. 

Por que não catalogá-lo, como se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo chamam os patrões de colegas. 

Até que ponto o fenômeno atual repete outros tantos do passado, ou, quem sabe, acrescenta uma pedra à construção do monumento? A verificar, no decorrer do período. Vale, contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação às pesquisas eleitorais. Os números do Vox Populi e da Sensus, a exibirem, na melhor das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos, somem das manchetes para ganhar algum modesto recanto das páginas internas. 

Recôndito espaço. Ao mesmo tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma política exterior independente em relação aos interesses do Império. Recomenda-se cuidado: a apelação vitoriosa ameaça vir das urnas. 

Ousadia Moral

De como exercer a ousadia moral

19/05/2010 - 23:13 | Enviado por: Mauro Santayana
Por Mauro Santayana

Velha teoria explica as guerras generalizadas como inevitável irritação da História: as situações envelhecem e se tornam insuportáveis, para estourar nos conflitos sangrentos. Alguns as veem como autorregeneração do mundo, ao contribuir para o equilíbrio demográfico. Outros a atribuem à centelha diabólica que dorme no coração dos homens e incendeia o ódio coletivo. O mundo finará sem que entendamos a fisiologia do absurdo. Para os humanistas, são repugnantes os massacres coletivos tanto como os assassinatos singulares.

De qualquer forma, a História tem como eixo a tensão permanente entre guerra e paz; entre a competição e o entendimento; entre o egoísmo que  se multiplica no racismo e a solidariedade internacional. Uma coisa é inegável: quando os mais fortes querem, não lhes faltam argumentos trôpegos para justificar a agressão. La Fontaine soube reduzir esse comportamento no diálogo entre o lobo e o cordeiro. Quando o lobo quer, os filhos são responsáveis por falsas culpas dos pais e as águas sobem os rios.

É interessante registrar, no episódio da questão do Irã, algumas dúvidas que assaltam o homem comum. A primeira delas – e devo essa observação a um amigo – é a do direito de os possuidores das armas atômicas decidirem quem pode e quem não pode desenvolver a tecnologia nuclear. Mais ainda, quando o árbitro maior é o governo do país que a usou criminosamente, ao arrasar, sem nenhuma razão tática ou estratégica, duas cidades inteiras e indefesas do Japão. Reduzidas as dimensões do absurdo, podemos aceitar como lícitas as associações criminosas, como as dos narcotraficantes dos morros. Possuidores de bom armamento, impõem sua lei às comunidades e constroem sua própria legislação, cobram tributos e exigem obediência, sob a ameaça dos fuzis e da tortura. Chegaremos assim a uma sociologia política, abonada indiretamente por Weber e outros, que admite todo poder de facto, sem discutir sua legitimidade ética.

O momento histórico é de grande oportunidade para a Humanidade – e de grande perigo, também. A República dos Estados Unidos é um lobo ferido em suas entranhas. Por mais disfarcem o choque, a eleição de Barack Hussein Obama lanhou as glândulas da tradição conservadora da Nova Inglaterra. A águia encolheu suas asas. A maioria dos estados e, neles, a maioria dos eleitores, decidiu por um homem mestiço, filho de pai negro e mãe branca, nascido em uma colônia dissimulada em estado, o Havaí; e que passou o período mais importante da formação, o da adolescência, na Ásia: na Indonésia muçulmana e no arquipélago em que nasceu.

No inconsciente coletivo, os Estados Unidos já sentem a decadência, que se acelerou com o neoliberalismo. Eles poderão administrá-la com inteligência, integrando-se em uma Humanidade que necessita, com urgência, de novos parâmetros e de nova tecnologia, capazes de preservar a natureza, hoje em acelerada erosão, ou entrar em desespero. Se entrarem em desespero, conduzirão o mundo a nova guerra, mas isso não parece provável, diante da crescente consciência antibélica de seu povo.

