domingo, 19 de novembro de 2017

A Inconformação do Ex-PGR

EUGÊNIO ARAGÃO, Ex-ministro da Justiça

Há pessoas que não sabem sair. Entram com pompa, empertigam-se com as circunstâncias da função, exibem-se empavonados e querem ficar para sempre. Gostam do cargo que creem talhado para eles. Acham-se insubstituíveis. Quando chega a hora de passar o bastão, fazem beicinho e não querem largar.

Saem meio que a fórceps. E ficam com raivinha do sucessor ou da sucessora, que não é tão bom ou tão boa quanto se acham. Alguns até se recusam a transmitir o cargo, ainda que esse passe a outras mãos dentro da normalidade institucional. Acham um desaforo a escolha do sucessor sem sua aquiescência. O sucessor só pode ser quem eles escolhem.

Por recém entrevista que deu, o ex-PGR parece se encaixar nesse figurino, com vocação para alma penada, espírito que não toma consciência de que desencarnou. Torna-se um encosto para os que ficam, a quem enxerga como ingratos, por não lhe terem garantido mais vida, como entende de seu direito. Um espírito obsessivo.

Além da continha “oficial” no Twitter, que inaugurou para sua posteridade, querendo sempre ser lembrado, assaca, agora, no jornal O Globo, muito acima do tom, contra acertadíssima decisão do Ministro Ricardo Lewandowski, de devolver acordo de delação ao MPF, porque celebrado em evidente usurpação de função jurisdicional. Excessivamente leniente com o investigado, o tal grupo de trabalho da “Lava Jato”, subordinado ao ex-PGR, se arrogou o direito de despir de sentido a pena de reclusão em regime fechado, convertendo-a, sem previsão legal, em serviço à comunidade. Não só tungou a fixação da pena do juiz, como se fez de legislador. Ou foi ignorância em direito penal, ou foi a presunção vaidosa que cegou a turma em volta do ex-PGR.

Mas o ex-PGR foi mais longe. Sugeriu que a decisão de devolver o acordo de delação ao MPF poderia ser consequência de desconforto do STF com os “rumos indesejáveis” das investigações. Moralista tem dessas coisas. Sempre se acha superior aos outros. Está sempre certo e quem não o reconhece deve estar de má fé.

Talvez o ex-PGR devesse se lembrar que foi o Ministro Ricardo Lewandowski que garantiu sua escolha para o cargo cuja perda tanto pranteia. Insinuar publicamente má fé de quem procurou tão ansiosamente quando precisou não é propriamente sinal de bom caráter. Mais comedimento lhe seria recomendável, até porque, ainda na ativa, como membro do MPF, não é esse o modo apropriado de se dirigir ao juiz que negou pedido que formulou – não em caráter pessoal, mas quando ainda no exercício do cargo de PGR. Quem pode, a esta altura, contestar, nos autos, o teor do despacho é a sucessora Doutora Raquel Dodge. Atropelar sua iniciativa com entrevista a periódico não é nem ético e nem disciplinarmente aceitável.

Cada macaco no seu seu galho. Ao ex-PGR, já que não quis aposentar, talvez por medo do ostracismo, cumpre agora apenas oficiar perante o STJ, que é a parte que lhe cabe desse latifúndio. Que deixe o STF para quem sabe e pode. A Doutora Raquel Dodge, em dois meses, mostrou virtudes que não constatamos em quatro anos do antecessor: profissionalismo e discrição, sem entrevistas indignadas, sem envelopamento de edifícios e sem conta no Twitter.

