segunda-feira, 26 de abril de 2010

HELIO FERNANDES E CARLOS CHAGAS

HELIO FERNANDES

José Serra: “Me preparei a vida toda para ser presidente”. Que se prepare agora para a segunda derrota e frustração. Pena que a única opção seja Dona Dilma

Com financiamento público de campanha, um candidato poderia aparecer na capa de uma revista nacional? (Embora ficando nas bancas cada vez mais tempo?). E além de fazer uma afirmação como essa, ainda surge com um decálogo que não identificaria nem o candidato a prefeito do município de Haraquiri.
Esses 10 itens que o ex-governador de São Paulo apresenta como alicerces dos seus palanques, são tão primários e primitivos, que não serão derrubados pelo cidadão-contribuinte-eleitor, pela razão muito simples e elementar, de que não existem.
Se José Serra cumprir isso que chama de decálogo, não terá executado o que podemos calcular como 0,00001 do que o país precisa, espera e necessita.
Esses pontos que Serra apresenta como cumprimento de idéias de um homem que “se preparou a vida inteira para ser presidente”, são ridículos, decepcionantes e até mesmo revoltantes.
Não quero repetir as tolices ou bobagens alinhavadas por ele, mas não posso deixar de me estarrecer com o que foi apresentado. No decálogo de José Serra, nenhuma ideia esperançosa, fica longe de projetos, compromissos, promessas. O que esperar de um homem que “se preparou a vida inteira para ser presidente”, e coloca como prioridade, GOVERNAR DESDE O PRIMEIRO DIA? Como ele não cumpriu o mandato de prefeito e de governador, deveria exigir de si mesmo o CUMPRIMENTO DO MANDATO inteiro.
Depois aparece com a idéia de que DEVE FORMAR UMA BOA EQUIPE? Ha!Ha!Ha! O que se espera de um presidente, que forme uma PÉSSIMA EQUIPE? O máximo de caminho que percorreu, não devia estar em nenhum mapa, ou melhor, deveria estar em todos: “GASTAR O DINHEIRO PÚBLICO COM AUSTERIDADE”. Isso é ÉTICA ou LAMENTO?
O resto é tão sem planejamento, tão sem profundidade, tão superficial, que deixo soterrado na mente e no coração do próprio José Serra. Nada fundamental para o desenvolvimento nacional. Os grandes problemas não mereceram um item sequer, nesses 10 que deixam ver e entrever a total incapacidade.
Infraestrutura, desenvolvimento, a rotina sempre abandonada de Educação, Saúde, Transporte, Habitação, até chegar aos grandes desafios da inflação, juros, e principalmente da DÍVIDA. Que a partir de janeiro de 201, precisará, no mínimo, no mínimo, de 200 BILHÕES ANUAIS, não para PAGÁ-LA e sim para AMORTIZÁ-LA.
Seu intimíssimo amigo FHC elevou esses juros a 44 por cento, transferiu para Lula em 25 por cento. Este deixará em 10 ou 11 por cento, também no mínimo.
***
PS – Que opção para o cidadão-contribuinte-eleitor. Tem que escolher entre a dona do PAC, que não saiu do papel, e o repetente de São Paulo, que não tem nada a oferecer para justificar o próprio papel.
PS2 – Em 2002 me fartei de dizer: “Serra não ganha agora e jamais será presidente”.
PS3 – Agora posso dizer o mesmo com a atualização do tempo: “Serra não ganha na segunda tentativa e jamais será presidente”.
PS4 – Podem me perguntar, já respondo antecipadamente que não sei quem será o presidente. Se são apenas dois candidatos, e não acredito em nenhum deles, o que acontecerá?
PS5 – Surgirá alguma coisa que não prevista ou presumível? Ou os fatos confirmarão que o risco é total para qualquer analista, não acreditar em dois candidatos quando são apenas dois.


CARLOS CHAGAS

“Quem defende essa porcaria de governo?”

Carlos Chagas


Mais do que famosas, estão ficando perigosas as sessões das manhãs de sexta-feira, no Senado. Famosas por popularizarem os senadores que as freqüentam habitualmente, liderados pelo Mão Santa. E perigosas para o governo, metralhado todas as semanas com invulgar poder de fogo de seus adversários, sem que apareça um único líder ou simples companheiro para fazer o  contra-ponto.
Na última sexta-feira o singular representante do Piauí, sempre na presidência dos trabalhos, chegou a uma exortação mesclada de provocação. Depois de Pedro Simon, Cristóvan Buarque, Mozarildo Cavalcanti e outros desancarem o Executivo e a equipe econômica,  denunciando e cobrando providências  variadas, indagou  o Mão Santa: “Quem vem defender essa porcaria de governo, aqui no plenário?”
Ninguém se apresentou, porque não havia  ninguém das bancadas oficiais, como acontece há anos. A estratégia do PT e aliados é de ignorar essas sessões, fingindo que não existem   e não tem importância  pelo fato de não serem deliberativas.
Ledo engano, porque a TV Senado envia suas imagens para todo o país, liderando os índices de audiência e superando os desenhos animados, os  programas infantis de auditório e as pregações de   bispos e pastores ávidos pelas  contribuições financeiras de seus rebanhos.
Por exemplo: não apareceu um único senador governista para rebater a acusação de Simon contra a farra dos Fundos de Pensão,  uma excrescência que coloca bilhões de reais à disposição dos detentores do poder para aplicação onde bem entendam, ou seja, em empresas descapitalizadas e em projetos duvidosos, por simples ato de vontade. Desde as privatizações dos tempos de Fernando Henrique até a formação do consórcio para a construção da usina de Belo Monte, os governos jogam com as economias  de funcionários da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e de outras estatais como se fosse dinheiro da sogra.
O escândalo da impunidade também  é tema permanente dos pronunciamentos do representante do Rio Grande do Sul, assim como o descaso das autoridades diante da infância e da juventude  tornou-se tecla acionada permanentemente por Cristóvan Buarque. Ainda agora ele lembrou a existência das  Secretarias   da Mulher, da Igualdade Racial, a promessa da criação da Secretaria dos Deficientes Físicos, mas nenhuma sugestão para o Ministério da Criança.
Em suma, o governo come mosca em não se defender de críticas pontuais e necessárias, como se os freqüentadores das sessões de sexta-feira fossem fantasmas desimportantes e inócuos. Só que as eleições vem aí…

Audácia cautelosa

As assessorias dos dois principais candidatos à presidência da República arrancam os cabelos para definir a linha que deverão seguir até a abertura formal das campanhas, em julho. Uns recomendam audácia, ou seja, José Serra e Dilma Rousseff deveriam aumentar o diapasão de suas críticas e agressões, ainda que em sentido contrário. Outros sugerem cautela, isto é, que evitem caneladas e dediquem seu tempo à análise  e à apresentação de soluções para problemas que infernizam a população, todos os dias.
O resultado está sendo  singular. Empenham-se, Serra e Dilma, numa estratégia contraditória, capaz de ser definida como audácia cautelosa. Algo parecido com timidez agressiva ou agressão tímida.