Por enquanto os falcões parecem contar com a Europa e com a China, no caso do Irã. Mas não há, nos horizontes movediços de hoje, país suficientemente forte, capaz de impor-se aos demais. A Europa desce a ladeira, com sua bolsa de euros de barro, e a União Europeia se encontra ameaçada de fragmentação. A China é uma nebulosa impenetrável. O capitalismo financeiro descolou-se de qualquer compromisso ético, se é que o teve um dia. O sistema se torna mais selvagem quando se vale dos instrumentos tecnológicos de operação universal e instantânea.

É nesse momento que a presença do Brasil começa a impor-se no cenário internacional. Não temos armas atômicas, não dispomos de exércitos  numerosos e bem equipados, mas somos chamados a manter o bom-senso, e manter o bom-senso é exercer a ousadia moral.

Digam o que disserem os quislings domésticos, o Brasil ganhou o respeito do mundo ao buscar a paz no Oriente Médio. Se contribuirmos para evitar o conflito, nosso será o mérito; se não houver o êxito, fica, na História, o testemunho de um esforço destemido e honrado – e não menos meritório.

Viva nos Política Externa!!!

Viva o Brasil! Viva nossa política externa soberana e independente!

Corvos, urubus, tucanos, todos torcendo contra uma negociação pacífica do conflito em torno do Irã, porque é Lula quem conduziu essas negociações, o que fortaleceria ainda mais sua imagem. Enquanto que um eventual fracasso, mesmo que levasse a um novo conflito bélico de proporções, contanto que pudesse ser explorado internamente em termos eleitorais, favoreceria a oposição, nos seus mesquinhos e desesperados cálculos eleitorais.

Não importa o destino do Oriente Médio, do mundo, contanto que Serra possa ter alguma esperança de se eleger. Eleger um candidato que disse que o Mercosul é uma “farsa”, que o Brasil fez “uma trapalhada” em Honduras, que o ingresso da Venezuela no Mercosul era “uma insensatez”, que “não convidaria o primeiro ministro do Irã para vir ao Brasil, nem iria ao Irã”.

Dane-se a paz no mundo, contanto que a candidata de Lula não siga sua curva ascendente, que a faz superar a seu candidato na pesquisa do Vox Populi. Dane-se a paz no Oriente Médio, contanto que se possa consignar alguma “gafe” de Lula na viagem ao Irã. Dane-se o mundo, contanto que os interesses da direita brasileira sejam preservados.

Essa visão estreita, provinciana, se choca abertamente com a importância do acordo conseguido e com suas repercussões internacionais. Ainda mais porque contradiz o ceticismo do governo norteamericano – Hillary mencionou o tamanho da montanha que Lula teria que escalar para conseguir o acordo e dos porta-vozes da militarização dos conflitos em escala mundial. Onde outros fracassaram ou apostaram que nem valia a pena buscar negociações, o Brasil triunfou.

O Brasil soube buscar aliados – Rússia, China, Turquia, França – para abrir um espaço de negociação política, que se revelou possível e correto. A posição brasileira de que os EUA – e outras potências – possuindo imensos arsenais nucleares, não tinham moral para buscar acordos que limitem a disseminação de armamento nuclear, abre caminho para outras iniciativas de paz.

Em Israel e na Palestina, Lula deixou claro que os EUA não são o bom negociador para a paz na região, tanto porque são parte integrante do conflito, ao definir a Israel como seu aliado estratégico, como porque fracassou ao longo do tempo, sem que se tenha obtido a concretização do acordo da ONU de garantir a existência de um Estado palestino nas mesmas condições do Estado israelense.

Faltava que a candidatura de Lula fosse lançada ao Prêmio Nobel da Paz, para que uma imensa grita se estendesse por aqui, para que esse merecido reconhecimento internacional não projetasse de vez o Brasil como um novo sujeito em negociações de paz, projetando-nos como país que contribui efetivamente para sairmos de um mundo unipolar, sob hegemonia imperial de uma única super potência e para a criação de um mundo multipolar.