Juiz Sem Noção

Rubens Rodrigues Torres Filho
O jurista Ives Gandra Martins e noção errada do que são “minorias”
Ives Gandra Martins: ‘Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?’ (Blog do jornal Estadão). Essa frase não poderia jamais ser pronunciada por uma pessoa escolarizada, muito menos por um jurista. Para além do problema de perversidade moral, que já seria suficiente para invalidar para sempre a autoridade de qualquer um, ela contém um erro intelectual, um pecado primário de não compreensão do que é uma minoria. Os dois erros estão imbrincados um no outro, e se confirmam no texto e contexto da frase.
Ives Gandra não sabe o que é uma minoria. Ele imagina que minoria é um grupo de pessoas formadas aleatoriamente, ou por traços comuns que ele inventa. Ofensivamente ele agrupa minorias étnicas junto com o que nada tem a ver com minorias, que são “assaltantes”. Ora, gays, índios e negros são postos na mesma fileira de assaltantes! Não é um simples erro ou descuido de linguagem. Desse modo, ele mostra a mentalidade pela qual se fazem necessárias as leis de proteção de minorias: as leis são para protegerem as minorias de serem criminalizadas, exatamente como ele, Ives Gandra, faz em sua frase. Além disso, ele coloca junto de minorias étnicas e de práticas identitárias – gays, negros e índios – os “invasores de terra”, que não são nem minoria e muito menos aprioristicamente criminosos. Trata-se aí de reconhecido movimento popular, com existência legal, o MST. Mais uma vez a confusão mental de Ives Gandra torna-se evidente: minoria é uma coisa e assaltante é outra; e invasor de terras é uma terceira coisa. E guerrilheiro? De onde ele tirou isso? Onde ele está vendo guerrilheiro no Brasil? Ele está se referindo ao Zé Dirceu (num suposto passado?), aquele condenado do “mensalão” que ele mesmo, Ives Gandra, falou que havia sido “condenado sem provas”? Aliás, estranha fala aquela! Muito estranha! (o que ele queria? desafiar os juristas que condenaram Zé Dirceu?)
Caso eu fosse pertencente a qualquer grupo desses realmente minoritários – gays, negros e índios – eu não deixaria de interpelar o jurista nos termos da lei. Aliás, se houver denúncias suficientes, a Procuradoria do estado de São Paulo pode interpelá-lo. Não é possível que um professor de direito do Mackenzie, alguém que já foi até cotado para ministro do STF, exiba esse comportamento a la Waack. Ele deveria ser o primeiro a conhecer as leis e, por causa disso, já saber de antemão o conceito sociológico de minoria, e saber também que o que falou é ofensivo.
“Minoria” não corresponde a um grupo de “menor número”. “Minoria” não é alguma coisa exterior ao conceito geral de Direitos Humanos. Essas coisas estão ligadas. Minoria sociológica se define por um tipo de “cultura própria”, pode ser por práticas étnicas, linguísticas, religiosas, sexuais etc. A proteção das minorias se fez presente na democracia liberal principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando a confirmação de genocídios (judeus, negros, pessoas com problemas físicos, gays, ciganos etc.) por parte dos nazistas veio à tona no Tribunal de Nuremberg. Daí para diante, os Direitos Humanos passaram a se aliar à ideia de que o estado precisa ser policiado, pois ele pode destruir não só o indivíduo, mas todo um grupo de pessoas afinadas culturalmente. Daí para diante, a noção de minoria foi se aprimorando no âmbito da sociologia e do direito. Notou-se bem, então, minorias definidas interna e externamente, positiva e negativamente. As leis de proteção de minorias que, no Brasil, ao contrário do que diz Gandra, são bem poucas (homofobia no Brasil ainda não crime!), vieram a ser demandadas nas democracias liberais do mundo todo.
Uma minoria definida positivamente são a dos alemães no Brasil, ou dos japoneses. Há um reconhecimento de grupos culturais afinados com a cultura alemã e com a cultura japonesa, e o número de virtudes atribuídas a tais comunidades, no âmbito da conversação hegemônica no Brasil, é bem maior do que o número de asserções negativas. Mas não é o mesmo caso para negros ou indígenas. Também não é o mesmo caso para com gays. Na situação de negros, gays e indígenas (em certo sentido há ainda “as mulheres”), o reconhecimento de que são minorias, para seus próprios membros, se faz por conta do impacto da linguagem pejorativa contra eles, ou mesmo a violência e a discriminação contra eles. O pertencente a tais minorias descobre-se como membro delas por decisão exterior e pejorativa. Nasce sujo para o mundo! A cultura o interpela para lhe dizer que ele não pertence a nenhuma cultura, mas sim ao que não é humano. O seu próprio corpo é o que denota isso, e ele só percebe seu próprio corpo, seu eu corporificado, por causa da existência do apontar ofensivamente do Outro.
Nesse segundo caso, a minoria, ao ser organizar, pode gerar comportamentos fascistas. Pode agir contra a cultura hegemônica de modo a reproduzir práticas xenófobas, aquelas que se fizeram sentir contra elas. Mas a minoria, não raro, logo faz brotar internamente lideranças que percebem esse erro, e se desvia do comportamento meramente magoado para, então, alcançar as práticas de orgulho próprio, de valorização, de combate inteligente ao preconceito etc. Os movimentos gay, negro e indígena no Brasil têm aprendido a agir assim. Mas, em termos de conquistas da lei, estão completamente distantes de terem as facilidades que Ives Gandra afirma que ele, branco-macho-rico-professor-jurista, também não tem.
Ou seja, no limite, Ives Gandra acha que não se está obedecendo a Constituição por tentarmos fazer leis de proteção de minorias ou de contrabalanço. Ele não entendeu ainda que a lei de filiação de nossa Constituição, internacionalmente, é a Carta de Direitos Humanos. Leis e vantagens para grupos que estão aquém da linha de partida da corrida social não são criação de vantagens, são possibilidades de igualdade perante a lei no final da corrida.
Poderíamos dizer que Ives Gandra não fez Sociologia I na faculdade, ou que quando fez a mentalidade conservadora era muito forte, mas o fato dele não ter reaprendido conceitos e, enfim, o fato dele não ter sensibilidade para as mudanças de vocabulário de nossas épocas, é muito significativo de uma mentalidade empedrada. Uma pessoa assim, está completamente desqualificada para a vida fora da companhia de Waack. Precisa procurar seus pares. Sua declaração não cabe. Nem do ponto de vista conceitual nem do ponto de vista da sensibilidade de um professor e jurista."
*Filósofo e professor aposentado da USP. Autor do clássico da produção nacional em filosofia: publicado originalmente pela Brasiliense, Ensaios de filosofia ilustrada contém um dos mais significativos comentários a respeito do célebre ensaio de Kant “Resposta à pergunta ‘O que é o Iluminismo?’”.