Candidata da estagnação

Por enquanto, pelo menos, Marina Silva não incomoda, recebendo por isso elogios e simpáticas referências por parte dos dois candidatos que lideram as pesquisas. Tanto José Serra quanto Dilma Rousseff andam de olhos nos 10% da concorrente ambientalista, capazes de fazer a diferença no segundo turno. Em espacial agora que Ciro Gomes foi defenestrado, com certa vantagem para Serra tornar-se o principal  herdeiro de sua votação.
Há nos arsenais dos tucanos e companheiros, porém, munição suficiente para detonar a indicada pelo Partido Verde, caso ela venha a surpreender. E por ironia, equivalem-se os petardos. Nas duas campanhas a estratégia para detonar Marina está nas suas virtudes, não nos seus erros. A senadora tem-se pronunciado sistematicamente contra obras necessárias ao desenvolvimento, ainda que prejudiciais à ecologia, como o asfaltamento da rodovia que liga Manaus a Porto Velho e, agora, a implantação da hidrelétrica de Belo Monte. Por maiores danos  ambientais que essas e outras realizações possam causar, significam o progresso, a criação de empregos e oportunidades, bem como a ocupação de áreas abandonadas. Esses, pelo menos, são os argumentos em condições de ser utilizados, se necessário…
Agora ou nunca
Já sob o comando do ministro Cézar Peluso, o Supremo Tribunal Federal tem pela frente questão imediata, que se for protelada dissolverá como sorvete no sol as derradeiras esperanças de recuperação ética de Brasília. Trata-se da intervenção federal, solicitada e reforçada pelo procurador-geral da República. A eleição de um governador-tampão, semana passada, só fez aumentar os índices de frustração do povo do Distrito Federal.
Primeiro porque quem elegeu Rogério Rosso foram os trambiqueiros flagrados recebendo dinheiro podre. Depois porque,  com todo o respeito, o novo governador não inspira confiança: serviu a Joaquim Roriz e a José Roberto Arruda, mantendo até agora os mesmos personagens desses dois governos envolvidos na corrupção.  O presidente Lula torce pela rejeição do pedido de intervenção, mas não se furtará em indicar um interventor capaz de substituir até 31 de dezembro os poderes Executivo e Legislativo locais. Alguém capaz de desviar algum rio e limpar as cavalariças do rei Áugias…

O POVO NÃO é BOBO

Vejam o que diz Hélio Fernandes, uma testemunha da história, sobre Armando Nogueira/Rede Globo/Proconsult. Quem conhce a história pode evitar que ela se repita; quem não a conhece será, no mínimo, uma vítima. Martinho 

No caso Proconsult, via Embratel, Armando Nogueira tentou convencer Brizola: “Eu estava em São Paulo, não tive nada a ver com isso” Muitos dos que acompanham este blog mandaram mensagens pedindo que opinasse sobre Armando Nogueira, em meio ao lamentável festival de lamentos e lamentações, que inundou, abastardou e desonrou a imprensa brasileira. Minha resposta foi simplesmente relatar fatos que envolveram esse “festejado” jornalista, ao qual, já disse aqui, dei seu primeiro emprego, como repórter esportivo no Diário Carioca.
E não há réplica quando se trata de fatos, como fica mais do que demonstrado, porque até agora nenhum “admirador” de Armando Nogueira enviou mensagem a este blog negando as verdades que tenho revelado, ao recordar apenas dois acontecimentos que, por si só, denegririam a carreira de qualquer jornalista. Leiam os comentários e tirem suas conclusões.
Como todos deveriam lembrar (especialmente os profissionais das outras organizações jornalísticas espalhadas pelo Brasil, já que a Globo não tem o menor interesse em reviver os escândalos em que esteve envolvida), em 1982 tivemos o caso Proconsult, uma farsa com participação ativa, decisiva e definitiva da Central de Jornalismo da TV Globo, da qual era diretor o próprio Armando Nogueira. Era um golpe monumental e extremamente audacioso, armado para fraudar a contagem de votos e tirar a vitória de Brizola.
O que a Globo e seus cúmplices (quais seriam?) não sabiam é que o policiamento das atividades da empresa Proconsult (contratada pela Justiça Eleitoral para fazer a “computação” dos votos) estaria a cargo de um delegado impar, inatacável e incorruptível. (Detalhe: esse fato também é rigorosamente verdadeiro e jamais foi revelado por nenhum dos “jornalões”. Tanto tempo depois, estou passando essa informação em absoluta primeira mão. É um fato nunca dantes revelado).
Esse delegado chama-se Manoel Vidal, um nome que honra a Polícia Civil do Estado do Rio. Sua carreira é sem igual. Foi o corregedor mais rigoroso que a Polícia já teve, afastou e processou uma quantidade enorme de policiais corruptos, inclusive delegados, fazendo a corporação “cortar a própria carne”. Depois, ocupou a Chefia de Policia, realizando uma administração exemplar.
Pois bem, ao comandar o policiamento na Proconsult, Dr. Vidal (doutor mesmo, não é “doutor” como Roberto Marinho) percebeu que havia algo estranho, muito estranho. Não demorou a perceber que estava num covil de lobos, disfarçados de cordeiros (um posicionamento que se encaixa na biografia de Armando Nogueira). Imediatamente, Dr. Vidal alertou o delegado Arnaldo Campana, muito ligado a Brizola, que contatou e alertou o candidato do PDT. (Repito, tudo isso é rigorosamente verdadeiro e esses pormenores até hoje jamais haviam sido revelados em nenhum outro veículo de comunicação).
Ao mesmo tempo, a apuração paralela montada pela Organização Jornal do Brasil e comandada por Paulo Henrique Amorim e Pedro do Coutto (nosso colega na Tribuna impressa e aqui no blog) não batia com os números divulgados pela TV Globo.
Ao ver que a vitória, garantidíssima nas urnas, estava sendo ardilosa, escandalosa e criminosamente arrancada de suas mãos, Brizola não titubeou, que palavra. Sem apoio da imprensa nacional (essa mesma imprensa que hoje tanto louva um personagem como Armando Nogueira), procurou os correspondentes estrangeiros e lhes concedeu uma explosiva entrevista.
Houve então o escândalo internacional, que destruiu a farsa e a fraude. Os carros da Organização Globo eram apedrejados nas ruas, uma vergonha imensurável. Gritava-se: “O POVO NÃO É BOBO, ABAIXO A REDE GLOBO”.
Como dizia Maysa Matarazzo, “meu mundo caiu”: a imagem da Globo desabou, levando junto com ela a trama e golpe armado contra Brizola. Seus votos enfim começaram a aparecer na TV Globo, a batalha estava ganha.
No desespero, o que fez Armando Nogueira? Mandou convidar Brizola para uma entrevista ao vivo na TV Globo e dela participou, não de corpo presente, mas através de um “telão”. Estrategicamente, Armando estava em São Paulo, para onde fugira quando o escândalo veio a público. E o que fez na entrevista? (LEIA ABAIXO, NA ÍNTEGRA) Armando simplesmente tentou “convencer” e “comover” Brizola, defendendo a lisura “dos 2 mil jornalistas da TV Globo”) e pedindo-lhe para “desagravar” a emissora. Brizola foi discreto e polido, mas não fez desagravo algum, não retirou nenhuma das acusações que fizera aos jornalistas estrangeiros.
Alguém foi punido? De onde surgiu a Proconsult? Quem a contratou? Quais foram os responsáveis pela trama Proconsult-Globo? Como diria Érico Veríssimo, “o resto é silêncio”.
Armando Nogueira perdeu o prestígio, mas não perdeu a pose. Já não mandava mais nada na TV Globo. Ficou encostado, para alguma eventualidade. e Roberto Marinho “importou” Alberico Souza Cruz, que era diretor de jornalismo da emissora em Minas Gerais e veio fazer no Rio uma dobradinha com o então diretor de telejornais de rede, Woile Guimarães.
O tempo passou, mas nada mudou. Em 1989, Armando Nogueira (ele, sempre ele) e Alberico Sousa Cruz estiveram no centro da polêmica sobre a edição do debate entre os candidatos à Presidência, Collor e Lula. A tristemente “famosa” edição do debate foi ao ar no Jornal Nacional no dia 15 de dezembro, antevéspera do segundo turno das eleições. A TV Globo claramente manipulou o resumo do debate a favor de Collor, mostrando os melhores momentos do candidato e os piores de Lula. Alberico Sousa Cruz sempre negou ter participado do episódio. Será? O testemunho do jornalista Marcos Vinicius (que era editor de Economia da TV Globo na época), em comentário postado ontem à noite na matéria Assessor de Lula rebate “críticas sobre apoio do Brasil a Cuba, mostra exatamente o contrário. E Armando Nogueira, que então era chefe de Alberico, não sabia de nada? Ha!Ha!Ha!
Poucas semanas depois, logo após a posse de Collor, bem no começo de 1990, quando o assunto já “começara a esfriar”, Armando Nogueira foi demitido e Alberico Souza Cruz assumiu o lugar dele como diretor da TV Globo.
A elegante, educada e até espirituosa
entrevista de Brizola a Armando Nogueira, depois
de ter abortado a fraude da Globo/Proconsult
Segue agora o trecho principal da entrevista de Brizola à TV Globo, em 1982, depois do então candidato do PDT ao governo do Rio ter denunciado o chamado golpe da Proconsult, articulado com participação da Organização Globo para fraudar o resultado das urnas.
A entrevista foi feita pelos jornalistas Paulo César de Araújo e André Gustavo Stumpf, com participação “muito especial” de Armando Nogueira, que não teve coragem de encarar Brizola de frente e se refugiou em São Paulo, de onde apareceu no vídeo via Embratel, como se dizia antigamente (era como se o agora “genial” Armando Nogueira estivesse dizendo a Brizola: “Eu estava em São Paulo, não tive nada a ver com isso”). E o que Armando Nogueira, diretor da Central Globo de Jornalismo, estava fazendo em São Paulo, numa importantíssima eleição, quando na época todo o jornalismo de cobertura nacional da Rede Globo estava concentrado no Rio?
Paulo César de Araújo - Um momentinho só, porque agora nós vamos aos nossos estúdios, em São Paulo, onde o nosso companheiro Armando Nogueira tem uma pergunta a fazer ao senhor (Brizola)…
Leonel BrizolaCom muito prazer!…
Paulo César de Araújo – Pois não, Armando…
Armando Nogueira – Boa noite, governador!