Devemos sentir-nos orgulhosos da diplomacia brasileira e da política internacional do Brasil, da atuação de Lula e de Celso Amorim. Devemos lutar ainda mais para consolidar essas diretrizes da política exterior brasileira e contribuir para que ela não apenas prossiga, mas se estenda e ajude ainda mais a construir um mundo em que os conflitos não sejam mais objeto de intervenções militares, mas de negociações políticas, pacíficas, que respeitem o direito de todos, especialmente dos que, até aqui, foram oprimidos pelas potências que concentram os maiores arsenais do mundo e pretendem perpetuar seu domínio sobre uma ordem mundial injusta.
Postado por Emir Sader 

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Não Verás Lula Nenhum

LEANDRO FORTES

Não verás Lula nenhum
A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar a força histórica do momento. O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado. O artigo é de Leandro Fortes.
Leandro Fortes - Brasília, eu vi
Do blog Brasília, eu vi (Leandro Fortes)

Em linhas gerais, Luís Fernando Veríssimo disse, em artigo recente, que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de, no presente que se apresenta, um presidente da República tão popular como Luiz Inácio Lula da Silva ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira. Em suma, Veríssimo colocou em perspectiva histórica uma questão que, distante no tempo, contará com a vantagem de poder ser discutida a frio, mas nem por isso deixará de ser, talvez, o ponto de análise mais intrigante da vida política do Brasil da primeira década do século XXI.

A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar a força histórica do momento e suas conseqüências para a consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira.

O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponib ilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles.

Assim, enquanto a imprensa mundial se dedica a decodificar as engrenagens e circunstâncias que fizeram de Lula o mais importante líder mundial desse final de década, a imprensa brasileira se debate em como destituí-lo de toda glória, de reduzí-lo a um analfabeto funcional premiado pela sorte, a um manipulador de massas movido por programas de bolsas e incentivos, a um demagogo de fala mansa que esconde pretensões autoritárias disfarçadas, aqui e ali, de boas intenções populares. Tenta, portanto, converter a verdade atual em mentiras de registro, como se fosse possível enganar o futuro com notícias de jornal.

Destituídos de poder e credibilidade, os barões dessa mídia decadente e anciã se lançaram nessa missão suicida quando poderiam, simplesmente, ter se dedicado a fazer bom jornalismo, crítico e construtivo. Têm dinheiro e pessoal qualificado para tal. Ao invés disso, dedicaram-se a escrever para si mesmos, a se retroalimentar de preconceitos e maledicências, a pintarem o mundo a partir da imagem projetada pela classe média brasileira, uma gente quase que integralmente iletrada e apavorada, um exército de reginas duartes prestes a ter um ataque de nervos toda vez que um negro é admitido na universidade por meio de uma cota racial.

Ainda assim, paradoxalmente, uma massa beneficiada pelo crescimento econômico, mas escrava da própria indigência intelectual.

Os Males da Inveja

CARLOS CHAGAS
Os males da inveja
Desmoralizante,  mesmo, para o ex-presidente fhc, foi a sua piadinha referente ao sucesso do presidente Lula no plano internacional. Ao ouvir que o sucessor havia marcado um gol, o sociólogo indagou se não teria sido um gol feito em impedimento.
Há quem defina a inveja como o mais letal dos pecados  capitais. O ex-presidente não se conforma em ter sido superado em todos os planos, até na política externa, por um monoglota sem diploma universitário, ainda mais torneiro-mecânico.
Por essas e outras é que o candidato José Serra não quer a presença de fhc em sua campanha. Qualquer comparação de governos ser-lhe-á desfavorável.