sábado, 18 de novembro de 2017

Como a gROUBO Manteve a Libertadores?

Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Quem conhece os meandros do futebol brasileiro diz não estar surpreso com a acusação de corrupção de que a Globo foi alvo na terça-feira (14/11). Muito já foi denunciado sobre os métodos da família Marinho para impedir que outras emissoras conseguissem direitos de transmissão.

A Globo comprava direitos de transmissão da Copa Libertadores da América de uma empresa controlada por um argentino chamado Alejandro Burzaco, quem acusou a emissora de pagar propina a cartolas sul-americanos.

Burzaco foi dirigente da empresa argentina Torneos Y Competencias, que negociava com empresas de de comunicação de vários países os direitos de transmissão dos jogos internacionais.

Documentos divulgados pelo UOL mostram que a emissora brasileira pagava pela Libertadores valor abaixo do padrão do mercado brasileiro. Menos do que pagava pelo campeonato paulista, US$ 10,8 milhões anuais entre 2015 e 2018 por toda a Libertadores…

À Justiça norte-americana, Burzaco confessou ter pago subornos a dirigentes inclusive da Fifa, entre eles o ex-governador de São Paulo José Maria Marin.

Em parte do depoimento, Burzaco afirmou que seis empresas de mídia pagaram propinas por direitos da Conmebol, entre elas a Globo, a Fox Sports, Televisa, Media Pro, Full Play e Traffic.

Não especificou a quem essas empresas teriam pago subornos.

Em nota, a Globo negou as acusações de que pagou propina durante décadas para manter todos os campeonatos de futebol e do esporte em geral durante décadas

Eis a nota da emissora:

”Sobre depoimento ocorrido em Nova York, no julgamento do caso Fifa pela Justiça dos Estados Unidos, o Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que após mais de dois anos de investigação não é parte nos processos que correm na Justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. Por outro lado, o Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Não seria diferente, mas é fundamental garantir aos leitores, ouvintes e espectadores do Grupo Globo que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige”.
A notícia de que a Globo pagava pouco pela Libertadores, por exemplo, indica coisa diferente do que a emissora diz.

Senão, vejamos: míseros 10 milhões de dólares para transmitir a festejadíssima Copa Libertadores das Américas? A Record, por exemplo, pagaria sem pestanejar. Pagaria até mais para tirar a competição da mão da Globo, mas nunca conseguiu.