Leonel Brizola –
Boa noite!…
Armando Nogueira – Estamos acompanhando aqui a sua entrevista, com natural interesse, e a certa altura pareceu que o senhor ficou preocupado, em dado momento da apuração, com a correção do trabalho dos profissionais da Rede Globo, entre os quais eu figuro, humildemente, mas com muito orgulho. E eu perguntaria ao senhor, governador, se é justo que profissionais com um passado, alguns com um futuro, quase todos com um futuro, devam merecer, numa hora de paixão, um tratamento tão rigoroso da parte de um homem público, por parte de quem a gente tem um apreço. Eu gostaria de fazer esta pergunta, que ela é quase pessoal. O senhor me desculpe introduzir uma pergunta pessoal, mas em nome de cerca de dois mil jornalistas… E eu me sinto no dever de fazer essa pergunta ao senhor…

Leonel Brizola -
Perfeito. Com muito carinho, com muito prazer, Armando. Sabe que eu dou essa resposta com aquela franqueza que me caracteriza – não é verdade? E nós devemos sempre usar esse método da franqueza, da lealdade. Eu registrei o que era real. Eu não cheguei a entrar no mérito. Eu não cheguei, de forma nenhuma, a considerar que tivesse havido má fé… Não cheguei, absolutamente. Eu registrei uma situação real existente aqui no Rio de Janeiro e também os meus próprios sentimentos. Porque eu senti o nosso Rio, no conjunto, desmerecido. Chegava a ser anunciado: “Olha, logo em seguida, vem o Rio de Janeiro!” E depois vinha o Acre, vinha Rondônia, e nada… Então, eu registrei isto: é que faltava essa informação. Agora, pode ser que tenha entupido… os canais tenham se entupido aí. Havia dificuldades… Porque numa organização grande é assim, às vezes o gigantismo‚ uma doença das organizações. Isto pode acontecer, isto pode ocorrer. Isto sem desmerecer os profissionais., não é verdade? Muitas vezes, grandes médicos vão fazer uma operação e o doente morre. Quer dizer, eu registro o fato, apenas, sem fazer nenhum desmerecimento. E o faço com lealdade, com espírito limpo. E, querendo com isso, que retiremos lições deste fato, porque isto incentivou a muitas coisas, no Rio de Janeiro, desagradáveis. E que nos levou a um trabalho intenso. Eu próprio, daqui, neste momento, Armando, a mensagem que eu dirijo, a todos quantos me ouvem, com a consideração da minha palavra, de uma mensagem minha, que se mantenham tranqüilos, mantenham-se calmos, cabeça fria. A nossa fiscalização não deve se atritar com ninguém; ao contrário, agir com eficiência, agir com uma atenção especial… Vamos trabalhar, no sentido de que a verdade eleitoral flua e surja, seja qual for. E perante ela nós temos que nos curvamos. Lutar, cuidar, para evitar as fraudes, evitar qualquer irregularidade. Vamos honrar a justiça, vamos respeitar, vamos considerar. Fazer com que a justiça paire acima de qualquer suspeita, seja prestigiada. Se não tivermos uma justiça prestigiada, não temos ordem jurídica, não temos democracia, não temos nada; muito menos a verdade eleitoral. Quer dizer. não tome esses meus comentários, Armando, como uma desconsideração, como um desmerecimento aos profissionais. Ao contrário, eu até fiquei admirado como é que um conjunto, uma equipe extraordinária de profissionais, como são vocês todos, pudesse entrar nesse descompasso que houve. E tanto que gerou esse estado de espírito. Mas, felizmente, eu acho que tudo está retomando, compreendeu, aos seus níveis normais. Eu fiquei aqui muito honrado de ouvir essa projeção final, que está canalizando no sentido de um reconhecimento da possibilidade de que a maioria eleitoral se estabeleça em torno de meu nome. Como veria também, se a verdade fosse outra. De modo que não tem nenhum sentido… Eu quero que o amigo Armando Nogueira considere que não há nenhum conteúdo de desmerecimento a vocês todos, que certamente estão trabalhando muitíssimo, no cumprimento dessa nobre tarefa.
Armando Nogueira – Pois é, governador, eu gostaria que o senhor, já neste estado de espirito de compreensão, o senhor aproveitasse a oportunidade para, ao desagravar a Rede Globo, desagravar também de certa maneira o Tribunal Regional Eleitoral. Porque, o senhor sabe, que, fosse qual fosse a discrepância dos números, jamais os magistrados da Justiça Eleitoral iam se deixar perturbar por uma manipulação. Eu sei o que é a Justiça Eleitoral… E o senhor sabe também, porque o senhor exaltou essa retidão da Justiça Eleitoral, ao longo de toda a campanha, e o senhor sabe perfeitamente que os números que estão chegando agora – eles estão chegando porque eles correm um ritmo normal e não o delírio, governador. Nós não entramos no delírio dos números. Aqui, em São Paulo, também, no primeiro dia, nós ficamos aquém, mas quisemos ficar aquém da fantasia, para ficar de acordo com a realidade, governador. Eu peço licença para não importunar mais a sua entrevista. Vou continuar, como telespectador. Muito obrigado.
Leonel Brizola - Não, mas pode crer que foi uma satisfação muito grande contar com a sua participação, sobretudo uma honra maior ainda. Mas eu gostaria de dizer o seguinte: que, agora, sim, nós discordamos. Em primeiro lugar, nunca, em nenhum momento, tanto eu quanto o PDT, pusemos em dúvida a lisura da Justiça Eleitoral. Ao contrário, nós trabalhamos para que ela fosse respeitada na campanha eleitoral. E (ela) foi muito desconsiderada, principalmente por parte do candidato do governo e a sua campanha. E muitos outros setores, que desconsideraram reiteradamente a Justiça Eleitoral. De modo que eu não tenho nada que desagravar a Justiça Eleitoral, Armando. Ao contrário, o meu primeiro passo como candidato foi visitar a Justiça Eleitoral e prestigiá-la. Eu tenho uma tradição de prestígio e de acatamento ao Poder Judiciário. Agora, a minha referência sobre uma possibilidade de fraude não se refere aos juízes; se refere a este submundo que passou a se mover, em função desta confusão que se criou aqui. Porque nós temos indícios muito concretos a este respeito. Então, isto pode se passar, independentemente do cuidado do zelo dos juizes. E depois constatar essas providências é muito difícil. Nas minhas críticas – porque, na verdade, é crítica mesmo, no bom sentido, no sentido elevado. Não tem nada com exaltação, me desculpe, Armando. Pelo contrário, a cabeça aqui, oh… quando começa a adquirir uma temperaturazinha, eu boto na geladeira. Cabeça fria, a minha… Mas como é que eu posso me conformar que vocês computem a toda hora urnas do interior e deixem as urnas da cidade, aqui?… Custa muito mais uma viagem – me desculpe, lá de Campos, lá de Bom Jesus, lá  de Itaperuna, do que uma corrida de automóvel ali em Bonsucesso, ali na Baixada. E isso foi ficando para trás. E eu acho que era uma idéia parelha do resultado das eleições. Isso se foi – alguém teve a intenção de esvaziar, enfim, a projeção dos resultados do Rio de Janeiro, cometeu um erro. Porque, ao contrário, isso vai dar um refluxo, porque agora toda a Nação está acompanhando o que está ocorrendo no Rio de Janeiro. Mas, enfim, Armando, olha, com toda a franqueza, pode crer que, em mim, não existe mais nenhuma restrição a esse respeito. Sempre para mim, do passado recente, remoto, eu colho dele lições. Eu acho que essa é a grande conduta para qualquer um de nós. Pode crer que, assumindo essas responsabilidades de governo, no Rio de Janeiro, nós vamos ter de trabalhar juntos. Nós vamos ser companheiros de viagem. Vamos ter de conviver. Vamos ter de trabalhar juntos por essa comunidade, que vocês aqui têm as raízes sob ela, não é verdade? Então, falar em Rede Globo, falar no Rio de Janeiro, é como falar de uma coisa só. Isso tudo está  entrosado, está interligado. E nós vamos ser companheiros de viagem, vamos trabalhar juntos. Podemos discordar num momento, discordar noutro, mas vai nos sobrar terreno comum de trabalho conjunto, por essa terra e por essa gente querida do Rio de Janeiro.
***
PS – Repararam que, nessa entrevista, Armando Nogueira, já chama Brizola de “governador”? Pena que o texto transcrito não seja capaz de transmitir a emoção do momento, o nervosismo, a hesitação, o gaguejar do hoje “genial” jornalista dos obituários da “grande” imprensa.
PS2 – Nos mais diversos jornais, os responsáveis por esses textos, ao lembrarem a “carreira” do “festejado” jornalista esportivo, mais parecem acometidos de Parkinson ou Alzheimer, não têm memória, simplesmente passaram a borracha na carreira dele.
PS3 – Mas o real Armando Nogueira, esse era muito diferente. Pessoas que o conheceram de perto, como Boni e Daniel Filho, agora misericordiosamente lhe fizeram os maiores elogios. Mas lá no fundo lembram como ele era, sempre se queixando de tudo, reclamando dos colegas e culpando subalternos, a ponto de Walter Clark, que à época dirigia a emissora, ter apelidado Armando Nogueira de “Neném Dodói”. Era assim que o chamavam, rindo dele.
PS4 – Disseram que “Armando Nogueira era genial com as palavras”, mais uma balela ou falsidade. Quando ele afirmou, “agora que a TV Globo está DESAGRAVADA”, queria dizer DESMASCARADA. As palavras têm sentido exato, não podem ser MANUSEADAS.
PS5 – Desculpem, ficou um pouco extenso, mas acho que vale a pena, é um documento que ficará eternamente na internet, mostrando a realidade dos fatos, que não podem ser desmentidos.
Helio Fernandes/Tribuna da Imprensa