HÉLIO FERNANDES
O Conselho de Segurança da ONU, (com apenas 5 países permanentes) ficou horrorizado com o diálogo protagonizado pelo Brasil, logicamente através do seu presidente. Tendo o Irã concordado em recomeçar as conversas, na mesma hora o Conselho aumentou as SANÇÕES, e de forma violenta.
Rússia e China, que não concordavam, foram “delicadamente” convencidos, recuaram. A China fez a ressalva tola, boba e alarmante: “O povo não pode sofrer com essas sanções”. Lá se foi a credibilidade que a China havia “conquistado” por intermédio do “trânsito comercial”, já que o mundo inteiro, hoje, depende da compra e venda da China.
Se a China perdeu a CREDIBILIDADE, os EUA e os que o apoiaram na invasão do Iraque, já não tinham nenhuma. Retumbaram através da mídia DEFENSORA DA LIBERDADE DE IMPRENSA, (Ha!Ha!Ha!) que guerreavam o país de Sadam (que acabou assassinado) porque estava produzindo armas nucleares.
Tudo completamente desmentido depois, pelo próprio presidente Bush, sem o menor constrangimento. E nada aconteceu com os EUA, como país, nem a Bush, como presidente.
***
PS – Ninguém, em qualquer parte do mundo, teve a coragem de denunciar: “A invasão do Iraque é mais uma GUERRA DO PETRÓLEO”.
PS2 – Dezenas de milhares morreram, outras dezenas nao têm mais vida nem país, mas os EUA continuam SOBERANOS, comBASES MILITARES espalhadas pelo mundo inteiro.
PS3 – Haja o que houver, digam o que disserem, foi a maior vitória do Brasil, (e logicamente do presidente Lula, não tenho a menor hesitação em afirmar isso) no plano internacional. Pode até ter sido por arrogãncia, excesso de culto a ele mesmo, mas Lula realizou o que nenhum presidente brasileiro fez em qualquer época.
PS4 – O fato do Brasil estar sendo atacado pelos órgãos de comunicação de todos os países, prova de forma insofismável: foi o maior triunfo externo da nossa História.
PS5 – No Iraque, sanções contra o petróleo. No Irã, sanções contra o PRESTÍGIO do Brasil. Nao podemos ter medo de exaltar Lula num episódio, com mais medo ainda de parecer SOLIDÁRIO a ele.
PS6 – A China, que estava CONQUISTANDO o mundo pela QUANTIDADE, não sabe o que fazer para recuperar a QUALIDADE. Teve medo de apoiar o Brasil