Que diferença faria para os dirigentes vender à Globo ou à Record os direitos de transmissão dos jogos? Se a Globo pagava tão pouco quanto diz o UOL, por que os dirigentes continuavam vendendo os direitos de transmissão SÓ à Globo? Pelos belos olhos dos irmãos Marinho?

É estranho, mas a questão mais revoltante e absurda nem é essa, que as investigações, feitas nos EUA, certamente irão deslindar.

A Globo tem sido implacável com pessoas acusadas de corrupção. Cobra punições antecipadas ao julgamento, expõe essas pessoas ao opróbio público. Que diferença do que pede para si. A emissora diz que se investigou e, ao fim das investigações, descobriu que era inocente.

Ó, que surpresa! Você não está chocado, leitor?

As Putarias da gROUBO

EXCLUSIVO: como a Globo conseguiu renovar a concessão apesar de dever ao Fisco. Por Joaquim de Carvalho

Por Joaquim de Carvalho - 17 de novembro de 2017

Esta matéria faz parte da série do DCM sobre a sonegação da Globo, financiada através de crowdfunding.

Ela saiu em 2014 e está sendo republicada à luz do envolvimento do grupo no escândalo das propinas da FIFA.

Em 2007, ano em que o processo de sonegação da Globo foi subtraído da Delegacia da Receita Federal em Ipanema, Rio de Janeiro, a emissora teve as cinco principais concessões do grupo vencidas – São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília e Distrito Federal.

A Globo tinha sido autuada por crime contra a ordem tributária, por deixar de recolher o imposto de renda relativo à compra do direito de transmissão da Copa do Mundo de 2002. Seu débito, incluindo juros e multa, era à época de 615 milhões de reais.

Apesar de devedora, a TV Globo teve as cinco concessões renovadas por um período de quinze anos (até 2022), conforme os processos 53000.020701/2007 (São Paulo), 53000.020700/2007 (Rio de Janeiro), 53000.020703 (Recife), 53000.020702/2007 (Brasília) e 53000.020704/2007 (Belo Horizonte).

As informações constam do requerimento de informações apresentado pela deputada Luiza Erundina (PSB-SP) no dia 11 de novembro do ano passado, quatro meses depois que os primeiros documentos sobre a sonegação da Globo vazaram através do site O Cafezinho.

A deputada fez três perguntas:

– Como foi possível a renovação de concessões à Globo Comunicação e Participação S.A. “se a empresa não cumpria a exigência legal de regularidade perante o fisco federal?

– A empresa apresentou certidão negativa de débito relativa aos tributos federais e à dívida ativa da união?

– O Ministério das Comunicações está acompanhando a situação fiscal da Globopar? (na terceira pergunta, a deputada faz outro questionamento, talvez o mais importante – “existe a possibilidade de cancelamento das outorgas de radiodifusão destinadas à empresa frente ao claro descumprimento, pela entidade, da legislação relativa à renovação de outorgas?”).

No dia 21 de novembro, a Mesa da Câmara aprovou por unanimidade o requerimento de informações.

No dia 12 de dezembro, o requerimento seguiu para o Ministério das Comunicações e no dia 23 a resposta foi encaminhada à Primeira Secretaria da Câmara dos Deputados.

O gabinete da deputada federal estava com esse ofício desde o dia 6 de janeiro de 2014, mas não deu publicidade ao documento nem tomou nenhuma providência para aprofundar as informações ali contidas – a principal delas é que, apesar da dívida com o Fisco, a Globo teria apresentado a certidão negativa de débito perante a Receita Federal.

No dia 20 de novembro, quando soube da existência do requerimento, entrei em contato com o gabinete da deputada Luiza Erundina, em Brasília, e falei com o chefe de gabinete, Marcos Mateus, a quem pedi uma cópia da resposta do Ministério das Comunicações.

Mateus disse que estava com uma cópia do documento sobre sua mesa, mas pediu para falar com a deputada antes de liberar a cópia. Segundo ele, Erundina estava convalescendo e ele pediu quinze dias para me dar a resposta. Enviei um e-mail, para formalizar a solicitação, mas a mensagem nunca foi respondida.