O PENSAMENTO DE fhc POR MILLOR

O pensamento de fhc analisado por Millôr Fernandes

LIÇÃO PRIMEIRA
De uma coisa ninguém podia me acusar — de ter perdido meu tempo lendo FhC (superlativo de PhD). Achava meu tempo melhor aproveitado lendo o Almanaque da Saúde da Mulher. Mas quando o homem se tornou vosso Presidente, achei que devia ler o Mein Kampf (Minha Luta, em tradução literal) dele, quando lutava bravamente, no Chile, em sua Mercedes (“A mais linda Mercedes azul que vi na minha vida”, segundo o companheiro Weffort, na tevê, quando ainda não sabia que ia ser Ministro), e nós ficávamos aqui, numa boa, papeando descontraidamente com a amável rapaziada do Dops-DOI-CODI.

Quando, afinal, arranjei o tal Opus Magno — Dependência e Desenvolvimento na América Latina — tive que dar a mão à palmatória. O livro é muito melhor do que eu esperava. De deixar o imortal Sir Ney morrer de inveja. Sem qualquer partipri, e sem poder supervalorizar a obra, transcrevo um trecho, apanhado no mais absoluto acaso, para que os leitores babem por si:
“É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação “casual-analítica”, nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de “causal-significante’ — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente “mecânico-causal”, que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘conseqüências internas’.”
Concurso – E-mail:
Qualquer leitor que conseguir sintetizar, em duas ou três linhas (210 toques), o que o ociólogo preferido por 9 entre 10 estrelas da ociologia da Sorbonne quis dizer com isso, ganhará um exemplar do outro clássico, já comentado na primeira parte desta obra: Brejal dos Guajas — de José Sarney.

LIÇÃO SEGUNDA
Como sei que todos os leitores ficaram flabbergasted (não sabem o que quer dizer? Dumbfounded, pô!) com a Lição primeira sobre Dependência e Desenvolvimento da América Latina, boto aqui outro trecho — também escolhido absolutamente ao acaso — do Opus Magno de gênio da “profilática hermenêutica consubstancial da infra-estrutura casuística”, perdão, pegou-me o estilo. Se não acreditam que o trecho foi escolhido ao acaso, leiam o livro todo. Vão ver o que é bom!

Estrutura e Processo: Determinações Recíprocas
“Para a análise global do desenvolvimento não é suficiente, entretanto, agregar ao conhecimento das condicionantes estruturais a compreensão dos ‘fatores sociais’, entendidos estes como novas variáveis de tipo estrutural. Para adquirir significação, tal análise requer um duplo esforço de redefinição de perspectivas: por um lado, considerar em sua totalidade as ‘condições históricas particulares’ — econômicas e sociais — subjacentes aos processos de desenvolvimento no plano nacional e no plano externo; por outro, compreender, nas situações estruturais dadas, os objetivos e interesses que dão sentido, orientam ou animam o conflito entre os grupos e classes e os movimentos sociais que ‘põem em marcha’ nas sociedades em desenvolvimento. Requer-se, portanto, e isso é fundamental, uma perspectiva que, ao realçar as mencionadas condições concretas — que são de caráter estrutural — e ao destacar os móveis dos movimentos sociais — objetivos, valores, ideologias —, analise aquelas e estes em suas relações e determinações recíprocas. (…) Isso supõe que a análise ultrapasse a abordagem que se pode chamar de enfoque estrutural, reintegrando-a em uma interpretação feita em termos de ‘processo histórico’ (1). Tal interpretação não significa aceitar o ponto de vista ingênuo, que assinala a importância da seqüência temporal para a explicação científica — origem e desenvolvimento de cada situação social — mas que o devir histórico só se explica por categorias que atribuam significação aos fatos e que, em conseqüência, sejam historicamente referidas.
(1)  Ver, especialmente, W. W. Rostow, The Stages of Economic GrowthA Non-Communist Manifest, Cambridge, Cambridge University Press, 1962; Wilbert Moore, Economy and Society, Nova York, Doubleday Co., 1955; Kerr, Dunlop e outros, Industrialism and Industrial Man, Londres, Heinemann, 1962.”