Acordo com o Irã

Clarissa Pont    clarissapont@sul21.com.br
O acordo firmado na presença dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Mahmoud Ahmadinejad, além do primeiro-ministro da Turquia, Tayyiq Erdogan, mexe muitas peças no tabuleiro da política internacional. Mais do que apenas uma mediação, o que está em jogo é a possibilidade da reconfiguração ampla de uma geografia que se desenha com mais força desde a crise financeira internacional de 2008. A formação de alianças fora dos eixos conhecidos, porém, parece surpreender a imprensa nacional, que noticiou durante toda esta terça-feira (18) que o mundo via com ceticismo a iniciativa brasileira. Ao mesmo tempo, os EUA pressionam o Conselho de Segurança da ONU, que ameaça punir o Irã com sanções.
O acordo assinado, diz o jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi, Breno Altman, é inclusive muito semelhante ao proposto em outubro do ano passado pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) ao Teerã, embora os iranianos tenham deixado o pacto na ocasião. Aquele acordo tinha, na época, a concordância dos Estados Unidos, Rússia e França. A própria Agência Internacional de Energia Atômica já calculara que a neutralização de 1,2 mil toneladas do minério seria o suficiente para anular qualquer projeto atômico de caráter militar.
As primeiras reações das peças, neste grande jogo de xadrez, foram cautelosas. A aposta era no fracasso da missão brasileira, não apenas pelo descrédito na sua fórmula, mas principalmente porque há interesses na continuidade do tensionamento com o Irã, em lugar da via não belicista e negociada.  O pacto colocaria em xeque seis meses de trabalho de Washington, que tratava de aprovar novas sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. A afirmação foi feita por três analistas especializados em questões iranianas à Agência Estado, depois da assinatura do pacto.
"Os EUA, seus aliados europeus, a China e a Rússia terão um grande problema pela frente. Depois do acordo, será muito difícil aprovar sanções", disse o professor Abbas Milani, diretor do Centro de Estudos Iranianos da Universidade Stanford e do Instituto Hoover. Segundo Gary Sick, professor da Universidade Columbia e ex-assessor da Casa Branca para questões iranianas, o acordo frustrou as iniciativas diplomáticas americanas com objetivo de aprovar sanções, que duraram quase seis meses. "Ficou complicado imaginar sanções neste momento", acrescentou o acadêmico Trita Parsi, que dirige Conselho Nacional Iraniano-Americano.
"A diplomacia do Brasil e da Turquia foi fundamental para ocorrer o acordo. Os brasileiros e os turcos conversaram mais com os iranianos do que todos os integrantes do sexteto juntos nos últimos meses", disse Parsi à Agência Estado, referindo-se aos cinco integrantes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha. Na visão dele, os iranianos confiam no Brasil, mas não nas grandes potências. Já a Turquia pesa por ser um rival regional que concordou em encontrar uma saída para o impasse sobre o programa nuclear iraniano.
O presidente francês Nicolas Sarkozy, em conversa com o presidente Lula sobre o assunto na Espanha, avaliou como um “um passo importante” o acordo fechado pelo Irã para a transferência de urânio para a Turquia. Em comunicado formal divulgado na Agência Brasil ainda ontem, o presidente Sarkozy elogiou os esforços brasileiros em busca de um desfecho pacífico. “O governo da França reconhece os esforços do presidente Lula em negociar um acordo com o Irã”, diz um trecho do comunicado. “A França vai transmitir [os termos do acordo] para o Grupo dos Seis [França, Itália, Estados Unidos, Japão, Alemanha e Inglaterra, os chamados países mais industrializados]”, diz outro trecho. Em Madri, na Espanha, Lula e Sarkozy se reuniram por cerca de 30 minutos. O encontro ocorreu no Instituto de Feiras de Madri, onde está sendo realizada a 6ª Cúpula União Europeia, América Latina e Caribe.
Na mesma terça-feira, o EUA apresentaram uma proposta de sanção ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. No entanto, o porta-voz da ONU, Marin Nesirky, disse que "qualquer esforço para resolver diferenças em uma via diplomática como a que o Brasil e a Turquia estão tentando com o Irã é claramente algo encorajador, no sentido de que é importante que haja discussões. Mas, a coisa mais importante é que já existem resoluções no Conselho de Segurança da ONU que precisam ser cumpridas", afirmou. Além da ONU, o acordo foi avaliado como um "passo potencialmente positivo", segundo o comandante-em-chefe da Otan na Europa, James Stavridis. "Acho que é um exemplo do que todos buscamos, um sistema diplomático que vise a um bom comportamento por parte do regime iraniano", afirmou o almirante Stavridis.
Belicismo versus diálogo
Neste novo tabuleiro mundial, as peças mais importantes do Brasil parecem mesmo ser o assessor da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurelio Garcia, e o Ministro das Relações Exteriores Celso Amorim. O assessor aproveitou o protagonismo brasileiro no acordo para reivindicar em Madri a participação do Brasil no grupo de países que têm liderado as negociações com o Irã, o chamado P5 + 1 (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, China, Rússia e Alemanha). Segundo Garcia, Brasil e Turquia fizeram mais do que os seis países do bloco nas recentes negociações sobre o programa nuclear iraniano. "Em linguagem de futebol, é um 5+1+2. Só que nesse time não tem atacante", disse.
Em entrevista à BBC Brasil, Marco Aurélio Garcia afirmou que a causa do ceticismo que domina parte da comunidade internacional é de países que “não querem que haja acordo. A minha impressão é que determinados países esperam que as sanções mudem a situação interna do Irã. É uma hipótese profundamente equivocada”, acrescentou o assessor. “Se as sanções fossem votadas, a Rússia iria votar uma sanção deste 'tamanhozinho”, disse com os dedos indicador e polegar quase juntos. “A China não fala, mas sabemos que iria também nessa direção”, apontou, citando dois dos cinco integrantes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas – que conta também com os Estados Unidos, França e Inglaterra. "Se os Estados Unidos optarem pela sanção, vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política. Cabe a eles decidirem se querem ou não um new deal com o Irã", afirmou à Agência Estado.
Agora, a movimentação de peças no tabuleiro deve acontecer na próxima semana, e com cautela. Pelo acordo, o documento firmado para a transferência de urânio tem que ser submetido à análise da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) e do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Também vão avaliar o informe a Alemanha e o Japão. A ideia é depositar o urânio na Turquia e há possibilidade de utilizar tecnologia russa e francesa para o enriquecimento do produto. O Conselho ainda vai definir se haverá sanções contra o Irã, o que depende do voto favorável de todos os seus integrantes.