Quinze dias depois, conforme o combinado, eu entrei novamente em contato com o chefe de gabinete Marcos Mateus. E a resposta foi surpreendente para mim.

— Não é procedimento do gabinete dar publicidade a esse tipo de documento. Você deve buscar em outra fonte.

Argumentei que a atitude era estranha, principalmente porque a deputada é presidente da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular.

Perguntei: por que um deputado faz um requerimento de informação se a resposta acaba sendo engavetada?

Silêncio foi a resposta do chefe de gabinete da deputada (que, depois de apresentar o requerimento de informações sobre a sonegação da Globo, acabou assumindo a função de coordenadora da campanha a presidente de Marina Silva).

Com base na Lei de Acesso à Informação, entrei em contato com o arquivo da Câmara dos Deputados, onde o ofício original do ministro da Comunicação, Paulo Bernardo, se encontra atualmente. Preenchi um formulário pela internet e, em três dias, veio a resposta.

São cinco páginas, encaminhadas pelo próprio ministro. A parte substantiva é a nota informativa nº 199, assinada pelo analista técnico Anderson Zanati Dultra.

Segundo ele, para a renovação da concessão, a Globo teria que apresentar as certidões negativas de débito, mas ele não tem condições de afirmar se os documentos do processo são verdadeiros.

“O cumprimento de todas as exigências legais para o deferimento da renovação dessas outorgas conta com a presunção de legalidade inerente à administração pública”, escreve o analista técnico.

Em resposta à segunda pergunta da deputada – a Gobo apresentou ou não certidão negativa de débito? -, Anderson Zanati Dultra não dá uma resposta direta:

— A apresentação da certidão negativa de débitos relativos aos tributos federais e à dívida ativa da União pode ser verificada nos autos. Nesse sentido, informamos que esses processos foram enviados para deliberação ao Congresso Nacional.

Ou seja, o que o Ministério das Comunicações possui são cópias, os originais estão no próprio Congresso (o acesso a esses processos será formalizado na sequência desta série de reportagens).

Na resposta do Ministério das Comunicações, o analista diz ainda que fez uma consulta ao site da Receita Federal e verificou que, na data da consulta (2013), não constava débito da Globo.

A informação não tem relevância para o que foi perguntado, já que, segundo a própria Globo, a dívida teria sido paga em 2010, com base nos benefícios de uma lei que concedeu descontos vultosos a devedores do fisco – caso da Globo à época.

Em 2007, quando a concessão caducou, a Globo era, efetivamente, devedora do fisco.

Como a empresa conseguiu as certidões negativas de débito?

Até o ano passado, quando estourou o escândalo, o sistema da Receita Federal informava que o processo que apurou a sonegação por parte da Globo se encontrava em trânsito.

Hoje se sabe que, em 2 de janeiro de 2007, na véspera do processo seguir ao Ministério Público Federal e para a execução do débito no âmbito da própria Receita, o processo foi subtraído da delegacia do fisco em Ipanema pela agente administrativa que, à época, se chamava Cristina Maris Meinick Ribeiro – mais tarde, depois que foi denunciada, ela mudaria o nome para Cristina Maris Ribeiro da Silva.

Em um dos itens da resposta do Ministério das Comunicações, o analista técnico Anderson faz um registro que merece reflexão:

— Destacamos que este Ministério não pode negar fé às certidões emitidas pelos órgãos públicos na análise da instrução dos seus processos administrativos, o que, no caso em tela, corresponde à competência da Secretaria da Receita Federal em conjunto com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Ou seja, se as certidões que a Globo apresentou não correspondem aos fatos, o problema não é do órgão responsável pela renovação da concessão.

Por fim, Anderson cita o artigo 223 da Constituição Federal, que, em síntese, pode ser traduzido assim: é praticamente impossível não renovar uma concessão de TV no Brasil.

Isto porque não depende de decisão do Poder Executivo. É necessário que dois quintos do Congresso Nacional (Senado e Câmara reunidos) aprovem a não renovação. Em votação nominal. Ou seja, o voto do parlamentar é identificado – há no Congresso brasileiro deputados e senadores em número suficiente para comprar essa briga com a maior emissora do País?

“A Constituição Federal trouxe muitos avanços, mas, neste ponto, ela ficou a desejar”, diz Pedro Rafael Vilela, executivo do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, uma entidade que reúne alguns dos maiores especialistas brasileiros no tema.