Comentário do Millôr, intimidado:
A todo momento, conhecendo nossa precária capacitação para entender o objetivo e desenvolvimento do seu, de qualquer forma, inalcançável saber, o professor FhC faz uma nota de pata de página. Só uma objeçãozinha, professor. Comprei o seu livro para que o senhor me explicasse sociologia. Se não entendo o que diz, em português tão cristalino, como me remete a esses livros todos? Em inglês! Que o senhor não informa onde estão, como encontrar. E outra coisa, professor, paguei uma nota preta pelo seu tratado, sou um estudante pobre, não tenho mais dinheiro. Além  do que, confesso com vergonha, não sei inglês. Olha, não vá se ofender, me dá até a impressão, sem qualquer malícia, que o senhor imita um velho amigo meu, padre que servia na Paróquia de Vigário-Geral, no Rio. Sábio, ele achava inútil tentar explicar melhor os altos desígnios de Deus pra plebe ignara do pequeno burgo e ensinava usando parábolas, epístolas, salmos e encíclicas. E me dizia: “Millôr, meu filho, em Roma, eu como os romanos. Sendo vigário em Vigário-Geral, tenho que ensinar com vigarice”.

LIÇÃO TERCEIRA
Há vezes, e não são poucas, em que FhC atinge níveis insuperáveis. Vejam, pra terminar esta pequena explanação, este pequeno trecho ainda escolhido ao acaso. Eu sei, eu sei — os defensores de FhC, a máfia de beca, dirão que o acaso está contra ele. Mas leiam:
“É oportuno assinalar aqui que a influência dos livros como o de Talcot Parsons, The Social System, Glencoe, The Free Press, 1951, ou o de Roberto K. Merton, Social Theory and Social Structure, Glencoe, The Free press, 1949, desempenharam um papel decisivo na formulação desse tipo de análise do desenvolvimento. Em outros autores enfatizaram-se mais os aspectos psicossociais da passagem do tradicionalismo para o modernismo, como em Everett Hagen, On the Theory of Social Change, Homewood, Dorsey Press, 1962, e David MacClelland, The  Achieving Society, Princeton, Van Nostrand, 1961. Por outro lado, Daniel Lemer, em The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East, Glencoe, The Free Press, 1958, formulou em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento, o enfoque do tradicionalismo e do modernismo como análise dos processos de mudança social”.

Amigos, não é genial? Vou até repetir pra vocês gozarem (no bom sentido) melhor: “formulou (em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento) o enfoque (do tradicionalismo e do modernismo) como análise (dos processos de mudança social)”.

Formulou o enfoque como análise!
É demais! É demais! E sei que o vosso sábio governando, nosso FhC, espécie de Sarney barroco-rococó, poderia ir ainda mais longe.
Poderia analisar a fórmula como enfoque.
Ou enfocar a análise como fórmula.
É evidente que só não o fez em respeito à simplicidade de estilo.
Tópico avulso sobre imodéstia e pequenos disparates do eremita preferido dos Mamonas Assassinas.
Vaidade todos vocês têm, não é mesmo? Mas há vaidades doentias, como as das pessoas capazes de acordar às três da manhã para falar dois minutos num programa de tevê visto por exatamente mais ou menos ninguém. Há vaidades patológicas, como as de Madonas e Reis do Roque, só possíveis em sociedades que criaram multidões patológicas.
Mas há vaidades indescritíveis. Vaidade em estado puro, sem retoque nem disfarce, tão vaidade que o vaidoso nem percebe que tem, pois tudo que infla sua vaidade é para ele coisa absolutamente natural. Quem é supremamente vaidoso, se acha sempre supremamente modesto. Esse ser existe materializado em FhC (superlativo de PhD). Um umbigo delirante.
O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal — se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta — e fala pessimamente — seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma, é considerado o maior sociólogo brasileiro.
Nunca vi nada que ele fizesse (Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro que o elevou à glória, é apenas um Brejal dos Guajas, mais acadêmico) e dissesse que não fosse tolice primária. “Também tenho um pé na cozinha”, “(os brasileiros) são todos caipiras”, “(os aposentados) são uns vagabundos”, “(o Congresso) precisa de uma assepsia”, “Ser rico é muito chato”, “Todos os trabalhadores deviam fazer checape”, “Não vou transformar isso (a moratória de Itamar) num fato político”. “Isso (a violência, chamada de Poder Paralelo) é uma anomia”. E por aí vai. Pra não lembrar o vergonhoso passado, quando sentou na cadeira da prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros, segundo ele “um fantasma que não mete mais medo a ninguém”.
Eleito prefeito, no dia seguinte Jânio Quadros desinfetou a cadeira com uma bomba de Flit.
E, sempre que aproxima mais o país do abismo no qual, segundo a retórica política, o Brasil vive, esse FhC (superlativo de PhD) corre à televisão e deita a fala do trono, com a convicção de que, mais do que nunca, foi ele, the king of the black sweetmeat made of coconuts (o rei da cocada preta), quem conduziu o Brasil à salvação definitiva e à glória eterna. E que todos querem ouvi-lo mais uma vez no Hosana e na Aleluia. Haja!

Millôr Fernandes

DESESPERO DO PIG


Mensagem encaminhada De: CHICO NEWTON
Só o Serra salva as empresas do PiG
Daí, o desespero
Publicado em 18/04/2010
Na revista Carta Capital desta semana, na pág. 27 , Leandro Fortes conta que a Folha  “demorou CINCO DIAS para publicar o desmentido enviado pela assessoria da candidata e reconhecer formalmente o erro”.
O erro foi um erro ou foi de propósito ?
O erro foi inventar uma frase que a Dilma não disse: “eu não fugi da luta e não deixei o Brasil”.
Nos cinco dias em que a Folha; censurou a carta de desmentido, o PiG; dançou e rolou em cima do “erro”.
A Folha já tem uma rubrica no passivo com a Dilma: a ficha falsa.
E a circulação da Folha é a que mais cai, dos jornais impressos.
A Abril e a Veja – a última flor do Fáscio – não sobrevivem a  outro mandato presidencial sem compras maciças de livro escolar.
O negócio de revistas desaba, a ponto de a internet, hoje, ter mais publicidade que as revistas.
A situação da Globo é a mais crítica.
Ela faz negócios escusos com o Serra, à luz do sol.
Como a operação para o Serra agasalhar um terreno que a Globo – como a Cutrale – invadia há 11 anos, num ponto valorizado da cidade de São Paulo.
O bolo publicitário da tevê brasileira não cresce, significativamente.
A TV Globo, durante trinta anos, cresceu com uma equação – 50% de audiência e 75% da verba publicitária.
Como a tevê absorve 50% de toda a publicidade brasileira, ela tinha 75% de 50%, ou seja, de cada R$ 1 investido em publicidade no Brasil, ela ficava com R$ 0,37.
Essa equação – inaceitável  num regime de democracia – mudou.
O bolo não cresce e as concorrentes começam a tomar audiência e faturamento dela.
Ela não vai conseguir ser o que é, com menos audiência e menos dinheiro.
A qualidade vai cair – e a concorrência se acirrará.
No campo da imprensa escrita, a Globo acaba de ganhar em seu território, o Rio, um adversário considerável, o grupo português “Ongoing” –  ler na Carta Capital desta semana, na pág. 50.
O “Ongoing” lançou um jornal de negócios, o Brasil Econômico, para ir para cima do Valor, que é da Folha e do Globo, e acaba de comprar um jornal popular no Rio, O DIA.
Os portugueses querem ir para a televisão
E já entraram nos nichos do mercado onde há oxigênio para a imprensa escrita: o popular e de negócios.
Ou seja, a Globo passou a ter um corrente de peso a lhe morder os calcanhares, já que o grupo vem de Portugal com variados interesses empresariais.
Logo no início do Governo Lula, o professor Wanderley Guilherme dos Santos dizia que a mídia impressa brasileira só tinha um poder remanescente: o de gerar crises.
Gerar crises para tomar uma grana do Governo.
É o que faz o PiG.
E mais, como demonstrou a presidente da associação dos jornais: hoje, no Brasil, o PiG é a oposição.
Esta eleição de 2010 coincide com o aparecimento de um nova realidade empresarial: a entrada da internet no jogo e a democratização das fontes de informação.
O PiG brasileiro só tem uma salvação.  Eleger o Serra.
Pelo menos no Data-da-Folha.
Daí, o desespero.
Paulo Henrique Amorim

A IDADE MENDES (A ERA MENDES)

Leandro Fortes: A Idade Mendespor Leandro Fortes, no Brasília, eu vi
No fim das contas, a função primordial do ministro Gilmar Mendes à
frente do Supremo Tribunal Federal foi a de produzir noticiário e
manchetes para a falange conservadora que tomou conta de grande parte
dos veículos de comunicação do Brasil. De forma premeditada e com
muita astúcia, Mendes conseguiu fazer com que a velha mídia nacional
gravitasse em torno dele, apenas com a promessa de intervir, como de
fato interveio, nas ações de governo que ameaçavam a rotina, o
conforto e as atividades empresariais da nossa elite colonial. Nesse
aspecto, os dois habeas corpus concedidos ao banqueiro Daniel Dantas,
flagrado no mesmo crime que manteve o ex-governador do Distrito
Federal José Roberto Arruda no cárcere por 60 dias, foram nada mais
que um cartão de visitas. Mais relevante do que tudo foi a capacidade
de Gilmar Mendes fixar na pauta e nos editoriais da velha mídia a tese
quase infantil da existência de um Estado policialesco levado a cabo
pela Polícia Federal e, com isso, justificar, dali para frente, a mais
temerária das gestões da Suprema Corte do País desde sua criação, há
mais cem anos.
Num prazo de pouco menos de dois anos, Mendes politizou as ações do
Judiciário pelo viés da extrema direita, coisa que não se viu nem
durante a ditadura militar (1964-1985), época em que a Justiça andava
de joelhos, mas dela não se exigia protagonismo algum. Assim,
alinhou-se o ministro tanto aos interesses dos latifundiários, aos
quais defende sem pudor algum, como aos dos torturadores do regime dos
generais, ao se posicionar publicamente contra a revisão da Lei da
Anistia, de cuja à apreciação no STF ele se esquivou, herança deixada
a céu aberto para o novo presidente do tribunal, ministro Cezar
Peluso. Para Mendes, tal revisão poderá levar o País a uma convulsão
social. É uma tese tão sólida como o conto da escuta telefônica,
fábula jornalística que teve o presidente do STF como personagem
principal a dialogar canduras com o senador Demóstenes Torres, do DEM
de Goiás.
A farsa do grampo, publicada pela revista Veja e repercutida, em
série, por veículos co-irmãos, serviu para derrubar o delegado Paulo
Lacerda do comando da PF, com o auxílio luxuoso do ministro da Defesa,
Nelson Jobim, que se valeu de uma mentira para tal. E essa, não se
enganem, foi a verdadeira missão a ser cumprida. Na aposentadoria, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá tempo para refletir e
registrar essa história amarga em suas memórias: o dia em que, chamado
“às falas” por Gilmar Mendes, não só se submeteu como aceitou mandar
para o degredo, em Portugal, o melhor e mais importante diretor geral
que a Polícia Federal brasileira já teve. O fez para fugir de um
enfrentamento necessário e, por isso mesmo, aceitou ser derrotado.
Aliás, creio, a única verdadeira derrota do governo Lula foi
exatamente a de abrir mão da política de combate permanente à
corrupção desencadeada por Lacerda na PF para satisfazer os interesses
de grupos vinculados às vontades de Gilmar Mendes.
O presidente do STF deu centenas de entrevistas sobre os mais diversos
assuntos, sobretudo aqueles sobre os quais não poderia, como juiz,
jamais se pronunciar fora dos autos. Essa é, inclusive, a mais grave
distorção do sistema de escolha dos nomes ao STF, a de colocar
não-juízes, como Mendes, na Suprema Corte, para julgar as grandes
questões constitucionais da nação. Alheio ao cargo que ocupava (ou
ciente até demais), o ministro versou sobre tudo e sobre todos. Deu
força e fé pública a teses as mais conservadoras. Foi um arauto dos
fazendeiros, dos banqueiros, da guarda pretoriana da ditadura militar
e da velha mídia. Em troca, colheu farto material favorável a ele no
noticiário, um relicário de elogios e textos laudatórios sobre sua
luta contra o Estado policial, os juízes de primeira instância, o
Ministério Público e os movimentos sociais, entre outros moinhos de
vento vendidos nos jornais como inimigos da democracia.
Na imprensa nacional, apenas CartaCapital, por meio de duas
reportagens (“O empresário Gilmar” e “Nos rincões de Mendes”), teve
coragem de se contrapor ao culto à personalidade de Mendes instalado
nas redações brasileiras como regra de jornalismo. Por essa razão,
somos, eu e a revista, processados pelo ministro. Acusa-nos, o
magistrado, de má fé ao divulgar os dados contábeis do Instituto
Brasiliense de Direito Público (IDP), uma academia de cursinhos
jurídicos da qual Mendes é sócio. Trata-se de instituição construída
com dinheiro do Banco do Brasil, sobre terreno público praticamente
doado pelo ex-governador do DF Joaquim Roriz e mantido às custas de
contratos milionários fechados, sem licitação, com órgãos da União.
Assim, a figura de Gilmar Mendes, além de tudo, está inserida
eternamente em um dos piores momentos do jornalismo brasileiro. E não
apenas por ter sido o algoz do fim da obrigatoriedade do diploma para
se exercer a profissão, mas, antes de tudo, por ter dado enorme
visibilidade a maus jornalistas e, pior ainda, fazer deles, em algum
momento, um exemplo servil de comportamento a ser seguido como
condição primordial de crescimento na carreira. Foi dessa simbiose
fatal que nasceu não apenas a farsa do grampo, mas toda a estrutura de
comunicação e de relação com a imprensa do STF, no sombrio período da
Idade Mendes.
Emblemática sobre essa relação foi uma nota do informe digital
“Jornalistas & Companhia”, de abril de 2009, sobre o aniversário do
publicitário Renato Parente, assessor de imprensa de Gilmar Mendes no
STF (os grifos são originais):
“A festa de aniversário de 45 anos de Renato Parente, chefe do Serviço
de Imprensa do STF (e que teve um papel importante na construção da TV
Justiça, apontada como paradigma na área da tevê pública), realizada
na tarde do último domingo (19/4), em Brasília, mostrou a importância
que o Judiciário tem hoje no cenário nacional. Estiveram presentes,
entre outros, a diretora da Globo, Sílvia Faria, a colunista Mônica
Bergamo, e o próprio presidente do STF, Gilmar Mendes, entre outros.”
 Olha, quando festa de aniversário de assessor de imprensa serve para
mostrar a importância do Poder Judiciário, é sinal de que há algo
muito errado com a instituição. Essa relação de Renato Parente com
celebridades da mídia é, em todos os sentidos, o pior sintoma da
doença incestuosa que obriga jornalistas de boa e má reputação a se
misturarem, em Brasília, em cerimônias de beija-mão de caráter
duvidoso. Foi, como se sabe, um convescote de sintonia editorial.
Renato Parente é o chefe da assessoria que, em março de 2009, em nome
de Gilmar Mendes, chamou o presidente da Câmara, deputado Michel Temer
(PMDB-SP), às falas, para que um debate da TV Câmara fosse retirado do
ar e da internet. Motivo: eu critiquei o posicionamento do presidente
do STF sobre a Operação Satiagraha e fiz justiça ao trabalho do
delegado federal Protógenes Queiroz, além de citar a coragem do juiz
Fausto De Sanctis ao mandar prender, por duas vezes, o banqueiro
Daniel Dantas.
Certamente em consonância com o “paradigma na área de tevê pública” da
TV Justiça tocada por Renato Parente, a censura na Câmara foi feita
com a conivência de um jornalista, Beto Seabra, diretor da TV Câmara,
que ainda foi mais além: anunciou que as pautas do programa “Comitê de
Imprensa”, a partir dali, seriam monitoradas. Um vexame total.
Denunciei em carta aberta aos jornalistas e em todas as instâncias
corporativas (sindicatos, Fenaj e ABI) o ato de censura e, com a ajuda
de diversos blogs, consegui expor aquela infâmia, até que, cobrada
publicamente, a TV Câmara foi obrigada a capitular e recolocar o
programa no ar, ao menos na internet. Foi uma das grandes vitórias da
blogosfera, até então, haja vista nem um único jornal, rádio ou
emissora de tevê, mesmo diante de um gravíssimo caso de censura e
restrição de liberdade de expressão e imprensa, ter tido coragem de
tratar do assunto. No particular, no entanto, recebi centenas de
e-mails e telefonemas de solidariedade de jornalistas de todo o país.
Não deixa de ser irônico que, às vésperas de deixar a presidência do
STF, Gilmar Mendes tenha sido obrigado, na certa, inadvertidamente, a
se submeter ao constrangimento de ver sua gestão resumida ao caso
Daniel Dantas, durante entrevista no youtube. Como foi administrada
pelo Google, e não pelo paradigma da TV Justiça, a sabatina acabou por
destruir o resto de estratégia ainda imaginada por Mendes para tentar
passar à história como o salvador da pátria ameaçada pelo Estado
policial da PF. Ninguém sequer tocou nesse assunto, diga-se de
passagem. As pessoas só queriam saber dos HCs a Daniel Dantas, do
descrédito do Judiciário e da atuação dele e da família na política de
Diamantino, terra natal dos Mendes, em Mato Grosso. Como último
recurso, a assessoria do ministro ainda tentou tirar o vídeo de
circulação, ao menos no site do STF, dentro do sofisticado e
democrático paradigma de tevê pública bolado por Renato Parente.
Como derradeiro esforço, nos últimos dias de reinado, Mendes
dedicou-se a dar entrevistas para tentar, ainda como estratégia,
vincular o próprio nome aos bons resultados obtidos por ações do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), embora o mérito sequer tenha sido
dele, mas de um juiz de carreira, Gilson Dipp. Ministro do Superior
Tribunal de Justiça e corregedor do órgão, Dipp foi nomeado para o
cargo pelo presidente Lula, longe da vontade de Gilmar Mendes. Graças
ao ministro do STJ, foi feita a maior e mais importante devassa nos
tribunais de Justiça do Brasil, até então antros estaduais intocáveis
comandados, em muitos casos, por verdadeiras quadrilhas de toga.
É de Gilson Dipp, portanto, e não de Gilmar Mendes, o verdadeiro
registro moralizador do Judiciário desse período, a Idade Mendes, de
resto, de triste memória nacional.
Mas que, felizmente, se encerra hoje.