JN é Pânico Puro!

Os Marinho podem se dar mal pela primeira vez!

Leandro Fortes:

A hora da Globo

Não vejo Jornal Nacional, por recomendação médica, mas fui ver o VT da edição recente, sobre o escândalo da Fifa.

É pânico em estado puro.

Sem nenhum outro argumento, o JN anunciou, em quatro oportunidades, num jogral constrangido de seus apresentadores, que uma "investigação interna" nada encontrou que corroborasse a denúncia de pagamento de propina feita, nos Estados Unidos, pelo empresário argentino Alejandro Burzaco.

"Investigação interna" é, obviamente, uma fantasia ridícula pensada às pressas para ser colocada no Jornal Nacional, uma vez que a outra alternativa - não falar sobre o assunto - deixou de ser viável, por causa das redes sociais.

Qualquer mentecapto, mesmo entre os que veem o JN todo dia, percebeu que nunca houve investigação interna nenhuma, mas a construção de uma desculpa esfarrapada para segurar as pontas enquanto a turma decide como sair dessa enrascada com a cabeça em cima do pescoço.

Explica-se: o crime de perjúrio, nos Estados Unidos, é gravíssimo, e o processo de delação, ao contrário do que ocorre na República de Curitiba, existe para gerar consequências práticas dentro do processo legal. Em suma, o Judiciário americano não usa a delação para fustigar inimigos, mas para produzir provas.

Burzaco não iria acusar a Globo e outra meia dúzia de ultra poderosos grupos internacionais de mídia se não tivesse como provar o que está dizendo.

E como a Globo não tem como amansar juízes dos EUA com diáfanas premiações do tipo faz-a-diferença, é certo que, pela primeira vez na vida, os Marinho correm um risco real de se dar mal.

A conferir.

A gROUBO Pagou Propina? Cadê o iMoro?

Por Altamiro Borges

As denúncias são antigas. Há muito tempo se especula sobre a relação promiscua entre TV Globo e as corruptas entidades que comandam o futebol, garantindo-lhe o direito de exclusividade na transmissão dos jogos. A mídia nativa – excluindo a própria emissora por razões óbvias – nunca acionou seus “repórteres investigativos” para apurar as denúncias. Já o Ministério Público e a Polícia Federal jamais investigaram o império global. O “justiceiro” Sergio Moro, sempre tão bajulado pela mídia, nunca se acanhou em participar de convescotes na companhia dos filhos de Roberto Marinho. Pelo contrário. Na sua doentia vaidade, ele adora aparecer nas telinhas. Será que agora, com as denúncias expostas no exterior, alguém irá investigar a poderosa Rede Globo?

Como registrou o jornalista Nelson de Sá, na notinha intitulada “Ao vivo, do Brooklin, Twitter transite depoimento contra a Globo”, as denúncias sobre as supostas propinas da emissora só ganharam dimensão graças à internet. “No exterior, a notícia logo ecoou por agências como Bloomberg e jornais como Wall Street Journal e Guardian. Mas foi o passo a passo, pelo perfil de Twitter do jornalista americano Ken Bensinger, que concentrou atenção e emoção. Ele relatou por horas o depoimento de Alejandro Burzaco, ex-executivo de marketing esportivo, ‘testemunha do governo americano’ contra José Maria Marin, ex-CBF, no Brooklyn, em Nova York. Começou em maiúsculas: ‘NOTÍCIA GRANDE: Burzaco disse que Fox Sports, Televisa, Globo e Traffic todas pagaram propina por direitos sobre futebol’”.

O jornalista estadunidense ainda dedicou uma mensagem exclusiva aos internautas brasileiros. “Fãs de futebol do Brasil, não fiquem tristes. Tenho novas informações para vocês”. Segundo descreveu, o delator Alejandro Burzaco afirmou que Ricardo Teixeira recebeu “US$ 600 mil a cada ano” e que Marcelo Campos Pinto, ex-diretor da Globo, participou de um encontro num restaurante de Buenos Aires “para tratar dos mesmos valores para Marin e Marco Polo Del Nero”. Diante do forte impacto das denúncias, que viralizaram nas redes sociais, a própria TV Globo não teve como se fingir de morta – enterrando de imediato as graves acusações. No Jornal Nacional, a famiglia Marinho publicou um comentário lacônico e, ao mesmo tempo, hilário:

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Sobre depoimento ocorrido em Nova York, no julgamento do caso Fifa pela Justiça dos Estados Unidos, o Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que após mais de dois anos de investigação não é parte nos processos que correm na Justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. Por outro lado, o Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Não seria diferente, mas é fundamental garantir aos leitores, ouvintes e espectadores do Grupo Globo que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige.

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“Mais de dois anos de investigação” interna que ninguém conhece nem ouviu falar. “Plenamente à disposição das autoridades americanas”. Nem uma vírgula sobre a mequetrefe autoridade judicial brasileira. Será que agora, abalados em seus brios, o Ministério Público e a Polícia Federal vão tomar alguma atitude? Será que o restante da mídia nativa vai dar destaque para a gravíssima acusação do pagamento de propinas milionárias pelo direito de exclusividade na transmissão das partidas? Ou será que a Globo – que apoiou o golpe militar de 1964 e foi a principal protagonista do golpe parlamentar-judicial-midiático de 2016, manda de fato no Brasil? A conferir os próximos capítulos desta novela que pode abalar o império global.

70% Não Ligam Para as Opiniões de FgagáC

70% não ligam para as opiniões de FHC

Por Altamiro Borges

A mídia elitista, com seu complexo de vira-lata, continua a dar grande destaque para o “príncipe da Sorbonne”, o ex-presidente FHC. Ele é colunista de vários jornais e tudo o que ele fala vira manchete e destaque nas emissoras de rádio e tevê. Uma pesquisa recente, porém, evidencia que o “príncipe da privataria” – como ele foi batizado pelo renomado jornalista Palmério Dória – não está com esta bola toda. A curiosa informação foi postada numa notinha bem minúscula na revista “Veja”, que sempre paparicou o grão-tucano. Vale conferir:

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O que o brasileiro pensa das declarações políticas de FHC
Por Ernesto Neves - 16/11/2017

Em levantamento inédito, o Instituto Paraná Pesquisas quis saber se as declarações de Fernando Henrique Cardoso são importantes para analisar o momento político anual. Para 70% dos ouvidos, a resposta foi não. Só 24,6% disseram que ouvem o ex-presidente, enquanto 5,6% não sabem ou não quis opinar. O instituto quis saber também se o apoio de FHC a um candidato a Presidente aumentaria, diminuiria ou não alteraria a vontade de votar nesse candidato. Nesse caso, 49,4% disseram que não mudariam seu voto por causa de Fernando Henrique. Já 40% disseram que o apoio de FHC diminuiria a vontade de votar no escolhido. E só 7,4% disseram que teriam mais vontade de votar em alguém apoiado pelo ex-presidente.

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Não é somente o PSDB, com suas sangrentas bicadas, que está em baixa, com índices medíocres de popularidade em todas as pesquisas. O vaidoso FHC, metido a mentor dos tucanos, não cheira nem fede para os brasileiros. Como já confidenciou o eterno candidato José Serra, “ele parece que está gagá”. Sobre suas “consistentes” opiniões, vale reproduzir um comentário postado em junho passado pelo sarcástico site “Sensacionalista”, que reflete bem o atual estágio de um dos principais líderes do golpe dos corruptos que alçou ao poder a quadrilha de Michel Temer:

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FHC bate recorde de mudança de opinião e ultrapassa Marina Silva

O tucano fingiu que ia e não ia e acabou fondo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mudou de opinião mais uma vez e agora é a favor de antecipação das eleições. Ou não. Sabe-se lá. Fernando Henrique já pedira que as pessoas esquecessem o que ele escreveu. Agora, o tucano pede para que esqueçam também o que ele disse. Ou não. Sabe-se lá.

No início da crise do governo Temer, FHC dissera que não era contra e nem a favor e muito menos pró ou contra. Mas pode ser que ele mude até o fim desse texto. O PSDB decidiu continuar no governo Temer mas os deputados mais novos do partido, chamados de cabeças pretas, defendem o rompimento. Com as novas declarações, Fernando Henrique inaugura um novo estilo: a cabeça alvinegra. Ou não. Sabe-se lá.