Constituinte: Serra votou sempre contra os trabalhadores. É o lobo em pele de cordeiro

COMO SE COMPORTOU JOSÉ SERRA NA CONSTITUINTE

a) votou contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas;
b) votou contra garantias ao trabalhador de estabilidade no emprego;
c) votou contra a implantação de Comissão de Fábrica nas indústrias;
d) votou contra o monopólio nacional da distribuição do petróleo;
e) negou seu voto pelo direito de greve;
f) negou seu voto pelo abono de férias de 1/3 do salário;
g) negou seu voto pelo aviso prévio proporcional;
h) negou seu voto pela estabilidade do dirigente sindical;
i) negou seu voto para garantir 30 dias de aviso prévio;
j) negou seu voto pela garantia do salário mínimo real;
Fonte: DIAP — “Quem foi quem na Constituinte”;pag. 621.



domingo, 25 de abril de 2010

CIRO FAZENDO TOLICES - O CARA NÃO SE EMENDA

Não, Ciro. Serra não é o mais preparado para enfrentar a crise


Brizola Neto, em seu Tijolaço, comenta as manipulações feitas em torno das declarações de Ciro Gomes, exagerando sempre suas críticas ao governo e à Dilma, e omitindo os petardos que ele solta, como de praxe, contra o serrismo.

Não dá, todavia, para tampar o sol com a peneira. Ciro conhece de perto a disposição antilulista da mídia e tem inclusive se utilizado dessa contraforça para se projetar. É muito fácil. Basta criticar o PT em temas mais ou menos óbvios, de forma não muito violenta para não queimar pontes, nem suave demais a ponto de não chamar a atenção dos hidrófobos antipetistas da big press, obcecados em coletar e divulgar qualquer crítica a seus inimigos.

O Ciro de ontem resolveu elevar a dose de antipetismo para, proporcionalmente, ganhar mais mídia. Quanto mais violento for seu ataque ao PT e, particularmente, à menina dos olhos do petismo, a sua candidata Dilma Rousseff, mais holofotes se acenderão para Ciro Gomes desfilar.

Conseguiu. O nome Ciro aparece em todas as manchetes de jornal.

Ou seja, Ciro Gomes sabe o que fez.

A mídia parou de xingar Ciro Gomes, pintado agora como um campeão. Destemperado, mas valente.

As forças dilmistas, como era de se esperar, assistem a cena estarrecidas, com medo de qualquer manifestação que bote ainda mais fogo na fogueira.
Segundo a pesquisa Ibope, Ciro Gomes marcou 8% na pesquisa estimulada. Isso corresponde a quase 10 milhões de votos. Ele é uma figura importante no xadrez eleitoral, e sabe disso. Suas manifestações serviram como advertência, tanto aos governistas, quanto para a oposição. Ciro tem expertise midiática. Na verdade, ele se tornou uma espécie de celebridade.

Mas Ciro, outra vez, deslumbra-se com a luz dos holofotes. Por mais intensa que esta seja, o poder não está em quem está sob a luz, e sim em quem liga ou desliga a lâmpada. E não é Ciro quem faz isso.

O deputado está nitidamente confundindo política com uma cultura de celebridade, e querendo impor a sua opinião política, que é válida, mas é SUA opinião pessoal, ao povo brasileiro. Isso não se impõe. Conquista-se. Ser presidente da República não pode ser puramente uma ambição pessoal. O candidato deve estar no centro de um conjunto de forças políticas, partidárias e sociais, para ser um representante dessas idéias, e não de SUAS idéias.

Daí que o parlamentar declarou, no meio dessa confusão, que pode abandonar a política e virar "intelectual". Toda frase de Ciro recende a uma arrogância que me assusta. Em primeiro lugar, ele parece menosprezar a função do intelectual. Se quer virar intelectual, ótimo. O Brasil precisa tanto de intelectuais como de políticos, contanto, claro, que seja um intelectual competente e corajoso. Afinal, da mesma forma que há políticos corruptos e incompetentes, também há intelectuais desprezíveis.

Em segundo lugar, Ciro simula um ceticismo em relação à política que não é coerente, nem com sua astúcia, nem com as circunstâncias históricas. Nunca houve política ideal em lugar nenhum do mundo. Muito menos no Brasil. Provavelmente nunca haverá. A política, por ser um ringue onde se disputa o poder, sempre atrairá os espíritos mais violentos e mais ambiciosos. Isso é natural e por isso mesmo que os cidadãos devem se organizar para lidar da melhor forma possível com esse Leviatã.

As circunstâncias históricas atuais, por outro lado, também não respaldam o sarcasmo e o cinismo de Ciro Gomes, porque estamos testemunhando mudanças sócio-econômicas profundas no país e o deputado sabe disso. Em meio à névoa neo-maquiavélica em que partidos e forças sociais se digladiam, pode-se vislumbrar o povo caminhando, silenciosamente, discretamente, indiferentemente, em direção à um futuro um pouco melhor. É um silêncio cheio de orgulho, porque os governos não lhe fazem favor algum. É uma conquista de seus próprios direitos, e que lhe custou, nos últimos séculos, muita fome, muito trabalho, muito sofrimento. Ciro Gomes sabe disso. Ciro Gomes sabe que dezenas de milhões de nordestinos já morreram de inanição e doenças. Ciro Gomes sabe que as capitais do Sudeste foram construídas por braços nordestinos, ao mesmo tempo que o Nordeste agonizava.

Ciro Gomes sabe, enfim, que o Nordeste passa por uma fase de grande transformação social, registrando índices de crescimento econômico muito superiores ao do resto do país.

Não quero acreditar que Ciro, mesmo sabendo e testemunhando tudo isso, quer pular para o outro lado do balcão e defender os conservadores do Sudeste.

Irá Ciro agora defender que Serra está mais preparado que Dilma para enfrentar crise? Por quê? Serra não será um ditador. Será a cabeça de um conjunto de forças políticas, e essas forças, na minha opinião, não estão nada preparadas para enfrentar nenhuma crise, principalmente porque foram essas mesmas forças as grandes produtoras de crises no Brasil. A ideologia política do serrismo não passa de um êmulo tropical e mambembe das idéias estrangeiras que geraram a última grande crise econômica mundial.

O governo Serra não apenas não estaria preparado para enfrentar crises, como seria o pivô de muitas crises. Sua conhecida intransigência e seu centralismo autoritário deflagrariam conflitos em toda parte: com prefeitos, com governadores, com movimentos sociais, com sindicatos, com outros partidos.

Além disso, Serra se elegeria com um reduzido grupo de partidos. Os únicos aliados do PSDB são partidos decadentes, reacionários. Quase não são mais partidos. PPS e DEM já articulam integrar-se ao PSDB para escaparem a uma humilhante extinção natural. Ninguém mais quer votar em PPS e DEM. Esse é o governo mais preparado para crise?

Não tem sentido.

Um governo mais preparado para enfrentar uma crise é um governo forte, que lidera um amplo leque de alianças partidárias, que exerce com sucesso a mediação entre segmentos sociais fortemente antagônicos. Serra não serve para fazer esta mediação porque os tucanos defendem apenas um lado. Serra não tem apoio de nenhuma entidade sindical, trabalhista, estudantil, indígena, camponesa. Nenhum instituição com um mínimo de enraizamento popular apóia ou apoiará Serra.

Não, Ciro, Serra não está preparado.

Ao longo de sua carreira, Serra afastou-se do povo brasileiro, e de seus interesses.

Serra não está preparado para representar o Brasil lá fora.

Ele já começou atacando o Mercosul, uma das maiores conquistas da América do Sul das últimas décadas. Ao mesmo tempo em que defende que o Brasil amplie suas exportações de manufaturados, Serra não vê (por cegueira ideológica) que é o Mercosul, e a América Latina, o destino de 90% de nossos manufaturados.

Serra defende o belicismo neocon dos norte-americanos e já escreveu um artigo fortemente ofensivo ao Irã.

Contribuirá, portanto, para as articulações pró-guerra que os poderosos lobbies armamentistas semeam na mídia corporativa mundial.

Não, Ciro. Serra não está preparado. E, pelo jeito, tampouco você está.
# Escrito por Miguel do Rosário # Sábado, Abril 24, 2010 

TV GLOBO E O CLIP DO SERRA

TV Globo, o clip do Serra e os ingênuos

por Altamiro Borges
O clima é de velório na TV Globo! Em menos de 24 horas, a poderosa emissora foi obrigada a retirar do ar um comercial comemorativo dos seus 45 anos que custou uma fortuna – envolvendo vários artistas e milionária produção. O clip parecia uma peça publicitária do presidenciável demotucano José Serra. Utilizava um bordão semelhante ao da sua campanha, “O Brasil pode mais”, com as estrelas globais em coro implorando “todos queremos mais”, e trazia em destaque o número 45, o mesmo da legenda do PSDB – inclusive com uma fonte de letra bastante similar.

O ousado e descarado comercial gerou uma imediata onda de indignação na globosfera. Marcelo Branco, um dos responsáveis pela campanha de Dilma Rousseff na internet, acusou a TV Globo de fazer propaganda subliminar do adversário. “Eu e toda a rede vimos essa alusão”, disparou em seu twitter. Já o jornalista Paulo Henrique Amorim, do acessado blog Conversa Afiada, exigiu que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) averiguasse a possibilidade de crime eleitoral promovido pela emissora. O “clip pró Serra” foi exibido com críticas em centenas de sítios e blogs.

Desculpa esfarrapada e risível

Diante do levante dos internautas, a emissora colocou o rabinho entre as pernas e retirou o vídeo das telinhas e do seu próprio sitio. Quem clica na página recebe a curta mensagem: “página não encontrada”. Numa nota lacônica, a Central Globo de Comunicação ainda tentou justificar a feia pisada na bola. Afirmou que o filme foi criado em novembro de 2009, quando “não existiam nem candidaturas muito menos slogans”, e informou: “Mas a Rede Globo não pretende dar pretexto para ser acusada de ser tendenciosa e está suspendendo a veiculação do filme”.

A desculpa é das mais esfarrapadas e risíveis. Será que o candidato tucano, após reunião secreta no Jardim Botânico, roubou o mote do comercial comemorativo de TV Globo? Seria mais um crime de plágio, tão comum a Serra. Ou foi a emissora que aproveitou o lema de campanha da oposição para fazer propaganda antecipada? Seria um nítido crime eleitoral. Ou as duas hipóteses? Os vínculos políticos entre Serra e a famíglia Marinho são antigos e notórios. A TV Globo teria todo o tempo hábil para cancelar o clip e evitar o vexame, mas preferiu apostar no seu prestígio.

Uma emissora “tendenciosa” e cínica

Quanto a ser tachada de “tendenciosa”, como afirma a risível nota, isto não é uma acusação, mas sim um fato – comprovado pela história. A TV Globo tentou fraudar a vitória de Leonel Brizola nas eleições para o governo do Rio de Janeiro em 1982. A TV Globo escondeu as manifestações das Diretas-já, tratando um gigantesco ato em São Paulo como “uma festa de aniversário” da cidade. A TV Globo forjou a imagem do “caçador de marajás” para garantir a vitória de Collor de Mello em 1989. A TV Globo criminaliza os movimentos sociais, tratando-os como “caso de polícia”, e faz de tudo para desestabilizar o governo Lula – inclusive apostando no seu impeachment.

Mais recentemente, a TV Globo foi a principal patrocinadora do seminário da Casa Millenium, que reuniu os barões da mídia com o objetivo explícito de traçar uma tática unitária para derrotar Dilma Rousseff. Os astros globais, como Arnaldo Jabor, Willian Waack e outros, foram os mais hidrófobos nos ataques à candidata que representa a continuidade do projeto do governo Lula. O clip pró Serra talvez tenha sido uma das peças da TV Globo para a batalha sucessória. Mas a poderosa emissora, que se acha um semideus, acabou se dando mal e pagou um baita mico.

“Foi sem querer, querendo”

Este episódio grotesco traz várias lições. Por um lado, comprova que a batalha eleitoral deste ano será das mais sujas e ardilosas e confirma que os principais meios de comunicação já escolheram o seu lado e não vacilarão na campanha. Não dá para ser ingênuo ou alimentar qualquer ilusão na pretensa neutralidade da mídia. Por outro, ele mostra que a sociedade está mais atenta diante das manipulações e indica que a internet terá maior influência e será uma arma poderosa neste pleito, ajudando a fiscalizar as sujeiras e manobras dos barões da mídia.

Para Rodrigo Vianna, do blog Escrevinhador, “o interessante é que o recuo da Globo mostra que eles temem a internet. Foi pela internet que se deu o alarme contra a propaganda descarada para o Serra. A Veja pode se dar ao luxo de cair no gueto da extrema-direita... A Folha e o Estadão também podem cair no gueto. Já caíram. Mas a TV Globo, não. Ela fala para milhões. Se ficar colada à imagem dela o rótulo de antipopular, o estrago será enorme. A Globo – a essa altura do século 21 – precisa agir com um pouco mais de cautela. Vai fazer campanha para o Serra, não resta dúvida. Mas sempre que isso ficar escancarado, ela vai recuar e dizer: ‘foi sem querer, querendo’”.